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Arquivo Alexandre Soares

GNR: O Porto, 1979-82

Aos 35 anos de carreira, com uma biografia oficial acabada de lançar e concertos comemorativos anunciados em Lisboa (12 novembro) e Guimarães (5 novembro), recordamos como tudo começou, num artigo assinado por André Gomes. Capítulos essenciais de uma banda que ajudou a (des)construir a face do rock em Portugal

Ao olhar para os anos 80, é normal confundir o rock português com a história dos GNR e achar que estes são sinónimos. Foram eles um dos nomes de proa de uma nova realidade musical lusa que explodiu pouco tempo depois do 25 de Abril, provocadora e urgente, na busca de estabelecer um marco na música portuguesa e de quebrar barreiras. De 1980 até 1984, do boom à ressaca, muitos foram os nomes que surgiram segurando a bandeira do rock cantado em português.

Mas mesmo antes desse movimentado 1980 já Alexandre Soares e Vítor Rua haviam lançado as primeiras sementes daquela que se tornaria numa das maiores bandas portuguesas. Apesar de a história os ter registado como pares das bandas de então, os GNR fizeram sempre os possíveis para ficar à margem do fenómeno e os seus membros fazem questão de o sublinhar a intenção de quebra com tudo ficou desde logo registada no nome. A tentativa de engavetar os GNR no boom do rock em português aconteceu por aproveitamento comercial, dizem uns, e apesar de não ouvirem rock português, não falarem sobre rock português e de acharem pirosos muitos dos grupos da altura, dizem outros. Na altura iam beber a outros territórios e eram órfãos em território virgem. Os blues não lhes interessavam e preferiam a new-wave e o punk, moviam-se a combustíveis diferentes. Pareciam bastante mais urgentes e insubmissos do que a maior parte das bandas que nasciam em Portugal.

O MOMENTO CERTO

Tudo começou em 1979 numa noite em que Vítor Rua actuava com a sua banda de então, os King Fishers Band. No final do concerto, Alexandre Soares abordou o músico e iniciam uma conversa. Descobriram que tinham muitas coisas em comum, especialmente uma vontade enorme de criar um grupo onde pudessem pôr em prática as suas ideias musicais. Nas palavras de Vítor Rua: «nessa mesma noite marcámos um encontro na minha garagem (que viria a ser o local de ensaios dos GNR) para tocarmos juntos. No primeiro encontro tocámos esboços de temas nossos e entre esses apresentei "Portugal na CEE" e "Sê um GNR" (mas ainda em versão em inglês)». Alexandre Soares vê o nascimento dos GNR como uma inevitabilidade: «é aquela coisa das bandas de garagem, "vamos fazer, vamos fazer". Mas depois fizemos mesmo. Era para fazer. O que na altura foi importante para nós é que um gajo sentia que era o momento. Não interessa se era urgente, era o momento. Eu estava no curso de Direito, o Vítor queria ser músico profissional, disse-me isso de caras. Não era uma banda para entreter, era para mudar». Os encontros seguiram-se e foi então que se aperceberam que necessitavam de um baterista. Alexandre Soares fala a Vítor Rua de um baterista que tinha ouvido tocar numa festa do colégio alemão e que era muito original. Foi assim que surgiu Toli César Machado. «Mas havia um problema», conta Vítor Rua, «aliás dois. Não tínhamos bateria nem tínhamos baixista e foi desta necessidade dupla que surgiu o Mano Zé: era baixista e tinha uma bateria! Dois em um. Era o início dos GNR».

Tal como aconteceu com tantas bandas, os GNR sentiam um elo importante com a cidade que os viu nascer: o Porto. Talvez a «pronúncia do Norte» fosse já algo que residia no seio da banda de forma invisível, apesar de Alexandre Soares acreditar que os GNR podiam ter nascido numa outra cidade, desde que os músicos certos se cruzassem no caminho certo. Os GNR sentiram a influência da cidade onde se movimentavam de formas díspares: uns pela vida que faziam (Alexandre Soares achava a cidade «vivíssima»), outros pela ausência de uma vida de entusiasmo e algum tédio: «costumo dizer que ensaiávamos imenso porque não se passava nada no Porto», afirma Toli César Machado. «O Porto pouca coisa tinha em termos de discotecas», continua. «Tinha a que nós íamos mais, o Griffon's. Era a discoteca da altura, a que passava música mais moderna. Encontrávamo-nos todos nos concertos, a maior parte no Pavilhão Infante Sagres e no Pavilhão Académico. Pouca coisa mais havia». «Havia três ou quatro espaços para nos encontrarmos à noite para dançar», relembra Vítor Rua. «Lembro-me que o Batô passava boa música: punk, new-wave. De resto trabalhávamos muito: muitos ensaios (quase diários). Não era uma cidade alegre e aberta. Eu não entrava nas discotecas porque usava o cabelo azul e vermelho», conclui.

