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Pink Floyd: quando o diamante louco voltou a brilhar

Em Wish You Were Here, os Pink Floyd criaram uma ode à noção de ausência, marcados pela visita inesperada de Syd Barrett. A um mês da edição de uma mega-caixa da banda, recordamos a construção de um clássico

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Há sucessões que não são fáceis. E para os Pink Floyd o que fazer depois de The Dark Side of the Moon era dúvida que não tinha resposta nem rápida nem simples. Um clássico instantâneo lançado em junho de 1973, menos de um ano após Obscured By Clouds, o álbum deu-lhes o seu primeiro número um nos Estados Unidos, foi um caso de sucesso enorme no mundo ocidental e, com o tempo, transformar-se-ia num dos ícones maiores da história da cultura popular. Após uma longa digressão que fora iniciada ainda alguns meses antes da edição do próprio álbum, a busca de um caminho começou com uma tentativa de regresso a um conceito mais experimental. E passou mais adiante por um tempo de afastamento antes de dado um novo passo.

Já depois de terminada a digressão, voltando ainda em 1973 aos palcos apenas para um concerto de recolha de fundos para Robert Wyatt, que havia sofrido uma queda aparatosa, o grupo começou por se juntar em Abbey Road para tentar dar continuidade a uma ideia para um álbum que supostamente seria gravado sem o recurso a instrumentos musicais, usando em seu lugar apenas utensílios domésticos. Com o título de trabalho Household Project, o disco acabou por não se materializar em pleno, das sessões tendo emergido mais tarde como parte do alinhamento de caixas da «Immersive Edition» temas como «Wine Glasses» ou «The Hard Way». Nick Mason, no livro Inside Out: A Personal History of Pink Floyd, recordaria mesmo que nestas sessões não conseguiram nunca senão criar alguns padrões rítmicos a partir dessa ideia.

DÚVIDAS E LUXOS

No início de 1974 estava, contudo, cada um para seu lado. Nick Mason produzia um álbum para os Principal Edwards Magic Theatre e Rock Bottom, de Robert Wyatt. E David Gilmour foi para estúdio com os Unicorn (através de quem conheceria Kate Bush) e tocou com os Sutherland Brothers and Quiver. Houve quem mudasse de casa e comprasse carros, aproveitando o que o sucesso lhes permitira conquistar. Mas pouco mais parecia estar a acontecer. Como recorda Roger Waters em Comfortably Numb, de Mark Blake, o grupo tinha alcançado musical e pessoalmente os seus sonhos. E ao NME Gilmour confessaria que The Dark Side of the Moon os deixara numa armadilha...

Quando se reencontraram para ensaios num estúdio, sem janelas, em Londres, três novas canções emergiram. Refletindo o desencanto de Waters pelo funcionamento da indústria musical, «Raving and Droling» e «Gotta Be Crazy» seriam, apesar de estreadas nessas formas em concertos de 1974, transformadas mais tarde em, respetivamente, «Sheep» e «Dogs», canções que surgiriam bem diferentes em 1977 no álbum Animals. A terceira das novas canções era «Shine On», em parte inspirada pela figura de Syd Barrett, um dos fundadores e antigo vocalista do grupo, afastado desde 1968 (ver caixa).

Estas canções tiveram estreia em palco a 18 de junho de 1974 em Toulouse, abrindo uma curta digressão de sete datas em França e 20 no Reino Unido, numa proposta de grande aparato sonoro e visual em cuja cenografia colaborou Gerald Scarfe (que teria um papel fulcral mais tarde, em The Wall).

O REENCONTRO

Em janeiro de 1975, depois de assimilados ecos de uma digressão que conheceu episódios difíceis e até mesmo algumas críticas menos favoráveis, o grupo junta-se em Abbey Road para trabalhar finalmente no sucessor de The Dark Side of the Moon. Os relatos que os músicos fariam mais tarde sobre estes dias revelariam um ambiente fraturado e uma falta de entendimento sobre o caminho a tomar, sobretudo depois de Roger Waters ter dado a entender que procurava fazer um novo disco dominado por um conceito, tendo então vontade de explorar a ideia de alguém que, fisicamente presente, na verdade é um ser ausente. Podia estar a falar de Syd Barrett, a quem se referira na estrada, em algumas das vezes em que haviam tocado «Shine On». Ou dos próprios Pink Floyd nesse mesmo momento presente. Anos depois contariam que houve mesmo quem tivesse pensado em deixar então o grupo.

Os trabalhos, mesmo assim, continuaram. «Shine On» tinha crescido e, já com o título alargado de «Shine On You Crazy Diamond», era uma peça longa, com várias partes, umas cantadas e outras instrumentais. Com cerca de 20 minutos, poderia assim ocupar toda uma das faces do álbum. Com o engenheiro de som John Leckie (que o mundo celebraria em finais dos anos 80 pela sua obra-prima como produtor do álbum de estreia dos Stone Roses) a gravar as primeiras sessões, mais tarde contando com o trabalho de Brian Humphries que estava habitualmente na estrada com o grupo, os Pink Floyd davam novos passos depois de momentos partilhados com Alan Parsons, que com eles fizera Atom Heart Mother e Dark Side of the Moon. O trabalho havia-lhe sido pedido mas depois recusado quando Parsons pedira como contrapartida uma percentagem de royalties sobre as vendas do novo álbum.

