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Bob Dylan: o patriarca e a montanha

No dia em que Dylan é galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, recuperamos um trabalho publicado este ano pela BLITZ aquando do 75º aniversário do músico. Rui Miguel Abreu distingue uma das mais fascinantes carreiras musicais, uma verdadeira montanha que se ergue acima do horizonte de toda a música popular

É relativamente fácil imaginar a cena: no passado dia 24 de maio, uma casa em Point Dume promontório na costa de Malibu, bem perto da praia de Zuma, imortalizada por Neil Young há de ter sido cenário de uma agitação algo invulgar quando uma dilatada família se reuniu para celebrar os 75 anos do seu patriarca. Presentes, certamente, hão de ter estado Jesse, o mais velho dos filhos ele mesmo alvo de celebração recente, já que completou 50 anos no passado mês de janeiro; as irmãs Anna Lea e Maria, os irmãos mais novos destas, Samuel e Jakob, e a meia irmã Desiree-Gabrielle. Os dois filhos de Jesse e os quatro de Jakob, alguns deles já com crianças, também podem ter aumentado o número de presenças à mesa, provavelmente montada no jardim, com sombra, vistas largas e muito verde.

O ano passado, o patriarca, Bob Dylan, concedeu uma única entrevista para discutir o álbum Shadows in The Night, a primeira peça do díptico que agora se completa com o sucessor Fallen Angels, uma bem explícita homenagem a Frank Sinatra. Na reta final dessa longa entrevista, Dylan tocou ao de leve na sua família. Robert Love, editor principal da AARP a revista publicada pela Associação Americana de Reformados, lida por cerca de 35 milhões de pessoas com mais de 50 anos mencionou que muitas das canções mais recentes de Dylan lidam com o envelhecimento, apontando uma ideia expressa em tempos pelo artista norte-americano «as pessoas não se reformam, vão simplesmente desaparecendo», antes de rematar: «e agora tem 73 anos e é bisavô». «Repare», respondeu Dylan, «uma pessoa envelhece.

A paixão é o jogo do homem jovem. Os mais jovens podem ser apaixonados. As pessoas mais velhas têm que ser mais sábias. Isto é, anda-se por cá algum tempo, deixam-se certas coisas para os mais novos e não se tenta fingir que se é novo. Uma pessoa pode magoar-se se o fizer». Pode entender-se aqui uma estocada a Mick Jagger? O jornalista referiu ainda um período, há 50 anos, em que Dylan se retirou do olhar do público durante mais de um ano, gesto que motivou muita discussão: «foi para proteger a sua família, certo?».

A resposta do patriarca foi direta: «Totalmente. Foi isso mesmo». Bob Dylan foi sempre um homem reservado, de muitas poucas falas sobre a sua vida privada, o que até gerou especulação sobre a solidez da sua ligação à família, mas essa privacidade terá sido, afinal de contas, uma estratégia de defesa. Mesmo no final da entrevista, Dylan comentou: «da última vez que dei uma entrevista, o tipo queria falar acerca de tudo menos de música. Sou apenas um músico. Desde os anos 60 que me fazem as mesmas perguntas que fariam a um médico, um psiquiatra, um professor ou um político. Porquê?».

Bob Dylan no início dos anos 60

Bob Dylan no início dos anos 60

PARA AS PESSOAS REAIS

A resposta à questão levantada por Bob Dylan é mais ou menos óbvia: porque o homem de The Times They Are a-Changin' se transformou na voz de uma geração. Quando este disco saiu, em 1964, os rapazes que nasceram logo que os soldados regressaram das frentes de batalha na Europa ou no Pacífico estavam no final da sua adolescência e contemplavam o futuro que desejavam transformar. Do lado de lá da barreira geracional sobretudo se, como Dylan, fossem brancos numa América de privilégios alimentados pelos efeitos do Plano Marshall encontravam-se os pais, confortavelmente instalados nos subúrbios em casas modernas, equipadas com eletrodomésticos, servidas por uma garagem com capacidade para dois carros, com quintal e relvado e uma moderna aparelhagem estéreo na sala. Nessa aparelhagem, quase de certeza, repousaria o mais recente álbum de Frank Sinatra, homem que em 1957 quando muitos dos miúdos que, alguns anos depois, abraçariam Dylan com a intensidade com que se abraça um salvador teriam 9 ou 10 anos descreveu o rock and roll como «a mais brutal, feia e degenerada forma de expressão que já tive a infelicidade de ouvir». Ol' Blue Eyes e Robert Zimmerman: um católico e um judeu; um elegante crooner, de fato cortado à medida, impecável no seu chapéu e sorriso largo versus um tipo de cabelo desgrenhado, muitas vezes de olhos escondidos atrás de óculos escuros, de calças de ganga operárias e camisa que nunca tinha sentido o toque quente de um ferro de engomar.

