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O futuro da música segundo os U2

Com Songs of Innocence os U2 inscreveram um dos episódios mais acesos da indústria discográfica em 2014, levantando reflexões sobre novos caminhos para a distribuição e o debate sobre a necessidade de pagar a música que se faz e consome. Nuno Galopim reconstitui e analisa o significado daquela que poderá ser a mais arrojada investida de sempre de Bono e parceiros

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Uma das mais míticas (e consequentes) frases de Bono num palco, ao lado dos U2, foi proferida a 31 de dezembro de 1989 no Point Depot, em Dublin. Chegava ao fim uma digressão que tinha acompanhado o álbum Rattle and Hum e, apesar da dimensão global alcançada pelo grupo nos últimos anos, havia uma vontade de não cristalizar. No fim da noite, Bono explicava à plateia que aquele era o fim de qualquer coisa para os U2 e que teriam «de ir embora... e sonhar tudo de novo». Assim o fizeram, reinventando com novo fulgor o caminho que os levaria a Achtung Baby, em 1991. Não seria, contudo, experiência única, a de querer então sonhar tudo outra vez. A carga pessoal e íntima de Songs of Innocence (2014) e o modelo inesperado (e inédito) que projetou o seu lançamento não são mais senão outros frutos dessa mesma necessidade de parar, sonhar, reinventar, que faz com que, 35 anos depois de terem gravado a sua primeira maquete, os U2 sejam um grupo com dimensão global capaz de dividir opiniões e lançar um dos mais acesos debates a que a indústria discográfica assistiu nos últimos anos. Entre os prós e os contras, os encantados e os irritados, os U2 fizeram do lançamento de Songs of Innocence (mais que do álbum em si) um dos episódios do ano que agora termina.

A história pública de Songs of Innocence começou na tarde de 9 de setembro em que, em Cupertino (Califórnia), Tim Cook, o sucessor de Steve Jobs à frente da Apple, chamou os U2 a palco num dia em que revelava produtos, entre eles um novo iPhone e o Apple Watch. Tocaram «The Miracle (of Joey Ramone)», canção que abria o alinhamento de um novo álbum que, mesmo sem o sabermos, afinal já teríamos caso fôssemos um dos mais de 500 milhões de utilizadores do serviço iTunes. Segundo a Apple, 33 milhões de pessoas acederam ao disco na semana de lançamento. Ao fim de um mês, 81 milhões tinham-no ouvido, dos quais 26 milhões tinham feito o download. Desde logo fora anunciado que, em outubro, depois de uma janela de cinco semanas durante a qual o disco seria um exclusivo da Apple, chegaria uma versão física «convencional» em CD e vinil, com temas extra. O disco atingiu, assim, em poucas semanas a fasquia de audiência que The Joshua Tree, álbum de 1987, levara mais de vinte anos a conquistar, observaria em novembro Bono ao New York Times.

Depois de apresentada a notícia na convenção da Apple, os U2 juntaram-se a outros músicos e figuras do mundo dos negócios para um almoço no Hotel Los Gatos, em Silicon Valley. E aí, em jeito de discurso, Bono explicou que a internet definiu uma relação com a música ao longo da última década, pelo que o que tinham acabado de fazer era algo como «dar-lhe a volta».

Chuva de críticas

As reações começaram a chegar pouco depois. E entre elas uma sucessão de críticas violentas que, como lembra um artigo publicado pela Rolling Stone, mostrou jornalistas na área das tecnologias a usar expressões como spam, malware e dad rock. Um texto no Washington Post descrevia o rock'n'roll como sendo agora junk mail distópico. E um outro, no New York Times, comentava a falta de consentimento. Dave Navarro, no Twitter, comentou: «quer isso dizer que podemos escolher?», indagava em tom de crítica. E o guitarrista Keith Nelson afirmava que os U2 tinham, assim, deixado uma mensagem a dizer a todos que a música era coisa gratuita.

Em causa estava não o ato da oferta, mas o modo de inserir automaticamente o álbum na cloud de todos os clientes do serviço iTunes. Bono chegaria a comentar a operação como tendo sido um erro num chat no Facebook com fãs. Posição que comentaria com um «oops» à Rolling Stone, desculpando-se depois. Esse pedido de desculpas ganhou entretanto observações na imprensa. «Estou já a trabalhar num pedido de desculpas... para a desculpa», comentou com humor em entrevista à edição mais recente da Mojo. Ao New York Times Bono explicou contudo que o que fez não foi bem desculpar-se. Apenas não queria deixar uma jovem no Facebook incomodada naquela ocasião.

