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Quando os GNR encheram Alvalade: leia aqui o capítulo “Até ao Sol” da biografia oficial

Onde Nem a Beladona Cresce já está nas lojas e a BLITZ dá-lhe a possibilidade de ler um dos capítulos mais importantes da história da banda

A biografia oficial dos GNR, Onde Nem a Beladona Cresce, escrito pelo jornalista do Público Hugo Torres, já chegou às livrarias e a BLITZ dá-lhe agora a oportunidade de ler um dos capítulos na íntegra.

"Até ao Sol" debruça-se sobre um dos momentos mais importantes da carreira da banda portuense: o primeiro concerto que deu em Alvalade, no dia 10 de outubro de 1992.

A banda de Rui Reininho, Jorge Romão e Tóli César Machado celebra este ano 35 anos de carreira dos GNR e além da edição da biografia - que conta com testemunhos dos três - vai dar dois concertos especiais: o primeiro realiza-se a 5 de novembro no Multiusos de Guimarães e o segundo a 12 de novembro no Campo Pequeno, em Lisboa - ambos vão ter convidados.

GNR - Onde Nem a Beladona Cresce

GNR - Onde Nem a Beladona Cresce

Até Ao Sol

A 28 de setembro de 1992, uma dúzia de anos após os concertos na Granja, muito depois dos primeiros singles, dos EP e dos LP, cumpridas datas na Aula Magna, nos Coliseus, na Alameda, carimbadas viagens a Espanha, França, Itália, EUA, Brasil, após calcorrear toda essa cordilheira de desafios e provações, os GNR começam a subir o seu Monte Everest: Alvalade. É nesse dia que começam os ensaios para o que será o pico de uma carreira ímpar e a prova cabal de que os GNR são o grande nome da linha da frente da música popular urbana portuguesa. São eles os primeiros a tentar, a arriscar e a conseguir encher um estádio de grandes dimensões. Para servir de termo de comparação, basta dizer que uma das pouquíssimas bandas sobreviventes do “boom”, e um dos mais sérios casos de popularidade do movimento, os UHF, só este ano se estreia no Coliseu dos Recreios (com feridos na plateia e a sala danificada). Os ensaios duram até dia 8 de outubro. O concerto é a 10, duas semanas após o show megalómano de Michael Jackson no mesmo local (who’s bad?, pergunta o “Semanário”). Numa entrevista de antecipação, Tóli César Machado não tem pejo em prometer aos leitores do “Se7e” um “grande espetáculo”. “Vão ver a melhor banda de rock português”, afirma o baterista. Jorge Romão faz a brincadeira a que o momento obriga: “Vamos jogar com dois homens à frente, dois pontas-de-lança”. “Também com dois homens atrás”, indica Rui Reininho. O baixista confirma: “Um trinco e um keeper.” (Traduzindo para sportinguês da época, quereriam dizer que Cadete, Juskowiak, Peixe e Ivkovic iriam jogar de início? E Figo? E Balakov? Melhor mesmo teria sido perguntar a Bobby Robson, talvez através do seu tradutor – o jovem José Mourinho.) Meu dito, meu feito. A banda promete e cumpre. O público adere. Às 20h do dia 10 de outubro, sábado, os fãs começam a invasão ao reduto dos “leões”. Às 21h, relata o “Jornal de Notícias”, já se acotovelam “para arranjar um lugarzinho donde se visse melhor”. O espetáculo começa às 22h, quando se contam dentro de portas cerca de 40 mil pessoas – fora de portas, no telhado de um prédio nas imediações do estádio, estão mais alguns.

– À volta disso – contabiliza Tóli César Machado.

– Eram mais. Havia a história de que os do Sporting imprimiram mais bilhetes, que os convites foram todos duplicados – contrapõe Rui Reininho. – O Sousa Cintra era o presidente e dava convites a toda a gente. Não havia torniquetes. As pessoas davam dinheiro aos porteiros e entravam. Entrou muita gente assim. Talvez mais uns 10 a 20 mil. E não nos pagaram relativamente a isso. A gente ganhava à peça…

– 20 mil? Acho muito. Cinco mil… – contrabalança Jorge Romão. – Oficiais, controlados por nós, 40 mil. Era o que as normas de segurança previam. Mas entra sempre mais gente.

