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Mark Sandman, dos Morphine, no Super Bock Super Rock, em 1995

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Onde o Diabo perdeu as botas: os Morphine e os amigos em Portugal

Afável e de trato fácil, Mark Sandman - o malogrado líder dos Morphine, falecido em 1999 - fez amigos em Portugal, entre os quais o radialista Nuno Calado, que privou com o músico pouco antes da sua morte. Recordamos a relação da banda norte-americana com Portugal, poucos dias depois de “Journey of Dreams”, o documentário sobre a banda, ter sido editado

Mark Sandman, viajante inveterado, gostava de ir criando amizades em cada um dos países que visitava com maior frequência e Portugal não foi exceção. Nuno Calado, radialista na Antena 3, foi um desses casos de empatia. «Da penúltima vez que esteve por cá, a banda foi embora, ele ficou mais uns dias e pediu-me que o levasse pela costa alentejana fora», recorda o homem da rádio. «Durante a viagem falámos de muita coisa e, na altura, ele estava numa encruzilhada em relação à banda». Sobre a viagem, Calado revela ainda um episódio curioso de uma canção que Mark terá gravado, mas que ainda não terá saído dos arquivos de inéditos, chamada «Devil's Boots». O título é uma adaptação de uma expressão que Nuno Calado usou em conversa com Mark para descrever um lugar remoto: «onde o diabo perdeu as botas».

Calado estaria com a banda na véspera do embarque para o fatídico concerto de Itália e, quando questionado sobre os «hábitos de consumo» de Mark, revela que «ele sempre fumou várias coisas», mas que na viagem pelo Alentejo lhe tinha confidenciado que tinha deixado de consumir drogas. «Queria ter a cabeça limpa para conseguir fazer uma mudança na música dos Morphine». Ainda assim, e de acordo com Nuno Calado, tudo indica que Mark Sandman tenha consumido cocaína na noite do concerto na Praça Sony [em 1999, poucos dias antes de morrer], no Parque das Nações: «Segundo sei, ele sentiu-se mal nessa noite».

Quando Cure For Pain foi editado, João Rolo trabalhava na MVM (então representante portuguesa do catálogo da Rykodisc) e recorda o facto de o disco ter tido um assinalável comportamento comercial em Portugal, ao contrário do que se passou, por exemplo, em Inglaterra. Esse êxito esteve na base da estreia em Portugal dos Morphine, no Super Bock Super Rock de 1995, realizado em Alcântara. «Foi quando conheci o Mark, o Dana e o Billy», conta Rolo. «Fui recebê-los ao aeroporto, exaustos, vinham da Austrália e davam aqui o último concerto da digressão. Chegaram ao Hotel Penta, já passava bastante da hora de jantar e o hotel tinha despachado o pessoal da cozinha. Resolveu-se o problema com uns frangos assados da Feira Popular, com picante, batatas fritas caseiras, pão saloio e umas "jolas". Os gajos adoraram, ficamos à conversa até às tantas. E ficámos amigos».

«O Mark», prossegue João Rolo, «a maior parte das vezes tinha um ar calmo, mas percebia-se que também podia rebentar a qualquer momento. Vi-o fulo algumas vezes. Mas a maior parte do tempo era simpático e afável. Era culto e viajado. Falava bem português, disse-me que tinha tido uma namorada brasileira, passara algum tempo no Brasil e, enquanto estudante, tinha passado três meses pela Faculdade de Letras de Lisboa. Para além disso, diz que se dava muito bem com a comunidade portuguesa em Boston».

Além do radialista e do homem da indústria, havia ainda o fã, figura que Mark Sandman nunca enjeitou. Cristiano Pereira, hoje jornalista no Jornal de Notícias, encaixa-se nesse perfil: «Não exagero nem romantizo quando digo que a primeira vez em que os vi [no Super Rock em Alcântara, julho de 95] se afirmou uma experiência marcante. Foi como se subitamente aquela música iluminasse partes de mim que até então permaneciam obscuras, isto é: depois desse concerto deixei de ser um puto meio deprimido e tornei-me num gajo mais otimista».

Recorda Pereira: «Quando cá regressaram pela segunda vez em maio de 97, para um concerto no Coliseu de Lisboa eu já exercia jornalismo musical e vim do Porto para entrevistar a banda num hotel perto da Praça de Espanha. A bordoada foi de tal forma que no dia seguinte a esse concerto de Lisboa, mandei-me para a estrada e segui-os na digressão e em menos de uma semana vi-os ainda em Madrid, Barcelona e Lyon». Ao todo, o jornalista viu os Morphine nove vezes em palco, facto que lhe garantiu uma proximidade com a banda: «Lembro-me de termos apanhado uma borracheira na ribeira do Porto, depois do concerto no Hard Club, e de ter passado a noite a falar sobre nuvens com o Mark Sandman. A 1 de julho de 99, estive no último concerto que cá deram aliás, no último concerto inteiro que deram. Dois dias depois, o Mark morreu».

Originalmente publicado na BLITZ de abril de 2012