Numa sessão de perguntas e respostas com fãs, Bono contou que tinha tido «uma ideia bonita» e que talvez se tenha deixado entusiasmar, como relatou o New York Times. O músico explicou ali que os músicos são «pródigos» a agir assim: «uma gota de megalomania, um toque de generosidade, uma pitada de autopromoção e um medo profundo de que estas canções nas quais deitámos o que havia nos nossos corações ao longo dos últimos anos não fossem escutadas». E alertou ainda: «há por aí muito ruído», admitindo que eles mesmos tinham sido algo «barulhentos» a chamar as atenções.

Bono comparou à Rolling Stone o facto de o disco ter entrado diretamente nos telefones de algumas pessoas ao ato de colocar um pacote de leite nos frigoríficos sem que os seus donos o pedissem. Mas acrescentou então que «foi uma espécie de acidente» porque «o leite para ter ficado à porta da casa». Também em declarações à Rolling Stone, Adam Clayton explicou que as grandes companhias digitais «cruzam fronteiras», notando que «têm muito mais poder que uma corporação tradicional». Do ponto de vista dos U2, o que fizeram, como explica, foi fazer chegar o álbum a tantas pessoas quanto o possível. Já ao Guardian, o mesmo músico explicou que o plano não era o de ser «controverso», lembrando que «no mundo atual há muita tagarelice, pelo que, para a conseguir fazer», teme que os U2 estejam destinados «a ter de fazer muito barulho» por si mesmos.

Num estilo mais telegráfico e menos justificativo, Larry Mullen Jr. respondeu à Rolling Stone que não se preocupou minimamente com as reações que surgiram na ressaca das revelações em Cupertino. Tal como acontecera com a campanha dos iPods dez anos antes, o baterista admite agora que tinha dúvidas. Mas, como ali depois observa, «nem era preciso pensar muito: eles queriam comprar o nosso disco e oferecêlo às pessoas». The Edge admitiu por sua vez ao Guardian ter também tido dúvidas sobre o modelo tanto antes como depois do lançamento, sublinhando contudo que era «a coisa certa a fazer» e que era «uma oportunidade que só surgiria uma única vez para quem quer que fosse», mas que não crê que «alguém o queira fazer outra vez».

Perante as críticas, que chegaram a comparar, como sublinhou a Time, este lançamento a uma «heresia», The Edge comenta ali que o modelo usado é na verdade «muito subversivo, muito punk rock, muito disruptivo». Bono, por sua vez, comparou nessa mesma reportagem a relação entre a Apple e a banda ao tipo de ligação de mecenas com artista que unia os Medici a Miguel Ângelo, na Florença do século XVI.

Bono é claro quando diz que não se importa de ser disruptivo. Ou, como ele mesmo diz à Rolling Stone, aquilo a que Lee «Scratch» Perry chamaria «o grande incomodador» [«the great upsetter», no original em inglês]. Todos os seus heróis, explica, «eram assim», se bem que ele mesmo reconheça que pode ter «um gene irritante adicional», o que o «ajuda nesta demanda», graceja. Numa reportagem do Guardian, que encontrou depois os U2 em ensaios na Cote d'Azur, Bono conta mesmo que há 30 anos estavam já a incomodar as pessoas, lembrando que «o papel da arte é o de dividir».

Haverá talvez outras mais razões para explicar tamanha intensidade de reações. Bono conta na Rolling Stone que «é muito fácil olhar para os U2 e reparar que não há junkies no grupo, pelo menos pelo que se vê, não há ninguém morto ou a morrer e eles parecem dar-se bem uns com os outros e estão apaixonados pelas suas mulheres. Já chega! Afastem-nos!»... Nos bastidores da Web Summit, conferência sobre tecnologia que teve lugar em Dublin, no passado mês de novembro, Bono explicou ao New York Times que os U2 sempre se preocuparam com as questões de marketing, mesmo antes «de as pessoas olharem para as bandas como marcas». Na conferência, como descreve o jornal, Bono defendeu que os U2 preferem «ser os primeiros de uma nova ninhada a ser os últimos de uma ninhada moribunda». Disse que tinham previsto o que poderia ser a trajetória do seu álbum e que não tinham gostado da ideia de que «estaria fora das tabelas de vendas em seis semanas». Mesmo reconhecendo que para alguns tenha sido impopular, o acordo com o iTunes é um dos feitos que mais orgulha o grupo.

