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Jim Morrison: entre o céu e o inferno

Há 45 anos, o turbulento vocalista dos Doors seguia os passos de Jimi Hendrix, Brian Jones e Janis Joplin e engrossava a lista macabra de músicos que se despediram do mundo aos 27 anos. Foi também aí que James Douglas Morrison se transformou numa estrela ainda maior do que aquela que os anos 60 poderiam ter sustentado.

Está vivo, o Rei Lagarto. Quarenta anos [à altura da publicação deste artigo] depois da sua morte em Paris, a 3 de julho de 1971, Jim Morrison ainda possui suficiente energia para adornar uma capa do NME posicionando-se confortavelmente entre as edições dedicadas a Glastonbury e aos Foo Fighters e para levar a mais uma re-edição da obra dos Doors. A Collection pode ser um caixa «budget», que reúne a discografia dos rapazes de Los Angeles sem grandes argumentos extra, mas é, pelo menos, a terceira em década e meia, sinal claro de que continua a existir interesse na música dos Doors. E mesmo que esta atividade não chegue para posicionar Jim no top de rendimentos gerados entre os músicos já desaparecidos que a Forbes revelava no final do ano passado ser ocupado por Michael Jackson, Elvis Presley, John Lennon, Richard Rodgers (o que uma canção como «My Favorite Things» pode fazer pelo legado de um homem...) e Jimi Hendrix, chega pelo menos para indicar que o mito continua a fazer correr tinta e a inspirar novas gerações de músicos e de ouvintes de música.

DEUS DO ROCK OU FALSO PROFETA?

Uma viagem rápida pelas décadas, no entanto, permite perceber que a controvérsia não abrandou com a morte de Morrison. Al Aronowitz, no obituário assinado no New York Post em 1971, começava por escrever que «todos fazemos pactos com o diabo», adiantando depois que supunha «que Jim Morrison deve ter percebido que também o fez», inscrevendo assim o vocalista dos Doors naquela recorrente mitologia que se estende até Robert Johnson e que parece indicar haver uma dimensão sobrenatural para os que aceitam lidar com os seus fantasmas atrás de um microfone. Mas Aronowitz terminava o seu texto numa toada otimista, alegando que Jim poderia ter alcançado um certo grau de paz nos últimos dias da sua vida. Na revista Sounds, em dezembro de 1978, o álbum póstumo An American Prayer levava Sandy Robertson a escrever que «Jim era mais Lautréamont do que Presley», referindo-se ao mesmo poeta francês que inspirou Maldoror, dos Mão Morta. Robertson não hesita e declara mesmo que «Morrison poderá ter sido o único verdadeiro poeta vomitado pelo rock and roll».

Lester Bangs, que percebia alguma coisa de vómitos e de rock and roll, já se revelava mais cético no décimo aniversário do falecimento do vocalista dos Doors, confessando ter sempre desejado «que Morrison fosse melhor do que de facto era». Mais adiante, Bangs refere mesmo que, «de certa maneira, a vida e a morte de Jim Morrison podem ser descritas simplesmente como um dos mais patéticos episódios do "star system"». Ao contrário da ideia veiculada na Sounds, no entanto, Bangs usava as páginas da revista Musician para inventar um novo papel para Jim: «Eu nunca levei Morrison a sério como Rei Lagarto, mas sou um fã dos Doors hoje como já era em 1967; mas o que aceitei muito cedo, na verdade, foi a limitação dos Doors e que o Morrison seria menos Baudelaire, Rimbaud e Villon e mais Príncipe Palhaço». Esta ideia do «Bozo Prince», nas palavras de Bangs, atravessa a vida de Jim Morrison, alguém que surgiu num momento em que os media conheciam também a sua explosão e em que o mundo aprendia a lidar com outro tipo de mecanismos de notoriedade: «ele pegou no medo e nas explosões de liberdade dos anos 60 e primeiro fez com que se parecessem ainda mais bizarras, perigosas e apocalípticas do que julgávamos ser, e depois pegou em tudo o que estávamos a levar tão a sério e transformou tudo numa grande piada». Bangs sublinhava a impossibilidade de se separar o palhaço do poeta, afirmando que essa característica única tinha resultado em grande música, «capaz de estabelecer standards no rock and roll por muitos mais anos».

