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Ornatos Violeta na capa da BLITZ 76: recorde aqui a entrevista de 2012

Há quatro anos, os Ornatos estavam na capa da BLITZ. Recorde aqui a entrevista com os cinco músicos no Porto, então à porta de seis concertos nos coliseus

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Fizeram-se banda nos anos 90 mas foi após o final, em 2001, que o culto em redor dos Ornatos Violeta foi crescendo, em lume brando, até aos dias de hoje. Este verão, o festival Paredes de Coura engalanou-se para receber o primeiro concerto de uma série de espetáculos de celebração (em outubro há sete coliseus, em Lisboa, no Porto e nos Açores). Lia Pereira foi ao Porto encontrar uma banda em paz com a sua história, ansiosa por partilhar os episódios mais mirabolantes do seu percurso e, acima de tudo, apaixonada pela amizade que continua a servir-lhe de cimento.

É num antigo bar da Rua da Alegria, no Porto, que encontramos a sala de ensaios dos Ornatos Violeta. Quando tocamos à campainha, avariada, quem nos abre a porta é Alice, a filha do baterista Kinörm, que aos 11 anos parece gerir com pulso firme a agenda da banda do pai («não acredito que já estão a jogar», critica a certa altura, quando ouve Kinörm disputar uma renhida partida de matrecos com o baixista Nuno Prata). Um a um, o teclista Elísio Donas (ainda com a pulseira de Paredes de Coura no pulso direito), o guitarrista Peixe e o vocalista Manel Cruz chegam ao quartel-general dos Ornatos Violeta, modelo 2012. Sentados à volta da mesma mesa, enquanto Peixe dedilha uma guitarra acústica, as memórias vão fluindo. Uma versão áudio desta entrevista incluiria versões a capela de canções dos Violent Femmes, momentos de relativa loucura e gargalhadas, muitas gargalhadas.

Quem é quem

Nem sempre os Ornatos Violeta foram a banda de Manuel Cruz, Peixe, Nuno Prata, Elísio Donas e Kinörm. Mais de 20 anos após a formação do grupo em 1991, no Porto os músicos puxam pela cabeça para reconstituir as várias formações de uma banda que chegou a ter outros vocalistas, um violoncelista e a fazer audições para teclistas.

Nuno Prata: Começámos a banda em 1991 com o Ricardo [Almeida, vocalista]. Tínhamos uma banda que eram os Suores dos Reis, nós os quatro [Nuno, Peixe, Manel Cruz e Kinörm] mais dois colegas nossos da [escola] Soares dos Reis, que eram o Joel e o Rui Ricardo, que agora faz ilustração para a BLITZ. Depois decidimos fazer uma coisa mais «a sério», mas nenhum de nós queria cantar temos maquetes que são o Peixe a solar do início ao fim da música e arranjámos um vocalista que escreveu umas letras à pressa para o primeiro concerto, o Ricardo. O primeiro concerto foi no Sinatra's. Também fizemos um concerto na Soares dos Reis, com o Ricardo. Depois entrou um violoncelista, o Rui Costa, que é designer.

Elísio Donas: Eu estive nesse concerto na Soares dos Reis, vi-os a fazer som, fartei-me e fui-me embora, não vi o concerto. Depois, no Sinatra's, passei à porta e também não entrei. Depois há um vídeo no Rivoli, em que já são só eles os quatro, em que eu apareço no público, a ver. Eu tinha uma certa inveja deles, porque achava que o meu projeto era bastante medíocre, comparativamente. Achava eu e eles também mo disseram, tinham essa frontalidade.

Manel Cruz: Eu é que fui fazer-te a audição a Rio Tinto!

ED: Mas depois levaste-me a Água Viva.

MC: Fui a Ermesinde ver-te tocar piano e cheguei aqui e disse: fui ver um Elísio, o gajo toca piano como o caralho! Mas mesmo notas, não é assim como nós.