Tanto quanto se sabe, o nome GNR foi ponto unânime no seio da banda; constou na altura que a primeira entidade a ocupar essa sigla, a Guarda Nacional Republicana, não ficou satisfeita ao ver os três jovens portuenses responderem por um nome que aqui ostentava outro significado Grupo Novo Rock. Toli César Machado conta que não chegou a existir propriamente um contacto da GNR ou medidas legais contra a banda; diz que foi mais um aproveitamento da imprensa do que outra coisa qualquer. Para Toli César Machado, a identidade estética que entretanto nasceu foi «uma coisa muito natural. Não havia nada combinado. Eram as influências que as pessoas tinham. O Alexandre e o Vítor Rua já tinham mais experiência musical. Mais do que eu. Houve ali uma conjugação de vários estilos. Ouvíamos mais ou menos o mesmo género de coisas. No meu caso, e penso que talvez no do Alexandre, ouvíamos a chamada new-wave. Elvis Costello, Talking Heads, gostávamos de tudo». «Não era uma questão de ouvir para fazer, vivíamos nas mesmas realidades», confessa Alexandre Soares. «Havia ali um mundo anfetamínico que andava próximo», conclui. Nos primeiros ensaios deu-se vida aos dois primeiros temas do grupo: «Portugal na CEE» e «Espelho Meu». Pouco tempo depois chegava «Sê um GNR». Na altura, a banda cantava em inglês e os nomes dos temas eram outros.

O primeiro concerto dos GNR, que na altura tinham Isabel Quina como vocalista, acontece pouco depois, num local curioso: «na igreja do Carvalhido», conta Vítor Rua. «Fizemos a primeira parte do grupo antigo do Alexandre [Soares] os Pesquisa e actuámos com uma vocalista. Apresentámos temas nossos, ao contrário do grupo principal. Foi um sucesso imediato. O público adorou e começámos a ser falados», conclui Vítor Rua. Depois da saída da cantora, Alexandre Soares assume o controlo da voz, por exclusão de partes nem Toli César Machado nem Vítor Rua possuíam qualidades vocais para isso e apesar daquilo que representa ser um frontman.

Vítor Rua, Alexandre Soares, Tóli César Machado, Miguel Megre

Vítor Rua, Alexandre Soares, Tóli César Machado, Miguel Megre

Arquivo Gesco

QUEM QUER VER PORTUGAL NA CEE?

Entretanto os ensaios continuavam - mas surgia uma legítima vontade de materializar aquilo que acontecia naquelas reuniões. «Portugal na CEE» e «Espelho Meu» foram as canções escolhidas. No meio de tantas coincidências e acasos, a forma como surge a hipótese de gravar e editar o primeiro single também não terá sido menos peculiar. Vítor Rua: «tinha saído uma notícia no Tal & Qual, do jornalista Luís Vitta, a dizer "vejam bem: existe um grupo no Porto chamado de GNR". Dias depois, vou a um concerto dos Gang of Four, vestido com uma t-shirt que dizia GNR escrito com sangue. Fui abordado por uma pessoa que me perguntou se eu era dos GNR. Disse - estranhado por alguém nos conhecer - que sim. Foi então que o Chico Vasconcelos [Francisco Vasconcelos, A&R da Valentim de Carvalho] se apresentou, dizendo que era da Valentim e queria que fôssemos a Lisboa para gravar. Foi fácil». Passariam cinco anos até que Portugal se tornasse efectivamente membro da CEE (depois de o ter solicitado em 1977), mas o single, esse, não tardou em tornar-se um êxito estrondoso: vendeu mais de 15 mil exemplares e lançou o grupo para o centro das atenções. Vítor Rua conta que os GNR estavam «mais preocupados em fazer novas coisas e apresentar novos trabalhos. O sucesso apareceu-nos como normal. Eu e o Toli não ligávamos nada a essas coisas». A prova disso surge pouco tempo depois. Ainda em 1981, «Sê um GNR»/«Instrumental Nº1» confirma a ascensão da banda, vendendo ainda mais cópias que o single anterior. Entre os dois registos acontecem mais mexidas na banda. Mano Zé abandona os GNR e Miguel Megre entra para os quadros.

