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Beyoncé Knowles-Carter, a rainha assombrada

No início de julho, fez história ao dar dois concertos esgotados no enorme Estádio de Wembley, em Londres. A BLITZ assistiu ao segundo, um prodígio de ambição e impacto audiovisual e conta-lhe como como é que a rainha Bey fez “limonada” do desgosto que a vida, real ou ficcionada, lhe deu

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nas cerca de duas horas que dura o concerto de Beyoncé no Estádio de Wembley, em Londres, há um momento que sintetiza a natureza desta Formation Tour, a digressão com que a norte-americana se encontra a promover o disco mais recente. Incrivelmente, Lemonade, o seu sexto álbum a solo, só saiu há pouco mais de dois meses, chegando às lojas, e sobretudo à internet, no final de abril. O lançamento foi feito de surpresa e ainda mais surpreendente se revelaria o conteúdo: canções estilisticamente diversas, da pop à country, passando pelo rock e pelo gospel, com letras contundentes sobre uma dilacerante traição amorosa. Mais uma vez, foi na internet que todo o drama se debateu: teria Jay-Z, um dos titãs do hip-hop mundial, marido de Beyoncé e pai da sua filha, Blue Ivy, tido um caso extraconjugal? E estaria Queen Bey, como com carinho e devoção é tratada pelos fãs mais fervorosos, disposta a perdoar ou como sugerem algumas letras a pôr um ponto final na relação com o patrão do Tidal? O cariz autobiográfico de Lemonade título inspirado no discurso do 90º aniversário da avó do rapper, que ao refletir sobre o seu percurso se congratulou com o facto de ter feito limonada com os limões que a vida lhe deu nunca foi esclarecido. Aos 34 anos, Beyoncé encontra-se num patamar de poder e notoriedade que lhe permite contornar várias etapas obrigatórias para a grande maioria dos seus companheiros de profissão, como dar entrevistas ou partilhar a sua vida nas redes sociais (o último post no Twitter, exceção feita àquele que, em abril, noticiou a edição de Lemonade, data de 2013).

Beyoncé não fala, mas comunica, e o que partilha em canções como «Sorry», logo a segunda canção apresentada num ameno fim de tarde em Londres, já tornou icónico. «He only want me when I'm not there, he better call Becky with the good hair», canta Bey, acariciando o seu próprio cabelo entrançado e deixando a plateia, que diríamos ser pelo menos 70% feminina, em perfeito delírio. Quem é a Becky do cabelo bom? Apesar dos muitos boatos, ninguém sabe ao certo se tal personagem sequer existe, mas a ideia de que uma das mulheres mais poderosas do mundo do espetáculo está aqui, à nossa frente, a partilhar o seu diário com uma plateia de dezenas de milhares de espectadores surte um efeito impressionante. «Middle fingers up», apela na letra de «Sorry», e uma massa de miúdas e graúdas, inglesas e forasteiras (encontrámos fãs de Itália, França, Portugal e até mesmo da África do Sul), anónimas e ilustres (na plateia estiveram Nicole Scherzinger ou membros das Sugababes) anima-se no mesmo gesto libertador que, mais à frente, as fará erguer o punho cerrado no ar em «Run the World (Girls)». Ainda só vamos na segunda canção e não restam dúvidas, neste palco onde, além de Beyoncé, há 14 bailarinas e uma banda de mulheres: aqui, quem manda são mesmo as raparigas.

Na era dos snapchats, gifs e boomerangs, Beyoncé oferece mensagens com muito sumo em formatos de muito poucos bytes. Como vem sendo hábito neste tipo de espetáculo, muitas das canções são apresentadas de forma célere, quase em formato de medley, reunidas por afinidade sonora ou temática; se «Sorry» se segue a «Formation» e ao grito de guerra «slay!», dirigido a todos que sentem orgulho nas suas raízes ou na sua missão de vida, antecedendo «Irreplaceable» (a capella), «Bow Down» e «Run The World (Girls)», mais para a frente uma sequência híper sexualizada trará «Feeling Myself», de Nicki Minaj, «Yoncé» e «Drunk in Love».

Nada neste alinhamento é deixado ao acaso, e o sinal mais visível de todo o planeamento e perfeccionismo da Formation World Tour é a grandeza do seu espetáculo de palco. No centro de todas as atenções, e a justificar que a digressão só passe por estádios, está aquilo que os seus criadores batizaram de O Monólito um cubo gigante de LEDs, de quase 20 metros de altura, que gira lentamente sobre si mesmo, transportando as imagens gigantes da mulher que todos vieram ver. Graças a esta autêntica torre, mesmo os espectadores das últimas filas se sentirão ligados ao que acontece em palco, que se estende pela plateia através de uma lingueta que, a certa altura, se metamorfoseia em passadeira rolante e pela qual desfilarão Beyoncé e as suas incríveis bailarinas. Descrito assim, pode parecer um cenário ostensivo mas, na verdade, o aparato acaba por não se revelar excessivo. Quer esteja a liderar as suas tropas passadeira abaixo, quer se empenhe em mostrar o seu vozeirão soul nos vários momentos a capella, Beyoncé nunca deixa de ser a comandante deste navio. É ela que consegue conciliar a dimensão gigantesca de um concerto de estádio Wembley tem, em contexto de concerto, capacidade para um máximo de 90 mil espectadores, e está esgotado com o intimismo possível de uma noite destas. Na verdade, o espetáculo decorre ainda com luz solar e, talvez por isso, vemos como ri com os fãs da primeira fila, como encarna aquelas coreografias algo tribais sem nunca perder o fôlego, como veste a pele de super-heroína, sem nunca deixar de parecer suspeitamente humana. Em palco, ela diz ser «uma rapariga do campo do Texas», onde terá crescido a ouvir as «Daddy Lessons» recordadas no divertido tema country do mesmo nome; do lado de cá, as garotas que enchem as tendas de merchandising e vão para o estádio vestidas a rigor vivem o sonho de ser como ela ou, pelo menos, de pertencer a esta «beehive» de fãs apaixonadas.