Em 1991, quando se cumpria metade desta viagem de 40 anos após o desaparecimento de Jim Morrison, Simon Reynolds juntava a sua voz ao coro de críticos que voltava a analisar a obra dos Doors, graças à chegada às salas de cinema da biopic de Oliver Stone, ferramenta fundamental na propagação do mito na década que viu o grunge nascer. Reynolds explicava que Jim Morrison se afirmou como «um explorador dos territórios mais afastados da condição humana», algo que o cantor teria aprendido nas páginas de O Nascimento da Tragédia de Friedrich Nietzsche, obra em que o filósofo opunha as figuras tutelares da arte de Apolo, o deus contemplativo e sonhador, e de Dionísio, o deus do excesso, do abandono pagão, da embriaguez extática. «Um mapa de estrada para a obra dos Doors», refere Reynolds em relação à obra do filósofo alemão. John Densmore, explica Reynolds, escreveu mesmo nas suas memórias, Riders on the Storm, que «Nietzsche matou Morrison». Simon Reynolds volta a abordar a discussão sobre os méritos poéticos de Jim Morrison e confessa-se um admirador do lado mais exagerado da sua poesia, embora tenha o cuidado de explicar que «o júri ainda não se decidiu».

Há precisamente dez anos, o New York Times tomou o caminho da reportagem para tentar compreender o estado do mito, com John Tagliabue a explorar os caminhos do cemitério de Père-Lachaise onde se encontra a campa de Jim Morrison, uma verdadeira atração turística. Apesar de ser igualmente morada final de gente como Chopin, Oscar Wilde, Amedeo Modigliani, Maria Callas, Edith Piaf ou Molière, Père-Lachaise tornouse um local de culto fervoroso à memória de Jim Morrison, facto aproveitado pela autarquia de Paris que, em 2001, ajudava à «festa» do culto promovendo concertos de bandas de tributo e diversas iniciativas que procuravam alimentar a indústria da memória de Morrison.

Essa indústria continua saudável, claro, e a imagem de Jim Morrison não é diferente da de outros rebeldes como Che Guevara, tendo alcançado aquele grau icónico que lhe permite adornar tudo: de t-shirts e canecas a posters, bijuteria, «action figures» e o que mais a imaginação permita. E agora, 40 anos após a morte de Jim na Paris para onde se refugiou em março de 1971 para tentar fugir aos problemas com a lei criados a partir das suas explosões em palco, os media que criaram o mito continuam a não dar sinais de abrandamento no seu esforço cíclico para manter a imagem do líder dos Doors como um ativo de valor na bolsa do rock and roll. O NME deu-lhe capa para assinalar a passagem de mais uma década sobre a sua morte, mas voltou a ecoar a controvérsia gerada pelo real valor da sua obra poética e musical, questionando se Jim será «um deus do rock ou um falso profeta». E isso significa, basicamente, dois artigos de fundo: um favorável assinado por Gavin Haynes que argumenta que Jim «era um poeta de uma geração, um pensador e um líder inovador que haveria de representar não apenas o rock, mas a própria criatividade»; e outro bastante crítico, assinado por James Lee, que é da opinião que o líder dos Doors «deixou um conjunto de música de estudante de segunda-linha».