Nuno Prata: Os Violent Femmes tiveram um disco mais produzido, o Why Do Birds Sing, e um gajo ficou naquela: ei, era fixe termos um [órgão] Hammond! A tua entrada é contemporânea disso. E nunca tivemos um Hammond (risos).

ED: Com 17 ou 18 anos toda a gente acredita muito no seu projeto, mas em nós sempre senti uma vontade de fazer e acontecer, de trabalhar seriamente, muito engraçada.

O outro Ornato

Amigo dos Ornatos desde 1989, altura em que tinha 15 anos, Jorge Guerra e Paz cedeu, antes de a banda gravar qualquer disco, a sua casa em Gafanha do Carmo, perto de Aveiro, para concertos espontâneos e aventuras mais selvagens. A banda recorda, agora, os dias em que o amigo era «quase um quinto Ornato só que não tocava, mandava piadas!».

NP: Fomos várias vezes à Gafanha, Foi lá que fizemos a «Dias de Fé» [canção dos primórdios da banda que encerrou o concerto de Paredes de Coura, este ano].

P: Lembro-me perfeitamente acho eu (risos) que eu, o Manel e o Nuno fomos de comboio para Aveiro a fazer uma música, a «Vive-se Bem». E quando chegámos, em vez de tocarmos à campainha, tocávamos a música!

MC: E depois fazíamos uma coisa horrível: chegávamos, o pessoal estava a dormir, púnhamos o tripézinho da tarola, as baquetas e... PÁ, PÁ, PÁ! Tarola aos ouvidos de um gajo que estava a dormir.

NP: E chegámos a dar lá um concerto numa mesa.

K: Todos bêbedos.

MC: Era aquela mesinha que fazia tipo passerele dos U2... [gargalhada geral] E atrás tinha uma parte mais larga, que já eram uns sofás. E um gajo vinha à frente falar com o público que era para aí o Filipe, aquele do Ouvido Absoluto, que não tinha Ouvido Absoluto...

ED: Uma coisa engraçada e que já não volta a acontecer, porque já não temos idade, são estas vivências extra-musicais, que começam muito cedo. Eu conheci o Manel na Augusto Gil, no ciclo, e depois reencontrámo-nos à conta do Paul Simon e dos Beatles.

MC: Eu tinha inveja de ti, porque andavas sempre ao colo das gajas todas. Era impressionante...

ED: Eu era tão alto como sou agora e elas adotavam-me.

Anos 90 bem vividos (na noite do Porto)

Em meados dos anos 90, tinham os membros dos Ornatos 20 e poucos anos, a Cooperativa Gesto, no Porto, recebia com frequência concertos e outras atividades artísticas, como os intercâmbios internacionais que levariam a banda do Porto a tocar em França e na Alemanha.

ED: A primeira crítica que saiu a um concerto nosso foi [de um concerto na Gesto], até me lembro do título: Sonata para Piano Constipado, do Jorge Manuel Lopes [no BLITZ].

K: Houve uma altura em que íamos lá muitas noites seguidas.

P: Foi num desses intercâmbios do Freesom que conhecemos [a banda francesa] Red Wing Mosquito Stings, e foi através deles que fomos a França.

MC: E chegámos a dar um concerto na Gesto.

P: Tocámos a «Martelinhos» no encore! Todos, cantando: «Martelinhos... ah-ah-ah... Martelinhos... ah-ah-ah». (risos)

MC: E a outra: «Férias no Haiti... por um homem sóóóó». [canta]

NP: Chegámos a aparecer na Gesto mascarados de super-heróis, com fatos feitos de papel de alumínio. Eu era o Homem-Fabuloso, de fato-de-treino amarelo, com umas cuecas azul-bebé por fora da roupa e outras na cabeça, a fazer de máscara; o Manel era o Capitão Genro, o Elísio o Super-MM e o Kinörm o Raio. Também me lembro que o Peixe ainda tinha [o carro] Veiga, o Manel saltou para o tejadilho e aquilo amassou!

MC: E também sujei o carro todo à tua mãe!

