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“Nevermind”, dos Nirvana, faz 25 anos: vamos ouvi-lo outra vez?

Há cinco anos, pedimos a vários músicos que voltassem ao álbum de “Smells Like Teen Spirit” e nos dissessem o que ainda veem nele. Falam Mariza, Zé Pedro, Rita Redshoes e Panda Bear, entre outros. E, de permeio, pode aqui recordar o disco (lançado originalmente em setembro de 1991) - e todos os extras que ganhou entretanto

Mariza «Os Nirvana são uma banda de culto que marcou uma geração e, ao mesmo tempo, a sua obra era tão "futurista" que hoje ainda faz todo o sentido ouvi-los, cantar os seus temas e ser fã» [Mariza interpretou uma versão de «Come As You Are» no Rock In Rio Lisboa 2010]

Zé Pedro (Xutos & Pontapés) «Nevermind é um álbum equilibrado que virou uma página no rock. A primeira canção que ouvi foi a "Smells Like Teen Spirit" e pareceu-me ter um som novo, com aqueles acordes de balada a que se seguia depois um "power chord" que lhe dava uma grande dinâmica»

Samuel Úria «"Smells Like Teen Spirit": até pode não ser a melhor canção dos anos 90, mas é o maior hino. Quem não concorda devia ser novo demais, ou velho demais, ou comatoso demais. Entrei na puberdade ao som desta coisa volátil. Não teria sido menos perigoso se, em vez da canção, me tivessem passado para as mãos uma barra de dinamite. [Por sua vez], "Drain You" é a canção maldição. Antes de ouvi-la, havia em casa uma guitarra que era da minha irmã. Depois de ouvi-la, havia em casa uma guitarra que roubei à minha irmã. "Drain You" é o convite ao plágio: ainda hoje, quando me sento para fazer uma canção, é sempre a sequência de acordes "Lá -Dó sustenido menor" que me escapa das mãos. Será sempre assim»

DJ Ride «Quando o álbum saiu ainda nem tinha leitor de CDs em casa, mas recebi-o de presente quando tinha 11 anos. Mesmo naquela altura a minha "praia" não era o rock, mas foi dos poucos discos que lá ganharam o seu espaço na prateleira. Estava era bem longe de imaginar que anos mais tarde iria passar o "Smells Like Teen Spirit"nos meus sets de DJ, principalmente em festivais e festas mais explosivas»

João Vieira (X-Wife) «Na altura andava de skate quase todos os dias e eram discos como este que me inspiravam. Quando Kurt Cobain se suicidou estava no emblemático e também já falecido Marquee, em Londres. O DJ parou a música, anunciou ao microfone que tinha acabado de saber que o Kurt Cobain se tinha suicidado, passou o "Teen Spirit" e desligou o PA. Nunca me vou esquecer disto»

Joaquim Albergaria (PAUS) «O "Smells Like Teen Spirit" era o cristalizar desse sentimento perfeito para o distanciamento geracional de que a cultura depende, para afastar filhos dos pais na ressaca da revolução e para afastar a minha geração de uma geração enamorada com a poupa do Morrissey. Nirvana foi importante, muito importante para me fazer sentir acompanhado num mal-estar de que não sabia o nome, mas que na altura tinha som»

Panda Bear (Animal Collective) «"Breed" é o tema que se destaca. Começa com uma cena rápida, que vai mudando, mas a energia mantém-se, nunca descansa. E a canção tem tanta emoção que é algo que eu também procuro, essa mudança constante. Há uma propulsão qualquer nessa canção, a voz nunca para, faz muitas repetições e eu gosto muito disso»

Rita Redshoes «Em 1991 eu tinha 10 anos. Estudava num colégio que odiava e nascia em mim a necessidade de revolta e rebeldia próprias de uma miúda que em breve iria entrar na adolescência. Talvez tenha sido por isso que o Nevermind se tornou na minha primeira compra musical. Vejo o disco como um todo mas lembro-me de ouvir mais vezes duas músicas. Uma delas, "Breed", talvez pelo começo de bateria frenético e pela repetição das palavras que, confesso, me causavam um estado de hipnotismo. Também adoro a "Something In The Way", por contraste com toda a sonoridade do Nevermind e pelo lado mais deprimido da personalidade do Kurt Cobain, tão claramente exposta na canção»

Tiago Guillul «A primeira vez que ouvi a "Lithium" já tinha consciência do fenómeno Nirvana. Curiosamente, à primeira audição detestei a primeira canção que ouvi do disco, a incontornável "Smells Like Teen Spirit". Soou-me a berraria inconsequente e na altura eu tentava responder à ortodoxia do metal (que, apesar de barulhento, impunha muitas restrições às liberdades do ruído). A "Lithium" pareceu-me Beatles com uma parte de mosh, o que me atravessou como especialmente perigoso por juntar o bom comportamento melódico da música que os nossos pais ouviam com o abençoado disparate de adolescentes a saltarem para cima uns dos outros. A "On A Plain" tem aquele ingrediente que faz do Nevermind um disco que suplanta o seu próprio fenómeno. Claro que está lá o grunge, o desprezo nineties pela maquilhagem oitentista, a auto-depreciação irritante do existencialismo pósadolescente. Junto-me ao cliché: é um disco perfeito e mudou a minha vida»

Miguel Guedes «A minha primeira recordação pertence à rádio. Ouvi "Smells Like Teen Spirit" no programa do António Sérgio e fiquei agarrado, parecia-me que estava a ouvir algo de verdadeiramente novo. A canção acabou por crescer com o contexto, sendo uma espécie de hino involuntário de uma geração. O Nevermind é um disco excecional, com um lado pop que acabou por permitir que outros projetos mais marginais de Seattle pudessem ser conhecidos, à boleia. Se tiver que apontar uma música de eleição, será a "Breed", violenta, direta ao assunto. Está associada, no meu caso, a muitas boas noites na Ribeira do Porto, em bares como o "Patriot"»

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2011