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Rita Carmo

“À Sombra do Cristo Rei” é o CD grátis com a BLITZ de setembro: Tim apresenta o projeto e todas as canções – dos UHF aos Da Weasel

Numa homenagem sentida à cidade onde cresceu, Tim juntou-se aos filhos e a Nuno Espírito Santo, veterano da cena de Almada, para gravar temas de bandas como UHF, Iodo ou Da Weasel. Boas notícias: o CD é grátis com a BLITZ deste mês. Leia a entrevista e a apresentação do álbum faixa a faixa

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Não nasceu em Almada, mas foi a cidade que lhe roubou o coração quando para lá se mudou ainda em tenra idade. Tim, que o país ficou a conhecer como líder dos Xutos & Pontapés, resolveu agora retribuir ao sítio que o viu crescer tudo aquilo que recebeu e vai regressar à mítica Incrível Almadense a 16 de setembro para uma homenagem, retrospetiva, às bandas que, desde o início dos anos 80 foram colocando Almada no mapa da música moderna portuguesa. E levanta o véu no CD exclusivo que chega com esta edição da BLITZ e que inclui versões de temas dos UHF, Iodo, Agora Colora e Da Weasel, entre outras. Ao seu lado, tem os filhos Sebastião e Vicente e Nuno Espírito Santo, ex-Braindead e atual companheiro de estrada de Carlão. João Martins, que integrou os Agora Colora e colaborou com Tim nos Rio Grande e Cabeças no Ar, gravou e misturou o disco. «Não quisemos recriar um som em particular, mas tentámos usar os mesmos truques da malta de Almada», explica Tim. «Fomos perceber como aquela música era feita».

Como surgiu esta ideia de homenagear a música de Almada?
Isto começou a nascer há uns dois anos, na minha cabeça. Não sei porquê, senti uma nostalgia dos primeiros concertos a que assisti na Incrível Almadense… UHF, Iodo... Os Xutos também lá tocaram, depois. Quando comecei a pensar nisso, estava em contacto com o Carlão [ex-Da Weasel, também de Almada] e perguntei-lhe se não queria fazer qualquer coisa comigo. Na altura, ele estava a fazer o disco [Quarenta] e era um bocado complicado, portanto acabou por não dar, mas o que lhe propus é o que tenho planeado agora: fazer um concerto na Incrível, no qual se prestaria homenagem à música de Almada, aos músicos que por cá passaram… e que foram muitos. A coisa ficou um bocado em banho-maria. No ano passado, com o [festival] O Sol da Caparica e mais uma série de coisas, acabei por voltar a Almada mais vezes do que esperava. Parece que não, mas os Xutos ensaiaram nesta terra 15 anos seguidos… Fiquei com vontade de voltar a tocar e ensaiar aqui. E também fiquei com outra vontade, mais paternal, que era a de mostrar aos meus filhos como era a vivência aqui. Não é muito diferente dos outros sítios, mas tinha o seu quê de particular. Eles disseram que sim, que gostavam de experimentar. Falei com o Nuno Espírito Santo para o baixo e, passado algum tempo, viemos para uma sala no Ginjal, à vista de Lisboa, o Ginjal Terrace, e fizemos uns ensaios. Pôs-se a questão do que íamos tocar e propus as músicas de Almada. Começávamos com o «Jorge Morreu» e depois íamos por aí fora com o «Cavalos de Corrida», uma série de UHF, de Iodo e depois passávamos pelo Grupo de Baile, etc. Correu tudo muito bem. Por um lado, eram músicas acessíveis e, por outro, músicas com grande força.

E eram músicas que os seus filhos já conheciam ou apresentou-lhes coisas que eles não conheciam?
Parte destas músicas eles não conheciam. São coisas com mais de 30 anos. O próprio Nuno Espírito Santo tinha estado envolvido nos UHF, e esteve também nalgumas bandas de Almada, como os Braindead, e portanto era uma pessoa muito avalizada para participar nisto. Também ajudou muito na pesquisa. Estivemos a ver vídeos e foi aí que percebemos que a coisa tinha pés para andar, que podíamos fazer um trabalho porreiro sobre Almada.

