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Seattle: uma cidade, uma editora, um som

Chuva, flanela e um sonho rock. Numa altura em que passa um quarto de século sobre clássicos como Nevermind, dos Nirvana, ou Ten, dos Pearl Jam, viajamos a Seattle, a cidade rock do início dos anos 90

No artigo de capa que a Rolling Stone devotou a Kurt Cobain em jeito de elogio fúnebre, publicado a 2 de junho de 1994, Anthony DeCurtis escrevia, acertadamente, que «qualquer que tenha sido a importância que Kurt possa ter assumido como símbolo, uma coisa é certa: ele e a sua banda, Nirvana, anunciaram o fim de uma era do rock and roll e o início de outra. Em resumo, os Nirvana transformaram os anos 80 nos anos 90». Essa transformação recebeu um nome grunge, teve um habitat natural Seattle, um quartel-general a Sub Pop, e um apogeu 1994. E o mundo, de facto, nunca mais foi igual.

Em primeiro lugar, a geografia. Num país tão vasto como os Estados Unidos, a geografia sempre desempenhou um papel importante na definição de cenas musicais regionais, quer se esteja a falar do blues do delta do Mississipi ou do tecno imaginado nos escombros industriais de Detroit.

Historicamente, os centros decisores da indústria musical americana estabeleceram-se em Nova Iorque, na costa este, e em Los Angeles, na costa oposta, com um terceiro e importantíssimo centro a erguer-se em Nashville, no Tennessee, a capital do country.

Enclausurada no extremo noroeste dos Estados Unidos, no estado de Washington, Seattle não podia estar mais isolada. Trata-se de uma cidade chuvosa, clima que favorece atividades dentro de portas, o que ajuda a explicar a profusão de bandas que nos anos 80 e 90 do século passado ajudaram a colocar a cidade no mapa musical internacional. Mas pode ter sido ao ar livre que tudo começou...

Que som é este?

Em Everybody Loves Our Town, uma história oral do grunge da autoria de Mark Yarm, é citada uma passagem do diário de Kurt Cobain que dá uma imagem clara do embrião da cena de Seattle. «Lembrome de parar na Thriftway de Montesano, Washington, quando um empregado de cabelo curto que se parecia com o tipo dos Air Supply me entregou um flyer onde se podia ler: "Festival Them. Amanhã à noite no parque de estacionamento atrás da Thriftway. Rock ao vivo grátis". Montesano, Washington, um pequeno lugar pouco acostumado a receber bandas de rock. Só alguns milhares de madeireiros e as suas mulheres subservientes. Apareci lá numa carrinha cheia de amigos pedrados. E lá estava o tipo que se parecia com o outro tipo dos Air Supply a segurar numa Les Paul com uma imagem dos cigarros Kool colada, um puto motoqueiro de cabelo ruivo e um tipo alto, Lukin. Eles tocavam mais rápido do que eu alguma vez tinha imaginado que a música pudesse ser tocada, e com mais energia do que a que os meus discos dos Iron Maiden possuíam. Era disto que eu andava à procura», escreveu então o futuro líder dos Nirvana, após ter sido «esmagado» num parque de estacionamento por um dos primeiros concertos dos Melvins.