ED: A Gesto editou uma compilação da Freesom com a [nossa canção] «Dez Lamúrias por Gole». Acho que não há muitas cópias por aí...

NP: Está em saldo, na Gesto! 1 euro! Estão a defazer-se das coisas (risada geral).

À solta, Europa fora

Muito jovens e sem qualquer disco editado, os Ornatos Violeta fazem-se à estrada e dão concertos em França e na Alemanha. A experiência muda profundamente a banda do Porto: apaixonam-se pelos franceses Red Wing Mosquito Stings, deixam-se fascinar pelo profissionalismo do que se fazia «lá fora» e voltam para casa decididos a deitar fora tudo o que tinham escrito até então, recomeçando do zero. Cão!, o primeiro disco, nasceria pouco depois.

ED: Era política nenhuma banda ser entrevistada na Antena 3 se não tivesse disco, mas o Henrique Amaro abriu uma exceção e telefonámos diretamente do bar [onde estávamos a tocar em França] para entrarmos no programa dele. Ele já tinha umas maquetes, que eu tinha a mania de espalhar cassetes por aí. Ligámos do telefone do bar, mas nem se devia ouvir nada, que estavam os Red Wings a tocar. Isto foi num barzinho que tinha concertos todas as semanas. E foi demais!

P: Dos melhores concertos que demos! Lá fora, de forma geral, o público é mais recetivo a coisas que não conhece. Nesse concerto, estávamos a fazer soundcheck, ou line check, porque eram umas bandas a seguir às outras, o Elísio começa a tocar a «Madame Banhos» no teclado e o público todo «wuhuu!», a dançar! Ninguém nos conhecia e o público adorou aquela merda, aqui em Portugal vais tocar e um gajo fica assim [cruza os braços e empina o nariz].

ED: Lá trabalhava-se seriamente, a todos os níveis, desde o início de uma banda, enquanto aqui as coisas eram mais relaxadas e organizadas de forma mais leve. Cá havia festivais feitos em cima do joelho, lá havia o culto dos concertos. Passei-me, porque via concertos todos os dias, mas em «n» sítios da cidade! As bandas do nosso patamar, sem disco, trabalhavam com uma seriedade e um profissionalismo que nos motivaram. Mudou-nos a vida, musical e pessoalmente. Viemos de lá, deitámos tudo fora e fomos ensaiar manhã e noite para o estúdio.

«Nasceu um Cão!»

Em 1997 os Ornatos Violeta gravam, para a editora «major» Polygram, o seu primeiro álbum, Cão!. Hoje, identificam-se mais com o seu sucessor, O Monstro Precisa de Amigos, mas à época o parto foi motivo de euforia e reflexo dos seis anos que a banda já levava a trabalhar junta.

ED: Por acaso tenho ouvido o Cão!, mais por saudades do que por trabalho. Há uma questão importante: o Cão! foi construído em seis anos, ao passo que o Monstro o foi em ano e meio...

P: O Cão! é um reflexo de tudo o que um gajo aprendeu desde o início. E é normal que no segundo haja crises criativas, é quase como uma depressão pós-parto.

NP: Mas o Cão! não teve assim um grande sucesso para um gajo ficar [nervoso]...

P: Independentemente do sucesso, está ali um registo do processo. É como perder a virgindade: é mesmo diferente o que tu és antes, e o que és depois.

K: Mesmo que não tenha havido esse sucesso, de vendas e de público, era uma coisa que já andávamos para fazer há montes de tempo! Ter um disco com design, tudo feito direitinho, foi mesmo [cruzar uma] meta.

ED: Finalmente agradecemos aos pais!

P: Lembro-me de o Manel me ligar de Londres a dizer: nasceu um cão! Porque ele tinha ido para Londres com o Mário Barreiros masterizar o disco. Atendo o telefone e ouço a música de fundo, e mesmo pelo telefone dava para perceber que o som estava diferente.

