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Os primeiros 2 minutos e 10 segundos de “Dont Look Back”, sobre Bob Dylan, são história audiovisual do século XX

O elogio do essencial documentário de D. A. Pennebaker sobre a última tournée acústica de Dylan, um filme de 1967 relançado comercialmente em 2007 e que mereceu destaque nas páginas do Expresso

Os primeiros 2'10'' de Dont Look Back são tópico obrigatório em qualquer revisão da história audiovisual do século XX: sob o fundo musical de «Subterranean Homesick Blues» e no cenário de uma rua secundária com edifícios em obras, Bob Dylan, de pé, exibe (e, um a um, vai lançando para o chão) cartões com palavras e farrapos de frases escritas à mão, retiradas do texto da canção. No final, quando eles se afastam, apercebemo-nos que, em segundo plano, os dois anónimos figurantes que conversavam eram Bob Neuwirth e Allen Ginsberg (numa versão alternativa que a reedição em DVD também inclui, apenas o cenário - um jardim - é diferente). Foi o tempo suficiente para, com década e meia de avanço, formular os rudimentos da estética do videoclip que, só em 1981, com o advento da MTV, verdadeiramente se constituiria como forma autónoma de micronarrativa audiovisual. E o tempo também para, no corpus do «quotable Dylan», se inscreverem mais duas ou três frases, como «Don't follow leaders, watch the parking meters», ou «You don't need a weatherman to know which way the wind blows». A canção apenas apareceria, em 1965, no álbum «escandaloso» Highway 61 Revisited - aquele em que Dylan, fazendo-se acompanhar de uma banda eléctrica, deixaria em estado de choque a ortodoxia «esquerdista» da folk - mas, embora as imagens do filme de D. A. Pennebaker datem desse mesmo ano (só seria exibido em sala, pela primeira vez, a 17 de Maio de 1967, no Presidio Theater de São Francisco), o que ele regista é a última digressão acústica, a solo, deBob Dylan em Inglaterra. Não se fica por aí, entretanto, a sua marca fundadora: articulando a estética e os procedimentos (ainda que não integralmente assumidos) do «cinéma vérité» com o acompanhamento quase quotidiano dos passos e das actuações de uma das mais importantes figuras da cultura pop da época, foi, de facto, o primeiro exemplo de «documentário pop/rock» ao qual, posteriormente, Pennebaker daria sequência em outros, como Monterey Pop (1968), sobre o lendário festival precursor de Woodstock.

"Don't Look Back", documentário de 1967

"Don't Look Back", documentário de 1967

Relevância histórica à parte, é obrigatório dizer-se que Dont Look Back é uma sucessão de imagens e de momentos imperdíveis: das sessões de sádica humilhação de jornalistas habituados a lidar com «starlets» pop descerebradas e das sequências dos concertos (incluindo o «flashback» de «Only a Pawn in their Game», em 1963, num improvisado palco rural do Mississippi, num Voters' Registration Rally anti-segregacionista) ao jogo de amável achincalhamento de Donovan (o «novo Bob Dylan» de turno, à época), ao impagável encontro com a amabilíssima esposa do «high-sheriff» de Nottingham e seus três filhos-fãs, aos instantes privados (é precioso aquele em que Joan Baez interpreta «Percy's Song» e «Love Is Just a Four-Letter Word» ritmados pelo texto que Dylan, concentradamente, tecla na máquina de escrever), ou às aparições mais ou menos episódicas de Alan Price (acabado de ser posto na rua pelos Animals), Marianne Faithfull, John Mayall e Ginsberg, todo o filme flui de acordo com aquilo que - a meias com Bob Neuwirth, na versão comentada do DVD - D. A. Pennebaker confessa terem sido os seus propósitos: «Era o filme que deveria ser interessante. Cada segmento dos concertos foi filmado com uma única câmara, não quis fazer a captação de imagens com duas ou três câmaras para que, depois, as pudéssemos montar. Em diversas ocasiões, a película acabou-se-me a meio de uma canção, mas isso nunca foi um problema. Não pretendi realizar um 'concert-film': a música era de tal modo absorvente (várias canções escutei-as pela primeira vez no momento em que as estava a filmar), de tal modo nova, que pensar em fazer um filme apenas com as actuações nos concertos excluiria praticamente todas as possibilidades de incluir quaisquer outros elementos... escutar aquelas canções, de princípio a fim, acabaria por retirar toda a energia ao que quer que fosse que se lhes seguisse. Quis que o público pudesse ver para lá da música. Filmávamos durante os vários momentos do dia que iriam conduzir aos concertos e todos esses episódios deveriam ser incluídos. A música estava lá, mas desejava que conhecessem também o responsável por ela. Foi por isso que foi montado como um filme que era e não como um álbum.»

Publicado originalmente no Expresso de 12 de maio de 2007