À revista Mojo, que deu capa aos U2 na sua mais recente edição, Bono gracejou ao lembrar que «dos grandes crimes contra a humanidade» este (referindo-se ao modelo de lançamento do álbum) é um «erro honesto», e deixou claro que não vai perder o sono por causa deste assunto. E para si é caso arrumado.

Novo manager, novas ideias

Este novo trabalho em colaboração com a Apple foi pensado por Bono com o novo manager Guy Oseary, um velho parceiro empresarial de Madonna que tomou os destinos dos U2 nas mãos após a retirada de cena de Paul McGuinness (que os acompanhara desde o início) em 2013.

A relação dos U2 com a Apple havia sido interrompida quando a Blackberry entrou em cena para patrocinar a digressão 360. Houve mesmo discussões com Steve Jobs e uma reconciliação mais tarde. A relação com a Product Red (ver caixa) não fora, contudo, afetada e, ao todo, a Apple tinha recolhido 76 milhões de dólares para essa operação criada por Bono que recolhe fundos para a luta contra o VIH.

A desmaterialização da música não foi uma dor de cabeça para os U2. E o grupo foi mesmo dos primeiros a aderir a novas modalidades de venda digital, nomeadamente através do iTunes. Como Bono admitiu ao New York Times, o formato físico não é algo necessário para validar hoje o trabalho de um artista. O velho modelo, para si, está «avariado». O músico aponta que «as pessoas na música falam contra o Spotify mas o streaming está aqui para ficar, o público quer que assim seja e temos de encontrar uma forma de funcionar para todos», acrescentou ao mesmo jornal depois do painel em que participou no Web Summit.

Entretanto, ao Guardian Bono explicou que a internet é, no presente, algo que se pode comparar ao momento em que a humanidade descobriu o fogo. E levanta a grande questão: «o que vamos fazer?». É, como acrescenta na entrevista, tudo «muito excitante, muito assustador».

Mas mesmo «assustador», este é um mundo que os atrai. E Bono revelou à Time que a banda está a desenvolver juntamente com a Apple um novo «formato musical interativo que não pode ser pirateado e que devolverá a noção de artwork [o grafismo das capas] de uma forma poderosa, e no qual se poderá jogar com as letras e ir para os bastidores das canções quando se anda de metro com um iPad, vendo tudo nos seus grandes ecrãs lisos». Ainda à Time Bono acrescentou que nesse novo formato as pessoas «verão fotografia como nunca antes viram». Fala em concreto do novo álbum Songs of Experience, cujo lançamento apontou na agenda a 18 meses de distância de Songs of Innocence. Sobre o novo disco revela assim que será lançado já num novo formato, comentando de forma categórica e confiante: «acho que vai ser excitante para todo o negócio da música». Mais reservada, a Apple não disse mais à mesma revista senão que declinava «comentar planos de futuros produtos». A companhia é prudente. E basta recordar a história de alguns formatos desaparecidos prematuramente e podemos procurá-los até apenas na era digital, do DAT ao MiniDisc para reconhecer que nem sempre revolução anunciada é conquista concretizada.

Em defesa da música paga

O valor pago pela Apple aos U2 por Songs of Innocence não foi oficialmente confirmado, mas, segundo a Time, uma fonte terá avançado um orçamento de marketing na ordem dos 100 milhões de dólares (aproximadamente 80,3 milhões de euros). Em Cupertino, logo após o lançamento do álbum, Bono deixou claro que não acredita na música à borla. «A música é um sacramento», comentou. E ao Guardian lembrou que, pelo trabalho em Songs of Innocence, os U2 foram pagos por uma companhia «que está a lutar para que os músicos sejam pagos».