ED: Mas correu bem - ganhámos o prémio revelação [do jornal BLITZ] e os jornais diziam que era um dos melhores discos do ano. Não vendeu muito, acho que agora é Disco de Ouro pelo menos em dezembro faltava vender 50 exemplares. Até fiquei frustrado quando saiu a caixa [com os dois discos], porque por causa disso não íamos chegar ao Ouro!

NP: Estive a ouvir o Cão! para os ensaios e as letras são muito mais compridas, mas ao mesmo tempo há aquelas músicas pequenininhas [como «Raquel», «Letra S», «Chuva» ou «Esfera»]. E, no fim, o Hino da RTP. Do fim da emissão! Eram mesmo outros tempos. Hoje é inconcebível: são as televendas...

ED: Eu estou a lembrar-me da Raquel da preparatória, que dá origem à «Raquel» do Cão!... Apaixonei-me completamente por ela. Quando voltei a ouvir o Cão! lembrei-me dessas histórias: o Meia Cave, a «Dama do Sinal»...

P: Lembro-me de chegar ao estúdio e o Manel dizer: saiu-me aqui uma cena! Era a «Esfera». Mas era sobre o quê? Eu não sei.

MC: Sobre a Sandra do [bar] trintaeum. Sei que não é tão poético como «Esfera», mas... (risos) Por acaso lembro-me de o Peixinho chegar às vezes à minha beira, assim um bocado a medo, como quem diz «se calhar não quer falar disso, ou não sabe», e perguntar: «do que é que tu falas naquela letra, o que é que quer dizer?». Mas era fixe, era um sinal de interesse.

P: Muitas vezes eu suspeitava do assunto, mas como as letras às vezes são um bocado ambíguas...

MC: E agora ainda te lembras de alguns episódios melhor que eu.

P: Lembro-me daquelas imagenzinhas da «Dama do Sinal»: «chega o comboio à nação» a nação é o Porto, como nós costumamos dizer.

MC: Quando tinha medo de me esquecer das letras, esquecia-me. Nunca foi dramático, mas lembro-me de muitas vezes me esquecer. No início fazia-me confusão, agora já não faz tanta. Claro que não gosto mas já não acho que é o fim do mundo. Na altura ficava branco e parecia que entrava dentro de um sonho, tipo: «e agora, onde é que eu estou?» [com voz arrastada]. E olhava para eles, e eles todos em câmara lenta (risos). Agora em Paredes de Coura fiz o trabalho de casa. Muitas vezes tem a ver, não com teres feito, mas com a noção de teres feito. Se estás sem tocar há montes de tempo e vais para o concerto com a sensação de que não trabalhaste o suficiente... às vezes era por aí que me enganava.

Concertos: do oito ao oitenta

Desde sempre uma banda excitante de ver (e ouvir) em cima de um palco, os Ornatos Violeta tocaram, este verão, para uma imensa plateia em Paredes de Coura. Até 2001, altura em que se separaram, chegaram a reunir multidões consideráveis e, sobretudo, empolgadas em salas como a Aula Magna, em Lisboa, e festivais como as Noites Ritual Rock, no Porto. À porta dos concertos nos coliseus, os cinco recordam algumas atuações menos glamourosas.

NP: Uma vez fomos tocar para o terraço do [amigo] Azinheira e chegou o Azinheira Pai a casa e tinha lá uma banda a tocar.

MC: Tinham de chamar uma empresa para matar bandas.

NP: Uma desbandatização!

P: E quando levámos o material todo de autocarro para Gaia? Este gajo [Kinörm] com o timbalão na cabeça nós a metermos o bombo e a picar a senha...

ED: E quando fomos de comboio para a Palhaça [perto de Aveiro], para um concerto miserável?

K: Tínhamos duas pessoas no público...

ED: Não, eram sete. E um deles dizia: toca uma cena a abrir!

NP: Eram sete bandas. E sete pessoas a ver.

ED: Mas duas estavam a curtir, que eu lembro-me.

