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Red Hot Chili Peppers: quando o rock rimava com drogas (e muito sexo)

Na entrevista que demos à estampa na edição de julho último, Flea confirma que se encontra a trabalhar naquilo a que chama as suas “memórias”. Em 2004, Anthony Kiedis antecipou-se e partilhou com o mundo um relato inacreditável da história da sua banda e da sua vida também. Scar Tissue é uma das biografias mais cruas de sempre

Anthony Kiedis estava de regresso de uma digressão com os Red Hot Chili Peppers quando ligou à namorada de então, Ione Skye, a pedir desculpa. De um telefone público, o frontman da banda, que na sua biografia recorda detalhadamente as incidências das suas relações amorosas, marcou o número de casa para avisar a companheira de que voltara à droga. Filha do cantor irlandês Donovan, Ione atendeu a chorar e gritar. Kiedis sabia que a notícia não a deixaria contente sobretudo numa altura em que o grupo começava a ponderar a necessidade de se livrar dos estupefacientes, mas não esperava uma reação tão trágica. «Ela estava a berrar: vem já para casa! Aconteceu uma coisa horrível!», conta o vocalista em Scar Tissue. «Acho que disse qualquer coisa sobre o Hillel [Slovak, guitarrista dos Red Hot Chili Peppers], e parte de mim percebeu logo que ele devia ter morrido. Mas rapidamente entrei num estado de negação, pensando: ela está confusa. Se calhar teve uma overdose e ela acha que ele morreu». Ao chegar a casa, a atriz, que à época ainda não tinha completado 18 anos, gritoulhe: «"O teu amigo Hillel morreu". E passou-se.

Até parecia que era o melhor amigo dela», recorda Kiedis. «Mas sentiu aquela dor toda de imediato, ao passo que eu me recusava a aceitá-la. Acho que desliguei o cérebro. Sei que não parei de consumir nessa noite. Acordei no dia seguinte, num estado de choque e negação. Toda a gente estava ocupada com o funeral e [encontrar] os culpados, e eu sabia que, quando alguém se mete na droga, não há ninguém para culpar». A reflexão é particularmente curiosa quando atentamos ao percurso de Kiedis, que muito jovem decidiu ir viver com o pai para Los Angeles. Deixando para trás a mãe, no bem mais pacato estado do Michigan, o pequeno rebelde embarcou então num percurso de vida que esteve para ser adaptado para uma série de televisão. A ideia foi abortada, mas a estupefação com a leitura de Scar Tissue mantém-se: com o pai enquanto tutor, Kiedis, então apenas Tony, transportou dinheiro de droga, experimentou drogas leves e assistiu a cenas de sexo explícitas antes dos 10 anos. Aos 12 já perdera a virgindade com uma namorada «emprestada» pelo pai, de 18, e aos 14 era versado no consumo de cocaína e já tinha snifado, por engano, heroína.

As primeiras 100 páginas da sua biografia contêm centenas de alusões ao mais diverso tipo de estupefaciente (aos referidos juntam-se os ácidos, o LSD, o álcool do qual faz sempre questão de referir não ser fã) e às estratégias, geralmente criminosas, que desenvolvia para obtê-los. Que Kiedis esteja vivo e com um cadastro limpo é a maior surpresa que ressalta de Scar Tissue; que tenha enveredado por uma vida tão tóxica causa pouco espanto, depois de conhecido o seu ambiente familiar. Contudo, e de regresso a 1988, ano em que Hillel Slovak, o primeiro guitarrista dos Red Hot Chili Peppers, nascido em Haifa, Israel, foi vitimado por uma overdose de heroína: para Kiedis, que se recusou a ir ao funeral do amigo, ninguém é responsável pelo vício de outrem. «As pessoas são responsáveis pelo seu próprio comportamento. Não é culpa do dealer, nem do amigo, não tem a ver com as más influências, nem com a infância. Por alguma razão triste e nojenta, as pessoas achavam que eu era responsável pela partida do Hillel aos 25 anos, porque o meu vício começara muito mais cedo que o dele. A família dele disse que eu tinha sido a sua má influência». Para Kiedis, cuja escrita, diga-se em abono da verdade, é sempre isenta de juízos de valor, a acusação era «meio irónica, porque eu nunca culpei ninguém pelo meu consumo de drogas. E bem tentei que o Hillel se curasse».

As tentativas falharam e o jovem guitarrista, um dos membros fundadores dos Red Hot Chili Peppers e peça fundamental do som dos seus verdes anos, pereceu antes mesmo dos 27 anos com que tantas figuras icónicas (Jim Morrison, Janis Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse) entregaram a alma ao criador. Kiedis, que em Scar Tissue se refere ao amigo que conheceu no liceu como sua alma gémea, justifica ainda não ter ido ao seu funeral: «As pessoas acharam que foi uma falta de gosto da minha parte. O Hillel era o meu melhor amigo, mas eu estava a morrer da mesma coisa que o matou. E não teve nada a ver com gosto. Teve a ver com insanidade e com não conseguir lidar. A Ione e eu voámos para Puerto Vallarta [no México], e daí apanhámos um pequeno barco a moto para um sítio chamado Yelapa, uma pequena vila piscatória com umas 100 pessoas», recorda.