Com o evoluir das sessões a ideia de juntar os três temas já compostos no novo disco acabou posta de parte. «Shine On You Crazy Diamond» estava agora dividida em duas partes, que Waters queria colocar como abertura e encerramento do álbum. E para completar o alinhamento resolveu compor novos temas tematicamente mais em sintonia com essa peça maior. Em novas sessões, mais perto do verão, surgem assim três novas canções. São elas «Welcome to the Machine», «Have a Cigar» (estreada na estrada na digressão americana iniciada em abril) e «Wish You Were Here», esta composta em parceria com David Gilmour, contando com uma colaboração, não creditada, do violinista de jazz Stephane Grappelli, que na altura estava a gravar num dos outros estúdios em Abbey Road.

«Have a Cigar» contaria na verão final em estúdio com a voz do cantor folk Roy Harper, que, tal como Grappelli, estava também num outro estúdio em Abbey Road a gravar por aqueles dias. A canção, com a primeira parte de «Shine On You Crazy Diamond» no lado B, seria editada num formato de single em novembro em alguns territórios, mas sem impacte maior nas tabelas de vendas de singles. De resto, ao longo de toda a sua discografia, só com «Arnold Layne» (1967) e «Another Brick in the Wall» (1979) podemos falar de singles de grande êxito por estas bandas.

Apesar de toda a instabilidade que caracterizou o tempo imediato que precedeu a criação do álbum e até mesmo o ambiente que passou pelas sessões de gravação, o resultado final acabaria por dar aos Pink Floyd outro dos seus álbuns artisticamente mais significativos e um novo episódio de sucesso comercial. Cenicamente é um disco de meticuloso labor, revelando algum do melhor trabalho de teclas de toda a obra do grupo.

Ao criar a capa para Wish You Were Here, Storm Thorgerson, habitual colaborador dos Pink Floyd, procurou imaginar um dispositivo gráfico que sugerisse a noção de ausência que definia a alma do disco. E como se representa a ausência? Lembrou-se do facto de os discos serem então vendidos dentro de um invólucro protetor feito de celofane transparente e sugeriu então que se criasse uma versão opaca desta cobertura, mantendo assim o disco longe do olhar. Em Mind Over Matter, livro sobre o seu trabalho gráfico para os Pink Floyd o designer relata que sabe de histórias de quem, com uma lâmina, tenha aberto uma fissura nessa cobertura, fazendo assim sair apenas o disco, não vendo nunca a figura do homem que arde, que surge depois na capa. «É possível ser mais ausente?», questionou então. O disco guarda em si duas histórias maiores de toda a mitologia «floydiana».

Uma delas surge na letra de «Have a Cigar» quando, ao citar «which one's Pink?» (ou seja, «qual de vós é o Pink?»), a letra escrita por Roger Waters mais não faz do que lembrar palavras de um executivo discográfico pouco informado que a eles assim se dirigiu uma vez. Esta situação seria usada como um dos argumentos de Waters em seu favor depois do seu afastamento, como lembra Andy Mabbett em The Complete Guide to the Music of Pink Floyd.

A outra história é mais arrepiante. E ganhou forma num dia em que, no estúdio, apareceu uma figura careca e de estômago pronunciado que, à primeira, ninguém reconheceu. Era Syd Barrett.

Syd Barrett

Syd Barrett

A VISITA DE SYD

A 5 de junho de 1975, já na etapa de misturas do álbum, e num dia em que trabalhavam em «Shine On You Crazy Diamond», o grupo estava em estúdio, tendo todos os elementos notado que, na régie, tinha entrado um homem gordo e sem cabelo, segurando na mão um saco de plástico. Certamente alguém que estaria com os engenheiros de som, pensaram.

Um após outro vão-se apercebendo de quem se trata. Waters, Wright e Mason garantem que o viram num momento em que a fita tocava a canção que a sua memória e figura em parte inspiraram. Gilmour, por sua vez, como lembra Mark Blake, tem uma memória menos clara desse momento e acredita que Syd ali esteve em duas ou três tardes e que, depois, nunca mais apareceu. E, de resto, essa terá sido a última ocasião em que o viram.

Às tantas terá perguntado onde é que podia ligar a sua guitarra, não tendo contudo nenhuma nas mãos. Richard Wright foi quem lhe respondeu, explicando que tinham já feito as partes de guitarra. O teclista não o tinha reconhecido de todo até que, pouco antes desta troca de palavras, Waters, em lágrimas, lhe chamara a atenção para o inesperado visitante, que tinha, numa mão, uma escova de dentes.

As histórias relatadas por cada um dos protagonistas são algo díspares entre si nos pequenos detalhes, mas firmes na essência do que então aconteceu. Há quem acredite que aquela figura ali estivesse a aparecer há já três ou quatro dias. E também quem conte que esteve toda a tarde, ou apenas durante uma hora... A foto conhecida daquele instante não deixa contudo dúvidas sobre a aparência do velho companheiro que, nos últimos meses, ganhara muito peso. De t-shirt branca, apertada, em nada se assemelhava ao ícone criado nos dias de glória da cultura psicadélica londrina de 1966 e 67. Uma década depois daquele 1965 em que o grupo se apresentara pela primeira vez como Pink Floyd, sete anos após a última vez que tinha partilhado um espaço com os velhos colegas, estava ali, presente. Mas pelo olhar e atitudes, Syd era uma figura ausente. Como que a materializar, afinal, o que era toda a essência do disco.

Originalmente publicado na BLITZ de setembro de 2015