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Xutos & Pontapés

Xutos & Pontapés: É só rock and roll (e eles ainda gostam mais)

A 13 de janeiro de 2014 cumprem-se 35 anos sobre a primeira vez que os Xutos & Pontapés subiram a um palco. Dos Alunos de Apolo para a Meo Arena (aponte na agenda: 7 de março) vai uma distância que a maior instituição do rock portuguesa percorreu com eletricidade nas veias. Mas chega de saudade: anuncia-se Puro, 13º álbum de originais, que promete ir direito ao que interessa, sonhando com o futuro. Tim, Zé Pedro, Kalú, João Cabeleira e Gui abriram o livro de honra

É necessário inserir as coordenadas no GPS para se dar com o quartel general dos Xutos & Pontapés, um refúgio construído num insuspeito núcleo empresarial, em Loures, à saída de Lisboa. «A Casinha», como os próprios Xutos se gostam de referir a este espaço, sucede a uma modesta garagem que durante mais de uma década ocuparam em Almada. «No início», conta Zé Pedro, «tínhamos que puxar eletricidade para a sala de ensaios com uma extensão que trazíamos de casa da irmã do Tim, só mais tarde é que mandámos lá colocar eletricidade. Aqui estamos muito melhor».

À hora marcada para o encontro com os Xutos percebe-se logo que esta é a azáfama típica que antecede um momento especial: há gente que entra e sai d'«A Casinha», caras conhecidas que há muito rodeiam os Xutos, uma ou outra figura importante da rádio, e o ambiente próprio de quem está envolvido nas preparações de algo grande. Os Xutos & Pontapés estão na reta final de 2013, a ultimarem os trabalhos que resultarão em Puro, o álbum número 13 numa carreira que teve alguns azares, mas que no deve e haver destas três décadas e meia tem um saldo extraordinariamente positivo.

O espaço, um típico armazém visto de fora, teve o seu interior redesenhado por Francisco Aires Mateus (arquiteto que em tempos tocou bateria nos Radar Kadafi) para ser funcional: tem uma garagem para as carrinhas dos técnicos e da banda, um espaço para armazém de material de palco, outro para as operações de venda de merchandising, uma oficina de manutenção do material instrumentos, cabos, monitores, amplificadores, etc escritório, sala de lazer e um estúdio, onde o grupo trabalha com afinco aquilo que em palco parece natural e onde se aventurou a registar boa parte das sessões do que há de ser Puro. As janelas do estúdio dão para vistas desafogadas, um pouco mais campestres do que seria de esperar. E as paredes ainda estão limpas de cartazes e demais recordações, contrastando com o ar mais caótico e rock da antiga garagem de Almada. Percebe-se que a ocupação do espaço pelos Xutos ainda é recente. Por ali, já passaram também os brasileiros Titãs e o português João Pedro Pais, que escolheu gravar aí o seu último trabalho. Agora é a hora dos Xutos: na mesa do «lounge» do «quartel» sentam-se Kalú, Tim, João Cabeleira, Gui e Zé Pedro. E todos têm algo para dizer.

Comecemos pelo novo disco. Em que ponto está o trabalho?
Tim: Acho que está quase pronto. Há uma série de misturas que ainda estão a ser feitas, há músicas que estão acabadas e algumas que estão ainda por acabar. Mas não falta muito.

Com 35 anos de bagagem, como é que abordam a construção de um disco?
T: Este processo já começou há algum tempo. Talvez desde que viemos para esta sala de ensaios... Houve um conjunto de temas que desde então foram trabalhados para entrar no álbum. Um deles originou o «Cordas e Correntes», outro o «Da Nação», duas canções que já foram testadas ao vivo. Depois surgiu o tema «Tu Também«, que vai ser single, e o «Salve-se Quem Puder», que é uma música de desenhos animados sobre o fim do mundo. Estilo Marvel...

O álbum já tem título?
T: Nós estamos a pensar chamar ao álbum Puro, por ser um disco puro de Xutos & Pontapés.