Apesar de não ter sido um dos mais de 15 mil compradores (Toli César Machado avança com a cifra de 20 mil) de «Portugal na CEE»/«Espelho Meu», Rui Reininho, que na altura tinha o seu próprio projecto (Atitudes) e passado como Anarband (com quem gravou um disco), tomou contacto com a música dos GNR nessa altura: «achei bem. Achei que tinha uma certa modernidade que a maior parte dos grupos não tinha e que era uma ruptura um pouco com o passado», afirma. «No final dos anos 70 estive bastante por Londres, a pensar se fico por aqui, se fico ou não fico, e apanho aquele período que se pode chamar punk/new-wave, que era muito interessante. Depois eu estava ali naquela zona de Camden Town, Camden Lock, o Electric Ballroom. Vi aquelas bandas ao vivo: os Damned, os Generation X. Coisas que vi assim a 10 metros», recorda.

A certa altura, Rui Reininho, que também escrevia num jornal, desloca-se ao Pavilhão do Académico para assistir a um dos primeiros concertos dos GNR no local: «já conhecia o Alexandre, sabia que ele era músico. O Vítor Rua creio que também já tinha visto. Inversamente eles ter-me-iam conhecido porque tinham ido a um espectáculo que eu tinha na altura, o Atitudes», conclui. Reininho, que tinha escrito um artigo sobre os GNR, durante a conversa que tem com a banda nessa noite, levanta o véu das divergências que se instalariam pouco depois: «Acho que até causei uma certa polémica por causa da preferência. Já havia linhas estéticas e eu gostei mais daquela onda do "Espelho Meu" do que propriamente do "Portugal na CEE". Começou logo ali uma tensão entre conceitos estéticos diferentes», confessa. «Precisamente quando entro na escola de cinema de Lisboa também sou convocado, digamos assim, para os GNR. Alistei-me na corporação», explica. «No início, o Rui foi convidado para tocar guitarra», lembra Vítor Rua. «Mas rapidamente se chegou à conclusão que ele era um excelente "performer" (mais do que cantor) e era o que precisávamos: alguém que assumisse o lugar de vocalista até aí preenchido timidamente pelo Alexandre», explica Rua. «[O Rui Reininho] era um grande "performer" que escrevia bem. Quando ele entrou», conta Alexandre Soares, «deu alguns problemas nos concertos. Havia gente que estava habituada ao grupo anterior e ainda levámos porrada durante algum tempo. O Rui ainda levou alguma porradita. O Vítor também, quando mudou um bocado de visual. Na altura, os concertos, quando davam porrada, era a desviar de garrafas», recorda. Ao que parece, a entrada de Rui Reininho serviu também o propósito de estabelecer um balanço no seio da banda, de colocar um tampão nas discordâncias: «tenho a impressão que, se ele não entrasse, as divergências entre nós eram tão grandes que a gente estourava», confessa Alexandre Soares.

Começava ali outra das formações históricas dos GNR aquela que se predispunha a registar aquele momento num disco, com princípio meio e fim; uma formação que geria personalidades, egos e preferências estéticas da forma possível: «sempre a discutir, sempre. Depois dos primeiros ensaios, a primeira recordação que tenho é que as pessoas falavam todas ao mesmo tempo», lembra Reininho. «Havia muita discussão estética. Às vezes sei que osGNR fazem transparecer uma atitude um bocado fria e até snob, mas acabava por ser um grupo muito latino, muita discussão, muita gritaria», conclui.

