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Jorge Palma

Jorge Palma 1965-1975 - Os primeiros anos de um sonhador

O período compreendido entre 1965 e 1975 é, a nível mundial, um dos mais férteis para a história da música popular. Portugal não foi excepção a esta regra, pelo que nele se forjou também o nosso melhor trovador errante: Jorge Palma. Ao longo de uma carreira de cerca de 40 anos, o músico tem sabido melhor do que ninguém catalisar a torturada alma nacional para um registo que se passeia entre o music-hall e o rock, passando pelo universo dos cantautores. Mas, ao mesmo tempo, sempre se pautou por transgredir todas as barreiras artísticas e sociais e por despertar a paixão de sucessivas gerações de apreciadores da sua obra. Bem-vindos, pois, à génese do seu percurso musical, que decerto surpreenderá mesmo os mais fiéis

Estamos em inícios de Dezembro de 2007, 35 anos decorridos sobre a estreia a solo de Jorge Palma, com o single «The Nine Billion Names of God», e o seu último álbum de originais, Voo Nocturno manteve-se no primeiro lugar da tabela de vendas da Associação Fonográfica Portuguesa quatro semanas consecutivas, tendo conquistado já o estatuto de disco de platina. Poderá dizer-se que esta é a consagração merecida na carreira do músico, mas há muito que Palma atingiu um estatuto que foge aos normais ditames do mercado nacional.

Reverenciado por sucessivas gerações de ouvintes, nem a «silenciosa» década de 1990 em que não gravou qualquer álbum de originais fez com que os ânimos se refreassem. Muito pelo contrário, e graças também à sua constante colaboração com músicos mais novos, esse aparente silêncio discográfico contribuiu para um crescendo de entusiasmo nos seus concertos que culminaria com o estado de graça que rodeou a edição de JorgePalma, o décimo álbum de estúdio, em 2001. De então para cá, a «febre» não parou, e Norte, de 2004, apesar de uma recepção mais discreta, confirmou a paixão dos portugueses pelo músico, tendo alcançado o disco de prata. Juntamente com a reedição do seu primeiro álbum, Com Uma Viagem na Palma da Mão, encontrámos aqui mais do que um pretexto para uma viagem aos primeiros tempos da carreira de Jorge Palma entremos assim no Portugal musical de há quase 40 anos!

ENTRE A MÚSICA ERUDITA E O ROCK

Desde muito novo que Jorge Palma se entregou de alma e coração à música, tendo sido aluno da pianista Maria Fernanda Chichorro. Foi através da mão desta que, em 1958, teve a primeira audição da sua carreira, no Conservatório Nacional de Lisboa, onde estava inscrito como aluno externo. Cinco anos depois, em 1963, classifica-se em segundo lugar ex-aequo no Concurso Internacional de Piano que tem lugar em Palma de Maiorca, organizado pela Juventude Musical local. Gradualmente, e numa época em que os Beatles eram uma das grandes referências culturais a nível mundial, os interesses musicais do jovem Palma começam a virar-se também para o jazz, para o folk e para o pop-rock. Em 1967, frequentava o antigo 7º ano do liceu como aluno interno do Colégio Infante de Sagres, nas Mouriscas (Abrantes), onde integrava o agrupamento The Dandy. Deste conjunto, apresentado como «privativo do Colégio», faziam também parte J. Manuel Santos (guitarra solo), Fernando Velez (guitarra baixo) e José Carlos (bateria). Jorge Palma ocupava-se da guitarra ritmo. 1967 foi também o ano em que se deu a viragem definitiva na construção de um rock português, com a estreia em disco do Quarteto 1111. A Lenda de El-Rei D. Sebastião veio demonstrar que era possível trilhar os caminhos do rock em solo lusitano e fazê-lo com talento e criatividade.

No Verão de 1967, Jorge Palma parte para o Algarve, onde é convidado a juntar-se ao conjunto musical Black Boys, de Santarém, como teclista. No Verão seguinte, tendo finalmente terminado o liceu já em Lisboa, no Colégio Académico, junta-se aos Jets. Este grupo lisboeta tinha gravado o EP «Let Me Live My Life», em cujo tema-título se encontram influências do rock psicadélico que então «ameaçava» espalhar-se pelo mundo. Com a saída do teclista João Vidal de Abreu (que seguiria carreira em Espanha, primeiro com os Grimm e, já na década de 1970, com os Barrabás), os Jets recrutaram assim os préstimos de Palma. Dois dos membros do grupo, Ricardo Levy e Júlio Gomes, ambos guitarristas, estariam com ele no projecto seguinte, o grupo Sindicato, com quem se estrearia nas lides discográficas.

