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The Kills esta semana em Portugal: “Se não tocarmos todos os dias, não temos dinheiro para fazer nada”

A banda de Alison Mosshart e Jamie Hince atua quinta no Coliseu de Lisboa e sexta no Hard Club, no Porto. Em entrevista à BLITZ, Alison Mosshart fala da vida na estrada, o novo álbum, o amigo Jack White e o segredo da longevidade do duo

Ao longo da última década e meia, os Kills, dupla composta pela norte-americana Alison Mosshart e o inglês Jamie Hince, têm vindo a afirmar-se como uma das propostas mais constantes do rock alternativo. Após cinco anos arredados do estúdio, regressaram este ano com Ash & Ice, um álbum que aponta novos caminhos e assenta como uma luva a músicos com personalidades opostas mas complementares. Ao telefone da Holanda, a vocalista falou-nos da revolução interna que deu origem a um disco «realmente diferente», da versão que assinaram para um tema de Rihanna e da forma «incrivelmente estranha» como explicou ao colega que tinha uma nova banda com Jack White, aquando do nascimento dos Dead Weather. «Estou perto de um parque de diversões, portanto se ouvir gritos, já sabe. São pessoas na montanha russa». Agradecemos o aviso.

Ash & Ice parece ser o álbum mais expansivo que os Kills gravaram até hoje. Diria que, desta vez, arriscaram mais? Acredito que este álbum é realmente diferente. Inclui muitos tipos de canções, empurrámos tudo para um sítio diferente e prestámos mais atenção, por exemplo, às frequências, coisa que nunca tínhamos feito. Há mais coisas a acontecer, as canções têm sons mais ricos. Colocámo-nos menos limitações. Se uma canção pedisse uma linha de baixo, nós púnhamos uma linha de baixo. Se precisasse de um baterista a sério, convidávamos um baterista para tocar. Foi muito excitante gravar este álbum, porque nos discos anteriores havia quase sempre uma ideia que, de certa forma, era limitadora. Era o momento certo para fazer o oposto disso. Ainda pode parecer um disco extremamente minimalista, mas para nós não é.

O Jamie explicou que teve de alterar a forma como compõe depois de problemas com um tendão. Levou algum tempo a adaptar-se a essas mudanças ou abraçou-as desde o início? Não sei se temos verdadeira noção do que estamos a fazer durante o processo. Em retrospetiva, foi interessante porque ele esteve impossibilitado de tocar guitarra durante tanto tempo que começou por atacar as canções de outra forma. Antes de escrevermos as letras, aprendeu a trabalhar com o Pro Tools e outros softwares e começou a trabalhar com percussão. Para mim, isso é uma mudança drástica. Sem uma linha de guitarra ou letra, não faço a mínima ideia do que está a acontecer. É nesse momento que eu entro em ação. Portanto, ele fez todas essas coisas no computador, que me deixaram perdida, e durante o tempo em que esteve no seu mundo a minha atenção não estava lá, de todo. Efetivamente, isso levou a uma grande mudança de sonoridade. Ele conquistou, aprendeu e descodificou tanta coisa antes de irmos para um estúdio. Depois, quando conseguiu voltar a tocar e juntou linhas de guitarra àquilo que tinha feito, consegui finalmente perceber a visão dele.

O álbum parece jogar com a ideia de opostos. Cinza e gelo. É uma representação daquilo que a Alison e o Jamie são?
Não sei se somos opostos, mas o Jamie é bom em coisas nas quais eu sou péssima e eu sou boa nas coisas em que ele não é muito bom. Complementamo-nos. Isso é uma coisa boa seja em que relação for, faças o que fizeres. Ao trabalhares com outra pessoa, é bom que ela compense as tuas falhas e vice-versa. Ash & Ice era o nome de uma canção que acabámos por não usar, mas o título ficou ali a pairar no estúdio o tempo todo. Soava tão bem. Parecia uma descrição perfeita para muitas coisas. Há muitos tipos de canções diferentes no álbum, que quase podem ser vistas como opostas. O que o título significa parece vir por arrasto. Se calhar daqui a dez anos vou ter uma resposta muito diferente para essa questão, olhando para este período da minha vida e percebendo que estava a seguir aquela direção. Quando estás a viver as coisas, não as vês com tanta clareza. Pareceu-nos um nome perfeito, por razões inexplicáveis.

Sendo um homem e uma mulher numa banda, de que forma o género desempenha um papel na vossa música? Ao vivo, individualmente, jogam muito com os vossos lados feminino e masculino...
Sempre fizemos isso. E acho que vem do facto de escrevemos canções um para o outro. Acabamos por ver as coisas pelos olhos da outra pessoa, o que faz com que andemos para trás e para a frente, imaginando o que o outro está a sentir. Não passo muito tempo a pensar sobre o assunto, mas sei que é uma realidade. Sermos um homem e uma mulher numa banda é interessante porque lidamos com essas duas características. Apesar de sentir que está tudo muito diluído. Não subo ao palco a sentir-me masculina e nem penso que o Jamie vá para ali a sentir-se feminino, é muito mais poderoso do que isso porque não é nem uma coisa nem outra. É tudo muito aberto e penso que essa é a única forma de lidar com uma audiência composta por homens e mulheres. Queremos ter toda a gente ali e é aí que está o nosso poder.

