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Sisters of Mercy hoje no Reverence Valada: a entrevista BLITZ com Andrew Eldtrich

A banda de rock gótico é hoje cabeça de cartaz do derradeiro dia do festival Reverence, em Valada. A BLITZ falou com Andrew Eldritch, o vocalista e mentor da banda: anti-Trump, anti-Brexit, anti-editoras, anti-quase tudo

Andrew Eldritch é um homem de fortes convicções e uma voz refrescantemente honesta que não se importa de assumir que é no passado que se encontra a parte mais relevante da sua obra e que o futuro serve apenas para a revisitar. Eldritch traz os seus Sisters of Mercy ao Reverence, em Valada (atuam sábado, às 23h30, no palco Rio), para um concerto que, garante ele, será mais do mesmo. E o mesmo continua a ser épico, denso e negro.

O que é que se tem passado com Sisters of Mercy nos últimos anos?
Mais do mesmo, na verdade. Não mudámos o nosso pessoal, nem sequer os nossos métodos. A vida continua...

Com cada nova digressão surgem sempre algumas canções novas. Têm trabalhado fora do palco também...
Sim, sempre, mas não sei ainda o que iremos tocar nestes concertos. Essa é uma decisão coletiva da banda e como dois de nós estão em Inglaterra e outros estão... a olhar para o Mediterrâneo, algures, ainda não se tomaram essas decisões. Os últimos concertos que tocámos foi na Letónia, Polónia, na Alemanha e na Bósnia e posso dizer que sim, foi mais do mesmo.

Mudando de assunto, 2016 tem sido um ano terrível para a música com grandes perdas. A mais recente foi Alan Vega. Estes desaparecimentos obrigam-nos a confrontar a nossa própria mortalidade, não acha?
Eu tinha muito orgulho no Vega. Teria ficado surpreendido se ele tivesse vivido até aos 30 anos, mas ele conseguiu viver até aos 78 e isso é incrível. Ele mentiu sempre em relação à sua verdadeira idade. Conheci-o há muitos, muitos anos e pensei “bem, este homem não está destinado a ter uma grande vida”. Mas acabou por ter uma vida longa e durante todo esse tempo, apesar do crescimento da música industrial, apesar do crescimento do dubstep, continua a não haver nada por aí que soe como os Suicide. Ninguém sequer tenta imitá-los, porque seria impossível. Ele era um homem realmente único.

Disse numa entrevista recente que gravaria um novo álbum dos Sisters of Mercy se Donald Trump fosse eleito...
Bem, haveria muitas razões para gravar um álbum e nós temos vindo a gravar canções de tempos a tempos, mas temos feito isso sem pressões de prazos, sem pressões de editoras e sem a pressão de ter que lançar alguma coisa. A verdade é que o nosso sistema parece funcionar e não vejo grande necessidade de alterar o nosos posicionamento. Às vezes, no entanto, damos por nós a pensar em fazer alguma coisa, talvez usando o Kickstarter, mas parece que encontramos sempre outras coisas para fazer. Mas há muitas coisas que me revoltam e, mesmo que ele não seja eleito, o simples facto de saber que pelo menos 40 por cento da América vai votar naquele palhaço deixa-me terrivelmente revoltado. Há muitas coisas que me deixam nesse estado e essa é uma delas.

Muitas bandas da vossa geração gravam coisas novas apenas para terem uma desculpa para continuarem a tocar as antigas...
A verdade é que nos divertimos muito a tocar o nosso material original. Acho que é importante ter novas canções nos concertos e nós fazemos isso. E, claro, temos que navegar muito bem a linha divisória que separa as pessoas que compram bilhetes porque querem ouvir coisas que já conhecem das outras que compram bilhetes porque gostavam de nos ouvir a tocar coisas novas. Temos sempre que encontrar esse equilíbrio. Se calhar nem sempre conseguimos, mas vamos tentando. E em todas as nossas digressões cada concerto é diferente porque só decidimos alinhamentos no dia do concerto. Tem a ver como o que sentimos, se o sol está a brilhar, se tivemos problemas no aeroporto, se nos apetece tocar canções rápidas ou lentas, mais canções antigas, ou pelo contrário mais das mais recentes. Mas o que acontece com mais frequência é que cerca de metade das canções são clássicos que as pessoas já conhecem e a outra metade será material nunca editado.

