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“Born To Run”, a autobiografia de Bruce Springsteen, é a história de um homem que nasceu para correr o mundo. E nós já a lemos

São mais de 500 páginas preenchidas por memórias nítidas que ajudam a compreender um dos maiores fenómenos de sempre do rock and roll - da infância católica aos maiores palcos. Leia um excerto do artigo sobre “Born to Run” (edição nacional a 27 de setembro, pela Elsinore) que publicaremos na próxima edição da BLITZ.

Conta-nos Bruce Springsteen enquanto vai pintando, com pinceladas precisas e elegantes, o retrato da entrada do rock and roll na sua vida, que o Hullabaloo Club, «espécie de franchise de clubes em todo o país, aproveitando qualquer supermercado ou armazém vago», lhe permitiu ver artistas importantes – «em Freehold, num supermercado abandonado, tive a honra de ver a majestade de Screaming Lord Sutch, vindo de Inglaterra» – e travar conhecimentos que lhe moldariam o futuro: «o segundo Hullabaloo Club onde fomos era em Middletown. Quando entrei, vi um tipo no palco com uma gravata às pintinhas gigantesca, que ia desde a maçã-de-adão até ao chão. Era o vocalista de uma banda chamada Shadows, que estava a interpretar à sua maneira uma versão de “Happy Together”, dos Turtles. Não o conhecia, mas o tipo tinha piada e a banda era coesa. Tinham escolhido as músicas certas para os covers; os arranjos e as harmonias eram de uma precisão extraordinária». O novelo da memória desenrola-se depois, com Bruce a mencionar o grupo que passou a liderar desde finais de 1965: «durante a pausa de cinco minutos dos Shadows, fui apresentado ao vocalista, o Steve Van Zandt. Naquela altura, os Castiles já eram bastante conhecidos e, por isso, ele sabia quem eu era; conversámos um bocado, despedimo-nos e ele voltou para o palco. E foi assim que começou uma das maiores e mais longas amizades da minha vida».

Born to Run irá, certamente, encabeçar a lista de best sellers do New York Times, tal as expectativas que o rodeiam. Em Portugal, o livro merece simultânea edição da Elsinore, com uma tiragem inicial de 7500 exemplares e tradução a cargo de Maria do Carmo Figueira e João Reis. Bruce Springsteen já tinha revelado o prefácio na sua página oficial de internet e, por isso, é possível comparar a escrita original com a tradução portuguesa, que é cuidada, certeira e elegante. «I come from a boardwalk town where almost everything is tinged with a bit of fraud. So Am I», espantoso par de frases de abertura, transforma-se em «Nasci numa cidade à beira-mar onde quase tudo é contaminado por uma certa dissimulação. Incluindo eu». A versão portuguesa é feita com cuidado e nunca se sente que a especificidade da nossa língua seja um obstáculo para o desenrolar de uma história vivida, pensada e registada num outro idioma. O que é o melhor elogio que se pode fazer a um trabalho destes.

Bruce Springsteen a ver, pela primeira vez, uma cópia final do seu álbum de estreia, "Greetings From Asbury Park, N.J."

Bruce Springsteen a ver, pela primeira vez, uma cópia final do seu álbum de estreia, "Greetings From Asbury Park, N.J."

Born to Run é por Springsteen, e compreensivelmente, dedicado à sua mulher, Patti Scialfa, e aos seus filhos, Evan (26 anos), Jess (Jessica Rae, 24 anos) e Sam (Samuel Ryan, 22 anos). A obra divide-se em três grandes «livros»: «Growin’ Up» é o título do primeiro, onde se expõem as raízes familiares e culturais de Springsteen, a infância católica, a relação com os avós, os lados italiano e irlandês da sua família e, claro, o aparecimento do rock and roll na sua vida e o percurso até The Wild, The Innocent and the E Street Shuffle, o segundo álbum da sua carreira, lançado em setembro de 1973.

«Born to Run» é o título do segundo bloco, que se estende por memórias da feitura e edição do álbum do mesmo título, a entrada de Jon Landau na sua vida e todos os trabalhos lançados até Tunnel of Love, álbum de 1987. «Prova Viva» é o derradeiro segmento de Born to Run: começa com o capítulo «Revolução Ruiva», dedicado a uma mulher «inteligente, dura de roer e frágil», Vivienne Patricia Scialfa, com quem Bruce se casou depois de iniciar uma relação que nasceu durante a digressão de Tunnel of Love (álbum repleto de reflexões sobre o seu primeiro e falhado casamento com Julianne Phillips). O livro estende-se depois pelos últimos 20 anos da vida de Springsteen, até à edição de High Hopes, o seu mais recente trabalho de originais, datado de 2014, e conclui-se com o capítulo 79, «Long Time Comin’» que pede o título emprestado a uma canção em que o autor expressou os desejos que acalentou para os seus filhos: «Honramos os nossos pais quando conservamos na memória o que de melhor tinham e faziam e deixamos o resto para trás. Quando combatemos e controlamos os demónios que os deitaram abaixo e que, agora, habitam em nós», escreve o homem de Born in the USA.

Bruce Springsteen and the E Street Band no terraço dos estúdios Record Plant, em Nova Iorque, onde gravaram o álbum "Born To Run", entre 1974 e 1975

Bruce Springsteen and the E Street Band no terraço dos estúdios Record Plant, em Nova Iorque, onde gravaram o álbum "Born To Run", entre 1974 e 1975

O livro é emoldurado ainda por um prefácio e um epílogo. Logo a abrir, uma canção em potência, certamente, escondida nas poderosas palavras já por aqui citadas: «nasci numa cidade à beira‐mar onde quase tudo é contaminado por uma certa dissimulação. Incluindo eu. Aos vinte anos, sem qualquer espírito de rebeldia materializada em corridas loucas de carros, tocava guitarra nas ruas de Asbury Park e já era um membro de pleno direito do grupo dos que “mentem” a bem da verdade... Artistas, com “a” pequeno».

O epílogo contém uma metáfora, já batida mas que Springsteen aborda com elegância, ao evocar o pôr do sol e a chegada da noite como um paralelo para a sua própria vida. «Enquanto o sol se põe sobre imensas nuvens cinzento‐azuladas, ligo o motor da minha mota, aperto o capacete, ponho o lenço em volta da cara, aceno um adeus e saio da pequena cidade de Manasquan, para entrar de imediato no tráfego de hora de ponta da Route 34. O sol acabou de se pôr e surge um anoitecer frio. Num semáforo, corro o fecho do meu casaco de couro até ao pescoço, e observo como o tacão da minha bota descansa sobre o tubo de escape quente e retorcido do meu motor V2, fazendo com que de um fragmento de borracha se erga uma circunvolução de fumo azul no fresco ar outonal».

É, no entanto, entre esses dois momentos de Born to Run que os fãs de Bruce Springsteen, mesmo os que acreditem conhecer-lhe a vida de trás para a frente, vão descobrir as suas recompensas, à medida que o músico escancara as portas para o incrível depósito das memórias que lhe suportam a sua vida (e que certamente já terão algum grande estúdio de Hollywood entusiasmado com a perspetiva de as adaptar a um filme).

"Born To Run", de Bruce Springsteen, à venda 27 de setembro

"Born To Run", de Bruce Springsteen, à venda 27 de setembro

O texto completo poderá ser lido na BLITZ de outubro, dia 30 de setembro nas bancas.