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Quando Miles Davis esteve em Portugal [arquivo]

Atuou por quatro vezes em Portugal entre 1971, quando abriu o Cascais Jazz, e 1991, ano que marcou também o seu adeus à vida. 25 anos depois da sua morte, recuperamos um artigo de 2007 sobre as passagens de Miles Davis pelo nosso país

Quando em 1971 Miles Davis, aos 46 anos, pisou pela primeira vez território nacional era já uma estrela não do jazz, mas da música de massas, tocando as audiências do rock e da pop com as suas experiências de fusão entre géneros musicais. O auge da sua popularidade tinha sido atingido apenas um ano antes, quando na sua actuação no célebre Festival da Ilha de Wight (Reino Unido) partilhara o cartaz com os gigantes The Who, The Doors, Sly and the Family Stone, Joni Mitchell e Jimi Hendrix, perante nada menos do que 350 mil espectadores.

Mas onde estava agora o consagrado monstro do jazz, autor de discos míticos como Birth of the Cool, Kind of Blue e Porgy and Bess? Provavelmente vivia apenas na sua atitude em palco e no som sublime da sua trompete, já que o divórcio de Miles com a sua música de sempre havia começado em finais dos anos 60 quando as vendas dos seus discos caíram abruptamente (cerca de 50 por cento), prejudicadas pelo advento do free-jazz e pela explosão do rock, e o trompetista se encontrava não raras vezes a tocar em clubes com cerca de 40 pessoas... Miles não estava pronto para sair de cena, mas sabia que tinha de encontrar um novo som para chegar à nova geração que ia a eventos como o Woodstock e por isso ouvia agora sobretudo músicos como Hendrix (que muito o impressionava e com quem esteve para gravar em estúdio), James Brown e Sly Stone, procurando sincronizar-se com a música do momento.

Consequentemente, as mudanças na sua banda eram inevitáveis e os músicos iam-se sucedendo ao longo do tempo, isto enquanto Miles incorporava novos instrumentos, como a guitarra eléctrica e o piano eléctrico, rompendo com o passado. «O piano acabou. É um instrumento antiquado. Não quero voltar a ouvi-lo. Pertence a Beethoven não é um instrumento contemporâneo», afirmava então. Em 1969 gravava o disco da viragem, Bitches Brew, considerado o percursor da fusão. Pouco depois do seu lançamento, em 1970, atingia o top 40 e já tinham voado das prateleiras das discotecas cerca de 70 mil cópias, valendo-lhe o seu primeiro disco de ouro. Miles sabia que este era o seu novo caminho e em breve estava a actuar pela primeira vez em palcos de rock, como sucedeu nos célebres concertos realizados (e gravados) no Fillmore, em São Francisco.

Curiosamente, o mago da trompete deslocava-se a Portugal para um festival da música que o havia consagrado, o Cascais Jazz nesse ano iniciado por Luís Villas-Boas, João Braga e Hugo Lourenço mas não tocaria jazz, o que causou natural desilusão entre os seus admiradores mais antigos e incondicionais. Contudo, ciente do seu valor e da sua popularidade e importância (para mais, acabara de ser eleito «Jazzman» do ano pela revista Downbeat), Miles trocou as voltas à organização do evento quando anunciou a João Braga que queria ser ele, e não Ornette Coleman, que havia realizado a revolução do free-jazz e era então um músico de referência como inovador e pioneiro, a abrir o Cascais Jazz. «Ele disse-me uma coisa que nunca mais esqueci: "Este é o primeiro festival de jazz em Portugal e quero ser eu a abri-lo. Os outros só podem tocar a seguir a mim"».

As exigências de Miles não se ficaram por aqui, incluindo um chauffeur branco (fardado a rigor, com boné, luvas brancas e dragonas), um «sparring-partner» para servir de saco de pancada às suas ambições de boxeur (na verdade foram dois, porque o primeiro «voltou-se» ao trompetista e João Braga teve de ir à Mouraria arranjar «um tipo mais velho» que não oferecesse mesmo resistência...), uma suite em hotel de luxo, nove quartos simples em hotel de primeira classe, cinco automóveis e uma camioneta para transporte de equipamento (cerca de duas toneladas!).