DO SINDICATO AO PRIMEIRO DISCO A SOLO

Em finais da década de 1960, raras eram as formações musicais que tinham um alinhamento estável. A tropa (e, por conseguinte, a guerra em África) e as pressões familiares desmobilizavam os mais fiéis correligionários do rock, e assistia-se a uma autêntica dança de músicos entre as formações existentes. Jorge Palma tocaria com os Extravaganza projecto de curta duração, de que fizeram parte Júlio Pereira (guitarra solo), Jaime Queimado (guitarra baixo), Henri Tabot (percussão) e Carlos Pereira (bateria) e também com os míticos Beatniks, mas foi com os Sindicato que muitos ouviram falar pela primeira vez no seu nome. Criado na recta final da década de 1960, este projecto foi praticamente um «who's who» do rock nacional de então: pelas suas fileiras passaram os já referidos Ricardo Levy e Júlio Gomes (guitarras), Edmundo Falé (voz, ex-Ekos e Conjunto Mistério), João Maló (ex-Chinchilas e guitarrista de estúdio, pai do compositor Nuno Maló), Eduardo Oliveira (também conhecido como Necas, e que participaria nas gravações do 1º LP do Quarteto 1111, sendo mais tarde um dos membros dos NZZN), Vítor Mamede (bateria, ex-Chinchilas e futuro membro dos Status, Quarteto 1111 e Green Windows), Rui Cardoso (saxofone, ligado ao jazz desde os finais dos anos 50 e autor de bandas-sonoras de vários filmes portugueses) e Rão Kyao (que tinha já integrado o Bossa Jazz 3, partindo já depois do 25 de Abril para uma reconhecida carreira a solo), além de dois outros músicos na secção de sopros, Luís Pereira (trompete) e Cirilo Coutinho (trombone), este último já falecido.

Numa época em que primeiro os Blood, Sweat & Tears e depois os Chicago surgiam com um rock marcado pelas sonoridades do jazz, os Sindicato tentavam também, tal como o projecto O Controle, mostrar que em Portugal havia um caminho a trilhar nessa área. No que toca a edições discográficas, deixariam apenas os seus talentos no single «Smile», de 1971, e em dois temas da colectânea de Paulo de Carvalho publicada no mesmo ano pela Phonogram, editora hoje representada pela Universal e com a qual o grupo tinha contrato. No primeiro destes discos, apresentavam, no lado A, a composição original homónima, com uma progressão musical algo devedora do free-jazz, e, no lado B, uma leitura muito particular para «Blue Suede Shoes», de Carl Perkins. A produção ficou a cargo de Luís Villas-Boas, patrono do jazz português, que na altura colaborava com a editora. Já no disco Paulo de Carvalho, que a Phonogram publicou na sequência do 2º lugar do cantor no Festival da Canção de 1971 e que agrupava a totalidade das composições gravadas pelo Fluido, antigo projecto de Paulo de Carvalho, os Sindicato foram encarregues de fazer versões instrumentais precisamente para «Flor Sem Tempo» e para «Walk On the Grass», um dos dois temas que o espanhol Manolo Díaz entregou à «Voz» nacional. No Verão de 1971, os Sindicato participam no Festival de Vilar de Mouros, actuando no fim-de-semana dedicado à «música moderna para a juventude», a 7 e 8 de Agosto. Com Edmundo Falé como vocalista, o grupo apresentou a sua música a um público que não entendia as deambulações jazzísticas e elaboradas dos músicos, mas que depois não regataria aplausos ao concerto da Manfred Mann's Earth Band (que ainda estava a seis meses da edição do seu álbum de estreia).

Em 1972, com o final dos Sindicato e com o abandono do curso de Engenharia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, chega finalmente a oportunidade de Palma gravar a solo, através da etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade. Editora de prestígio, nela se juntavam nomes como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira ou os Pop Five Music Incorporated. No mesmo ano, também aí se estreariam Samuel e Fernando Girão, este futuro companheiro de Palma na aventura do Festival da Canção de 1975.