O vosso controlo de qualidade é rigoroso?
Kalú: Damos sempre hipótese a todas as possibilidades. E depois há uma seleção natural...

Nunca vos aconteceu alguém tentar trazer para estas sessões de trabalho uma canção que já antes tivesse sido rejeitada?
Zé Pedro: Já aconteceu termos tentado reaproveitar coisas que ficaram para trás. Mas se forem temas que foram abandonados quase em cima da hora de editar um disco, nunca mais voltam a ser abordados.
K: O único exemplo que me lembro é o dos «Dados Viciados», uma música que já era muito antiga e que foi reaproveitada em tempos mais recentes...
T: Aqui o processo é o natural de uma banda rock. Ninguém chega com canções já feitas, normalmente apresentamos malhas e se a malta gostar do que ouviu começa-se a desenvolver a ideia. Pode demorar três a cinco semanas até a canção estar completa e ensaiada. O que não quer dizer que às vezes não demore um par de horas a ficar pronta. O facto da malta ter um estúdio à disposição ajuda a que as coisas aconteçam de forma mais fácil e fluída.

Têm por hábito ir «pegar ao serviço» a uma determinada hora? Estabelecem horários?
K: Temos sempre um horário. Começamos por volta das 11 da manhã e vamos até às duas a tarde. Normalmente vimos ao estúdio três vezes por semana, mas como agora estamos em gravações temos vindo todos os dias. De qualquer forma, é um processo que não se fica somente pelas quatro paredes do estúdio; a malta leva sempre qualquer coisa para ver e fazer em casa, com o intuito de no outro dia já haver coisas novas para rever e trabalhar.
T: Por isso é que não temos a necessidade de trabalhar à noite ou fazer horas extraordinárias... O mais engraçado disto tudo é já haver alguma eficiência. O facto de ouvir alguma coisa e ter a noção de qual a direção que se vai tomar. Já sabemos o que esperar uns dos outros e já sabemos que sonoridade é que temos de alcançar. Portanto, não há nenhuma perda de tempo a tentar reinventar outra coisa, porque não há essa necessidade.

Algum de vocês tem alguma superstição que traga para um disco novo?
T: Para mim não. E o João Cabeleira já abandonou há muito o vício de gravar cheio de notas [de dinheiro]... Ele normalmente gravava takes e punha notas no chão... (risos)
K: Eu gosto de gravar de manhã; para mim é quando rende mais. Até à hora de almoço. Depois de comer já não gosto de tocar. Outra coisa que faço é trazer sempre um monte de tarolas quando venho gravar...

Quando partem para um disco novo vão em busca de instrumentos e sonoridades novas?
ZP: Há sempre o trabalho do técnico que vai mudando as cordas e deixando as guitarras todas preparadas. E depois, consoante a música, escolho o amplificador adequado que conjugue melhor com a guitarra. Felizmente temos essa possibilidade e esse leque de hipóteses à mão.
T: O Zé balança sempre entre a Les Paul, que utiliza para malhas mais pesadas, e a Telecaster, para outro tipo de texturas.
João Cabeleira: No meu caso, é sempre a mesma guitarra e o mesmo amplificador...(risos)
K: Eu na bateria também faço algumas trocas. Às vezes utilizo tarolas de madeira com caixas maiores, e outras vezes tarolas de metal com caixas mais pequenas. Pratos com diferentes agressividades, etc. É a própria música que pede essa busca. Às vezes dou por mim a tirar e a pôr cobertores dentro do bombo e a colar umas fitas na tarola para sacar alguns harmónicos... Desta vez experimentei uma coisa nova que nunca tinha experimentado: numa música, se não me engano até é o tema «Tu e Eu», a tarola até estava a soar bem, mas não era bem o que nós estávamos à procura. A certa altura, o João Martins [produtor] deu a ideia de cortar uma pele da dimensão da que já lá estava, depois colocámos uma por cima da outra, e deu um equilíbrio brutal à tarola. Nunca tinha feito aquilo, ficou mesmo bestial.
T: O que eu acho que faz a música dos Xutos, independentemente do produtor, é o facto de nós termos algum cuidado em fornecer o nosso serviço. O nosso som. O produtor muitas vezes acerta alguns pormenores, mas a ideia base e o conceito geral do som raramente é dele. Muitas vezes quando trocamos de produtor tem mais a ver com questões relacionadas com a gravação.