Caprichos satisfeitos, por volta das 22h00 do dia 20 de Novembro Miles Davis subia ao palco do Pavilhão do Dramático e tinha a seus pés cerca de 12 mil pessoas incluindo alguns notáveis da música portuguesa, como Amália Rodrigues, Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira muitas delas convencidas de que iam ouvir jazz, convicção logo refutada quando Miles soprou as primeiras notas numa trompete ligada a um pedal de efeitos (wah-wah e volume) para, como revelaria na sua autobiografia, se aproximar do som de Jimi Hendrix. A acompanhá-lo estavam seis jovens, então, praticamente desconhecidos do grande público: Keith Jarrett (piano eléctrico), Gary Bartz (saxofone), Michael Henderson (baixo eléctrico), Don Alias e James Foreman (percussão) e Leon Chandler (bateria). Em palco, o septeto debitava uma música predominantemente funky e eléctrica, baseada em discos como Bitches Brew, Black Beauty, Live at the Fillmore East e Live Evil, e apesar de Jarrett ter desde logo captado a atenção do público e da imprensa com o Diário de Lisboa a informar na crítica ao festival que um dos seus solos «marcou profundamente toda a assistência, absolutamente conquistada» as atenções estavam obviamente centradas no trompetista.

E a primeira impressão que saltava à vista era a imagem pouco clássica de Miles. Diniz de Abreu descrevia assim, no Diário Popular, a sua nova indumentária: «Colete de pele preto, camisa da mesma cor, calça verde acetinada, muito justa, um lenço ao pescoço, caído em duas pontas; cinto dourado; botas prateadas; óculos escuros». Estava claro que também no visual Miles Davis se recusava a ficar preso ao passado e era agora, em todos os sentidos, uma verdadeira estrela. E se ao longo da sua carreira sempre se tinha distinguido por uma peculiar atitude em palco, tocando não raras vezes de costas para o público, a sua presença e a sua linguagem corporal assumiam ainda maior importância no momento em que se direccionava para as massas e para um público sedento de carisma e revolução.

Na revista O Século Ilustrado Maria Antónia Palla escrevia após o concerto: «Quando Miles pára e deixa tocar o seu conjunto, fica a um canto do palco, o corpo inclinado para a frente, as mãos fixadas nos joelhos, balançando-se como um felino selvagem pronto a saltar sobre a presa. O rosto cerrado, sem deixar transparecer a menor emoção, fixa o olhar num ponto indeterminado. (...) Numa hora passada de exibição, nem um sorriso. Como se o público não contasse, como se a multidão fosse um inimigo potencial».

Mas nem todos eram anónimos entre os cerca de dez mil espectadores. No meio do público, de gravador em mãos, estava outro trompetista e gigante do jazz, Dizzy Gillespie, que referia estar a gravar o concerto para ver se percebia depois o que Miles estava a tocar em palco... Música à parte, Miles Davis era também mais uma das estrelas da música que se tornara dependente das drogas. João Braga recorda um facto que chamou a sua atenção: «A água que escorria das costas dele durante o concerto era algo inumano, certamente por causa das profaminas».

A verdade é que antes de actuar Miles solicitara a Braga uma elevada quantidade deste medicamento tendo, como este recorda, «engolido sem se deter as três caixas» providenciadas, mas isto só depois de sair do armário da suite do Hotel Palácio, no Estoril, onde se encontrava fechado em meditação. Não era pois de admirar que no final do concerto mal conseguisse articular uma frase, não dirigindo mais do que um seco obrigado a Villas-Boas, que o esperava nos camarins, depois de este ter deixado o palco com a trompete erguida em sinal de agradecimento e satisfação por esta sua «prima nocte» em Portugal.

