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Como os Heróis do Mar ajudaram a construir um Portugal novo

Na alvorada dos anos 80, Portugal era um país à espera de acontecer. Poucos anos depois da Revolução de Abril, a indústria do entretenimento era incipiente e a possibilidade de uma banda jovem fazer da música um modo de vida não passava de uma miragem. Com base em Lisboa mas o pensamento posto em Portugal passado e futuro, real e imaginado os Heróis do Mar juntaram as influências mais díspares e, sem medo da polémica, cumpriram o seu desígnio: agitar. À conversa com Lia Pereira, Pedro Ayres Magalhães, Rui Pregal da Cunha, Paulo Pedro Gonçalves, Carlos Maria Trindade e António José Almeida recordam com prazer, mas sem saudosismo, a década em que cresceram com o país

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Numa altura em que a música dos Heróis do Mar é, nas palavras de Pedro Ayres Magalhães, «mais código cultural» do que na época em que foi feita, a BLITZ convidou os cinco músicos da banda de «Amor» a recordar a década em que se impuseram no pop-rock português com uma música marcada pela abertura da new wave a várias influências e pela singularidade da mensagem, inspirada na História de Portugal. Com os fantasmas do salazarismo ainda frescos na memória da opinião pública, o caráter «épico e lírico», mais uma vez nas palavras de Ayres Magalhães, do primeiro álbum, lançado em 1981, gerou as reações mais exacerbadas. Acusados de serem fascistas, os Heróis do Mar viram com desalento, mas empenho redobrado, o disco «boicotado» nas lojas e em várias rádios. O sucesso chegaria pouco depois, com uma música que António José Almeida, baterista e «chefe» desta «democracia esquisita», descreve como uma canção «de raiva e vingança». Lançado em máxi-single, «Amor» faz-se até hoje ouvir nas rádios e nas discotecas, o que no ver dos músicos poderá ter ajudado uma nova geração de bandas, com os já extintos Os Golpes à cabeça, a redescobrir a sua obra. Para Rui Pregal da Cunha, vocalista e performer nato, capaz dos mais extravagantes figurinos e truques de palco, a divisão da carreira dos Heróis do Mar em álbuns e singles de grande impacto era perfeitamente pensada e saudável, ligando-se à sua paixão pela cultura da música de dança.

Entrevistados separadamente, alguns dos seus companheiros discordam da bifurcação do percurso da banda, que se separaria no final da década que ajudou a pintar de forma garrida. Para trás ficavam quatro álbuns e quase dez anos de música mas não só: mensagem, imagem e sobretudo o desejo de agitar, não deixando pedra sobre pedra num meio onde o mais básico condições mínimas para tocar ao vivo, possibilidade de viver da música estava, ainda, por alcançar.

A palavra a Rui Pregal da Cunha (voz), Pedro Ayres Magalhães (baixo), Paulo Pedro Gonçalves (guitarra), Carlos Maria Trindade (teclados) e António José Almeida (bateria).

Queridos anos 80

Carlos Maria Trindade: Os anos 80 foram muito interessantes internacionalmente e as influências que chegavam cá abriam horizontes. Estava tudo por fazer ou havia muita coisa por fazer, mais do que hoje. Não havia estruturas, nem salas ou rotinas de concertos, nem noção de digressão, exportação de música ou managers... E foi nessa altura, ou um pouco antes, no final dos anos 70, com o punk, o pós-punk e a new wave, que tudo começou. As influências que chegavam lá de fora eram muito fortes e mexeram com o meio e com a nossa geração. Começámos a organizar, além de tocar. As bandas iam aparecendo por todo o país: Margem Sul, Linha [de Cascais], Norte o Porto muito forte, Braga... Começou tudo a despontar e fez-se um meio que ainda hoje está aí.

Paulo Pedro Gonçalves: Antes de fazermos os Heróis do Mar, a guitarra era considerada um instrumento de luxo pelo Governo do [Mário] Soares, e tinha um imposto gigantesco. Para comprar uma tínhamos de andar a pedir aqui e acoli. Não havia sítios para ensaiar, nem para dar concertos; na altura em que montámos os Faíscas, os Corpo Diplomático e os Heróis do Mar, foi por carolice nossa.

Pedro Ayres Magalhães: A nossa ideia era a da ação. O que pode redimir as pessoas é resistirem à preguiça e à tristeza de as coisas serem difíceis, e tomarem uma iniciativa. Isso é o que nos liberta desses grilhões.