Numa das suas primeiras negociações com a editora, com a qual acabaram por permanecer ligados a Island Records, os U2 aceitaram uma redução dos royalties em favor da posse das gravações. Uma decisão que, de Bono, valeu a confissão recente (via Time) de ter passado uns «anos assustadores» perante o cenário de quebra progressiva de venda de discos.

No livro U2 by U2, onde a história do grupo se conta em declarações dos quatro músicos e de Paul McGuinness que era o manager à altura da sua edição, Bono falou da relação, que diz ser antiga e natural, entre a música e o comércio: «sempre existiu uma relação entre a arte e o comércio e nunca achei que fôssemos artistas sagrados nem que as pessoas que vendiam a nossa música tivessem as mãos sujas pelo lucro imundo. Os artistas são tão gananciosos e altruístas como qualquer outra pessoa. Temos um negócio, somos mercadores que, na Idade Média, teriam deambulado de cidade em cidade vendendo a sua mercadoria. Já saímos dessa. Tentamos obter os melhores contratos possíveis pelas canções. Tentemos protegê-las não permitindo que no-las roubem. Tentamos fazê-las passar na rádio de modo a que as pessoas possam ouvi-las. Tentamos fazê-las passar na televisão para que as pessoas possam ouvi-las e ver os vídeos que temos feito».

Em U2 by U2, Bono descreve Steve Jobs, cofundador e antigo presidente da Apple, como alguém que «resolveu o problema da indústria musical com a pirataria». Ele mesmo explica a sua tese: «o roubo da música é um problema real. Nós criamos canções enquanto os outros criam objetos e é um negócio dispendioso. E, não obstante o que alguns enfants terribles andavam a dizer às pessoas, a pirataria musical estava, de facto, a modificar a vida dos músicos. Depois surgiu este tecnólogo que acreditava que, se fosse feita de forma fácil, divertida e razoavelmente rentável, as pessoas comprariam canções em vez de as roubar. As pessoas podem tirar água da torneira mas compram-na engarrafada porque acreditam ser de melhor qualidade e porque gostam da garrafa. Passa-se o mesmo com a música», como se lê no livro.

E depois do horizonte?

O álbum que gerou tamanhas discussões este ano é o sucessor direto daquele que foi (excetuando os dois primeiros, Boy e October, de 1980 e 81) o episódio comercialmente menos bem-sucedido da discografia do grupo. The Edge explicou ao Guardian que No Line on the Horizon, gravado parcialmente em Marrocos e editado em 2009, fora inicialmente concebido como algo diferente e fora do trilho habitual. Mas que, para o final, tomou a consciência de que, para os U2, «não há discos pequenos».

Adam Clayton confessou, em tempos, à revista Q que o single «Get On Your Boots», usado como aperitivo antes do lançamento desse álbum de 2009, «não tinha incendiado a imaginação das pessoas». E, mesmo tendo Bono depois observado que o álbum «vendera muito bem», foram precisos oito meses para o disco chegar ao estatuto de platina nos EUA, um ritmo e um patamar abaixo do que conhecera o anterior How to Dismantle an Atomic Bomb (de 2004), que alcançara ali a tripla platina em apenas três semanas.

Larry Mullen observou, como recorda o livro The Greatest Albums You'll Never Hear, que as canções ali eram «boas» mas estavam «inacabadas», no que o autor, Bruno MacDonald, traduz como ecos do que fora o veredicto da banda acerca de Pop, o seu álbum de 1997. Uma outra comparação com os tempos de Pop leva-nos ao alinhamento das digressões que se seguiram tanto a esse disco como a No Line on the Horizon. A PopMart Tour abriu com dez canções do então novo álbum no alinhamento dos concertos, terminando a sua vida na estrada com sete canções do mesmo disco entre as que tocavam cada noite. A 360 Tour, que por sua vez dera primeiros passos com sete temas do disco de 2009 no set list, chegaria ao fim com apenas três canções de No Line on the Horizon, entre elas o single «Get On Your Boots». Feitas as contas, ao fim do seu tempo de vida nos escaparates das lojas, o álbum No Line on the Horizon atingiu vendas globais na ordem dos cinco milhões de exemplares. Não são números maus, comparados com os que tantos outros discos, até mesmo casos de sucesso, conseguem atingir. Mas, como observa o livro de Bruno McDonald, nenhum dos temas do disco tinha acabado transformado numa peça obrigatória para a vida em palco dos U2. Em U2 by U2 Paul McGuiness descrevera já Rattle & Hum, de 1988, como um disco que «é considerado como um dos insucessos dos U2», atualmente com uma soma de 15 milhões de cópias vendidas. All That You Can't Leave Behind (2000) vendeu 12 milhões e How to Dismantle an Atomic Bomb (2004) tinha chegado aos 9 milhões. Os números aqui não deixam por isso dúvidas. O álbum de 2009 ficou aquém do habitual.

