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“No Direction Home”: Bob Dylan por Martin Scorsese

Em 2005 foi lançado o documentário que Martin Scorsese realizou sobre os primeiros anos da carreira de Bob Dylan. O retrato definitivo?

O título, No Direction Home: Bob Dylan (letras brancas sobre fundo negro, encostadas à esquerda), dura cinco rápidos segundos. Logo a seguir, o rosto de um Bob Dylan de 64 anos olha-nos e conta: «Como se se tratasse de uma odisseia onde, algures, regressaria a casa, tinha ambições de partir e, depois, regressar a um lugar que havia abandonado. Não me conseguia recordar exactamente onde ele se situava, mas ia a caminho dele». Corte para 21 de Maio de 1966, Newcastle, Inglaterra. No palco, com a Band, Dylan fustiga o público hostil com uma interrogação: «How does it feel to be on your own, with no direction home, like a complete unknown, like a rolling stone?» Novo corte. Imagem quase imobilizada, a preto e branco, de silhuetas de árvores sob um nevoeiro cerrado. A voz de Dylan outra vez: «O tempo... Podemos fazer imensas coisas que parecem paralisar o tempo, mas sabemos, evidentemente, que isso é impossível». «Flashback» para a casa dos pais, em Hibbing, Minnesota. Um aparelho de rádio de mogno com um gira-discos de 78 rotações por cima. «Uma das primeiras músicas que escutei foi uma canção country, 'Drifting Too Far from the Shore'. O som daquele disco fez-me sentir como se fosse outra pessoa, quase como se tivesse nascido dos pais errados». Hibbing, a cidade mineira: «Ficava a caminho de lugar nenhum, provavelmente nem vinha no mapa». E, agora, não é o tempo que Dylan paralisa, mas sim quem o ouve: «Ali, era impossível alguém ser rebelde. Fazia tanto frio que era impossível ser-se mau. O clima equaliza tudo muito rapidamente». Na loja de artigos eléctricos do pai Zimmerman «deveria aprender a disciplina do trabalho duro e o privilégio de ter um emprego». Desfilam os fantasmas da música do passado: Hank Williams, Johnnie Ray, o «cowboy» Webb Pierce, Muddy Waters, Gene Vincent. Com um meio sorriso docemente severo, Dylan confessa: «Pensei em inscrever-me num colégio militar, mas naquele que desejava - West Point - nunca conseguiria entrar». Sim, para ele, nada menos que West Point. O liceu, então, onde Mr. Peterson, o reitor, interrompe a actuação de uma das primeiras bandas de Dylan porque a música «was not suitable for the audience». O nome de duas namoradas: Glory Story e Echo. «Foram elas que fizeram surgir o poeta que existia em mim». James Dean, Marlon Brando, The Wild One. «Não foi nada disso que liquidou todo o passado. Não foi como se eles tivessem aparecido e emergisse toda uma nova cena. O tempo, foi o tempo que obliterou o passado que havia à minha volta enquanto crescia. Apenas o tempo e o progresso». Newcastle, de novo, e «Like a Rolling Stone» em brasa.