«The Nine Billion Names of God» foi um single algo alienígena no panorama musical português de então. Influenciado pela leitura de Arthur C. Clarke (autor do conto homónimo) e pelo livro O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier, a nível musical demonstrava que, se por um lado Jorge Palma tinha um pé no rock, por outro não desdenhava o trabalho dos denominados cantautores. Sérgio Godinho, que se estreava no formato longa-duração também em 1972, e José Mário Branco, eram então recebidos como autênticas lufadas de ar fresco no seio da canção portuguesa, depois de alguma estagnação que sucedera ao período áureo do programa televisivo Zip-Zip. Dos dois lados do Atlântico, a música de James Taylor, Neil Young ou Elton John também não era estranha a Palma, a quem surgia assim como natural a escrita de textos em inglês para as suas músicas. Mas também por este factor o cantor se distinguiria, já que sendo o inglês a língua franca do rock nem por isso grupos como o Quarteto 1111, a Filarmónica Fraude ou os Petrus Castrus por ele se deixavam dominar. Palma era, no entanto, apontado então como uma das jovens promessas da nova música portuguesa, ao lado de nomes como Duarte Mendes, Carlos Mendes (que regressava às lides musicais precisamente em 1972, com a vitória no Festival da Canção com «A Festa da Vida») ou Fernando Tordo. Foi, aliás, por intermédio deste último que Palma iniciaria a escrita de canções em português.

O CAMINHO FAZ-SE AO CANTAR

Ao conhecer José Carlos Ary dos Santos, em 1972, num dia em que, depois de desabafar com Fernando Tordo em como não conseguia urdir textos em português para as músicas que compunha, este lhe indicou o telefone do poeta, inicia-se uma nova fase na carreira de Jorge Palma. Discípulo fiel, textos há em que é clara a influência literária do autor de «Queixas e Imprecações dum Condenado à Morte» ou «O Poema Original», mas desde logo se identifica também o desejo de pintar em paleta própria, remetendo para os versos ideias, lugares e cenários que mais tarde passariam a ser personagens habituais na escrita do músico.

Em paralelo com o início da carreira a solo, Jorge Palma tinha já iniciado também actividade como arranjador e orquestrador em discos de outros músicos. O single «Pescador», de Alexandrino de Carvalho (cantor da Póvoa do Varzim que então se associava ao movimento da denominada canção de protesto), foi o primeiro trabalho onde Palma participou nessas funções, ainda que o seu nome não surja no fonograma.

Como nota de curiosidade, refira-se que a composição «Sonho... Vida... ou Morte...», lado B do single, veria a sua transmissão proibida na Emissora Nacional. Os primeiros frutos da colaboração com Ary dos Santos são tornados públicos no EP «A Última Canção», editado em Maio de 1973 pela Zip-Zip. Nele se reuniam quatro temas, dois com letra de Jorge Palma e outros dois de Ary. A composição que dava título ao disco viria, ainda nesse ano, a ser alvo de uma versão pelo cantor madeirense Valério Silva, ex-vocalista dos Dinâmicos, num registo que contou também com Palma no comando da orquestra. «A Última Canção» marca assim uma transição na carreira do cantor, quer por ser o único dos seus registos a solo com textos de Ary dos Santos quer também por um certo afastamento das linguagens rock em prol de arranjos mais próximos dos que, nessa altura, poderíamos encontrar nos discos de Fernando Tordo ou Duarte Mendes.

A voz de Palma, ainda longe do timbre que mais tarde será a sua imagem de marca, surge, no entanto, perfeitamente enquadrada nos ambientes criados pelas composições do disco, constituindo o conjunto um perfeito retrato do artista enquanto jovem e deixando apenas adivinhar uma parte do que viria a ser a sua obra musical.

Ainda em 1973, uma outra canção com texto de Ary dos Santos e música de Jorge Palma, «Com Um Cravo na Boca», seria incluída no EP «A Rapariga e o Poeta», de Tonicha. A nível de orquestrações, seria também um ano profíquo, com Palma a ser requisitado para dois trabalhos na Zip-Zip, editora com quem tinha contrato, e para quatro outros na etiqueta Estúdio. Quase todos estes discos concentram, no entanto, uma parcela maior da sua criatividade: no EP de João Vaz Lopes encontramos dois inéditos, «Canção Viva» e «Soneto Presente», novamente com texto de Ary e música de Palma; nos discos de Valério Silva, há quatro músicas de Palma, duas delas também com texto de sua autoria, e ainda um texto seu com música de Orlando Rosa-Limpo; no EP de Fátima Costa, surge «O Repouso do Guerreiro», com letra e música de Palma, e «O Medo», com música sua, ambas denotando o interesse do músico pelas sonoridades folk que dez anos depois constituiriam a base da carreira de Mafalda Veiga; por último, o extraordinário LP De Ontem e de Hoje, de Rui de Mascarenhas, onde qualquer comentário sobre a adaptação musical de excertos do conto Aleph, do argentino Jorge Luis Borges, será decerto incapaz de caracterizar a intrincada teia sonora que podemos escutar. Valério Silva e Orlando Rosa-Limpo, em testemunhos recolhidos em 2005, disseram, sem quaisquer rodeios, que Palma tinha tudo para seguir uma carreira de orquestrador, caso o desejasse e a indústria musical portuguesa o permitisse. No entanto, pouco depois da gravação do LP, o músico parte para a Dinamarca, recusando-se a lutar numa guerra com a qual não concordava.

