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Biffy Clyro são os melhores amigos para sempre: entrevista com Simon Neil

Foram sempre os mesmos três: Simon Neil (voz e guitarra) e os gémeos James (baixo) e Ben Johnston (bateria) cresceram juntos desde que, há 21 anos, se juntaram na mesma sala de ensaio. Respeitável força do rock contemporâneo, os escoceses - que regressam em janeiro a Portugal - descobrem ao sétimo álbum um lado mais pop. E, garante o porta-voz da banda à BLITZ, querem ser pesados sem “partir” tudo

Lançaram em 2002 o primeiro álbum, Blackened Sky, e desde logo foram associados ao pós-hardcore, ao emo e ao rock mais bojudo. Não era engano: o trio escocês tratou, em três anos consecutivos, de lançar três álbuns (os outros dois intitulados The Vertigo of Bliss, em 2003, e Infinity Land, em 2004) onde a pujança elétrica se mostrava traço identitário. Vieram, depois, discos com outra ambição, uma faceta mais épica a trilogia Puzzle (2007), Only Revolutions (2009) e Opposites (2013) e a «subida» aos maiores palcos e aos lugares cimeiros dos topes europeus. Se alguns viram, nesta fase, uma versão inglesa dos Foo Fighters, os Biffy Clyro foram construindo um percurso sustentado também numa elogiada intensidade de palco (desde a estreia em Paredes de Coura, no ano de 2008, estiveram cinco vezes em Portugal) e hoje são, por direito próprio, uma das últimas «potências» do rock em tempos de reinado pop. Não por acaso, foi a esse território que foram buscar soluções para Ellipsis, lançado em julho e apresentado em primeira mão no NOS Alive'16, pretexto para uma conversa com Simon Neil, vocalista e guitarrista do trio.

Ellipsis evidencia influências do universo pop, uma sonoridade que se diria contemporânea. É uma mudança permanente?
Nada que fazemos é permanente. Este é um disco em que explorámos mais o estúdio e isso fez com que algumas canções soem mais em sintonia com a pop contemporânea mas ninguém nos tira a excitação de ficar à frente de uma muralha de amplificadores. Talvez essa impressão ressalte das 11 canções que o álbum tem, mas algumas que guardámos para editar depois são rock bem pesado. É importante para nós tentar fazer coisas novas, mas longe de mim afirmar que é assim que vamos soar daqui para a frente. Vamos sempre ser uma banda rock e isto é, provavelmente, o mais pop que alguma vez vamos ser. Tudo vai ser sempre baseado em guitarras, por isso é importante que as canções funcionem sempre nesse registo.

Haverá sempre fãs da velha guarda que gritarão: «vendidos!»
Sim, claro. É algo com o qual lentamente me estou a habituar a lidar. Contudo, é muito mais importante para nós sentirmos que evoluímos. Não quero que as pessoas saibam precisamente o que vão ouvir; é muito melhor surpreendê-las, mesmo que para isso tenha que as arreliar um pouco. E depois há os concertos: quem for a um concerto nosso a pensar que as canções novas não são suficientemente pesadas, vai ficar agradavelmente surpreendido.

No início do ano, afirmou ao NME que a ideia subjacente a este álbum era a de «receber o caos de braços abertos». O que quer mesmo dizer com isto?
Este é o primeiro álbum sobre o qual eu não tinha, à partida, uma ideia exata de como deveria soar. Em todos os outros discos tentei materializar tudo o que tinha na minha cabeça. Desta vez, havia quatro canções - talvez cinco - que nunca tínhamos tocado juntos, como banda. Foi um processo de gravação anárquico. A primeira vez que toquei canções como «Wolves of Winter» foi numa guitarra acústica e essa canção, em particular, não é uma canção a que se associe uma guitarra acústica. Começámos a perceber que estávamos a fazer tudo da maneira errada e a melhor forma de lidar com essa descoberta foi aceitar o caos. Decidimos baralhar um bocadinho as coisas. Baterias através de amplificadores de guitarra, guitarras através de sintetizadores, vozes através de pedais de guitarra... Está tudo um bocado escangalhado.

No texto de promoção de Ellipsis afirma que deseja «fazer heavy que não seja metal». Anseia que os Biffy Clyro sejam pesados no sentido lato, não enquanto desdobramento de um género musical?
Sim. Uma canção calma consegue ser extremamente intensa e pesada. Em termos sonoros, nos discos anteriores fiz muitos overdubs. 25 guitarras a fazer um som de guitarra! Neste álbum quis encontrar apenas um som, único, que não seja distorcido ao limite, e depois adicionar sons de teclados, programação, efeitos por baixo... Isto é, fazer um som pesado como uma banda de metal, mas não distorcido como uma banda de metal. Alguns dos discos mais pesados que ouvi nos últimos anos não eram, de todo, metal.