Mas estas decisões que tomam são decisões de produção, não é?
T: São, mas ele é sempre a última instância. Nós propomos, faz-se, e depois há uma decisão. Essa decisão final acaba por ser sempre do produtor. Nós não nos podemos escapar a essa etapa. Mas grande parte das escolhas do disco, como as malhas do Zé Pedro, os solos do Cabeleira, são nossas.

Também é preciso saber trabalhar com os Xutos...
T: Sim, e não é uma banda fácil... (risos)

Há convidados no disco?
T: Não, isto é puro... (risos). Temos um instrumentista ou dois como convidados, nada mais.

Do que fala este disco?
T: Eu tentei seguir o guião do disco rock... Há de ter canções de amor, raiva, ironia. É capaz de ter uma letra ou outra mais fora, com um sentido menos evidente... Talvez como os solos do Cabeleira que têm uma expressão, mas que não precisam obrigatoriamente de ter um significado. Às vezes apetece-me fazer coisas assim... Começou logo pelo «Cordas e Correntes». Mostrei pela primeira vez a letra ao resto do grupo para ver se gostavam e se achavam bem, porque a ideia ali era seguir um caminho.

Os Xutos não têm fugido nos últimos trabalhos a uma bastante contundente crítica social. Com o país neste estado, volta a haver exemplos desses no vosso álbum?
T: É quase impossível fugir a essa temática. Isto é uma coisa difícil de gerir. Pode haver a ideia de que temos de ser bonitos e transmitir felicidade e alegria nestes tempos difíceis, mas também há a vontade de denunciar verdades e ser mais violento. É difícil. A única forma de resolver isso é deixar a coisa acontecer com naturalidade.

Há quem diga que há músicas que se querem escrever e outras que se têm que escrever...
T: Uma das sensações mais evidentes é a de que estou a escrever para pessoas que não se encontram aqui neste sítio. Eu gostava que as pessoas que estão longe ouvissem aquelas canções, porque estão a ser feitas para lá. Há canções que são dirigidas a essa nova audiência, que acaba por ser a mesma, mas a quilómetros de distância. Há dois ou três temas, incluindo o «Da Nação», que versam sobre a questão da emigração. Da questão de sair mas ficar cá dentro. Dessa nova sina. Parece que o melhor que nós fazemos enquanto povo é emigrar... Há gente muito nova, famílias inteiras, a dizerem adeus ao país e isso faz-me imensa confusão.

Pegando nesta questão mais familiar, como é que foram as reações lá em casa ao disco?
K: De uma forma geral, têm sido boas. Mas eu também não tenho mostrado muita coisa, porque acho ingrato mostrar um trabalho a meio, as pessoas não percebem aquilo que temos em mente para a música e apontam logo os pormenores que faltam, etc. Mas o que eu mostrei foi aprovado, vamos lá ver...
ZP: Eu não mostro nada a ninguém antes de estar pronto, porque acho que condiciona. Há sempre a necessidade de dizer qualquer coisa e analisar a música. Entre nós, essa parte de crítica, autocrítica, construção e desconstrução está muito presente. E creio que vamos ficar contentes quando ouvirmos o resultado final.