DENTRO E FORA DE PORTAS

Entre Setembro de 1973 e Junho de 1974, Jorge Palma viveu com o estatuto de exilado político na Dinamarca, ao lado da sua primeira mulher, Gisela Branco (já falecida). Um dos locais onde moraram ficava perto do estado livre de Christiania, uma área de Copenhaga onde o governo era exercido pelos próprios habitantes e sem submissão às leis dinamarquesas será que aí podemos encontrar a génese de «Bairro do Amor»? Sabendo pela rádio do 25 de Abril, volta pouco depois para Portugal, onde rapidamente retoma a sua actividade como arranjador. Os ventos de liberdade trazem grandes mudanças ao panorama musical e praticamente todos os registos em que Palma participa nos anos de 1974 e 1975 são marcados pelo espírito da revolução. Um dos músicos com quem mais trabalhou foi Paco Bandeira, nomeadamente no LP O Alentejo Quer um Homem Que Saiba Mandar e em alguns singles. Os seus arranjos inventivos cativavam os músicos, concretizando-se a possibilidade de trabalhar com Amália Rodrigues. Malquista pelo novo regime, a grande diva ver-se-ia injustamente afastada das luzes da ribalta, mas era ainda assim o grande nome do catálogo da Valentim de Carvalho. Palma dirige a orquestra nas canções «Malhão» e «Bailinho da Madeira», publicadas em single em Junho de 1975.

A 15 de Fevereiro de 1975, Jorge Palma surge nos ecrãs de televisão dos portugueses como concorrente, em várias frentes, ao 12º Festival da Canção. Com efeito, interpreta «O Pecado Capital», ao lado de Fernando Girão, e «Viagem» a solo, assinando a primeira com Pedro Osório e a segunda com Nuno Nazareth Fernandes. Numa decisão contestada para aquele que se queria como o primeiro Festival da Canção em democracia, o tradicional concurso anónimo aberto a todos os compositores interessados foi nesse ano substituído por convites realizados apenas a um estreito leque de nomes. Curiosamente, o júri regional deu também lugar a um outro sui generis, uma vez que foi constituído por todos os compositores presentes no certame, sob a presidência de um representante da RTP. A canção vencedora seria «Madrugada», brilhantemente interpretada por Duarte Mendes, e as duas canções com que Palma concorria quedar-se-iam pelo 7º e 8º lugares.

Apesar de o seu contrato com a Zip-Zip ter transitado para a Sassetti, casa que publicaria os dois singles com as composições do Festival, o trabalho regular com artistas da Valentim de Carvalho como o Intróito, Manuela Bravo e Pedro Barroso, além dos já referidos Paco Bandeira e Amália Rodrigues leva-o a abordar Mário Martins sobre a possibilidade de finalmente gravar um LP próprio. Confiando cegamente no músico, o A&R e produtor da Valentim de Carvalho abre-lhe mais uma vez as portas dos Estúdios de Paço d'Arcos, e, enquanto por todo o país se sucediam os atentados bombistas no chamado Verão Quente de 1975, um verdadeiro power-trio, constituído por Palma (ao comando das guitarras e teclas), Vítor Mamede (bateria) e Rui Cardoso (sopros) ambos antigos colegas dos Sindicato, grava Com Uma Viagem na Palma da Mão. A capa de João Gentil, filho do jornalista e escritor Gentil Marques e amigo de Palma, é uma marca também das convulsões da época, funcionando quase como uma collage que poderia seguir um percurso artístico independente do suporte para que foi criado. Eis, pois, o disco que andou arredado do convívio da generalidade dos portugueses durante quase 30 anos, e que neste momento merece ser (re)escutado. Oiçamos alguns dos primeiros passos d'«A Estrada do Sucesso»!

Texto: João Carlos Callixto

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2008