O escapismo durou poucos dias e, no regresso a Los Angeles, as veias de Kiedis voltaram a encher-se das substâncias que fizeram sempre parte da história dos Red Hot Chili Peppers (aquando do seu primeiro álbum, o homónimo de 1984, Flea encantou-se pelos Minor Threat e pela sua mensagem antidrogas, mas não conseguiu deixar por completo certos consumos). Quanto a Kiedis, pouco depois de ver o amigo morrer, tornou-se íntimo de Mario, um traficante de droga mexicano cujo poiso favorito ficava por baixo de uma ponte em Los Angeles. Para frequentar o local, revelou a revista Q em 2005, era obrigatório pertencer ao seu gangue. Para fingir tal pertença, Kiedis fez-se passar por noivo da irmã de Mario, situação que acabou por levar à dissolução da sua relação com Ione Skye, a mulher que lhe dera a notícia da morte de Hillel Slovak.

BANDA BOMBA-RELÓGIO

Hoje, a voz de «Californication» garante estar limpa muito recentemente, a banda teve de cancelar aquele que seria o primeiro concerto de apresentação do novo disco por «motivos de doença» do cantor. Dias mais tarde, os Red Hot Chili Peppers garantiram que foi uma infeção intestinal a levar Kiedis ao hospital, e o próprio aproveitou uma entrevista à televisão australiana para clarificar a sua situação. «Os meus amigos ligaram, até pessoas com quem não falava há anos ligaram, mas não me atinge que pensem que estou a consumir», garantiu. «Adoro estar sóbrio, e às vezes também adoro estar todo estragado. Para mim, estar sóbrio é um prazer, do qual retiro satisfação. Funciona bem. Posso surfar, sair com o meu filho, fazer música. Consigo sentir-me bem», listou, acreditando que talvez tenha havido «uma razão» para o seu corpo dar sinal de si: «Talvez seja para poder ficar mais forte do que estava».

A suspeita, tal como a tentação, serão sempre uma sombra do homem que em 1991 escreveu «Under The Bridge», inspirada precisamente pela ponte junto à qual se reunia com o gangue mexicano e que, em 2012, se descobriu ser o MacArthur Park, em Los Angeles. Além de Slovak, Kiedis e Flea, as drogas duras estenderam os seus tentáculos sobre o restante «elenco» dos Red Hot Chili Peppers, à exceção do baterista Chad Smith: John Frusciante, que substituiu a única vítima mortal desta saga de abuso químico, entregar-se-ia à heroína com convicção, sobretudo após sair da banda pela primeira vez, em 1992. Dave Navarro, que ocupou o seu lugar, gravando o mal-amado One Hot Minute (1995), seria convidado a deixar o grupo em 1988, precisamente por ter voltado a viciar-se em heroína. E o regresso de Frusciante à casa-mãe, na qual ingressara aos 18 anos, na condição de jovem prodígio e super-fã dos Red Hot Chili Peppers, seguiuse a anos de intensa deterioração que apenas por sorte não resultaram em nova baixa. «Ouvi dizer que até nas entrevistas se injetava», conta Kiedis em Scar Tissue, explicando que nunca quis validar esse tipo de comportamento. «Aquele tipo já tinha sido o meu melhor amigo, e agora tinha os dentes a cair. Não quis saber se era um génio ou um idiota, estava a apodrecer, e isso não era divertido de se ver», recorda, acrescentando que todos os dias rezava pelo antigo companheiro.

Atualmente com Josh Klinghoffer no lugar de Frusciante, que voltou a abandonar o barco em 1998, e Kiedis, Flea e Chad Smith aparentemente de pedra e cal, os Red Hot Chili Peppers parecem ser uma das bandas mais duras de quebrar da sua geração. Talvez tudo se deva à mistura de loucura e desfaçatez que se torna evidente num dos primeiros capítulos de Scar Tissue. Quando, agastado com o galopante vício de Kiedis, Flea ameaça deixar a banda antes mesmo da gravação do primeiro álbum, o californiano de adoção teve a única reação possível: «Pela primeira vez, percebi que podia estar a destruir o sonho que tínhamos criado, de termos uma banda funk incrível que tivesse tudo a ver com dançar, energia e sexo. Não havia nada no mundo que eu quisesse mais do que ter aquela banda com o Flea. Mas como havia de lho comunicar? Então ocorreu-me. "Flea, não podes ir embora. Eu vou ser o James Brown dos anos 80". Como é que ele podia argumentar com aquilo?».

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2016