Juntamente com as típicas bandas punk obscuras que Bruce Pavitt divulgava na sua fanzine de cassetes Subterranean Pop como os The Fartz, 10 Minute Warning ou U-Men, os Melvins revelaram-se uma influência primordial no futuro som de Seattle, resultado de uma fórmula atípica potenciada pelo tal isolamento onde doses generosas de punk, rock alternativo dos Sonic Youth aos Dinosaur Jr. e Pixies, e até metal (os Black Sabbath são o nome chave nesse domínio) se cruzavam em diferentes combinações. Esse som, ainda por refinar, mas já com caráter próprio, surgiu em meados dos anos 80 na histórica compilação Deep Six (C/Z Records, 1986) onde se alinhava material de bandas como Green River, Soundgarden, Melvins, Malfunkshun, Skin Yard e U-Men. Bruce Pavitt, que se mudou para Seattle em 1983, tinha entretanto visto a sua fanzine crescer. Nesse mesmo ano, lançou o nono e derradeiro número da sua publicação, que entretanto tinha encurtado o nome para Sub Pop, e começou a assinar uma coluna de nome «Sub Pop U.S.A.». no jornal local The Rocket. A divulgação de bandas e a edição mais ou menos artesanal de cassetes inspirou, também em 1986, a edição da compilação Sub Pop 100 que incluía temas de bandas como Sonic Youth ou Wipers. A compilação deu a Pavitt a credibilidade suficiente para que outras bandas o começassem a abordar com propostas de edição. A primeira das quais respondia pelo nome de Green River, grupo que incluía futuros membros dos Pearl Jam e Mudhoney. O EP Dry As a Bone, dos Green River, foi lançado em 1987 e promovido como «grunge ultra solto que destrói a moral de uma geração». Pavitt não inventou o termo grunge o crédito vai inteiro para Mark Arm, vocalista dos Green River, que terá pela primeira vez recorrido à palavra numa carta enviada a uma fanzine de Seattle para descrever o som da sua banda de então como «Pure grunge! Pure noise! Pure shit!», mas foi o responsável pela sua popularização, transformando o adjetivo no nome de um novo género.

Em 1988, Bruce Pavitt e o sócio Jonathan Poneman, que começou por financiar a edição do single de estreia dos Soundgarden antes de assumir um lugar na empresa, inscreveram formalmente a Sub Pop no mundo empresarial e, nesse mesmo ano, lançaram o material de estreia dos Mudhoney. A dupla demonstrou conhecer a história dos fenómenos musicais americanos e de como uma forte identidade regional esteve sempre na base de um sucesso nacional mais amplo os diferentes «sons» de Detroit, Memphis ou Nashville são exemplos possíveis e por isso mesmo entregou ao produtor Jack Endino a missão de definir a matriz sónica de Seattle, cumprida com distinção: só na reta final dos anos 80, Endino assegurou a produção de 75 singles, EPs e álbuns para a Sub Pop, discos gravados quase sempre com tempo limitado de estúdio para manter os custos baixos. Um desses singles foi «Love Buzz», estreia de uma banda da vizinha Aberdeen, também no estado de Washington, chamada Nirvana, e primeira entrada do famoso «Sub Pop Singles Club», um serviço de assinatura de edições em vinil de sete polegadas que chegou a contar com mais de 2 mil membros, facto que não só cimentou o estatuto da editora na sua cidade natal, como lhe assegurou um fundamental «cash flow».

Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, da Sub Pop

Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, da Sub Pop

Novo "grande" rock

Pavitt e Poneman perceberam igualmente que a atenção da imprensa britânica tinha ajudado substancialmente a carreira de bandas como os Sonic Youth ou Butthole Surfers e, em março de 1989, em vésperas da edição de Bleach, dos Nirvana, convidaram Everett True, jornalista do Melody Maker, a visitar Seattle para comprovar de perto a energia da cidade e o potencial dos Mudhoney. True começou por garantir que «de repente, Seattle é o centro de todas as coisas grunge» antes de admitir que «a Inglaterra está atualmente prisioneira de uma explosão rock que emana de uma pequena e insignificante cidade americana da Costa Oeste. Seattle, casa de Quincy Jones, Bobby Sherman, das Heart e da Space Needle (que apareceu no filme de 1962 com Elvis Presley, It Happened at the World's Fair). Agora, a cidade tem outro motivo de orgulho a editora Sub Pop, que se localiza no último andar do edifício Terminal Sales da Primeira Avenida».

O entusiasmo do jornalista do Melody Maker que descreveu os Nirvana como «incríveis», os Mudhoney como «magníficos» e os Tad como «uma banda capaz de esmagar a espinha» amplificou a visão da Sub Pop, tornando a pequena indie numa referência internacional. E com os Soundgarden já assinados pelo gigante A&M, todas as atenções se encontravam voltadas para o próximo fenómeno que a editora seria capaz de gerar. O investimento na vinda de um jornalista europeu para acompanhar a edição do primeiro álbum dos Mudhoney pode indicar que ninguém na Sub Pop percebeu imediatamente o impacto que os Nirvana poderiam vir a ter, facto que talvez se explique pela dificuldade que Pavitt teve em relacionar-se com o jovem Kurt Cobain, que nesta época mal saía de casa.