A certa altura, debateu-se com um bloqueio criativo. Talvez fosse de esperar o contrário: uma confiança desmedida por ter vindo de um álbum de sucesso...
Opposites fez com que passasse a compor com um enquadramento diferente, a pensar no palco. A todo o momento, questionava-me se as pessoas iriam ou não cantar as canções. Precisei de me afastar de tudo. Eu e a minha mulher fomos para a Califórnia passar uns meses e trabalhei em estúdios de amigos meus, colaborei com eles, distanciei-me do meu papel de integrante dos Biffy Clyro e deixei de me preocupar em fazer a melhor canção de sempre. Em parte, era isso que me estava a mandar abaixo: nenhuma das canções era fantástica. Foi preciso sair da Escócia para acordar para o facto de que nem toda a música precisa de ser a mais brilhante de todos os tempos. Podes escrever uma canção bonita com um acorde, como também podes fazer outra com 17 minutos e soar terrível.

Biffy Clyro em 2016. Simon Neil em destaque

Biffy Clyro em 2016. Simon Neil em destaque

Escreve, assumidamente, sobre si. Seria menos honesto consigo mesmo se se pusesse na pele de outra pessoa?
Se quero cantar uma canção para o resto da minha existência, é bom que ela seja relevante para a minha vida e para as relações que mantenho. É muito mais difícil cantar e tocar uma canção cem vezes seguidas se ela tiver sido escrita a partir da perspetiva de outra pessoa - perde-se a ligação. Escrever sobre mim próprio é a garantia de que vou tentar fazer melhor no próximo concerto, mas também é uma maneira que encontrei para processar os meus sentimentos, para me ajudar nas relações com as pessoas.

«Wolves of Winter», o primeiro single, é um épico, uma canção sobre conquistas e triunfos. Sete álbuns depois, consideram-se sobreviventes?
Temos mesmo muita sorte! Em que tanta gente nos tenha seguido e tenha percebido a nossa música. Algumas das minhas bandas preferidas fizeram dois discos e depois acabaram. Posso sempre dizer que merecemos estar aqui porque trabalhámos muito, mas também há que reconhecer que tivemos o condão de fazer a coisa errada na altura certa. E funcionou! Tenho um orgulho enorme por ainda sermos os mesmos três amigos que começaram a banda isso é, para mim, o mais importante. A razão pela qual julgo que nos impusemos foi isto nunca se ter tornado um trabalho que se tem de fazer por obrigação.

Em «Rearrange» encontramos uma candura inesperada. Teria feito esta canção nos tempos em que o que mais importava era ser aguerrido e exteriorizar o instinto juvenil?
É uma canção que eu não teria escrito há dez anos, seguramente. Havia partes do meu carácter que estavam por descobrir. Também não se ouve sempre a mesma música; há coisas que deixamos entrar ou reentrar na nossa vida. À medida que ficamos mais velhos, deixamos de pensar qual será a próxima cena cool que devemos ouvir. Há uns anos, ter-me-ia assustado se gravasse uma canção como «Rearrange». Porém, esta é a mesma banda que fez «That Golden Rule» ou «There's No Such Thing as a Jaggy Snake». São facetas diferentes da mesma personalidade.

A sua música seria menos relevante e mais incaracterística se tivesse tido uma vida sem tormentos?
Sem dúvida! Se a minha vida tivesse corrido sobre rodas, teria dificuldades em fazer o que faço. Não desejo nada de mal, claro, mas a vida tem a sua maneira de nos desafiar. E é isso que faz com que me sinta criativo e inspirado nos tempos mais negros. Adoraria passar agora os melhores anos da minha vida para perceber se conseguiria escrever uma canção... Mas acho que nada ia acontecer (risos). A sombra é o que mais me atrai e penso que será assim com a maior parte dos meus pares.

Tentam lembrar-se, frequentemente, de que os Biffy Clyro ainda são a vossa banda dos tempos de adolescência? É importante saber de onde vêm?
Sim, sim, sim. É um mantra.

Estar numa banda é viver numa bolha...
É mesmo! Às vezes desapareces de casa durante seis meses. Sempre que me sinto pressionado ou que receio que a banda se torne uma máquina, voltamos ao que éramos na adolescência: três miúdos a ensaiar no meio do nada, na Escócia. Quando fizemos este álbum, metemo-nos os três na mesma casa. É importante que quando estamos juntos continuemos a sentir-nos três amigos da escola. É o que mantém a banda a andar, é o que mantém a fome e a vontade de gravar mais seis ou sete álbuns. É raro uma banda fazer sete álbuns precisamente com a mesma formação e ainda querer continuar por aí fora. Não sou uma pessoa religiosa, mas sinto-me abençoado por ainda poder fazer música com os meus dois melhores amigos. Não deixarei nunca que nos tirem isso. Espero que as pessoas continuem a juntar-se a nós porque isto vai ser para a vida toda.

Originalmente publicado na BLITZ de setembro de 2016