P: A segunda vez que tocámos na Aula Magna [em dezembro de 2000] foi em substituição de um concerto que não se fez porque choveu. Fomos tocar na Aula Magna quando já havia o rumor de que íamos acabar, e o concerto era grátis. Esse é que foi mítico. Tivemos de parar ao fim de duas músicas, porque as pessoas estavam em êxtase e não paravam de gritar: Ornatos, Ornatos! E nós com um sorriso amarelo, porque já sabíamos que íamos acabar. Foi mesmo dorido. Depois a Isabel Dantas [manager] chegou ao camarim com uma pilha de cartas de fãs a perguntar «porque é que vão acabar?», com argumentos mesmo comoventes.

Um biombo chamado «Tempo de Nascer»

Depois da energia indomável de Cão!, lançado em 1997, uma canção de nome «Tempo de Nascer», incluída na compilação Tejo Beat, indicava que havia mais, nos Ornatos Violeta, do que aquele rock gingão «punk moda funk» do disco de estreia. O épico é agora revisto por uma banda que, à época, se perguntava se voltaria a criar com a mesma fluidez.

P: Lembro-me que foi a seguir ao Cão! e estávamos um bocado fodidos, porque não nos saía nada.

ED: Essa foi a primeira vez em três meses que conseguimos chegar a algum ponto, estávamos mesmo desesperadinhos.

P: Ainda por cima chama-se «Tempo de Nascer», e nós: altamente, estamos a nascer outra vez! A música é um bocado épica, já é um indicativo de que estávamos a tocar mais sofrido. Foi o Mário Barreiros que produziu, com o [brasileiro] Mário Caldato Jr. E, como na altura, o Mário Barreiros ia tocar em Lisboa com o seu sexteto e o saxofonista Mário Santos estava lá, ele convidou-o para ir lá gravar o solo.

P: E o take que ficou é para aí o segundo ou o terceiro. Sei que ele gravou um take e nós: toca mais maluco!

ED: Há uma foto nossa que aparece no disco, de que eu gosto muito. Somos nós os cinco, mas completamente relaxados. Está o Kinörm a mandar uma piada qualquer, o Nuno a rir-se... mostra um bocado o quão relaxados, mas sérios, foram esses diazinhos.

P: Mas houve uns stresses, lembro-me que o Mário [Barreiros] queria reduzir a música, queria cortar.

MC: Eu não posso ouvir aquilo, detesto o take de voz que ficou. Ouço aquilo assim: [canta em silêncio], a tentar mudar o take! «É tempo de nascêêêêêr...» [goza com a própria interpretação]

ED: É giro ficarmos com um registo do que é a música agora [em Paredes de Coura], mas se calhar daqui a cinco anos já não consegues ouvir outra vez.

MC: Mais ou menos, porque há músicas em que eu não sinto isso, o que contraria aquela teoria de que um gajo está sempre insatisfeito. Muitas vezes, isso é um gajo a justificar-se. Há coisas que fazes, de que gostas e vais gostar sempre, e outras de que não gostas e nunca vais gostar. É mais fixe teres a consciência disso do que tentares convencer-te que aquilo até está fixe mas tu é que estás a ser esquisito. Muitas vezes, estás numa banda a registar a tua evolução, mas não devias editar as coisas. E depois o que acontece é que muitas vezes o público gosta e sentes-te na obrigação de tocar aquilo assim daí ser mais fácil um gajo acabar uma banda e começar outra. Senão as pessoas vão querer sempre aquilo e tu vais ter de conviver com isso. Na altura pensas: fiz aquilo, passou... Mas depois estás sempre a ouvir aquilo na rádio e aquilo de que não gostas é o que te define mais. Mas faz parte do processo criativo.

Juntos na Casa dos Ratos

No final de 1997, os Ornatos Violeta decidiram viver juntos numa casa do século XIX, no Porto. A experiência foi marcante mas fugaz: nove meses depois da «inauguração», o T5 ficou vazio e os amigos levaram para os novos lares muitas histórias «que não se podem contar» e algum cansaço que levaria, pouco depois, à dissolução da banda.