Muita coisa mudaria, contudo, na vida de Miles pouco depois do Cascais Jazz. Com efeito, no Verão de 1975 o príncipe negro arrumava pela primeira vez a trompete para entrar num período sombrio marcado pela deterioração da sua saúde, o abuso de drogas e o desenvolvimento de sentimentos paranóicos, fechando-se em casa e passando pela prisão, por não cumprir com a pensão de alimentos do seu filho Erin. Mas, mais uma vez, o «camaleão» Miles não estava preparado para sair de cena e no início dos anos 80 emergia renovado do seu casulo. Liberto das drogas e a recuperar a sua sonoridade na trompete (o que só conseguiria plenamente ao fim de três anos), apresentava-se agora com uma nova banda, cuja música estava ainda mais próxima do que a juventude negra norte-americana ouvia e comprava, o que lhe permitia chegar a audiências que desconheciam mesmo quem era Miles Davis, mas que se identificavam com a sua sonoridade soul, funky, pop e electrónica, acentuada por um discurso mais melódico que iria consolidar-se ao longo dos anos.

Era este o ambiente sonoro que já se adivinhava em discos como The Man With the Horn (1980) e We Want Miles (1981) e que ganhava nova expressão com a entrada em cena dos seus novos parceiros musicais, particularmente o baixista Marcus Miller, autor de novos temas e do arranjo de vários êxitos do trompetista. Em breve os seus discos chegavam a lugares cimeiros nas tabelas de vendas e Miles, para desgosto dos seus admiradores dos anos do jazz, estaria mesmo a adoptar temas dos novos ícones da pop, como Cindy Lauper e Michael Jackson (que edita no disco You're Under Arrest), e a gravar com músicos e bandas como Prince, Toto, Scritti Politti e Cameo.

Depois da ruptura com as drogas e com o som dos anos 70, seguir-se-ia ainda a ruptura com a sua editora de três décadas, a Columbia, e a mudança para a Warner, onde a partir de 1986 iria editar os seus derradeiros registos: Tutu, Siesta, Amandla, Dingo, Miles & Quincy Live at Montreux e Doo-bop.

1989: O SEGUNDO CONCERTO

Foi este «novo» Miles Davis que se apresentou a 2 de Abril no Coliseu dos Recreios, no primeiro concerto da sua digressão europeia e também o primeiro na cidade de Lisboa. Agora com 63 anos e acabado de sair do hospital devido a uma pneumonia, o trompetista era uma pessoa diferente, como recorda Rui Neves, o promotor do espectáculo. «O Miles Davis tinha saído de um longo período de hibernação e estava numa onda diferente, talvez mais polémico, mais do que nunca».

Porém, antes do mago da trompete chegar ao Coliseu teriam de ser vencidos alguns obstáculos. O mais difícil era obviamente a dificuldade em contratar um músico que exigia como cachet um valor exorbitante para a época, nada que demovesse Rui Neves e a sua equipa, determinados que estavam a não perder esta oportunidade única. «O Miles Davis pedia imenso dinheiro: 40 mil dólares. Nós tínhamos algum dinheiro mas não tínhamos que chegasse e como estávamos a fazer o Festival de Jazz na cidade pedimos ao então vereador da Cultura da Câmara Municipal (Vítor Reis) que adiantasse algum dinheiro deste festival e assim foi». Mas o processo não ia ser assim tão linear. «Como arranjámos o dinheiro à última hora, dois de nós tiveram que ir de avião a Boston com 40 mil dólares em notas "para bater" no escritório do representante do Miles Davis!»

Por outro lado, as exigências técnicas eram também elevadas para a época: «[O Miles] pedia coisas assombrosas de tecnologia de som. Depois, quem trabalhava eram os técnicos dele: trazia três pessoas para o som e três pessoas para a luz». Estas exigências permitiram montar no Coliseu o que José Duarte consideraria no jornal Sete «um som espectacular onde a pureza da captação era espantosa [e] a individualidade sonora dos instrumentistas impecável».