A que critérios, além do facto de serem de bandas de Almada, correspondeu a escolha destas oito versões incluídas no disco?
O primeiro critério acabou por ser o da popularidade, porque, realmente, foram músicas que encheram a rádio durante dois ou três anos. Depois, a continuidade… A história começa em 80, depois temos uma segunda fase em 89 e uma terceira fase já em 90, com os Da Weasel. No caso dos Roquivários, por exemplo, havia três músicas, «Cristina», «Totobola» e «Ela Controla», e este último apesar de não ser cantado pela Midus, acaba por ser o que mais tinha a ver com a onda de Almada, que era rock and roll puro, que soasse bem e enchesse.

Carlão já ouviu a versão do tema dos Da Weasel?
Não, ainda ninguém ouviu nada. A reação será, pelo menos, estranha. Mas acho que vão gostar. Há muito tempo que o Carlão escreveu aquilo e, na altura, era um puto muito atrevido. Estavam com o sangue todo na guelra. Foi na altura do 3º Capítulo, estavam no seu lançamento porque era só o terceiro disco e estavam com a escrita toda em dia e forte… E continuaram assim. Mas é engraçado porque esse tema foi escolha do Sebastião e do Vicente. Quando lhes perguntei o que íamos fazer dos Da Weasel, sugeri o «Re-Tratamento», mas eles disseram logo que fazíamos antes o «Casos de Polícia».

Quando está em palco ou estúdio e olha para o lado e não vê os seus companheiros de sempre – os Xutos – o que lhe passa pela cabeça?
É o «F word» como eles dizem. É um bocado «foda-se». Às vezes, fico realmente muito satisfeito e surpreendido com as coisas que vou montando. Isto não tem um significado ultra especial além do de querer prestar uma homenagem a todas estas pessoas que por aqui passaram e que, ao fim e ao cabo, construíram um som que durou décadas e que espero que não acabe agora.

E é fácil traçar uma linha entre o Tim pai e o Tim colega de banda?
Não faço ideia. Não é comigo. Eu estou no mesmo sítio, toco umas coisas, faço o que tenho que fazer. Não penso muito nisso da paternidade quando estou ali com o Sebastião e o Vicente… E tenho o Nuno, que também me ajuda nisso. A banda é a banda. Os problemas que a banda traz são os problemas que a banda traz. Resolvem-se. Não tem nada a ver com essa coisa da paternidade. Há uma coisa que fica muito simples: musicalmente, nós os três entendemo-nos muito bem. E também nos entendemos bastante bem com o Nuno. Este trabalho acaba por ser, para mim, uma espécie de estágio. É um olhar sobre uma coisa, são músicas de outras pessoas. No espetáculo, devo tocar duas dos Xutos e outras músicas também, porque só aquilo que está no disco não chega. Acaba por ser um trabalho mais fácil porque não tem a parte da criação, não tenho que escrever.

Entre os Xutos, os Tais Quais, o projeto a solo e este que agora surge, mal deve ter tempo para respirar. Tirar férias da música é algo que o assusta?
Pensar nisso põe-me deprimido. Muitas outras pessoas dirão isto, mas estou tão habituado a pensar em música todos os dias, é um trabalho contínuo para mim, que tanto posso aproveitar as férias para descansar da música, para descansar dos concertos, com certeza, mas também aproveito muitas vezes para rever textos ou lançar novos pensamentos sobre o que se poderia fazer aqui ou ali, com esta pessoa ou aquela. Muitas vezes, é preciso tempo para isso. Os Xutos são uma coisa fantástica, acontece várias vezes por mês e no inverno às vezes até várias vezes por semana. Somos um grupo muito unido, trabalhamos bastante juntos, mas o trabalho é repartido por muita gente, portanto acaba por sobrar sempre um bocado de iniciativa e tempo para fazer outras coisas.

