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Bob Dylan, o poeta relutante

Em 2001, Bob Dylan fazia 60 anos e o Expresso foi ouvi-lo falar em Roma, onde o músico apresentou o seu muito elogiado álbum “Love and Theft”

A voz é cada vez mais a de um mineiro com séculos de sílica sedimentada nos pulmões. A cantar, no novo e de novo óptimo álbum Love and Theft, mas também a conversar com uma espécie de delegação da União Europeia - um jornalista por país - que se foi encontrar com ele mesmo à beira dos «spanish steps» daquela Roma que cantou em «When I Paint My Masterpiece». Ele, Bob Dylan, poeta laureado do rock, contraditório comentador político do mundo moderno, solipsista psicadélico radical, revolucionário/reaccionário absoluto.

Que, hoje, aos 60 anos acabados de cumprir, com bigode de Zorro latino, não tem dúvidas em afirmar: «Acerca de quê poderá alguém pensar em escrever que não veja todos os dias nos noticiários e nas televisões? As emoções humanas permanecem as mesmas mas são os media que as dirigem... Rimbaud, Shelley, Blake, Byron, quem são eles? Apenas poetas que temos a liberdade de conhecer mas que ninguém escuta na televisão. Os media acabaram de vez com a poesia e a literatura. Ninguém está disposto a desempenhar o papel de Kafka, de escrever para não haver ninguém que o leia. Quem escreve quer ser visto e lido. E é disso de que os media se encarregam. Não se pode esperar melhor poesia do que a que se vê nos noticiários. Aí mostram-nos tudo o que é possível existir. O que pode fazer alguém que escreve? As ideias são exibidas nos media muito antes de podermos aproximar-nos delas. Vivemos num mundo de ficção científica. A Disney conquistou o mundo. Parques temáticos, ruas da moda, é tudo ficção. Por isso, se um autor tiver algo para dizer, deve fazê-lo fora disso. Tivemos a idade do oiro, que terá sido a de Homero, depois a da prata, a do bronze, e, agora, somos bem capazes de estar a viver na idade da pedra. Ou na do silicone...»

A explicação do título do álbum, essa, é simples: «O amor e o roubo não são extremos opostos. São exactamente o mesmo. Como os dedos dentro de uma luva. Quando amamos, roubamos sempre alguma coisa a alguém.» Depois, se alguém remete para a filiação na tradição norte-americana, ele diz apenas: «John Hammond, o tipo que me 'descobriu' na CBS, ofereceu-me um álbum de Robert Johnson muito antes de ele ter sequer sido publicado. Havia muita gente que não fazia a menor ideia de que ele tinha existido. As gravações dele só existiam, secretamente, em pequenas editoras. Nessa altura, no início dos anos 60, a minha relação com a tradição popular americana era bastante mais próxima.»

A verdade é que, mesmo 40 anos depois da publicação do seu primeiro álbum, Dylan ainda não perdeu qualidades naquela sua peculiar arte de confundir jornalistas patetas dedicados à missão de lhe fazer perguntas igualmente tolas: «Uma genealogia para as minhas canções? Isso é tudo treta. Se investigar os meus discos, reparará que por vezes me repito. Mas não me parece que seja mais do que isso. Se existe uma continuidade entre oBob Dylan dos anos 60 e o das décadas que se seguiram é apenas uma continuidade biológica»; «Porque é que estão sempre a citar-me? Não presto a menor atenção às coisas que digo. Porque é que haveriam vocês de o fazer? O meu trabalho é na área do entretenimento ligeiro.» Ou, quando interrogado sobre o método da sua loucura criativa: «Não inventei nenhum método original de escrita. Tomo umas notas, imagino uma melodia ou duas, volto a elas mais tarde... A minha atitude é a de permitir que as coisas aconteçam e rejeitar o que não me parece que sirva. Deixo que uma certa 'stream of consciousness' funcione, mas não me ponho a meditar em cada linha que escrevo. Não me sento exactamente no cadeirão para escrever. As frases encaixam-se ou não na estrutura do episódio que é cada canção. Têm de se resignar a um certo idioma. A forma não é livre, e é inútil adequá-las a um determinado ponto de vista ideológico. Não é isso que se pede a uma canção, ela não o pode fazer. É verdade, cheguei a fazê-lo. Mas, à partida, nunca tive isso em mente.» Ou ainda, sobre outra interrogação algo mais abstrusa: «É verdade, sim, já ouvi dizer que me queriam nomear para o Nobel. Isso iria pôr-me na companhia de quem? Hemingway? Ele escrevia para a 'Time Magazine'... John Steinbeck? Não me parece que pertença a essa categoria. Estarei acima ou abaixo dela? Sei lá, quero lá saber.»