E se Rui Neves adivinhava no génio da trompete uma redobrada polémica, os acontecimentos antes do concerto haviam de lhe dar razão, como o próprio recorda: «Quando ele chegou ao Hotel Tivoli teve de esperar que a suite estivesse vaga e eu tomei o pequeno-almoço com ele, mas nunca falei sobre música, falei só sobre pintura. Depois já o tínhamos convencido a estar presente numa conferência de imprensa à tarde, numa sala chique do hotel Tivoli.

Efectivamente ele esteve, todo encasacado, levava um casaco de couro cheio de cores, uma coisa muito inchada e tinha uma cabeleira postiça... O Miles, ali ao pé de nós, parecia um boneco cibernético; só falava com quem queria e falava com aquela voz fanhosa. Sentei-me ao lado dele na mesa da conferência e depois um jornalista disparou a primeira pergunta, que teria a ver com algo como o jazz branco e preto. O Miles ficou abespinhado, saiu imediatamente e boicotou o encontro com a imprensa».

Sem responder a uma única pergunta, o trompetista recolheu à sua suite. Porém, Rui Neves desconfiara já da sua pouca vontade em participar naquele evento, o que aliás era raro suceder noutros concertos. «Ele não gostou da pergunta e foi-se embora mas eu acho que ele já estava a preparar isso. Fiquei com a ideia de que ele estava mesmo afinado para se vir embora caso acontecesse qualquer coisa de que não gostasse».

Tal incidente não impediu todavia a divulgação do concerto na imprensa, que nas vésperas do evento lhe dedicava várias página,s nomeadamente o jornal Expresso, através de Raúl Vaz Bernardo e de António Curvelo. Mas se o concerto era visto como o evento musical do ano, nem todos olhavam o novo Miles com reverência. Com efeito, o Diário de Notícias, por exemplo, titulava assim o artigo sobre o trompetista: «Miles embalado em plástico vai estar hoje no Coliseu». A referida plasticidade devia-se ao casamento da sua música com a electrónica, algo que os mais clássicos amantes do jazz não lhe perdoavam, conforme esclarecia o autor da notícia, Monteiro Costa: «Teremos então esta noite, no Coliseu, um Miles Davis envolvido pelo plástico dos electrónicos. Tentem concentrar-se exclusivamente na voz da trompete. Talvez consigam momentos óptimos».

Também a sua ruptura com a sonoridade do jazz e o casamento com o rock não lhe eram poupados pelos críticos de jazz. Escrevia ainda Monteiro Costa: «Miles Davis não se conformou, porém, com a perspectiva desta existência sombria [do êxito alcançado décadas antes no âmbito do jazz]. Decidiu figurar nas primeiras páginas, continuar a vencer referendos, ganhar muito dinheiro. Socorreu-se então dos cenários (com sucesso garantido) do rock, das técnicas electrónicas e das campanhas promocionais das grandes editoras. Até o seu temperamento, naturalmente agressivo, ajudou a vender a imagem junto do novo (amplo) público que foi conquistando».

Já José Duarte parecia mais preocupado em aproveitar a presença de Miles para dirigir uma farpa aos dirigentes da cultura da época, rematando ironicamente o seu artigo no jornal Sete: «França fê-lo doutor honoris causa. Espanha fê-lo cavaleiro. Lisboa cede-lhe o Coliseu».

Entretanto, na produção do espectáculo, tudo decorria com normalidade já que ao contrário do que sucedera no Cascais Jazz, Miles estava agora mais comedido nas suas extravagâncias contratuais, exigindo apenas uma limusina Mercedes, e também mais acessível no trato com os produtores do espectáculo, como recorda Rui Neves: «O Miles foi demais, estava amorosíssimo. Eu pessoalmente dei ao Miles uma gravura do meu amigo António Palolo e uma tela enrolada do meu amigo pintor Miguel Horta [autor do design do cartaz e bilhetes deste concerto] e o Miles adorou».

Ciente do interesse do trompetista pela pintura, o produtor ainda o convidou a ver o tríptico do Hieronymus Bosch, um dos ex-libris do Museu Nacional de Arte Antiga. «Ele disse que queria ir, mas no outro dia mandou o assistente dele (um assistente muito gay, por sinal) às compras comigo aos estilistas e andei com ele a comprar tintas, acrílicos e telas na casa Varela, do Bairro Alto, para [o Miles]. Ele ficou sempre fechado na suite a pintar».