Arquivo Alexandre Soares

UMA REVOLUÇÃO CHAMADA INDEPENDANÇA

Em «duas semanas ou três», os GNR compõem quase todo o material que viria a ser o LP Independança. O salto gigante acontece em Lisboa, no estúdio de Paço de Arcos, no meio de noitadas e alguns excessos. Viagens de táxi inusitadas e momentos de puro nonsense não impediram os GNR de conseguir um dos melhores discos da história da música portuguesa: «aconteceu estarmos em estúdio a gravar e de repente estava tudo a fazer disparates, o Rua a fazer números de circo, o Miguel Megre a tocar num órgão electrónico com caixa de ritmos e eu a dormir com uma ressaca monstruosa nem vi que chegou o Chico Vasconcelos lá e apanhou-nos nesse estado», lembra Alexandre Soares. «Foi muito complicado o processo de criação», conta Toli César Machado. «Deu muitos problemas no estúdio, foi um corte com uma data de coisas, partes musicais que fazíamos, mudámos muitas coisas. Houve um choque de egos. É normal. Com o LP, toda a gente queria dar bitaites. Houve confusão e algumas disputas em termos de canções, mesmo com o Alexandre», conclui.

Temas como «Hardcore (1.º Escalão)» e «Agente Único» representavam uma verdadeira explosão em território luso. Mas havia algo ainda mais surpreendente na estreia dos GNR: Independança incluía um tema de mais de 26 minutos intitulado «Avarias», onde os GNR exploravam o seu lado mais experimental: «a ideia era gravar um tema de 4 a 5 minutos, repetitivo. Para isso, decidimos gravar um take com a duração da fita e depois escolhíamos a melhor parte», conta Vítor Rua. «No final, o Ricardo Camacho e o Tó Pinheiro da Silva disseram: isto é assim. E era. Só era necessário convencer o Chico. E ele aceitou. Éramos o grupo mais original de rock do momento», afirma Rua.

O disco foi um êxito em termos de crítica mas não foi tão forte em termos de vendas. Porquê? Vítor Rua: «Estávamos a falar de um período onde as letras das canções eram "Rua do Carmo" ou "amor" ou "pentelhos" e surgia alguém a dizer coisas como: "ele é blitz tampax, mama mandrax, as formas de um sax" ou "horrorosa natureza pseudo-mãe transformada em pátria e guerra"». Mas há mais. «Como se isto não bastasse, tínhamos um tema de 27 minutos: uma improvisação em tempo real. Nada disto era normal. Tudo isto era original e fugia à vulgaridade do rock que se produzia em Portugal. Nunca fomos cabeça de cartaz. Se tocassem os Táxi eram eles os cabeça de cartaz; se fossem os UHF eram eles. Os Xutos... todos! Não éramos comerciais», afirma Vítor Rua. «O flop estourou com o grupo», conta Alexandre Soares. O risco fez parte dos GNR desde o princípio e Independança não foi excepção. Mas a evolução dos singles para o álbum de estreia provocou algumas baixas: «o que nos unia era a estética e foi a estética que nos desuniu», comenta Alexandre Soares, que é convidado a sair na altura do processo Independança. Miguel Megre abandona também a banda. Os GNR caminhavam em corda bamba: o futuro parecia incerto.

Depois do lançamento de Independança, e apesar do fracasso das vendas, os GNR promoveram da forma possível o disco. Um dos concertos mais importantes acontece no Ritz Clube, em Lisboa: «estava lá toda a gente», lembra Vítor Rua. Mas a cronologia «live» de então teve, em determinado concerto, um momento de definição do futuro da banda. Em Agosto de 1982, os GNR actuam no Festival de Vilar de Mouros, num concerto que chega mesmo a ser anunciado como o último do grupo: «actuámos em trio», lembra Vítor Rua. «Foi uma loucura tocámos o "Avarias" durante 30 minutos em trio: voz, bateria e baixo para 20 mil pessoas que queriam era ouvir o "Portugal na CEE"». A banda voltava a desafiar a lógica. Mas apesar dos rumores, a história não terminaria naquela noite de 82 embora Vítor Rua saia da banda pouco depois. Antes, pegaram naquele momento de indecisão e transformaram-no em passado. Escolheram o futuro. Mas essa é já outra história.

Texto: André Gomes