Uma sucessão difícil

Logo por alturas da edição de No Line on the Horizon, Bono avançou ao Observer que estava na calha, para edição ainda antes do fim desse ano, um outro «disco mais meditativo sobre a temática da peregrinação». Chamar-se-ia Songs of Ascent e, como descreveram na altura à Rolling Stone, teria um mood como o de Kind of Blue, de Miles Davis ou A Love Supreme, de John Coltrane. Chegaram mesmo a avançar o nome de um possível primeiro single: «Every Breaking Wave» (canção que acabaria por surgir em Songs of Innocence e que teria estreia ao vivo em agosto de 2010). The Edge apontaria por sua vez «Kingdom of Your Love», que seria depois renomeada como «Soon», como sendo outro tema possível no alinhamento do eventual novo álbum. A canção seria tocada durante a 360 Tour, antecedendo, juntamente com «Space Oddity», de David Bowie, a chegada ao palco da banda. Os planos, contudo, foram mudando. E, como se observa ainda no recentemente publicado The Greatest Albums You'll Never Hear, as visões sobre o que poderia acontecer «variavam consoante aquele com quem os entrevistadores iam conversando». O livro recorda declarações de Bono que referem o arranque de sessões com Rick Rubin, falando de um álbum com «batidas e grandes guitarras».

The Edge, por sua vez, é lembrado a sublinhar que o grupo adoraria a ideia de ter um novo disco mais cedo do que mais tarde, mas que tudo dependeria do tempo disponível. Já Adam Clayton é citado a dizer que até terem dez canções acabadas, misturadas e arrumadas numa prateleira um álbum nunca é algo definitivo, acrescentando que «quando Bono ouve duas notas juntas ele ouve logo uma canção completa», ao passo que «qualquer outro que ouve duas notas juntas ali escuta um ponto de partida», lê-se no livro. Não seria a primeira vez que criariam um novo álbum com uma digressão em curso. Em inícios dos anos 90, foi em plena digressão que gravaram Zooropa.

Larry Mullen recorda, em U2 by U2, que «o espetáculo costumava terminar pelas 23h00» e que, mal saíam do palco, entravam «imediatamente nos carros» e seguiam diretos para o aeroporto. «Como os espetáculos eram na Europa» estavam geralmente «uma ou duas horas adiantados», por isso chegavam à Irlanda por volta da meia-noite e iam «diretamente para o estúdio». Trabalhavam duas horas, seguiam para casa, descansavam. Quando havia dois dias de intervalo trabalhavam no estúdio na tarde seguinte. E no dia seguinte voltavam ao aeroporto e seguiam para a cidade seguinte. «Andámos nisto um mês. Foi uma loucura, mas foi uma boa loucura», conclui o baterista. As opiniões que registam no livro deixam claro que foi uma experiência que a todos satisfez. Larry nota que traduz «o som dos U2 a adaptaremse a um novo ambiente de gravação», notando, em jeito de elogio, que Edge «estava a fazer experiências e os U2 eram as cobaias». Adam sublinha que «é um disco estranho» e um dos seus preferidos. E Bono conta que foi a tentativa do grupo «de criar um novo mundo e não apenas canções», acrescentando que «é um belo mundo».

Se, pelos vistos, a experiência de trabalhar em tempo de digressão tinha resultado em 1993, como seria agora? No decurso da 360 Tour outras novas canções chegaram a ser estreadas. Temas como «Return of the Stingray Guitar», que acabaria por substituir «Kingdom of Your Love» no início da noite, juntamente com a balada «North Star» e «Glastonbury», levantavam novas suposições sobre o que, em termos de discografia, seriam as possíveis cenas dos próximos capítulos. Bruno McDonald refere que, a dada altura (por volta de 2010), haveria no horizonte ideias para um eventual disco de dança, um de rock, o já muito falado Songs of Ascent e as canções para um musical baseado na figura do Homem-Aranha.