Depois de Bleach, claro, nada voltou a ser igual. Apesar de inicialmente esse álbum não ter registado impacto comercial significativo, até porque a Sub Pop parecia mais apostada em colocar o seu peso relativo noutros lançamentos, a verdade é que o importante circuito das rádios universitárias americanas percebeu que havia ali algo de especial, cimentando o estatuto da banda que, por viva recomendação de Kim Gordon, dos Sonic Youth, haveria de ser assinada em 1990 pelo gigante David Geffen, executivo que um ano depois editaria Nevermind. A Sub Pop, entretanto, ia também reforçando a sua capacidade de descobridora de talento editando nos primeiros tempos dos anos 90 trabalhos de gente como L7, Codeine, Mark Lanegan, Afghan Whigs, Babes in Toyland, Rollins Band, Hole, Urge Overkill ou Walkabouts, entre muitos outros nomes.

Apesar da capacidade de mobilização musical, a Sub Pop nunca conseguiu deixar de ter problemas financeiros e, em 1991, esteve mesmo perto de fechar as portas. Terá sido o acordo conseguido com a Geffen que manteve a editora criada por Bruce Pavitt e Jonathan Poneman acima da linha de água. As vendas monumentais de Nevermind criaram um fluxo de royalties para a Sub Pop que lhe permitiu continuar a operar.

Seattle entretanto já se tinha revelado como cenário de um filme de Hollywood Singles, de Cameron Crowe e como o berço da nova realeza rock americana, dos Soundgarden aos Alice Chains, passando, claro, pelos Nirvana.

Mudam-se os tempos

Com a América das corporações a espremer até ao limite o potencial comercial do grunge, uma reação era inevitável. Em 1993, In Utero tentava provavelmente ser a receita com que os Nirvana queriam iludir o sucesso pop, mas nem o «som selvaticamente agressivo» (de acordo com as palavras usadas por Krist Novoselic para descrever o sucessor de Nevermind), impediram o disco de vender perto de um milhão de cópias só na primeira semana. O ingénuo sonho grunge, como todas as outras revoluções musicais juvenis do rock and roll de Elvis ao punk dos Ramones e daí até ao hip hop dos Public Enemy parecia ter-se tornado num produto para a América vender nos subúrbios.

Mas em 1994, Pavitt ainda vivia o sonho: «Jon e eu apostámos no hype até onde foi possível porque acreditávamos que o que estava a acontecer aqui era realmente especial. Mas é um jogo, porque se a arte e a música não estão à altura do hype, a aposta torna-se numa piada foi uma aposta pesada esta de apostarmos em Seattle o mais possível. Mas felizmente os discos foram saindo e eram bons e a cena transformouse numa bola de neve», recordou Bruce Pavitt à Dazed & Confused pouco depois da morte de Kurt Cobain. «Conheci o Kurt como alguém de uma sensibilidade extrema, muito reservado era muito difícil alguém conhecê-lo realmente. Neste momento não consigo ouvir a música dele e desligo o rádio sempre que um tema dos Nirvana é tocado. Não sei se algo de positivo alguma vez sairá... disto. Talvez mude as mentes das pessoas ou o que sentem para algo melhor. Mas neste momento, não sei».

Kurt Cobain faleceu em abril de 1994, um ano em que a Sub Pop lançou trabalhos dos Sebadoh, Mark Lanegan, Sunny Day Real Estate, Fastbacks, Walkabouts ou Reverend Horton Heat. Jar of Flies dos Alice Chains chegou ao primeiro lugar das tabelas e talvez tenha traduzido o derradeiro suspiro do sonho de Seattle. Depois, discos de gente como Green Day, Blur, Weezer ou Oasis anunciaram a chegada de um novo som à arena rock. E os Aerosmith, em junho, tornaram-se o primeiro grande grupo a lançar uma canção nova na internet. Outra revolução começava a desenhar-se.

Originalmente publicado na BLITZ de abril de 2014