ED: Há para aí uma história de que eu abri uma garrafa de champanhe quando acabou a banda, mas não é verdade: foi quando decidimos deixar de morar juntos. Fui ao frigorífico buscar um espumante rasca que devia estar lá desde 1924 e abrimo-lo. Eu e o Peixe ficámos na casa nove meses. Eles saíram em agosto, nós ficámos até outubro, dia 1. A casa era aqui na Rua Anselmo Braancamp, e o prédio chamavase Prédio Lisboa tinha sido o primeiro prédio no Porto a ter direito e esquerdo. Até nisso tinha uma simbologia engraçada. Quando decidimos ir morar juntos, vimos quadradinhos brancos na janela e fomos falar com o homem, o Carlos Lobato ele tinha a casa engraçada, porque trabalhava em roupas ou assim. Chamávamos-lhe Casa dos Ratos porque tinha ratos. Era uma casa de cento e tal anos, com um jardim enorme e cinco quartos, sendo que um era mais estranho, porque era um quarto de passagem.

NP: Eu fiz-lhe uma parede em semi-tabique, com platex.

P: Estavas a estudar contrabaixo, no conservatório.

ED: Foi uma fase de mudança para toda a gente. Não correu assim tão bem, ou ainda viveríamos juntos, mas de repente conseguimos passar a viver mais dos Ornatos, não tínhamos que fazer tantas coisas fora da banda. Dia 1 de janeiro [de 1998] é um passo em frente para nós em tudo, na vida. Saímos de casa e quase ninguém voltou, a partir daí, para os pais. Houve fins de relações, inícios de relações, foi mesmo intenso o que dá a parte da música mas também do cansaço. Vem daí muito do cansaço.

K: A parte mais esquizofrénica é que nós vivíamos juntos, saíamos para ir ensaiar, de manhã, depois voltávamos... vivíamos super, híper para dentro uns dos outros, e ainda flipávamos porque achávamos que devíamos jantar juntos! Vocês lembram-se disso?

ED: Era de loucos. Depois vínhamos dos concertos e começávamos a discutir sobre quem é que tinha de lavar a louça. Passavam por lá atores, músicos... era um forrobodó.

Um Monstro da cabeça aos pés

Fruto desta e outras vivências, O Monstro Precisa de Amigos trouxe, em 1999, um novo reconhecimento aos Ornatos Violeta, bem como a oportunidade de conhecer e colaborar com um herói de sempre: Gordon Gano, o vocalista dos norte-americanos Violent Femmes, com quem cantaram «Capitão Romance», em disco e ao vivo.

K: Sempre acreditámos [na coerência] do Monstro, tanto que isso nos fez acreditar que seria possível fazer um concerto à volta do disco [este ano, em Paredes de Coura]. É o disco com o qual nos identificamos mais acho que nenhum de nós ouve muito os nossos discos, em casa, mas a pôr algum é o Monstro.

ED: O Monstro tem o lado do «aleluia, porra! Está pronto!». A certa altura já estávamos a pensar deitar tudo fora. Já tínhamos companheiras, as questões já eram outras e já eram sentidas de forma diferente; tínhamos as nossas casas e responsabilidades fora da música. O Monstro é um reflexo disso tudo.

K: No Monstro até o Mário [Barreiros] entrou em crise. Não se lembram [do que ele disse], depois do concerto dos Violent Femmes? «Vocês não sabem o que andam aqui a fazer! Eu não vos percebo! É desta banda que vocês gostam? É esta merda que vocês queriam ser? Os gajos enganam-se por todo o lado, caralho! Tocam mal e a solar são miseráveis! Mas o vosso som não tem nada a ver com isto, nem com o que vocês faziam!». Ele louco, e nós: «mas a gente gosta deles... não é a música, é a atitude».

K: Estávamos a gravar o Monstro e interrompemos as gravações para ir ter com o Gordon Gano.