A CARGA PRONTA

O palco é o habitat natural dos Xutos & Pontapés, um meio que dominam como poucos, mas que os próprios não se têm cansado de transformar, sempre em busca de algo de novo, de maior, com mais impacto. Os Xutos já assinaram grandes produções em espaços como o Pavilhão Atlântico, Campo Pequeno e até no estádio do Restelo, quando assinalaram com justificada pompa e circunstância o fecho das comemorações do 30º aniversário, perante mais de 40 mil pessoas e com uma produção nunca antes vista no nosso país com uma banda nacional. Para apagarem as 35 velas que lhes serão colocadas à frente em 2014, os Xutos regressaram ao Parque das Nações para um concerto especial no antigo Pavilhão Atlântico, hoje Meo Arena. Para que a ocasião seja mesmo especial, há equipas a trabalhar a todo o gás para construírem um espetáculo que em termos cénicos e técnicos supere tudo o que os Xutos fizeram até aqui. Em palco, hão de estar contentores. Ao que tudo indica, a carga já está pronta...

Estão prestes a anunciar uma data especial...
T: Além do nosso aniversário, a 13 de janeiro (data de lançamento do disco e de comemoração dos 35 anos), vai ser o lançamento da digressão com um primeiro espetáculo na Meo Arena dia 7 de março.

Uma banda como a vossa funciona praticamente como uma empresa. Como é que se equilibra a vontade enquanto artistas de fazer algo e a realidade da indústria que terá que acomodar essa vontade?
ZP: Consegue-se com uma boa equipa, com a qual tenhas confiança. Nós como músicos temos de criar, fazer boas canções. O nosso principal objetivo é que isso aconteça. Depois, temos as pessoas que nos rodeiam, que pensam e apresentam propostas. Nós somos confrontados com essas mesmas propostas e temos o poder de decisão dentro do contexto. Somos uma banda democrática; aceitamos a decisão da maioria.
K: É a terceira vez em grande na Meo Arena começa a ser a nossa sala.
ZP: Ao longo do tempo, fomos mudando de poiso. O Pavilhão do Belenenses era a nossa sala principal há muitos anos, como o Infante de Sagres no Porto; depois foram os Coliseus, e agora mais recentemente a Meo Arena.

Há alguma coisa radicalmente nova, a nível técnico, para o concerto?
T: Até à data não. A equipa que participou desde os montadores até à parte técnica na celebração dos 25 anos no Pavilhão Atlântico foi citada por uma revista da especialidade. Na altura, tiveram a oportunidade de fazer um estudo técnico da sala e do PA que iam utilizar, o material veio de fora, etc. Ou seja, os Xutos não só dão o seu espetáculo como possibilitam que aconteça este tipo de coisas. Temos hipótese de fazer isso, e é uma forma de conseguirmos pagar a quem investe o seu conhecimento em nós. Nós fazemos o que nos compete artisticamente, damos as nossas dicas, mas o resultado final deve-se muito ao trabalho deles os gajos são mesmo bons!
K: São pessoas muito capazes. Quando celebrámos os 30 anos, fizemos a maior montagem de sempre da JBL na Península Ibérica. Foi tudo feito por técnicos portugueses. Essa mesma montagem acabou por fazer a abertura principal na feira de Los Angeles desse ano pelo diretor da Harman Kardon (fabricantes da JBL). Altamente.
T: Nós aproveitamos muito bem esse conhecimento. Acaba por ser das poucas hipóteses que este pessoal tem de trabalhar à séria. Muitas vezes é uma expetativa muito grande saber o que é que essas pessoas nos vão trazer; eles já há muito tempo que nos têm vindo a surpreender... Muitos espetáculos grandes que as pessoas viram só se tornaram possíveis porque tínhamos esta equipa fantástica a trabalhar para nós.
K: Eu acompanhei as montagens deles no Restelo e fiquei muito agradado com tudo, foi uma coisa brutal... Os técnicos mediram o estádio de ponta-a-ponta com lasers e determinaram os pontos exatos onde montar o equipamento, de forma a que toda a gente pudesse ouvir bem em todo o lado. Com um cuidado que eu nunca tinha visto na vida.