Sobre o musical Spider Man: Turn Off the Dark, na Broadway, Edge referiu ao Guardian que houve bons momentos, deixa claro que não se arrepende de o ter feito, mas admite que a dada altura se transformou num pesadelo. Nota em particular que não gostou de se envolver com certos aspetos do espectáculo com os quais não se sentia confortável e que não quer voltar nunca a envolver-se até aquele ponto com nada no futuro. Em finais do ano o grupo tinha protagonizado sessões com vários colaboradores, entre eles Will.i.Am, Danger Mouse e RedOne. Era preciso tomar decisões.

De volta ao trilho

Songs of Ascent foi ainda discutido publicamente por Bono numa entrevista em janeiro de 2012, mas as sessões com Danger Mouse abriram caminho para outras experiências... Por enquanto, o projeto (nunca terminado) mantém-se na gaveta.

Entretanto, a 360 Tour, que decorrera entre junho de 2009 e julho de 2011 e que passou por Coimbra em duas noites no início de outubro de 2010, tornava-se a mais rentável de todo o sempre, arrecadando 772 milhões de dólares ao cabo de 110 concertos, superando assim os 635 milhões de dólares da A Bigger Bang Tour e os 495 milhões de dólares da Voodoo Lounge Tour, ambas dos Rolling Stones, que, juntamente com a Black Ice World Tour dos AC/CD (477 milhões de dólares) e a digressão The Wall Live, de Roger Waters (464 milhões de dólares) fazem o Top 5 dos palcos mais rentáveis de sempre em terreno pop/rock.

À procura de novos caminhos para um novo álbum chegaram a experimentar uma possível (e acima citada) colaboração com RedOne que se faz célebre por colaborar em The Fame, de Lady Gaga. Mas, como confessaria Adam Clayton à Rolling Stone, apesar do que reconhece como tendo sido os bons resultados dessa experiência, aquela não representava a essência daquilo em que o grupo «é bom». Em 2010 tiveram primeiras sessões com Danger Mouse produtor e um dos dois elementos dos Gnarls Barkley e dos Broken Bells e o ambiente acabou por entusiasmá-los. O mesmo Adam Clayton revelou ao jornalista da Rolling Stone que os discos dos U2 preferidos de Danger Mouse eram Pop e Achtung Baby, e que havia uma área do trabalho do grupo «na qual não está interessado de todo».

Há cerca de um ano, os U2 tinham material suficiente para um álbum numa linha mais dominada pela presença das eletrónicas, tal como se escuta em «Sleep Like a Baby Tonight», de Songs of Innocence. Mas, já em fase de misturas, sentiram que não tinham atingido o patamar desejado e que havia trabalho ainda a fazer. Numa altura em que Danger Mouse se juntara a James Mercer, dos The Shins, para gravar aquele que entretanto surgiu como o segundo álbum do seu projeto Broken Bells, os U2 regressaram a estúdio na companhia de Paul Epworth, Ryan Tedder, o velho parceiro Flood (com o qual haviam trabalhado nos dias de Zooropa) e Declan Gaffney.

O trabalho foi acontecendo pelo mundo fora, numa altura em que os elementos do grupo deram por si a partilhar de novo (como nos primeiros tempos) os seus espaços de vida quotidiana. E de Rick Rubin com quem tinham trabalhado anos antes chegou um conselho que os fez pensar em como a solidez de uma canção pode estar numa estrutura mais tradicional. O artigo na Rolling Stone nota que o que a Apple deu aos U2 uma data a cumprir.

Danger Mouse regressou na reta final dos trabalhos, tendo os U2 comentado a humildade com que encarou o facto de alguns dos temas em que agora procurava a forma final estarem bem diferentes daqueles que deixara quando se havia afastado das sessões algum tempo antes.