Quais são as recordações mais antigas que guarda de Almada?
Os meus pais vieram do Alentejo para cá e fixaram-se precisamente em Almada. Ficaram aqui até irem embora para o Alentejo outra vez. Tinha 5 anos quando viemos para cá e só saí quando já tinha feito 27. O que me liga a Almada é o facto de ter passado cá toda a minha vivência de juventude e, claro, as pessoas também ajudam. Fiz aqui o liceu e vivi cá durante o tempo da faculdade e também vários anos já a tocar nos Xutos. Vivia em Almada e ia ensaiar a Lisboa e tocar para onde quer que fosse. E pouco tempo depois de me ter mudado para Lisboa, quando me casei, em 1987, vim ensaiar para Almada. Os Xutos vieram para cá e acabaram por ficar aqui muito tempo. O Sérgio Godinho foi nosso companheiro de garagem, tal como tanta outra gente, casos dos Blind Zero ou do [João] Aguardela. Uma das primeiras coisas que fizemos em Almada foi o ensaio para o primeiro [festival] Portugal Ao Vivo. Desde aí até ao final, que foi quando fizemos os dois temas «Perfeito Vazio» e «Quem É Quem», aqueles que saíram daqui mais completos do álbum Xutos & Pontapés [2009], foram muitos anos de trabalho… Já nem sei bem quantos discos fizemos em Almada. Acabámos por ter sempre uma ligação semanal com as pessoas daqui e, portanto, a minha ligação à cidade ainda não é distante. Almada é uma espécie de outra margem de Lisboa e a província mais perto dela, ao lado da Amadora.

À Sombra do Cristo Rei

Dos UHF aos Da Weasel, passando pelos Iodo e os Agora Colora, Tim e companheiros levam-nos numa viagem no tempo pela música de Almada. Eis a apresentação do álbum faixa a faixa.

1. À Sombra do Cristo Rei
O disco reflete um bocado o que vai ser o concerto e este original, «À Sombra do Cristo Rei», é a peça de abertura, a introdução, o abrir do pano. Fala um bocado daquilo que era o movimento, do que as pessoas faziam e não faziam, em Almada.

2. Jorge Morreu
Tem toda a razão de ser porque acaba por ser o primeiro som de UHF, o primeiro som urbano, moderno. A abordagem foi muito simples, era tocar o que era para ser tocado e tentar estabelecer uma relação coesa entre a banda. Por aquilo a soar e depois ouvir-se o poema, que é uma parte muito importante.

3. Patchouly
Com este tema houve, parece-me, pela primeira vez, um movimento nacional com uma canção. O «Patchouly», do Grupo de Baile, juntou toda a gente do país. Era impossível não ouvir, não cantar, não dançar aquela música. Foi um híper êxito que nasceu no Seixal.

4. Malta à Porta
Vem na contradição do «Patchouly». Esta banda fantástica, do Laranjeiro, os Iodo, tinha pessoas com uma série de influências e era completamente hiperativa. Eram músicos muito bons e faziam um som muito mais completo do que era normal ouvir.

5. Ela Controla
«Ela Controla» é Roquivários. Tinham um som sólido, a prestação ao vivo ajudava muito, e escolhemos este tema, a música que o Mário Gramaço cantava, mas depois a Midus cantava o «Cristina (Beleza é Fundamental)», o «Totobola» e por aí fora.

6. Pelas Ruas da Cidade
Já é uma coisa diferente. Andamos uns anos para a frente e entramos na fase do 5º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous, onde tocaram os Margem Sul, com esta música, mas também os Agora Colora, Quinta do Bill, Sitiados… Foi um concurso extremamente frutuoso em termos de futuro e duas das bandas eram de Almada. Os Margem Sul não tiveram muita continuidade mas deixaram este tema, que sempre achei uma coisa escondida no tempo, fantasmagórica. Adorei redescobri-lo.

7. O Homem da Lua
É dos Agora Colora, que já era uma banda estranha para mim. Já não estava em Almada na altura e não acompanhava. Acaba por ser uma banda psicadélica, moderna, muito engraçada, da qual escolhemos «O Homem da Lua» entre vários temas que podiam ter entrado. Vivíamos tempos fantásticos para a música portuguesa nessa altura.

8. Casos de Polícia
Dos vários temas dos Da Weasel foi este o escolhido e é cantado pelo Sebastião e o Vicente. É uma malha bastante forte e tentámos aproveitar tudo o que tinha sido tocado, retocar com bom ritmo de maneira a que fosse perfeitamente reconhecível e para que as pessoas ouvissem novamente o que a letra tinha a dizer.

9. Cavalos de Corrida
Acaba por ser o hino, aquilo que despoleta uma série de coisas, a tomada de posição. É o grande êxito dos UHF. Tive uma grande pica a cantar este tema e acabámos por aproveitar para apanhar toda a boleia possível dos UHF e da pica que vi neles num concerto, há muito tempo, na Incrível.

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