Vocês têm noção que são a única banda a trabalhar a esse nível em Portugal?
T: Porque as outras não querem. Sou muito sincero. Todas as pessoas podem fazer isto, agora se estão dispostas a fazê-lo é outra conversa. Há muita gente com música para isso. Tudo depende da vontade do artista. Os grandes concertos acontecem de forma extraordinária, e muitas vezes as bandas não estão preparadas a esse nível, por isso é que às vezes as coisas não correm muito bem. Ou porque a gravação do DVD não ficou boa, ou porque as luzes e o som não eram suficientes. E por isso acontecem os azares. Já fiz um concerto com o Jorge Palma em que tiveram de trocar o técnico de monição às seis da tarde porque a pessoa que estava lá na altura nunca tinha trabalhado com «in-ears»...
K: É como dar concertos em Corroios num sítio onde é possível meter 50 mil pessoas quase a dimensão do Optimus Alive com um PA que só consegue cobrir até à mesa de mistura. Os outros 20 mil que estão para lá desse limite não ouvem quase nada.
T: Não custa nada fazer uma reunião técnica e tentar arranjar soluções para estes problemas. Há alguns grupos que têm esse cuidado, outros nem por isso.
ZP: Mas primeiro que tudo é preciso ter canções (risos).

Há algum tema que não toquem há muito tempo e que algum de vocês tenha vontade de voltar a tocar?
ZP: Todos os anos é posta à consideração uma lista e é aberta essa hipótese.

São democráticos a esse ponto?
T: Mais ou menos (risos). A questão aqui é ver o que é que nós podemos tocar, como é que vão correr as coisas em relação ao disco, qual a importância dele, se o tocamos na íntegra, ou apenas algumas músicas. Esse tipo de coisas vai ser definido durante estes meses... A chatice é que já fizemos de tudo. Já fizemos três estreias absolutas com o Dados Viciados, já fizemos meias estreias... Neste disco fizemos mais ou menos o inverso: tocámos as músicas ao vivo antes de serem editadas. Mas creio que o espetáculo, assim como aconteceu nas celebrações anteriores, vai ter como espinha dorsal o disco novo. Depois há canções como «A Sombra Colorida» e «Sangue da Cidade», que raramente tocamos... Portanto, é nessas alturas de celebração que abordamos essas músicas. Vamos aproveitar para nos apoiarmos numa série de canções novas no concerto de março. Sim, porque as outras são impossíveis de tirar de lá... As canções velhas são umas chatas, não largam a cadeira. Ficam, fazem truques, mantêm-se e tentam sobreviver, mascaram-se... (risos)

O que é um bom ano para os Xutos em termos de concertos?
T: 30 concertos é um bom ano, 25 é um ano normal, 20 é um ano um pouco fraco.
K: Aqui há uns anos chegávamos a janeiro com a digressão toda montada, com 30 a 35 datas. Hoje em dia não é assim.

Há alguma perspetiva de fazerem algum festival este ano?
T: A mim ninguém me falou de nada ainda...
ZP: Nós temos feito todas as edições do Rock in Rio em Lisboa...

BODAS DE CORAL

Há bodas de tudo, ao que parece: além das mais comuns Bodas de Prata que os Xutos assinalaram no seu 25º aniversário ou de Ouro que os Rolling Stones têm vindo a festejar depois de terem atingido a marca de 50 anos de atividade há ainda Bodas de Porcelana, de Ametista, de Pérola ou, para quem festeja 35 anos de enlace, de Coral. O que parece apropriado, pois qualquer festejo dos Xutos é sublinhado por um coro de vozes que os elogiam, a começar nos seus pares e a terminar, o que talvez seja mais importante, nos fãs que não têm parado de crescer ao longo destas três décadas e meia.