Os Doors

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AS FERRAMENTAS DO POETA

Já se sabe que a diferença entre o génio e a loucura pode ser uma simples questão de perspetiva, de ângulo. Para lá da opinião dos críticos, no entanto, é possível procurar pistas para a real dimensão dos Doors nos músicos que se lhe seguiram. Lester Bangs dizia que Jim Morrison era uma figura tutelar da new wave e que sem o vocalista de «Light My Fire» não haveria Iggy Pop ou Patti Smith. Há outros sinais: Malcolm McLaren descreveu um dia Johnny Rotten como «o miúdo maltrapilho que costumava aparecer na loja de King's Road com discos dos Doors debaixo do braço». Os Joy Division e Ian Curtis teriam igualmente uma dívida de inspiração para com os Doors e a poesia de Jim Morrison. O mesmo se poderia dizer de Kurt Cobain e dos Nirvana, dos Pearl Jam e de variadíssimas outras bandas, algumas até totalmente inesperadas. Em Rip It up and Start Again, o livro de Simon Reynolds que documenta a descendência direta do punk, são várias as bandas que citam a discografia dos Doors como um ponto de partida para a sua própria versão da modernidade. Ou seja, nem tudo se fazia em torno de David Bowie e da trilogia de Berlim no arranque dos anos 80. E a «culpa» terá sido inteiramente de Jim Morrison e do seu inabalável carisma.

James Douglas Morrison nasceu na Flórida a 8 de dezembro de 1943. Era o mais velho de três filhos da família do almirante George Stephen Morrison, um claro modelo de autoridade que poderá explicar muitos dos gestos de revolta encenados por Morrison do alto do seu pedestal pop. Mais do que a dimensão terrena da sua genealogia familiar, a Morrison interessava-lhe a construção do mito. E por isso mesmo, o primeiro press release escrito para acompanhar a apresentação do álbum de estreia dos Doors à imprensa declarava erradamente que toda a família de Jim Morrison tinha morrido. Essa fantasia mórbida pode também ter estado em ação no famoso episódio supostamente testemunhado por um jovem Jim numa autoestrada que atravessava uma reserva índia e que Oliver Stone tão bem aproveitou no seu filme sobre os Doors.

Mas o pai de Morrison negou a visão de um acidente grave, com corpos espalhados pela estrada, que haveria de inspirar algumas canções de Jim como «Peace Frog» ou «Ghost Song». Quando a vida é aborrecida, escolhase a fantasia... A adolescência de Jim Morrison foi passada imersa nos livros e esse é um aspeto da sua vida que nenhum crítico disputa: as suas leituras de Nietzsche, Rimbaud, Kerouac e Ginsberg, Honoré de Balzac, Jean Cocteau e Molière, dos filósofos existencialistas franceses, dos clássicos gregos ou de vários títulos obscuros sobre demonologia fizeram dele um estudante de exceção, um ávido leitor em busca das peças de construção de um mundo próprio. Ou das ferramentas de um poeta.

Em janeiro de 1964, Jim Morrison mudouse para Los Angeles, na Califórnia, onde uma nova contracultura começava a despontar. Na universidade descobriu o teatro surrealista de Antonin Artaud e estudou cinema, tendo muito provavelmente aprendido algumas coisas sobre o poder da representação, da montagem, das imagens. Em Los Angeles tornar-se-ia próximo dos jornalistas do Los Angeles Free Press, um jornal underground, de esquerda e radical, que ecoou de forma especial o lado mais combativo dos anos 60.

Foi nesse ambiente, na Venice Beach boémia dos anos 60, que Jim haveria de conhecer Ray Manzarek, o teclista dos Doors, antes de formar o grupo com o baterista John Densmore e o guitarrista Robby Krieger no verão de 65. O nome do grupo, subtraído ao título de um livro de 1954 de Aldous Huxley, The Doors of Perception, que refletia sobre o impacto da mescalina na mente (e que já era ele próprio uma citação de uma passagem de The Marriage of Heaven and Hell, de William Blake), indicava já uma ligação umbilical ao universo da literatura mais exploratória. Em 1966, poucos meses antes da entrada em estúdio para a gravação do álbum de estreia, os Doors conseguiram uma residência no famoso Whiskey A Go Go de Los Angeles, partilhando a primeira semana dessa residência com os Them, de Van Morrison. John Densmore, nas páginas do já por aqui citado Riders on the Storm, escreveu que a atitude de palco de Van Morrison surtiu um efeito importante em Jim, então em busca do seu próprio estilo: os improvisos poéticos, o abandono físico, o ar possuído. tudo pormenores que Jim observou em Van e que adotaria para o seu próprio espetáculo.