Ainda só decorreram 15 minutos, mas No Direction Home poderia terminar já aqui. Se num documentário se pode falar de «plot» - mas um documentário assinado por Martin Scorsese é, acima de tudo, um filme -, ele está todo ali: a odisseia sem regresso possível nem «direction home», a memória imparável do tempo, o confronto permanente entre o Dylan-artista e a forma como o público, os outros músicos e a crítica o encaram. Faltam, contudo, mais de duas horas para No Direction Home se concluir. E, nelas, cada fio da história será tecido pelos diversos testemunhos até que uma figura contraditória fique suficientemente esboçada. Recorrentemente, pelo próprio Dylan: «Estava numa expedição musical. Não possuía, realmente, um passado, nenhum lugar aonde regressar, nada em que me apoiar». Que lê On the Road, de Kerouac («As únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou dizem um lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas peças de fogo-de-artifício amarelo a explodir como aranhas entre as estrelas»). E recorda Woody Guthrie: «Ouvíamos as suas canções e, através delas, aprendia-se, de facto, a viver». Mas também através da reminiscência de Liam Clancy, que, a propósito da adopção do apelido Dylan, recita Dylan Thomas: «Piety sings, innocence sweetens my last black breath, modesty hides my thighs in her wings and all the deathly virtues plague my death!» Ou daqueles que recordam como o jovem Dylan, ávido de devorar toda a tradição musical que o antecedera, não hesitava em se apropriar de discos que não lhe pertenciam. E passam imagens de Odetta, que, literalmente, abocanha um blues/gospel. E Maria Muldaur, Dave Van Ronk, Pete Seeger, os Weavers, Peter La Farge, a namorada Suze Rotolo, Cisco Houston, Joan Baez.

"No Direction Home", documentário realizado por Martin Scorsese e editado em 2005

"No Direction Home", documentário realizado por Martin Scorsese e editado em 2005

Vemos o instante em que «When the Ship Comes In» - Baez contará como Dylan a escreveu, de jacto, enraivecido por lhe ser recusada a entrada num hotel - é transformada em canção militante, no Lincoln Memorial, ao lado de Martin Luther King, em 1963. Kennedy morre em Dallas, e o Bob Dylan de «Blowing in the Wind» e «A Hard Rain», que, involuntariamente, está a caminho de se transformar no porta-voz oficial da esquerda-folk e da geração da «contracultura», reage com um coice à homenagem que o Emergency Civil Liberties Committee lhe presta: «Para mim, já não existe branco ou negro, esquerda ou direita. Só existe alto e baixo, e baixo é demasiado perto do chão». Não tão violento, no entanto, como a interpretação de «Ballad of a Thin Man», durante a digressão inglesa de 66 - e o filme regressa obstinadamente a ela, em Newcastle, em Londres, na Escócia -, onde Dylan, ao piano, absolutamente possesso com a incompreensão do público, que o acusa de traição à «causa», agita os braços no ar e, com desprezo e fúria evidentes, cospe as palavras «Because something is happening here, but you dont't know what it is, do you, Mr. Jones?». E nem sequer com a imensa indiferença e apatia com que, após sucessivas entrevistas de jornalistas imbecis que - já após o «escândalo» do Festival de Newport de 1965, a que assistimos na totalidade - o interrogam acerca do seu empenhamento político, à pergunta: «Quantos cantores verdadeiramente de protesto pensa que existem?», ele responde: «Cerca de 136. Entre 136 e 142».

Bob Dylan estava farto. Esgotado. Mesmo «with no direction home», só pensava em regressar a casa. «Apenas escrevi aquelas canções porque precisava de as interpretar. Estavam escritas numa linguagem que eu nunca tinha ouvido». Navegara a bordo do Bateau Ivre, de Rimbaud, lera Verlaine e os clássicos, cruzara-se com Warhol e os Beatles, perdera definitivamente a paciência para aturar as multidões, que lhe exigiam o que ele nunca estivera disposto a dar-lhes. Quando, do público, lhe gritavam: «What happened to Woody Guthrie, Bob?», enfadado, limitava-se a responder: «These are all protest songs, now, come on...», e atirava-lhes com «Just Like Tom Thumb's Blues». Muito convenientemente, no regresso aos EUA - já o gigantesco Blonde on Blonde fora editado -, um acidente de moto retirá-lo-ia da circulação durante meses. É Allen Ginsberg quem, a meio de No Direction Home, melhor acaba por defini-lo: «Com Dylan, pareceu-me que o testemunho tinha sido passado de uma geração para a seguinte. Dylan tinha-se transformado numa coluna de ar, por momentos, parecia não ser mais do que a respiração que emanava do seu corpo, um xâmane».

Originalmente publicado no Expresso de 12 de novembro de 2005