Já fazem música juntos há mais de 15 anos. Ainda conseguem surpreender-se mutuamente, em termos criativos?
Sim! Acontece constantemente [risos].

Para ser sincera, acho que é por isso que ainda continuamos a fazê-lo, porque ainda conseguimos surpreender-nos um ao outro. Ainda temos tanto caminho a percorrer. Há tanta coisa para aprender e tanta para melhorar. Vejo isso noutras bandas. Ainda me surpreendo com aquilo que as outras pessoas fazem. Adoro ir a um concerto e ficar perplexa com coisas nas quais nunca tinha pensado, que não sinto que consiga fazer. Faz-nos ter vontade de continuar e andar para a frente.

Quando começou a fazer música com os Dead Weather, como abordou o assunto ao Jamie? «Tenho outro companheiro na minha vida. Chama-se Jack White e vamos fazer música juntos»? Ele ficou com ciúmes?
Não ficou com ciúmes, mas expliquei as coisas de forma incrivelmente estranha, porque não deixou de ser uma surpresa para mim, também. Os Dead Weather surgiram de forma inesperada. Basicamente, o Jack tinha acabado de montar um estúdio e ainda não tinha gravado nele. Nós tínhamos andado em digressão com os Raconteurs e eu fui à boleia no autocarro deles para Nashville. Nessa viagem, o Jack sugeriu gravarmos uma versão no estúdio novo para ver como soaria. Íamos eu, o Dean o LJ [Jack Lawrence] e o Jack no autocarro e, sem dormir, fomos diretos para o estúdio. Eu e o Jack estávamos muito doentes. Eu quase não tinha voz. Gravámos uma canção e fizemo-lo tão rápido que continuámos ali a experimentar outras coisas. Nessa tarde, escrevemos três canções. Com letra e tudo. Gravámo-las e ficaram prontas. Pensámos «merda. e agora?». Uns meses depois, regressei lá e gravámos as restantes canções do primeiro álbum em cinco dias ou algo do género. A banda começou por acidente. Não tínhamos intenção de criá-la. Só íamos fazer umas experiências em estúdio, mas houve ali um clique. Foi fantástico e ficámos muito excitados com o resultado. Decidimos editar o álbum porque sentimos que tínhamos a responsabilidade de o fazer, já que considerávamos que tinha ficado muito bom. Depois, fomos para a estrada e durante essa digressão escrevemos outro álbum. Foi um efeito de bola de neve. Não me lembro da forma como expliquei tudo isto ao Jamie, acho que lhe disse qualquer coisa como «não sei o que está a acontecer». Mas também o convidei para ir ao nosso concerto.

Os Kills fizeram recentemente uma versão de «Desperado», de Rihanna. É fã?
Acho o último álbum fantástico e ela está a fazer coisas muito fixes. Mas atuou num festival onde nós também tocámos ontem à noite [Pukkelpop, na Bélgica] e deixou 65 mil pessoas à espera durante 45 minutos, sem consideração pelas bandas que tocaram depois dela, que tiveram muito menos gente nos concertos. Não foi bonito. Gosto muito dela, acho que tem um talento imenso, mesmo. Mas nos dias que correm, com este clima no mundo da música, é importante dar um bom espetáculo, cantar a sério. É importante aparecer e não desiludir as pessoas, porque elas pagaram bom dinheiro para nos ver. O público passou o concerto quase todo a assobiar. Achei a atitude dela bastante desrespeitosa, para ser sincera. Toda a gente quer gostar de ti, dá-lhes uma oportunidade para isso acontecer. As pessoas estavam ali porque acham que ela é o máximo e o que ela fez foi uma espécie de «vão-se foder». Não faz com que goste menos dela, mas pensaria duas vezes antes de ir vê-la ao vivo.

Dar concertos é um vício para os Kills? A digressão que estão a fazer agora (e que passa pelo Coliseu de Lisboa a 3 de novembro) não tem praticamente dias de intervalo...
Não conseguiria viver sem dar concertos, mas o nosso ciclo de digressões tem a ver com outra coisa. A questão é que temos de tocar todos os dias, porque se não tocarmos não temos dinheiro para fazer nada. As coisas hoje são uma verdadeira loucura, para ser sincera. Temos de tocar e não tirar férias para poder gravar outro álbum, para não perder dinheiro. É muito difícil, porque ninguém compra discos e fazer uma digressão é bastante dispendioso. Vamos continuar a ter este cenário até que alguém dê um murro na mesa. Há algo neste negócio que precisa de mudar porque as coisas estão loucas neste momento.

Originalmente publicado na BLITZ de outubro de 2016