Lotação esgotada. Para quem não está, eis o serviço público: a RTP tem 11 câmaras no recinto para mais tarde partilhar o concerto com o resto do país. Os GNR chegam de limusine preta a Alvalade, depois de terem viajado de avião entre o Porto e Lisboa. São tratados como estrelas. São estrelas. São mesmo. A produção, a cargo da Encore, instalou no backstage máquinas de flippers, jogos, decorou o espaço, muniu-o de garrafas de champanhe. Pequenos luxos que ninguém questiona quando são preparados para as grandes bandas estrangeiras. Et pour cause, também ninguém se detém nesse pormenor agora. Se há comparação com as grandes estrelas mundiais, é para dizer que a banda portuguesa “arrumou a um canto” a Dangerous Tour de Michael Jackson, ainda fresca nas memórias nacionais (palavra de Maria Gabriel Sousa, na “TV Guia”). A imprensa prefere ater-se às duas horas de música, com especial atenção dada ao recente “Rock In Rio Douro”, que encheram as medidas a todos os presentes. “Apoteose em Alvalade”, titula o “Diário de Notícias” na primeira página. “O que é nacional é bom. Há muito que o sabíamos, mas o primeiro megaconcerto de uma banda portuguesa em estádio vai ficar na história da música pop”, vaticina Anabela Martins da Cruz, frisando que o Grupo Novo Rock “passou finalmente as fronteiras do impossível: levar mais gente a Alvalade do que Elton John”. Os fãs “vibraram intensamente do princípio ao fim do concerto do grupo nortenho. Espetacular”. “As franjas de pessoas (e canalha miúda) junto ao palco ondulavam mais do que as pranchas dos surfistas na praia do Guincho. Só se viam braços no ar (o clássico fã springsteenista) e gente a saltar nas cadeiras e no lugar. Quase 40 mil pessoas com o Rh a correr forte nas veias.” Jorge Dias acrescenta, no “Público”: “Os muitos veteranos de ‘In Vivo’ estavam lá, mas também as gerações sub-16, que com o seu ar limpo e saudável mostraram uma jota renovada pelos tempos.” No “Correio da Manhã”, Manuela Silva Reis é mais colorida: “Miúdos, graúdos, betinhos, roqueiros e quejandos proporcionaram um ambiente de euforia que Michael Jackson, por exemplo, gostaria de ter tido”.

Em síntese, os GNR juntaram no estádio todo o tipo de pessoas, construindo uma atmosfera de tal maneira esfuziante que Isabel Silvestre, pouco habituada a ver tanta gente do outro lado do palco, se retraiu por um momento quando foi chamada a cantar “Pronúncia do Norte”.

Rui Reininho deu-lhe o braço, cantaram juntos e o público ofereceu à voz do Grupo de Cantares de Manhouce, que envergava trajes tradicionais, “a ovação mais sincera que conhece, palmas, muitas palmas”. Javier Andreu também subiu ao palco para cantar “Sangue Oculto” – por duas vezes: na primeira, ainda ficou para cantar um tema dos La Frontera, “El Limite”, acompanhado pelos GNR; na segunda, para fechar o concerto no derradeiro encore. “Dunas” e “Efectivamente” foram, como não podia deixar de ser, entoadas euforicamente pela multidão. “Falha Humana” levou-a ao delírio. Os ecrãs gigantes ajudavam quem estava mais atrás a ver melhor os desenvolvimentos no palco, onde se citou Bruce Springsteen, Tom Waits, Bee Gees, Franz Schubert (é um facto: aconteceu na abertura de “Vídeo Maria”). Ambulâncias transportavam para fora do estádio quem não aguentava a emoção, o mar de gente, a pressão junto às grades. Tudo a contribuir para um momento histórico gravado nas memórias dos espectadores e em letra de forma. “Este concerto dos GNR no estádio de Alvalade foi muito bom. Foi melhor do que muitos dos concertos estrangeiros que têm passado por lá nos últimos anos”, escreve António Pires no “Blitz”, observando contudo que nem sequer tinha sido o melhor espetáculo do grupo. Apesar de lamentar a água passada debaixo da ponte (os GNR já não são o que foram nem fazem o que fizeram), o jornalista diz que lhe deu “gozo” ver “aquela gente toda a gritar e a cantar durante as canções, tanto ou tão pouco que os inevitáveis pedidos de encore não foram tão ruidosos como de costume. Não era que os espíritos e os corpos não quisessem mais canções dos GNR, era que as gargantas já não conseguiam aguentar mais”. Épico – tanto quanto um concerto o pode ser. Os GNR, escreve Ana Filipa Baltazar no “Correio da Manhã”, “mostraram, mais uma vez, ser a mais carismática banda lusa”. Nesta noite, são a maior banda portuguesa.

– Depois, é meia-noite, e a gente transforma-se numa abóbora – brinca Reininho.

– Quando sobe muito, a seguir desce – sopesa Tóli. – Tivemos sempre os pés assentes no chão. Aquilo foi importante, e mexeu, mas…

– Não foi um flash na cabeça. A seguir fomos para um hotel foleiro no Estoril, ao pé do Casino. Não fomos para o Sheraton – atesta Reininho. – E fomos ao Johnny Guitar.