Os Xutos nasceram com Zé Leonel (voz), Zé Pedro (guitarra), Kalú (bateria) e Tim (baixo) no final de 1978 e subiram pela primeira vez a um palco, a convite dos Faíscas de Pedro Ayres Magalhães, a 13 de janeiro de 1979, curiosamente numa festa em que um ainda imberbe movimento punk de Lisboa festejava 25 anos de eletricidade rock and roll. E a partir daí foi sempre a subir: Francis (guitarra) substituiu Zé Leonel em 1981, assumindo Tim as vozes principais. Em 1983 Francis abandonou o grupo, tendo tocado por um curto período com os UHF, abrindo espaço para as entradas de Gui (saxofone) e João Cabeleira (guitarra), cristalizando a formação que enfrentou as três décadas seguintes.

Puro será o 13º álbum de originais, sucedendo a 78/82 (1982), Cerco (1985), Circo de Feras (1987), 88 (1988), Gritos Mudos (1990), Dizer Não de Vez (1992), Direito ao Deserto (1993), Dados Viciados (1997), Tentação (1998), XIII (2001), Mundo ao Contrário (2004) e Xutos & Pontapés (2009).

A somar a esta discografia há ainda uma série de títulos ao vivo, coletâneas, DVDs, marcos de uma carreira longa que nunca se afastou dos favores do público. Nos concertos, percebe-se o fenómeno: os Xutos arrastam diferentes gerações, mantendo os fãs de sempre e conquistando novos a cada novo ano que passa, num crescendo que tem sido constante. Mas nem tudo tem sido fácil na vida de um grupo que já sofreu alguns sérios revezes, como a morte da manager Marta Ferreira ou os delicados problemas de saúde que implicaram a hospitalização de Zé Pedro, num período especialmente intenso da vida do grupo. Pelo discurso de Tim, Zé Pedro, Kalú, Gui e João Cabeleira passa a palavra «superação».

Qual de vocês é que tem o número do Mick Jagger e liga a pedir dicas para lidar com o peso dos anos?
ZP: Não há nenhuma fórmula artística para prever quanto tempo é que duram as coisas, como é óbvio. Um fator muito importante da sobrevivência de uma banda é saber ultrapassar os momentos maus que ocorrem na vida de cada um de nós. Nós conseguimos sobreviver a esses momentos e isso deu-nos força para continuarmos em frente. Hoje em dia as coisas são mais concretas na nossa cabeça. Se calhar houve alturas em que cada um de nós pensou que já estava farto de estar na banda. Já houve, inclusive, uma altura em que parámos mesmo; por sorte não houve nenhuma reunião a dizer que íamos acabar com isto e a atividade foi retomada. Para mim, esses momentos é que são importantes para a sobrevivência de uma banda.

Há aquele chavão popular que diz que «a antiguidade é um posto». Não será por vezes também um peso sobre os ombros? Nunca puseram a hipótese de, um dia, «arrumar as botas»?
T: Não, isso é impossível. Esta profissão não tem reforma. Pode ter quebra de atividade. Mas eu acho que, no fundo, com a experiência que conheço de outros cantores, há sempre a disposição para fazer uma outra performance e entrar numa outra aventura qualquer. Portanto, eu não considero isso viável, muito devido ao feitio das pessoas em questão. Nenhum de nós vai de um dia para o outro deixar de ser músico. Se juntarmos a isso um ambiente como este em que estamos, com este tipo de funcionamento e atividade, não me parece que haja alternativa possível. Qualquer abandono na banda seria um salto para o precipício. Para onde é que ia? Se alguém, algum dia, estiver farto, falamos entre todos e a banda abranda. Já fizemos tanta coisa que não custa nada ser Xutos & Pontapés de uma outra forma qualquer, desde que seja bom para todos. Isso é um problema que o rock tem que resolver, porque continuamos a achar pouco natural a ideia de um artista já ter alguma idade e de estar em palco de guitarra elétrica, aos saltos...
ZP: Há maneiras de crescer dentro disso. Os Rolling Stones são o que são e, apesar dos 50 anos de carreira, estão a fazer um trabalho altamente competente.
T: Não há aqueles músicos doutras áreas que atingem certas idades e são bons? O pessoal da música clássica, por exemplo? As pessoas pagam à mesma e já não vão com a ideia de ser deslumbradas pelo miúdo que toca violoncelo... Querem ouvir a música que aquele senhor faz. E ponto final. Eu acho que é isso que se passa à mesma. Faz-me lembrar aqueles grupos jamaicanos com velhinhos cheios de artroses a tocar trompetes... Eu acho que as pessoas podem não ter o sangue na guelra, mas as músicas continuam a ser o que são.
ZP: É fantástico ver as novas gerações nas primeiras filas a cantar as nossas canções e a atentarem nos temas novos. A experiência deste ano com o «Cordas e Correntes» e o «Da Nação» foi fantástica a esse nível. A forma como as pessoas ficaram cativadas a ouvir esse novo material foi altamente aliciante. A mim dá-me força para continuar em frente e evitar que nos sintamos velhos e decadentes.
T: É giro ver que não estamos sozinhos e que as pessoas estão a acompanhar. E somos nós que estamos a tocar, não é um tributo ao Xutos...