Beyoncé em Wembley, Londres
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Beyoncé em Wembley, Londres

Daniela Vesco

Beyoncé Wembley - na piscina de que se fala
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Beyoncé Wembley - na piscina de que se fala

Daniela Vesco

Beyonce com as suas bailarinas
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Beyonce com as suas bailarinas

Beyoncé Wembley
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Beyoncé Wembley

Daniela Vesco

Beyoncé Wembley
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Beyoncé Wembley

Daniela Vesto

Beyoncé em Wembley, Londres
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Beyoncé em Wembley, Londres

Daniela Vesco

Beyoncé em Wembley, Londres
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Beyoncé em Wembley, Londres

Daniela Vesco

Beyoncé em Wembley, Londres
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Beyoncé em Wembley, Londres

Daniela Vesco

Além da música, que percorre de forma bastante equitativa os seis álbuns de Beyoncé, bem como algumas versões (de Prince, com «The Beautiful Ones», ou das Destiny's Child, banda ao serviço da qual começou por se celebrizar, em «Survivor»), o espetáculo ancora-se também na força das imagens que fazem de Lemonade um álbum-visual. Colocando a cantora num cenário quase apocalíptico, e ilustrando a sua luta pessoal com uma cinematografia algures entre o thriller e o terror psicológico, estes pequenos vídeos servem para que a estrela da noite troque de vestimenta entre sequências, ou atos, mas também para dor corpo e contexto a uma narrativa de triunfo sobre a adversidade. Logo em «Bow Down», há foguetes em palco e isto não é só fogo-devista humana e tragicamente ferida, mas em pleno processo de renascimento, esta personagem assenta-lhe como uma luva.

Tiradas inscritas no ecrã gigante, como «ashes to ashes/dust to side chicks», causam reconhecimento e emoção na plateia, onde jovens adultas exorcizam fantasmas e celebram as palavras da sua heroína: «não há mulheres fracas», diz-lhes Beyoncé, e mesmo as admiradoras mais discretas perdem as estribeiras na forma como, subitamente, parecem aceitar essa sua nova força. A balada «Me, Myself and I» e «Runnin' (Lose It All)» servem bem esta ideia de empowerment, enquanto em «Don't Hurt Yourself», que em disco é uma colaboração com Jack White, Queen Bey surge de capa ornamentada com uma cobra, cantando de forma quase punk, sentada num trono (é caso para mandar mais um recado para Jay-Z e dizer-lhe para watch that throne?). E quando já ouvíramos «Love on Top» a capella ou o clássico «Crazy in Love» a dobrar primeiro, numa versão desacelerada, à femme fatale, depois na costumeira encarnação explosiva chega uma das grandes surpresas da noite: descalça e aparentemente «flawless», depois de duas horas de concerto, Beyoncé ganha a capa de super-heroína que já vinha fazendo por merecer e desce passadeira abaixo, rumo a uma piscina onde, saltitando com as inseparáveis bailarinas, cantará os temas deste derradeiro ato. Associada frequentemente à redenção ou ao renascimento, a água parece representar, neste espetáculo, o final feliz de uma saga pessoal e transmissível. É aqui que vemos Beyoncé clamar «Freedom», desta feita sem Kendrick Lamar, é aqui que, verdadeiramente emocionada, dedica «Halo» a todos os que a ajudaram a fazer história nestas duas noites esgotadas em Wembley.

Desde sempre uma das grandes inspirações na hora de fazer música, o desgosto amoroso, real ou ficcionado, é a matéria-prima de Lemonade, o disco, e da digressão que dá ainda mais vida a estas canções. Beyoncé poderá ser uma das primeiras estrelas desta dimensão a usar um coração partido de forma tão explícita, e criativa, para montar um espetáculo coerente e assim fortalecer o seu nome e a sua marca. Esquiva na imprensa e nas redes sociais, perante 90 mil fãs ela partilha imagens da filha, fotos do casamento, páginas do seu álbum de fotos. No final, perguntamo-nos: quem é Beyoncé? A resposta não é simples, mas uma coisa parece indesmentível: é um ícone, e cada vez mais forte.

Originalmente publicado na BLITZ de agosto de 2016