– Eu não fui. Estava estourado. A recordação que tenho é que foi um dia muito cansativo. Toda aquela adrenalina, os nervos, o ensaio, as entrevistas… Lembro-me de estar a fazer o ensaio com as rádios, que queriam falar, e eu a tocar bateria durante uma entrevista. “Assim é que fica bem.” Uma confusão – relembra Tóli.

– Uma entrevista para a Rádio Energia – situa Romão.

– Depois, tocar – continua Tóli. – Foi um concerto muito longo: duas horas e qualquer coisa. Foi um dia muito atribulado. Quando acabou, nós saíamos, e começou a chover. O concerto foi em outubro. Lembram-se disso?

– Choveu torrencialmente. Caiu uma carga de água – confirma Reininho.

– Até nisso tivemos sorte – diz Tóli. – Fizemos muitos concertos a seguir, mas sempre cheios, sempre. Fizemos uma coisa grande em Cascais. Nem sequer houve tempo para pensar se aquilo foi muito importante, se não foi.

“Efetivamente, os GNR são a nossa melhor banda de rock-de-estádio. Por acaso, são também a única”, anota o “Expresso” na sequência do megaconcerto. É o semanário que, com certa ironia, deixa a pergunta que está na cabeça de toda a gente: “Depois de encher Alvalade, resta fazer o quê? Convocar as massas para o Santuário de Fátima?”

A resposta é óbvia: há mais estádios. Há, desde logo, o estádio das Antas. Chegará o seu tempo: 19 de junho de 1993. A banda voltará a dar um megaconcerto – para mais de 20 mil pessoas. Até lá, continuam os concertos com milhares de pessoas por cada localidade em que a banda passa. O grande show no Porto é oficialmente apresentado depois de um desses concertos de dimensão (relativamente) inferior em que os GNR enchem recinto atrás de recinto pelo país inteiro. Esse, na Praça de Touros de Cascais, a que Miguel Francisco Cadete vai assistir, no final de maio de 1993, para perceber que o entusiasmo com a banda se manteve ao longo dos últimos meses. No “Blitz”, publica um artigo intitulado “Histeria em Cascais” que leva, em rodapé, o anúncio de mais uma iniciativa de uma banda pioneira: os pormenores do espetáculo das Antas serão revelados através de uma videoconferência em que os músicos estarão no Porto com ligações a Lisboa, Viseu, Braga e Coimbra para que jornalistas de diferentes pontos do território possam participar. Mais próximo da data, Rui Reininho explica a Mário Dorminsky e a Jorge Maurício Pinto, do “Se7e”, que o concerto servirá para celebrar um ano desde o lançamento de “Rock In Rio Douro”, fechar um primeiro ciclo antes da ronda estival de espetáculos e partir para o disco seguinte. “Vai ser bom estar aqui no Porto, o que representa uma conquista de espaço. Conquistamos um palco grande, o que não é fácil de proporcionar aos artistas portugueses, e a gente investe e usa-o.” Revelando que, depois de Alvalade, foram contactados por empresários com propostas para novos espetáculos de grande envergadura, o vocalista lamenta que seja necessário os músicos arriscarem tudo para que isso aconteça: “Depois de ser feito é que aderem. O risco continua a ser grande, porque podíamos ficar quietos e não fazer nada durante três ou quatro anos. Fazíamos uns concertos num estádio e… tudo ficava para a posteridade. Para mim, isso já não é muito representativo, queria e quero fazer outras coisas. Fazer este concerto é também para nos libertarmos desta fase e entrarmos noutro tipo de espetáculo.” Mais pequenos? Sim. Para a internacionalização, como Madredeus? Não. “Não somos um grupo de salão, de cerimónias. Sinto-me mais próximo do Fernando Couto e do Vítor Baía do que do Marques Mendes e do secretário de Estado da Cultura. No que diz respeito a espaços, sinto-me melhor num balneário, com a adrenalina, do que nos salões.” A prova virá com “Sob Escuta”, em 1994 (apesar das gazuas acústicas). Mas as competições europeias não são uma porta fechada: “Há que acreditar, há que acreditar. Com teimosia também se conseguem concretizar as ideias, os projetos. Mas é necessário investir, passar à ação, e o que vejo é uma preguiça instalada. Não está a haver sintonia com o esforço que estamos a fazer.” Rui Reininho pede – exige – ambição. Não quer apoios diretos, mas a falta de esforços por parte dos responsáveis políticos na promoção da Cultura e da Língua portuguesas, como Espanha tem feito, deixa-o frustrado. Expectativas para futuro? Sem surpresas: “Quero que esta merda melhore toda.”