Não podiam ser mais diferentes. E no entanto, aí está Fallen Angels, a segunda parte de uma homenagem direta de Dylan a Sinatra, homem que a voz de «Like a Rolling Stone» descreveu, na já citada entrevista concedida a Robert Love, como «uma montanha» «ele é a montanha que temos que escalar mesmo que não consigamos chegar ao topo». Dylan já havia mencionado o fascínio com a interpretação de Sinatra do standard «Ebb Tide» e voltou a referir-se a esse encanto na entrevista da AARP: «a interpretação hipnotiza-nos. É uma interpretação brilhante. Nunca tinha ouvido nada tão supremo a qualquer nível». Sinatra, à entrada dos anos 60, representava não apenas a moral, a política, o tecido social pré-Movimento dos Direitos Civis, da América conservadora e republicana, mas também para alguém como Bob Dylan o espírito clássico da Tin Pan Alley, do cancioneiro americano desenhado por estetas como Johnny Mercer, Irving Berlin ou Harold Arlen. A missão claramente assumida por Dylan foi a de reinventar a canção americana, retirar-lhe o brilho da fantasia, o glamour orquestral e o refinamento poético artificial, aproximá-la das pessoas reais, das ruas e dos campos. Fallen Angels foi lançado oficialmente no passado dia 20 de maio e a data formal de edição de Blonde on Blonde («o primeiro grande álbum duplo da história», Rolling Stone dixit) é de 16 de maio de 1966. A quase sincronia não é, certamente, acidental.

Nestes 50 anos medidos com régua e esquadro repousa uma das mais fascinantes histórias da música popular, uma história de reinvenção, de rutura, mas também de resolução, de regresso. Porque Dylan, sentado à cabeceira da mesa montada no jardim da casa de Point Dume apenas quatro dias depois do lançamento de Fallen Angels, ao olhar para os seus netos e bisnetos, não pode certamente deixar de recuar aos tempos em que era ele mesmo uma criança, na casa dos seus pais, em Hibbing (no Minnesota). Uma criança de ouvidos colados à rádio, nas vésperas da revolução rock and roll.

Uma dúzia de anos mais tarde, a América era um país diferente, socialmente transformado ou em vias de transformação operada por uma geração atuante, sedenta de mudança. E a música que Dylan então tinha na cabeça não podia soar mais distante daquela que era criada em série no Brill Building e depois gravada com pompa e justificada circunstância no famoso estúdio B do icónico edifício Stack O' Records da Capitol, em Hollywood Boulevard. Blonde on Blonde, o álbum que se seguiu a Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965, teve um significado especial para o músico: «o mais próximo que consegui chegar do som que escutava dentro da minha cabeça, aquele som quase transparente, aquele som selvagem e mercurial». Em 1974, nas páginas da Village Voice, Greil Marcus talvez a maior autoridade mundial na obra de Dylan referiu-se a Blonde on Blonde como um álbum em que «os limites foram destruídos».

Sinatra, Nelson Riddle, o posicionamento quase matemático dos microfones, a elegância dos arranjos orquestrais, as palavras como ornamentos de uma melodia desenhada como uma curva numa escultura Arte Nova, a manifestação pura e máxima da masculinidade americana: a música contra a qual Dylan se rebelou em meados dos anos 60 era ela mesma um hino aos limites, à contenção moral, social, política até.

Há 50 anos, Blonde on Blonde álbum de «Rainy Day Women # 12 & 35», «Visions of Johanna» ou «Just Like a Woman» esmagou esses limites, desfez o nó da gravata, atirou borda fora o rigor formal das orquestrações, substituindo-o por um clamor elétrico que ecoava a vibração de uma nova geração.

O SOM SELVAGEM

Cinquenta anos depois, Dylan parece querer regressar ao momento de inocência pré-transformação ao abordar o cancioneiro de Frank Sinatra. Na entrevista da AARP, esclareceu que na década de 60 não comprou os discos de Sinatra. «Mas era impossível não o ouvir», sublinhou. «Nos carros ou na jukebox. Tinha-se consciência de Frank Sinatra fosse qual fosse a idade. Todas as outras coisas que pensámos que tinham vindo para ficar acabaram por desaparecer. Mas ele permaneceu».

Se, nem que por um momento apenas, durante o almoço do passado dia 24, lá no promontório de Malibu talvez já durante os digestivos, com as crianças espalhadas pelo relvado e rodeado dos seus filhos e noras, Dylan tiver olhado para os seus 55 anos de carreira com a devida justiça que um apurado sentido autocrítico raramente permite, há de ter concluído que deixa ao mundo um novo olhar, uma outra forma de escrever, de pensar a vida através do som e do sentido, captando «aquele som selvagem e mercurial». Se for justo consigo mesmo, Dylan saberá que foi um mestre do conteúdo. E é natural que já nesta idade avançada queira então abordar um mestre da forma. Dylan e Sinatra, o vento de mudança e a montanha perene, a cara e a coroa dessa moeda universal que é a canção americana.

Publicado originalmente na BLITZ de julho de 2016.