A nível físico, já há alguma coisa que vos seja difícil de tocar?
T: Ainda estamos muito longe do nosso auge como instrumentistas. Ainda nos falta crescer...
ZP: Não só a nível de instrumentistas, como a nível de criatividade.
T: Francamente, nunca senti a banda tão coesa a tocar e tão eficiente como agora.
K: Lembrei-me de um episódio engraçado a esse respeito. Estávamos no estúdio a gravar uma música e a dada altura alguém se lembrou de perguntar por curiosidade qual é que era a velocidade máxima que um baterista conseguia atingir. Sentámo-nos para experimentar, e a música ficou em 204 bpm.
JC: E só não ficou mais rápida porque não se percebia o que o Tim estava a cantar... (risos)
T: É giro ouvir os outros a tocar e pensar que as coisas estão a sair bem, conforme estávamos à espera. E houve muitas ocasiões anteriores em que isso não aconteceu tão facilmente...

A duração média dos casamentos em Portugal era de 16 anos. Vocês já estão «casados» há 35... O que é que aguenta este casamento durante tanto tempo?
ZP: O facto de termos crescido juntos e de nos respeitarmos muito enquanto músicos. Temos um coletivo onde nos sentimos bem, e isso mantem a máquina oleada e afinada e faz-nos sentir uma peça boa da engrenagem. Acaba por ser a vida que escolhemos e abraçámos.
K: E há sempre mais um desafio por vencer...
T: Este é o único sítio em que podemos tocar as músicas da maneira como tocamos. Portanto, isto é imperdível... Continua a não ter segredo nenhum. A felicidade não tem segredo.

Kalú, Tim e Zé Pedro têm projetos paralelos. Como é que o João e o Gui lidam com estas «amantes»?
Gui: Eu torço por eles, completamente.

E nunca teve vontade de fazer outras coisas?
G: Faço outras coisas, mas não têm nada a ver com música (risos). Às vezes dá-me vontade, mas é um pouco como a canção dos Deolinda: «passa-me logo». Ideias há muitas, o mais difícil é colocá-las em prática.
JC: A única coisa que posso dizer é que sou muito preguiçoso, passa um pouco por aí... Mas acho que agora é que vai ser...

Quer falar um pouco sobre isso?
JC: Não quero falar, porque na volta, preguiçoso como sou, acabo por não fazer nada...