ED: A história de termos conhecido os Violent também é engraçada. Foi tudo uma série de felizes coincidências, em Coimbra. Vimos o [baterista] Guy Hoffman, na rua, a ver montras! Expliquei-lhe a história toda da banda, foram simpatiquíssimos e meteram-nos [no concerto].

P: O road manager quando nos viu disse: «you're the band? Oh, you're the band!».

NP: Ele já sabia de nós: estava uma fila enorme de gente para falar com eles e nós passámos à frente! Parecíamos umas estrelas do caralho...

ED: Nós nas gravações do «Capitão Romance» estivemos sempre um bocadinho deslumbrados, tal como quando jantámos com ele perto do Tivoli ou quando fomos com ele para o Labirinto, depois das gravações.

K: E há aquele momento que o [baixista Brian] Ritchie entra nos nossos camarins a tocar aquela flautinha, na Aula Magna!

P: Mas o grande momento foi em Beja, quanto tocámos com eles na Queima das Fitas. O Gordon veio ver o nosso concerto e quando tocámos o «Capitão Romance» ele aproximou-se do palco. No backstage disse-nos: «pensei tocar com vocês, mas não ia invadir assim o palco. Mas se quiserem, no nosso encore entram e tocam o "Capitão Romance" com os nossos instrumentos!». E houve histórias incríveis: o Kinörm tocou só com uma baqueta, e na secção de sopros The Horns of Dilemma, que varia consoante os discos e as digressões, o saxofonista era o tipo que tinha gravado o Dark Side of the Moon, dos Pink Floyd [Dick Parry]! Ele acompanhou o «Capitão Romance»!

Voltar ou não voltar, eis a questão

Os primeiros boatos de que a banda estaria prestes a separar-se surgiram em 2000, mas desde 1999 que os Ornatos Violeta sabiam que algo ia mal no seio do grupo. «Quando se põe a hipótese de acabar pela primeira vez, um gajo até gela», recorda Peixe. Dez anos depois do fim, em 2011, Manel Cruz anunciou à BLITZ os planos de fazer «concertos de celebração» e a ideia foi recebida com tanto entusiasmo, por parte dos novos e velhos fãs, como por algum ceticismo no meio. Recentemente, B Fachada afirmou que iria retirar-se durante um ano e só voltaria «para fazer dinheiro, a la Ornatos». Os Ornatos comentam.

ED: Ele exprimiu uma coisa que muita gente pensa. Que a gente faz isto para comprar não sei o quê. O mais importante aqui é o prazer de estarmos juntos e tocarmos, porque se chegássemos à sala de ensaios em janeiro e fosse insuportável estarmos a tocar juntos, não havia concerto nenhum. O que acontece aqui é: nós fazemos sete coliseus porque estamos a ter muito prazer em tocar.

MC : As coisas são diferentes de profissão para profissão. Um músico que ganhe dinheiro é um traidor, um vendido. Não consigo perceber o que torna uma pessoa vendida. Eu sempre me senti um vendido, porque vendia aquilo que fazia. Mas sempre quis vender as coisas ao preço que achava justo e honesto, e sempre gostei de vender coisas em que acreditava e de que gostava. Mas sempre me vendi, seja por ideias, por mulheres. Agora, a alma, não sei bem o que é. É como a cena dos velhotes: tens mais de 50 anos, arruma as botas. Morre, velho, que a música já não dá. E os velhotes de Cuba? Ai, mas Cuba é diferente. Nós não vamos comprar um apartamento na Quinta do Lago, mas vamos pagar as obras da casa ou comprar um T1.

K: Eu vou pagar dinheiro que devo!

MC: São questões muito pessoais e da tua consciência. O meu grande medo quando comecei a fazer isto foi chegar a um momento em que não ia estar a gostar de o fazer. Se não estivesse a gostar e o fizesse por causa do dinheiro ou do compromisso, ia sentir-me um vendido na mesma. A partir do momento em que estás a gostar de fazer uma determinada coisa, és um agente da sociedade a fazer a mesma coisa que faz qualquer gajo. E se não dás um concerto com medo que as pessoas digam que és um vendido, estás, também, a vender-te a essa ideia.