Já próximo da hora do concerto surgia um sinal de alarme, com os produtores a constatarem que se a sala estava completa na geral, nos camarotes e no galinheiro, já a plateia permanecia timidamente preenchida, deixando o Coliseu longe de acolher as quatro mil pessoas que dias antes haviam esgotado os bilhetes. Para agravar a situação, nos bastidores Miles Davis exigia começar rigorosamente às 21h30 e assim sucedeu, causando alguma emoção e calafrios à produção. «Eu estava a ver a situação e estava um pouco emocionado por ver o Miles Davis ali, que nos tinha dado tanto trabalho trazer, e as pessoas que tinham pago o preço maior a correrem à pressa para ocupar o lugar», recorda Rui Neves.

Eis, então, que a música gravada ecoa pelo Coliseu e por entre fumos de cena surge Miles Davis que, vestido de forma exuberante e escondido por detrás de uns enormes óculos escuros, percorre o palco desenhado por si. Só depois entram os membros da sua banda, que formara apenas no ano anterior, composta pelo saxofonista Kenny Garrett, os baixistas Benjamin Rietveld e Joseph «Foley» McReary, o baterista Ricky Wellman, o percussionista John Bigham e o teclista Kei Akagi. Durante a sua actuação, Miles recorre frequentemente ao diálogo ora com o saxofone e a flauta de Garrett (unanimamente considerado a revelação do concerto), ora com o baixo de Foley (ligado a uma parafernália de pedais de efeitos) ou ainda com a percussão electrónica de Bigham, que diz representar o som das ruas que deseja importar para a sua música. Ao contrário do que era habitual no passado, Miles move-se agora de um lado para o outro e quando não toca trompete passa as mãos pelos teclados para injectar um acorde num tema e puxar pelo groove da banda. Quando ataca a trompete raramente toca sem a surdina e bebe frequentemente água após cada intervenção, normalmente curta. A fórmula do sucesso mantém-se, pois, na criteriosa gestão dos silêncios.

A este propósito e sobre a prestação de Miles no Coliseu escrevia José Duarte para o jornal Sete, três dias depois: «Miles já quase nunca discursa, diz apenas coisas, às vezes mesmo sem nexo, pequenas frases ou até só palavras para encher os espaços e os silêncios e criar outros. (...) Fazem agora parte dos solos de Miles os passeios, a forjada distanciação em cena (de costas e numa espécie de altar), uma maior atenção ao público, ao olhar para ele às vezes, e ao falar pelo microfone da boca da trompete».

Mas, para que não restassem dúvidas, remata: «Agora a verdade, verdadinha, é que a sonoridade que Miles ainda obtém (com ou sem abafador) é notável, tem o selo altamente personalizado e algo de mágico e extraordinário. Depois de um curto intervalo, Miles voltou só com ritmo e em tempo muito lento desfraldando, durante minutos, a bandeira da genialidade. Intervenção perfeita, de extremo bom gosto, numa forma que esgota o conceito, discurso de alta sensibilidade, superior inteligência musical, construção melódica, rica e exuberante de maturidade, contenção e equilíbrio».

Os temas, esses, num total de 12, sucediam-se uns após os outros, muito baseados no disco Tutu, até que «Time After Time», da autoria de Cindy Lauper, levanta uma enorme salva de palmas, uma interpretação que António Curvelo consideraria «uma obra-prima» ao escrever a sua crítica do concerto para o jornal Expresso. Cerca de duas horas depois, por volta das 23h30, o público exigia um encore com grande ruído, desconhecendo que a essa hora já Miles Davis ia a caminho do hotel. Afirma Rui Neves: «O Miles já estava fisicamente caquético, movimentava-se com uma certa dificuldade, não podia estar muito tempo de pé. Enquanto ele estava a tocar, o produtor dizia-me que ele tinha muita energia, mas que não o podiam deixar tocar mais do que duas horas. Logo que saía do palco estava sempre sentado e só bebia Diet Coke». O seu segundo round em Portugal estava terminado e se não deixara o público KO também estava longe de ser uma derrota.