Há muito que vive na Europa continental, mas os seus conterrâneos parecem querer seguir o caminho contrário...
O voto surpreendeu-me porque não sabia que a maior parte dos meus compatriotas se sentia assim. Sei que os escoceses não se sentem assim. E boa parte das pessoas da minha geração e talvez a maior parte das pessoas mais jovens acreditam nalgum tipo de união europeia, mesmo que possam estar desapontadas com algumas das promessas não cumpridas da União Europeia. Mas o que aconteceu é que a Direita mentiu às pessoas, os nacionalistas mentiram às pessoas sobre a imigração - ninguém quer viver no País de Gales, por isso a imigração não será um problema aí. E disseram que, abandonando a União Europeia, teriam dinheiro para gastar no Serviço Nacional de Saúde. Mas eles são conservadores; por eles não se gastaria dinheiro algum nos serviços públicos de saúde... Muita gente, branca sobretudo, mais velha, nostálgica, pensou “lembro-me dos anos 50, que eram maravilhosos”. Na verdade, e eu também tenho memória, os tempos mais recuados foram terríveis. A vida antes da União Europeia não era tão boa e tenho a certeza que o mesmo acontecia em Portugal. Sempre verbalizei as minhas opiniões e acredito mesmo que se pode ser britânico e europeu ao mesmo tempo.

Diz-se que a meio dos anos 90 gravou dois discos de tecno que editou sob outros nomes, nunca revelando a sua verdadeira identidade. É verdade?
O primeiro era um álbum de tecno, definitivamente. O resto das coisas que fiz, para minha satisfação pessoal, não sei como se poderia descrever... Trance? Não sei. Não será verdadeiramente música de dança, será logo “trancey”, mas “evil trance”, não “happy hippy trance”. Gosto de brincar com electrónica e algumas das coisas que faço é demasiado electrónica até para os Sisters of Mercy. Os Sisters usam muita electrónica, mas combinam isso com guitarras ao vivo. E às vezes gosto de fazer coisas sem guitarras que não me parecem material de Sisters. Faço essas coisas para mim e normalmente poderei gravar uns CDs que ofereço a 12 amigos, sempre diferentes de cada vez, dizendo “tomem lá, apreciem”. Para isso não preciso de me meter na engrenagem da edição de música. É música privada. E música privada é fixe.

Os Sisters of Mercy foram descritos como “uma mistura entre Leonard Cohen e os Stooges”. Parece-lhe uma descrição apropriada?
Sim, sem dúvida. Mas também se poderia dizer que somos uma mistura dos Hawkwind e dos R.E.M. ou Neil Young e Moby...

Para terminar: trabalhou em tempos com o [compositor, letrista e produtor] Jim Steinman, colaborador próximo de Meat Loaf, no tema “This Corrosion”, que tem uma dimensão quase operática. O que recorda dessas sessões?
Lembro-me que ele se fartou de gastar dinheiro. Lembro-me que ele comia muito. Nesses tempos era normal fazermos maquetes antes de se gravar a versão que seria editada e a minha maquete já tem todos os elementos da versão comercial. O que o Jim acrescentou foi o orçamento que lhe permitiu juntar um coro verdadeiro e muito tempo num grande estúdio de Nova Iorque. Esse disco ficou muito caro. E ele era muito melhor do que eu a convencer as editoras a gastarem muito dinheiro num projeto. Quando uma editora gasta muito dinheiro num disco, gosta de gastar ainda mais dinheiro a promovê-lo, por isso acabaram a gastar uma batelada a fazer vídeos. Isso é tudo muito bom, mas no fim todas essas verbas vão sair do bolso dos artistas. Eles apenas avançam o necessário. Quando se vendem muitos discos, eles acabam por tirar o dinheiro que gastaram. Felizmente, esse disco vendeu muuuito e por isso todos fizeram dinheiro, mas podia ter sido um desastre porque custou uma fortuna a fazer e outra a promover. Felizmente, as editoras morreram e são hoje irrelevantes, por isso já não temos que nos meter nestes números. E isso é maravilhoso.

O Reverence Valada começou na quinta e termina hoje. Sisters of Mercy, The Damned, Brian Jonestown Massacre e Thee Oh Sees são alguns dos nomes cimeiros no cartaz. Mais informações aqui.