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Bob Dylan: uma mosca na parede

Tudo o resto que Dylan gravou no ano em que "Bringing It All Back Home", "Highway 61 Revisited" e "Blonde on Blonde" mudaram o curso da história da música. Um texto de João Lisboa, no Expresso, em 2015

Vinte takes de ensaios, falsas partidas, fragmentos, esboços, versões alternativas, pistas só de guitarra ou de piano e baixo de 'Like a Rolling Stone'; cinco de 'Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again' e 'Visions of Johanna'; quatro de 'Love Minus Zero/No Limit', 'On the Road Again', 'It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry' e 'She's Your Lover Now'; três de muitas outras. E, para o inventário, conta apenas a Deluxe Edition de seis CD de "The Bootleg Series Volume 12: The Cutting Edge 1965-1966", de Bob Dylan. Porque, se considerarmos os 18 (dezoito) CD da Collector's Edition de "The Cutting Edge 1965-1966", deverão ser contabilizadas as 12 entradas de 'On the Road Again', as 16 de 'It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry', as 20 de 'One of Us Must Know (Sooner or Later)', as 15 de 'Visions of Johanna', as 22 de 'Can You Please Crawl Out Your Window?', as 10 de 'Highway 61 Revisited'... e ainda nem sequer chegámos a metade da coleção.

Hipóteses explicativas: 1) o estado de desespero da indústria discográfica é de tal ordem que, sem pestanejar, está pronta a publicar 379 faixas de "todas as notas gravadas durante as sessões de 1965-1966, todas as takes e textos alternativos", num total de 19 horas de música, em exercício extremo de rapar o fundo aos arquivos; 2) a comunidade de dylanólogos e scholars afins não ansiava senão por tal empreendimento, e colocar-lhe à disposição o registo de literalmente tudo o que aconteceu durante aquele ano em que "Bringing It All Back Home", "Highway 61 Revisited" e "Blonde on Blonde" mudaram o curso da história da música é não apenas tornar realidade um sonho húmido como a possibilidade de voltar a fazer tilintar as caixas registadoras ("Money doesn't talk, it swears", mas os 5000 exemplares iniciais da Collector's Edition, ao preço de cerca de 550 euros, já esgotaram); 3) está tudo louco. Vendo bem, são as três verdadeiras.

Trata-se, sem dúvida, de uma pouco frequente possibilidade de, garimpando uma discografia, conseguir continuar a extrair dela o valor que não muitas outras conterão - manobras idênticas estão em curso para "The Ties That Bind: The River Collection", de Bruce Springsteen (4 CD + 3 DVD), "Loaded: Reloaded" (5 CD + DVD) e "The Complete Matrix Tapes" (4 CD), dos Velvet Underground, tal como aconteceu com as "SMiLE Sessions", dos Beach Boys, que, na edição Deluxe, incluíam um CD integralmente preenchido com 24 takes de 'Good Vibrations' - e, naturalmente, para o fazer, uma considerável dose de desmesura e megalomania é imprescindível.

Por outro lado, no caso de Dylan, é também uma oportunidade para se comprovar, em direto e (praticamente) ao vivo, que aquilo que ele afirmava acerca de 'Like a Rolling Stone' ("É como se um fantasma a tivesse escrito, ma tivesse dado e desaparecesse a seguir. Não sabemos o que isso significa. Apenas que o fantasma me escolheu para entregar essa canção") não era exatamente a regra. Ou raramente era a regra.

Tarefa de investigação e análise que não será, evidentemente, para todo o tipo de devotos de Bob Dylan mas dirigida, sobretudo, àqueles tão curiosos acerca do resultado final como do processo que a ele conduziu. O que, tudo somado, é bem capaz de proporcionar um Natal mais feliz a muita gente (editora incluída).

É importante refrescar a memória: aos 23 anos, nos 15 meses entre a quarta-feira, 13 de janeiro de 1965, durante a qual Dylan registou em estúdio as takes definitivas de 'Maggie's Farm', 'On the Road Again', 'It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)', 'Gates of Eden', 'Mr. Tambourine Man' e 'It's All Over Now, Baby Blue', e a quinta-feira, 10 de março de 1966, quando concluiu, em Nashville, as gravações de "Blonde on Blonde", dizer que uma página se tinha virado seria um inexplicável eufemismo: na digressão da primavera de 65, documentada por D. A. Pennebaker em "Dont Look Back", Bob Dylan desfaz, em simultâneo, a imagem do autor de protesto politicamente empenhado ("Nada tenho a dizer sobre aquilo que escrevo. Não escrevo por nenhuma razão em especial. Não há mensagem nenhuma") e do ídolo pop reverente para com os fãs; em março, grava "Bringing It All Back Home", em que, num dos lados, era acompanhado por uma banda elétrica; a 20 de julho, publica 'Like a Rolling Stone', jato de bílis de inéditos 6'13" num single; e, cinco dias depois, no Festival de Newport, ao lado de Al Kooper, Mike Bloomfield e outros elementos da Paul Butterfield Blues Band, desperta a ira da ortodoxia folk com 'Maggie's Farm' e 'Like a Rolling Stone'; a 30 de agosto, edita "Highway 61 Revisited", que inclui 'Ballad of a Thin Man' ("Because something is happening here but you don't know what it is, do you, Mister Jones?") e os 11 minutos de 'Desolation Row'; a 16 de maio de 1966 (um dia antes de, num concerto no Manchester Free Trade Hall, ter enfrentado um motim de fãs em fúria que lhe chamam "Judas") sai "Blonde on Blonde", primeiro duplo álbum rock, cujo quarto lado era totalmente ocupado pelos 11'23" de 'Sad Eyed Lady of the Lowlands'.

Autorizar-nos a penetrar nos bastidores e, qual mosca na parede, assistir ao vertiginoso desenrolar dos acontecimentos é o imenso privilégio que "The Cutting Edge 1965-1966" nos oferece.

THE BOOTLEG SERIES VOLUME 12: THE CUTTING EDGE 1965-1966
6 CD Columbia/Legacy/Sony

Originalmente publicado no Expresso de 12 de dezembro de 2015