Nos dias seguintes a imprensa concedia, obviamente, grande destaque ao concerto. O Correio da Manhã titulava «Jazz de Miles Davis espantou o Coliseu», o Diário de Lisboa falava no «Príncipe das Trevas» e o Diário Popular colocava em título «Miles Davis: Último fôlego no coliseu», salientando que «o mestre chegou com um humor inédito, tocando de frente para o público e chegando ao extremo de saudar a plateia com a trompete (...) em riste» e sem «os seus invioláveis óculos escuros».

1991: ADEUS, MILES

Quem em 1989 tinha vaticinado a Miles o seu último fôlego no Coliseu estava bem longe da razão, já que em Março de 1991 o trompetista estava de regresso para dois concertos, um no Coliseu do Porto (dia 16) e outro no Coliseu de Lisboa (17), agora sim os seus derradeiros. E para que não passasse despercebido acompanhavam-no 20 mil watts de som e 180 mil de luz... Estes não eram claramente concertos de jazz! Relativamente ao concerto realizado anos antes, poucas eram as diferenças, além de pequenas mudanças na banda e da apresentação de alguns temas novos.

António Curvelo foi quem porventura melhor descreveu o que Miles tinha para apresentar ao público: «O enamoramento pela obra actual do trompetista radica na magia visual, na alquimia do espectáculo montado numa cena paramentada como altar de um ritual soberano construído para abraçar um público habituado a ver mais do que a ouvir; ou talvez melhor, uma plateia que só ouve o que vê e porque vê». E sobre a sua música: «Parece pacífico que a prática musical de Miles é hoje mais pobre (e não apenas diferente). A riqueza rítmica de outrora (amassada em diversidade e intensidade) rendeu-se a estruturas mais simples, alimentadas quase exclusivamente pela força sonora. Onde antes havia subtileza e virilidade há agora evidência e agressividade».

Esta opinão era partilhada por Villas-Boas que, em entrevista ao jornal Público, em Março de 1991, afirmava: «Assisti ao regresso de Miles Davis há 12 anos. Foi o começo desta fase em que está menos ligado ao jazz. Um retrocesso, para satisfazer um público que traz mais lucro no aspecto material».

Embora o factor novidade estivesse pouco presente, Miles é Miles e, mais ainda do que em 1989, a imprensa dedicava-lhe elevada atenção, com destaque para o longo artigo de cinco páginas que António Curvelo escreve para o Público de 16 de Março, jornal que concede a Miles Davis o exclusivo da sua primeira página deste dia, facto inédito para um músico oriundo do jazz. Nesta mesma data, a RTP transmitia o concerto dado pelo trompetista em Paris, em Novembro de 1989, compensando todos os que não podiam deslocar-se aos Coliseus.

A produção de ambos os espectáculos estava mais uma vez sob a responsabilidade de Rui Neves, que justifica assim a opção de apresentar novamente Miles em Portugal: «Aconteceu porque era isso que estava a pedir. Em 1989 tinha sido só um concerto e tinha tido tanto êxito...». Tal como sucedera em 1989, as exigências do trompetista já pouco tinham de extravagante e resumiam-se a latas de Diet Coke e a ficar descansado no hotel a pintar, um hotel de luxo, claro... Mas Miles estava agora mais frágil. «Ele já estava um bocado debilitado; em dois anos pareceu-me mais debilitado».

O primeiro dos concertos teve lugar no Porto, onde Miles se estreava, e à semelhança dos anteriores concertos do trompetista entre nós o insólito voltaria a marcar presença, como recorda Rui Neves: «O Coliseu do Porto antigo era uma lástima, era um espaço de espectáculos decrépito e então aconteceu uma coisa fantástica: o Miles Davis sentiu tanto frio no palco que tocou uma hora e foi-se embora e pediu-nos que o levássemos ao hotel porque não conseguia tocar. Incrível».