MORTE DO ROCKER, NASCIMENTO DO MITO

Até à sua morte, em julho de 1971, Jim Morrison haveria de gravar seis álbuns com os Doors em pouco mais de 4 anos. Este material reunido agora na caixa A Collection é o principal legado artístico de Jim Morrison, que no entanto ainda publicou em vida alguns dos seus escritos. The Lords / Notes on Vision é uma coleção de passagens breves e dispersas de Morrison acerca de gente, lugares, filmes, e dado à estampa, tal como The New Creatures, uma coleção mais estruturada de poesia, em 1969. Algumas das vozes mais críticas dos talentos de Morrison referem o facto de ambos os volumes serem edições de autor, como um sinal claro da falta de qualidade dos seus escritos, Dizem que se o material fosse de qualidade relevante, não teria sido difícil obter uma casa livreira, uma vez queMorrison teria já uma enorme notoriedade nessa altura. A verdade, garantem os seus defensores, é que nem no papel nem em canção é possível medir o alcance da obra de Jim Morrison, exemplo clássico de um todo que ultrapassa em muito a soma das partes. «Ele via-se», escreve Gavin Haynes nas páginas do NME, «como um genuíno xamã, um astronauta cultural da pop em busca de novas esferas de consciência para a sua audiência, capaz de trazer notícias estranhas de outras estrelas, permitindo aos seus fãs viverem através dos seus feitos ou defeitos». A Jim Morrison poderá, de facto, atribuir-se um dos primeiros esforços conscientes para avaliar até onde se poderia estender o papel de uma estrela pop, até onde seria possível ir.

E Morrison quis ir longe. Apesar de ter mantido uma longa relação com Pamela Courson, que haveria de herdar o seu espólio e direitos (até ela própria morrer, em 1974), Jim usou o seu estrelato para manter relações com variadíssimas outras mulheres, umas mais anónimas do que outras, como Grace Slick, dos Jefferson Airplane, ou Nico, dos Velvet Underground. Há até quem refira um encontro alcoólico com Janis Joplin, mas esse é o tipo de lendas que abundam sobre os anos 60. Impossível de negar, no entanto, era esse lado de carisma sexual profundo que tornaria Jim Morrison num dos mais vigorosos símbolos dos libertários anos 60. Esses «políticos eróticos», como Jim notoriamente se definiu a si e aos seus companheiros de banda, haveriam de causar alguns famosos incidentes graças ao incitamento à revolta a partir de vários palcos e à «exposição indecente» em Miami que valeu a Morrison uma condenação a seis meses de prisão com trabalhos forçados. O vocalista dos Doors, no entanto, nunca chegaria a cumprir a pena: os seus advogados submeteram diversos apelos, mas a morte prematura, em 1971, significou a derradeira libertação. Havia, ainda assim, a questão da memória, resolvida em dezembro do ano passado, quando o governador da Flórida, Charlie Christ, anunciou um perdão póstumo para Morrison. Supostamente, e a ter fé no que os seus companheiros de banda sempre defenderam, por um ato que nunca terá cometido: o de expor o seu pénis em público. Na verdade, Jim Morrison fez muito mais para abalar as sólidas fundações da moral conservadora americana do que mostrar o seu sexo: foi xamã, estrela de rock com uma vertigem pelo abismo, ícone de uma revolução sexual cujos efeitos ainda hoje se sentem. Jim Morrison morreu, mas o Rei Lagarto está vivo.

Originalmente publicado na BLITZ de setembro de 2011.