Songs of Innocence foi já descrito como o álbum para o qual Bono escreveu canções mais pessoais, sendo que um amigo, via e-mail, chegou mesmo a perguntar-lhe se tinha finalmente feito um primeiro disco aos 54 anos... O álbum de companhia, que supostamente surgirá após uma janela de 18 meses sobre este disco, deverá ser diferente. E, segundo a Rolling Stone, há uma ideia de iniciar uma digressão em espaços fechados ainda sob os efeitos da presença intimista destas canções, passando os concertos para espaços ao ar livre quando finalmente chegar Songs of Experience. Um pouco como aconteceu com a Zoo TV Tour, que acompanhou em grandes pavilhões a edição de Achtung Baby e que, em 1993, ganhou dimensão de celebração em recintos abertos quando chegou a etapa Zooropa (nome que acabaria por dar título ao álbum seguinte na discografia do grupo).

Sobre o projeto, que tem como título de trabalho Songs of Experience, Adam Clayton afirmou à Rolling Stone que o álbum terá «de ser relevante», caso contrário admite que acabará na gaveta e, eventualmente, transformado noutro disco. E para provar que o disco existe e que está em processo de criação, Bono chegou mesmo a citar à Rolling Stone um excerto da letra de uma nova canção que deverá ter por título «The Morning After Innocence». E admite mesmo que Songs of Ascent poderá acabar por surgir. Será, assim, uma trilogia? Por seu lado, o novo manager do grupo avançou à Time que há muito pelo caminho e revelações a fazer em breve. «Não há como parar este comboio», comentou à revista.

O que aí vem

Com ou não um Songs of Experience dentro da tal janela de 18 meses face a Songs of Innocence, mais a hipótese de uma possível vida para Songs of Ascent na linha do horizonte, a vida dos U2 sugere também um regresso iminente à estrada. A Rolling Stone encontrou os U2 no mês de outubro, em tempo de ensaios. Num pequeno estúdio de televisão na Riviera francesa, entre todo o equipamento, a alcatifa púrpura que forra o chão e as paredes de madeira o jornalista conta que escuta a versão em desenvolvimento que o tema «The Miracle (of Joey Ramone)» terá quando for tocado ao vivo. Bono, como reparara a reportagem, sugere que Edge use o som de «Mysterious Ways» (dos tempos de Achtung Baby). E assim acontece, com Larry Mullen a juntar a sua parte e Adam Clayton, como se refere, a tocar uma parte de baixo «tão grande que sobre ela se poderia construir uma casa». E o milagre vai ganhando forma, com Bono claramente satisfeito no final do ensaio. A canção evolui para algo que não é uma tentativa de pastiche dos Ramones. As formas vão-se alterando e, na manhã seguinte, The Edge notará que a sugestão de usar o som de «Mysterious Ways» não tinha sido a solução, mas antes a chave para a ela depois chegar.

Num outro ensaio, a que a reportagem da Rolling Stone também assistiu, o grupo tenta encontrar a forma de abordar ao vivo Volcano, outro dos temas do novo álbum, canção onde se evoca o instante da formação dos U2. É certo que trabalham estas versões para as apresentarem, para já, ao vivo em programas de televisão e sessões a registar por algumas estações de rádio, dando continuidade ao percurso de vida de um álbum que, no início de dezembro viu o tema «Every Breaking Wave» a ser distribuído entre as rádios como novo single. Mas a estrada está um pouco mais adiante, numa digressão que todos sabemos que vem a caminho. No fundo, é com essa meta maior que as canções que agora escutamos em disco se preparam para respirar em frente de multidões.

Este lançamento fez o grupo pensar como usar a nova tecnologia. «Porque ela nos está a usar», comenta Bono à Rolling Stone. Isso levou-o a refletir que «deveria haver uma forma para levar estas canções a novos públicos». E por isso defende que tinham de começar de novo, lembrando que na essência daquilo que são como banda «está sempre aquele desejo por novos ouvidos, novos olhos, novos corações». Bono confessa à mesma reportagem que a coisa a que mais se agarrou na semana de «shitstorm» como a que viveram após o lançamento do disco foi, «além de um guarda-chuva», a consciência de haver uma linha direta de diálogo com o seu público, que ele mesmo diz ter uma noção de quem os U2 são em função da música «íntima» que têm «feito ao longo dos anos». É por isso em busca desse contacto que partem de novo. E, goste-se ou não das opções tomadas com este álbum, com ele somaram mais um episódio de ousadia e desafio no currículo. Poucos com o seu estatuto o fariam.

Texto: Nuno Galopim

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2015