Renascer em Paredes de Coura

No primeiro dos concertos anunciados para este ano, os Ornatos Violeta tocaram para uma plateia a perder de vista, em Paredes de Coura. Eles quase se afogaram na emoção.

MC: Foi muito emocionante para todos. Muito surrealista, muitas emoções misturadas, muito nervosismo. Uma alegria enorme ao ver aquilo e uma incapacidade de digerir tudo de repente. Deixou-nos a todos sem palavras. Mas antes do concerto deu-nos aquela espavoneadela, de deitar o nervosismo para fora e começar aos chutos às coisas.

ED: Cada um estava no seu filme, até dez minutos antes. Cada um nervoso, a rever material, e depois encontrámo-nos, antes de entrar em palco, e ficámos ali. Um momento que guardo com carinho é precisamente quando começa o loop do «Tanque» e toda a gente está à espera que um gajo entre. Nós não nos largámos, ficámos ali. Foi intenso.

NP: Foi uma coisa de picos. Eu tanto estava a tocar e a olhar para aquela gente toda, como me estava a dar um ataque de choro, como estava concentrado a tocar.

P: Foi um concerto atípico, para nós e para as pessoas. O que tornou aquilo intenso foi a troca de energias, porque estávamos a receber muito do público. Penso que até tocámos bem, mas acho que o pessoal também sentia essa emoção nos nossos sorrisos. Espero que nos coliseus toquemos melhor ainda.

K: Por muita expectativa que as pessoas tivessem para nos ver, se não tivéssemos tocado bem o concerto não tinha tido o impacto que teve nas pessoas. E mediante as circunstâncias, do nervosismo e da ansiedade, acho que a prova foi superada.

P: Acho que até tocámos mais relaxados do que costumamos tocar. Apesar de estarmos muito mais nervosos! Os coliseus é que são «a cena», mas ali era o primeiro. E era aquele mar de gente!

NP: Gente até ao céu.

MC: Nunca mais na nossa vida! (risos)

P: Eu fui tocar com os Dead Combo [que atuaram antes] e quando olho para aquela merda e penso que, se calhar, a maioria das pessoas estava ali para nos ver, quase que me caíam os tomates! Estava à espera que estivesse muita gente mas não tanta. E no nosso concerto ainda estava mais, quando nos Dead Combo isso me parecia impossível. Fiquei mesmo arrepiado.

ED: Nós vivemos este espetáculo os cinco. Naqueles momentos instrumentais que variámos em relação ao disco, olhámo-nos muito. Nunca senti, em nenhum concerto, que nos protegêssemos tanto uns aos outros. E isso foi particularmente bonito.

O concerto de regresso que (quase) ninguém viu

No final do ano passado, várias crianças de uma escola primária do Porto e alguns adolescentes mais atentos assistiram a um minúsculo e inesperado regresso dos Ornatos Violeta. Os protagonistas explicam tudo.

K: Foi um convite feito pela associação de pais da escola da [minha filha], Alice, que queriam fazer uma formatura da quarta classe. E a Mélita, que é a professora de música dela, convidou-me e eu perguntei ao Peixe e ao Nuno se estariam na disposição de ir lá tocar, também. Ela ensaiou os miúdos para cantarem e nós tocámos a «Capitão Romance», a «Ouvi Dizer» e uma dos Beatles, «I Wanna Hold Your Hand»! No palco mais pequenino do mundo!

ED: Eu assisti ao concerto e, quando vinha à rua fumar, ouvia pessoas a dizer: mas eles vão mesmo tocar? Havia gente a ligar aos amigos, putos de 16 e 17 anos, a dizer: «Eles vão mesmo tocar! Eles estão aqui!».

Os Ornatos na capa da BLITZ nº76, de outubro de 2012

Os Ornatos na capa da BLITZ nº76, de outubro de 2012