O álbum "Love and Theft", de 2001

O álbum "Love and Theft", de 2001

Noutro registo, há a novíssima cultura jornalística «Caras» internacional, com a qual Bob Dylan lida com as proverbiais e justíssimas duas pedras em cada mão: «Não sinto que faça realmente parte da cultura dos 'rich & famous'. Não fui eu que escolhi fazer aquilo que faço. O que faço escolheu-me a mim. Poderia ter sido algo de muito diferente: cientista, engenheiro, médico...» E que, num rastreio exemplificativo de quase duas horas de conversa com que guerrilheiramente se digladiou, se poderia sintetizar assim: (p: ainda se diverte com o que faz?) «O que é divertir-se? Sim, diga-me, se for capaz, o que é divertir-se? Estou aqui, não estou? Poderia ter feito outra escolha?» (p: gostou de ganhar o Óscar?) «Não fui lá.» (p: acha que é um reflexo do seu próprio tempo?) «Claro. Nunca poderia reflectir outro período, não lhe parece? Embora, provavelmente, reaja mais do que reflicta.» (p: de onde lhe continua a vir a energia?) «A energia é uma coisa fictícia, uma ficção. Tal como qualquer pessoa que aprenda a fazer alguma coisa, há certos estratagemas, códigos, técnicas que se põem em movimento. Há que saber usá-los de uma forma combustível. Essa tal energia em acção pode assemelhar-se a uma técnica. Mas é uma combinação feliz de técnica com emoção.» Ou no registo antitechno moderno: «Sim, sim, estou certo que algum pervertido me há-de ter colocado na Internet...» Finalmente, a reacção ao nível «interpretativo/comemorativo»: «Não, não me importa muito a análise que possam fazer das minhas canções, seja de um ponto de vista freudiano, marxista, idealista...»; «Sim, celebrei os meus 60 anos da maneira habitual: as velas, os amigos, a família. Espero bem ser 'younger than that now'...»

Numa modalidade menos tonta, há quem o questione acerca do papel dos produtores na sua música ou de como gravar uma voz tão singular como a sua, ou a de Lou Reed, ou a de Leonard Cohen. E, mesmo assim, não muito pacientemente, Deus, Dylan himself, responde: «Quando trabalhamos com produtores, eles têm a possibilidade de conduzir as nossas canções nesta ou naquela direcção. E, por vezes, não seria a direcção que nós mais desejaríamos. Muitos dos meus discos são atravessados por esse tipo de compromissos. O que se nota muito menos quando se trata de discos ao vivo. Eu nunca diria que sou um produtor de discos, mas, se de facto possuirmos uma visão pessoal de como a música deve soar, não existe nada que um produtor faça que nós não possamos fazer também.» Siga: «Habitualmente, a ideia não é como gravar a minha voz, mas sim como é que aquela particular canção deve soar. O lado audiófilo escapa-me bastante. Mas, se calhar, a solução ideal seria a de sintonizar-me com a extensão de um determinado instrumento em particular. Sublinhar uma certa presença. Não me parece que a minha voz seja assim tão difícil de registar, mas não conheço ninguém que tenha realmente compreendido como me deve gravar. Não há nenhum culpado em especial. A minha extensão vocal é que possui o seu sistema próprio.» E a rematar: «Não sei muito bem como é que as vozes deles deveriam soar, embora a do Leonard Cohen seja bastante mais compreensível do que a do Lou Reed. Sempre me pareceu que a melhor maneira de lidar com a minha voz seriam os sistemas mais antiquados, analógicos, estéreo ou mono, de certeza, os mais simples.» E exemplificando um pouco com o novo álbum: «Uma canção como 'Po' Boy' canta-se a si mesma. Eu sou obrigado a cantar dessa forma. Ela poderia existir sem nenhum texto. Assenta exclusivamente no encadeamento de acordes sem nenhuma instrumentação, a não ser uma guitarra muito minimalista.»

Quanto ao público dos «fiéis», lamento imenso ter de ser eu a informá-lo, mas é mesmo assim, tem muito pouco a esperar. É ele próprio, sua dylanidade, quem desavergonhadamente o confessa: «Habitualmente, ignoro as pessoas na primeira fila dos concertos e toco para as das últimas filas. As das primeiras filas já estão habituadas aos concertos, passe-se o que se passar vão gostar na mesma. Por isso, não é a essas que eu quero chegar.» E reflectindo sobre os anos que, inexoravelmente, passam: «A única coisa que realmente nos une a todos é a mortalidade. Nada mais existe que nos torne a todos semelhantes. Não que eu reflicta muito sobre a minha mortalidade. É mais sobre o que se passa à minha volta, com as pessoas que me são próximas.»

Encerre-se a função: «Há muito pouco tempo, o Leonard Cohen disse-me que ser considerado um poeta era um fardo demasiado pesado para se carregar. Está de acordo?» Bob Dylan: «Sei muito bem do que ele fala...»; «Isso era o que acontecia no século passado, não era?»; «Há muitas eras, não há?» Será preciso dizer mais?

Originalmente publicado no Expresso de 8 de setembro de 2001