Há sempre uma diferença de perspetivas entre o fã e a banda: os fãs têm muitas vezes saudades de algum disco especial, de um concerto, ou de uma era. E as bandas normalmente têm os olhos colocados no futuro. Há alguma fase dos Xutos da qual tenham saudades?
T: Veio-me à cabeça uma resposta à Trovante: «saudades do futuro» (risos).
ZP: «O que foi não volta a ser» (risos).
T: Houve muitas alturas em que eu gostei muito de estar a trabalhar com os Xutos, em que me senti pessoalmente muito realizado. A primeira vez que fomos para o [estúdio] Angel 2, por exemplo. Foram coisas muito importantes e que me marcaram muito. Mas isto passou-se a repetir, e de repente todas as coisas passaram a ser importantes... Portanto, passei a dar mais valor ao que sinto no momento. Deixei de ter essa nostalgia. Na altura, se calhar até estava a tocar num amplificador minúsculo que soava quase como uma mota. Só que nos sonhos isso não aparece... Lembro-me perfeitamente de estar com eles a fazer o Circo de Feras e o «Remar Remar», foi uma fase fantástica, porque, aí sim, estava com uma ideia de renovação, crescimento e abertura. Já tinham passado seis anos desde o início e interessava era o que se ia passar dali para a frente. Foi uma fase completamente fresca que desembocou no Circo de Feras. Dou valor a isso, mas não sinto nenhuma nostalgia em especial. Gosto mais de ver a evolução da banda e das pessoas que a constituem, acho que é uma coisa única. Não tem comparação.
JC: Mas é bom nós todos termos este percursos para trás, às vezes quando estamos juntos começamos a lembrar uma história daqui outra dali. Se calhar há histórias que na altura não tiveram assim tanta graça como têm agora...
T: E vá lá que não deram em torto, porque se tivessem corrido mal não estávamos aqui hoje. Estar aqui neste momento a fazer estas coisas com estas pessoas, para mim é imperdível, não trocava isto por nada.

Os momentos altos destes 35 anos têm sido abundantes, chegaram mesmo a ser condecorados. Se fosse hoje, com este presidente, aceitavam ou recusavam?
T: Se fosse visto como um reflexo da nação entregue pelas mãos daquela pessoa, seria quase impossível de recusar, porque no fundo estaríamos a recusar um prémio atribuído pela vontade de muitos. Se fosse o senhor a entregar por vontade própria, já é diferente... Se bem que acho que é a primeira hipótese, que é uma coisa sugerida por uma comissão.

Os Xutos têm a carreira rock portuguesa mais bem documentada. Ainda assim, há de ter ficado alguma coisa para contar nestes 35 anos de carreira...
T: Posso dizer que isto é uma vida que dá gost oe que é uma felicidade poder partilhá-la, com todas as vicissitudes que tem tido. Tivemos vários momentos difíceis com o Zé Pedro, e só espero termos estado a altura daquilo que ele estava à espera...
ZP: Estiveram, claro que sim...
T: Houve alturas de muito desespero e de muito desassossego porque tudo podia de um momento para o outro virar pó e acabar. Tivemos essas situações e outras. Esses segredos foram tratados aqui dentro entre irmãos. Desde o primeiro acidente, já lá vão 12 anos... São aqueles acontecimentos inerentes ao processo. Lembro-me que na altura dos problemas do Zé Pedro estávamos a estrear este novo estúdio e a trabalhar com os Titãs... sem saber o que ia acontecer nos próximos 15 dias. Não sabíamos se o Zé ia ficar parado, se ia ficar hospitalizado... Não sabíamos como é que a coisa ia correr. São problemas que podem acontecer a qualquer um, não há nada a fazer... Por isso é que eu digo que é imperdível estar aqui, porque a minha consciência diz-me que um dia qualquer alguém não vai poder vir... Quero aproveitar todos os momentos possíveis.

Ao chegarem a este patamar vivem na filosofia do dia a dia, ou já pensam à escala de uns Rolling Stones?
ZP: Acho que nem os Stones podem pensar dessa forma. Aliás, as datas da digressão deles estão a ser lançadas por etapas. Nem eles podem prever se todos estão na disposição e nas condições de continuar. Adorava chegar aos 40 anos de carreira, claro que sim. É um marco bom. E estou com esperança de o atingir.

Texto: Rui Miguel Abreu

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2013