CMT: A televisão era um meio muito estreito e institucional. [A comunicação] passava mais pela vida social da noite lisboeta, do Bairro Alto. As pessoas das artes encontravam-se ali e havia uma [cultura] de tertúlia de café, de bar, de esplanada. Era uma movida, que não afetou só a música, mas que tinha a música como dos pontos mais fortes porque era um dos meios menos organizados. E houve outro fator importante: as editoras acordaram para a música nacional, porque até aí ouvia-se [sobretudo] música importada. E investiram, puseram dinheiro na indústria, o que fez com que os músicos pudessem comprar instrumentos e [alugar] salas de ensaios, coisas que eram mais inacessíveis do que hoje. O Rock Rendez-Vous era um ponto de movida, também, por ser uma sala com concertos diários de bandas portuguesas.

António José Almeida: Nós queríamos agitar. Na altura, assistíamos nas outras cidades da Europa a fenómenos extraordinários. Londres era, e continua a ser, o centro dos centros, mas em Madrid havia a movida madrilena: «Madrid me mata!». Chegámos a ir lá tocar e era incrível, porque havia uma explosão de criatividade: músicos, realizadores, pintores... Depois chegávamos a Lisboa e estava tudo por fazer. Nós tínhamos a consciência de que havia aqui um potencial incrível e queríamos mexer, queríamos que isto «explodisse» como tinha acontecido noutras cidades.

A promover, ao vivo, Heróis do Mar, no final de 81

A promover, ao vivo, Heróis do Mar, no final de 81

Todos diferentes, mesma missão

CMT: Eu dava aulas de música e tinha um duo de vanguarda que não atuava cá, só fazia coisas lá fora. E um dia apareceramme o Paulo e o Pedro, na sua fase punk, dos Faíscas, com a ideia de fazer uma banda em que entrassem mais teclas, eletrónica, órgão que foi a primeira coisa que toquei no Corpo Diplomático. Eles eram muito mais punks do que eu, que era hippie, e havia ali uma diferença ideológica muito grande, mas a coisa colou. Fizemos os Corpo Diplomático, com os quais demos poucos concertos, mas que vieram a dar origem aos Heróis. Depois entrou o António José Almeida, que era o baterista [da banda de rock progressivo] Tantra e ainda chegou a tocar simultaneamente nos Tantra e nos Heróis do Mar. E depois procurámos um vocalista: demorou um pouco, mas descobrimos o Rui Pregal. Ele era o mais jovem. Não tinha muita experiência musical, mas vimos logo que era um performer nato, nas pistas de dança e nos ambientes noturnos que frequentávamos foi aí que o descobrimos.

PPG: No início tínhamos muitas discussões: o Tó Zé [Almeida, baterista] gostava muito dos ABBA e eu detesto os Abba; acho que são bons compositores mas para mim aquilo é kitsch, mais nada. Éramos todos muito diferentes, mas às vezes isso é bom. Quando as pessoas são todas parecidas, completam-se mas não sai nada dali, porque estão satisfeitas com o que fazem. Havia sempre umas guerras, umas imposições de ideias. No primeiro disco eu andava a ouvir imenso Lounge Lizards e James White e aquele punk jazzy; muitas das minhas guitarras eram baseadas nisso. Eu tinha estado em Nova Iorque antes do verão dos Heróis do Mar e tinha visto os Ramones, Mink DeVille, o James White. Vinha com essas ideias na cabeça e os Heróis do Mar desenvolveram-se para uma coisa que não era o que eu queria, na música, mas ao mesmo tempo resultou, porque gostei da direção. Ao início, os Faíscas e os Corpo Diplomático ensaiavam nos Alunos de Apolo e havia imensas bandas da Guiné a ensaiar lá, também. E apanhámos muitas guitarras deles, em músicas como «Bailar».

CMT: Tínhamos interesse nos ritmos africanos, chamávamos-lhe balanço. O balanço branco era a direito e o africano tem o swing de que nós gostávamos e que tentámos pôr, aqui e ali, na nossa carreira. Era um pouco como os ingleses começaram pelo reggae; o nosso reggae era Cabo Verde.

PAM: Eu era mais novo que eles e o Rui ainda mais. Tive muita sorte de os conhecer. O Carlos Maria é um tipo com uma formação musical exemplar e ajudou imenso o grupo com o seu métier; o Tó Zé tinha muita experiência nos Tantra e na produção de concertos, e o Paulo era, e ainda é, um gajo fascinado pela indústria pop, de costureiros a discos, a cantores e atores de cinema é um anglo-americano! O debate que tínhamos dava em coisas muito diferentes mas era muito útil, porque as pessoas eram todas muito leais, e o grupo existia como uma opção de marginalidade em relação à sociedade. Nisso eles ajudaram-me muito, e eu a eles, a criar uma forma de viver fora da sociedade, e no entanto, a servir a sociedade. Na altura, poucas seriam as pessoas que eram só músicos. Entre o trabalho dos Heróis do Mar e o entusiasmo que causávamos nos outros, de produzir discos ou filmes, ou moda e roupa, criámos um sistema de valores alternativos para aquela época, que nos permitiu sermos independentes.