Miles saía ao som dos primeiros acordes de «Tutu», mas o espectáculo, esse, continuou durante mais uma hora, para um Coliseu quase esgotado, com a actuação dos músicos de Miles: Deron Johnson (teclados), Foley McReary (baixo), Richard Patterson (baixo) Ricky Wellman (bateria) e Kenny Garrett (saxofone e flauta). Enquanto esteve em palco, não dirigiu uma palavra ao público e tocou quase sempre de costas, o que já era hábito... Em Lisboa o cenário foi praticamente o mesmo, com o Correio da Manhã a relatar, dois dias depois, os acontecimentos sob o título «De costas para o público Miles domina o Coliseu».

Mas algo tinha mudado, porém, já que a produção aprendera com os problemas ocorridos no Porto. Esclarece Rui Neves: «No concerto de Lisboa fizemos uma coisa gira. Gastámos dinheiro em alcatifa industrial e alcatifámos os camarins todos velhos, para tapar as mazelas, e pusemos lá um espelho e um jarro de flores e um aquecedor e champanhe e ele estava ali na maior. Parece que estava numa cápsula. E pusemos um aquecedor no meio do palco e quando ele não tocava chegava-se ao aquecedor e aquecia-se».

Ao contrário do que sucedera dois anos antes, Miles entrou em palco com um atraso de 20 minutos, mais uma vez com roupas extravagantes e óculos escuros que só tiraria para saudar o público. Nas mãos, a sua característica trompete encarnada (que será feita dela?) e uma novidade: tabuletas para anunciar o nome dos músicos, as quais levantava no final de cada solo. Maria João Lourenço, jornalista da TV Guia, captou bem os seus gestos em palco: «Dobrado sobre si próprio, percorre o palco de uma ponta à outra, como quem persegue as sete notas. Ou então, a corresponder aos aplausos no final do solo: trompete ao alto, num gesto fugaz a fazer lembrar a saudação dos negros. De costas para o público, o único sinal de "vida" é muitas vezes o movimento dos maxilares, entretidos com "chewing gum". Ou ainda, quando os óculos lhe escorregam para a ponta do nariz, empurra-os com o indicador para o seu lugar. Sorrisos nem pensar».

Num concerto em que Miles tocou pouco e quase se limitou a pontuar, dando mais tempo de antena aos seus músicos, Curvelo viu na actuação do trompetista um certo regresso ao passado, escrevendo no jornal Público: «Quando a primeira hora se esgotou, nada poderia apagar a imagem de um Miles Davis totalmente empenhado numa música claramente afastada da agressividade sonora da sua passagem por Lisboa em 1989 e cada vez mais próxima da evocação emocional e física do ciclo Prestige e dos primeiros anos Columbia, a que não faltaram, sequer, frases e desenhos que pareciam saídos dos mapas de "Someday My Prince Will Come" ou de "My Funny Valentine"». Mas os temas agora interpretados eram bem mais actuais: «Perfect Way», um blues original de Miles, «Hannibal», «Human Nature», «Time After Time», «Tutu», «Serenate/Me + You», «Carnival Time», «A Girl + Her Puppy», «Penetration», «Are U Legal Yet» e «Jail Bait», os últimos quatro da autoria de Prince.

Tal como em 1989, não houve encore porque Miles não voltou e nem mais voltaria. Em 28 de Setembro morria vítima de pneumonia, pouco depois de ter aceite voltar a tocar jazz, como quem se reconcilia com o passado, num concerto histórico promovido a 8 de Julho, em Montreux, por Quincy Jones. A inesperada partida de Miles Davis veio frustrar os planos pioneiros de Rui Neves: «Nós tínhamos combinado levá-lo a Angola, estávamos a tratar disso para 1992 porque tínhamos pessoas em Luanda que queriam. Era demais. Fantástico».

Texto: João Moreira dos Santos

Publicado originalmente na revista BLITZ de março de 2007.