PPG: Eu fui para o Canadá com dois anos: os meus pais saíram de Portugal e foram viver para Toronto, onde fiz a escola primária. Depois estive dois anos de castigo em Portugal, uma vez num colégio interno em Viseu e depois no Colégio Moderno, em Lisboa, o que ainda foi pior, porque acabei por conhecer uma data de bandidos mais velhos que eu, pagos pelos pais para não chumbarem, para não irem para a guerra. Voltei para o Canadá e, quando acabei o liceu, preferi ir para Londres para ser músico. Mas acabei por passar por Portugal, onde tinha acabado de se dar o 25 de Abril, e por aí fiquei.

AJA: Nos Heróis do Mar tínhamos gostos quase opostos, mas sentia que aquilo de onde vinha [rock progressivo] já estava em decadência. Em 1973 vi os Genesis e os Yes no Reading Festival e aquilo teve um impacto enorme em mim, porque tinha 17 anos e não havia concertos em Portugal. Não tinha passaporte mas consegui arranjar um, porque o meu pai conhecia um tipo da polícia que me arranjou um passaporte da PIDE. Mas isto era extremamente perigoso, até porque eu não ia à guerra, ia fugir para a Holanda, no ano a seguir, quando se deu o 25 de Abril. Andei no InterRail com um amigo, Europa fora, a tentar ver concertos. E esses de Reading marcaram-me imenso. Mas quando os Heróis do Mar se formaram, essa escola estava completamente decadente. Eu saí dos Tantra para ir para os Heróis, que eram um projeto completamente novo e fresco de que gostei imenso, mal o Pedro me mostrou uma cassete.

Rui Pregal da Cunha: O engraçado dos Heróis era nós sermos pessoas muito diferentes. Não era aquela coisa dos Street Kids, que tinham crescido todos na Linha e eram todos amigos. Nós éramos muito diferentes uns dos outros, mas isso servia um fim comum.

CMT: A new wave era uma estética aberta, onde cabia tudo, desde os Police, passando pelos Stranglers e pelos Kraftwerk. Nós ouvíamos tudo, tínhamos uma mente muito aberta, e absorvíamos influências como o neo-romantismo e o pós-punk, adaptando-as à língua portuguesa.

CMT: O Quarteto 1111 já tinha tido uma balada muito famosa, «A Lenda de El-Rei D. Sebastião». Eles também foram beber à história nacional e fizeram bons trabalhos. Mas nós fizemos um trabalho de fundo! Andámos todos a ler A História de Portugal, de Oliveira Martins, e outros livros históricos nacionais para [o Pedro] fazer as letras e nós entrarmos todos na mesma onda, de forma a que aquilo de tornasse um conceito coletivo. Não foi às escuras, teve uma grande preparação, de mais de um ano.

RPC: Os anos 80 têm essa coisa maravilhosa, essa forma pós-moderna como agarrámos tudo. É o pós-modernismo na sua melhor faceta. Eu costumava dizer que aquilo não era uma visão dos Heróis do Mar, mas dos Super Heróis do Mar! Valiam os filmes a preto e branco do [Akira] Kurosawa, valia o Oliveira Martins, valia banda-desenhada norte-americana de super-heróis, valia tudo e mais alguma coisa. Tudo servia de inspiração, desde que fossem coisas com as quais tivéssemos crescido e ainda estávamos a crescer porque isso definia o que nós éramos, enquanto portugueses. Víamos o Kurosawa porque ele estava a falar de um épico, tal como o nosso primeiro disco. Tudo o que andámos a fazer é mix e remix, de forma criativa. Apropriámo-nos de coisas que são nossas e de outras que não são. Para mim, o Pedro é o génio letrista português do rock, da música elétrica. Nós crescemos todos a ouvir música elétrica anglo-saxónica. É muito fácil para o Rui Veloso fazer o Ar de Rock e a «Rapariguinha do Shopping»: para todos os efeitos, era cantar em Português sobre uma base anglo-saxónica. O Pedro percebeu quem eu era, como cantava, que voz tinha, o que é que a minha dicção fazia. Ele escreveu para mim e para a língua em que eu cantava. Tiro-lhe o chapéu: acho-o brilhante, porque escreveu em Português, para um meio musical que não é nosso, embora possa ser apropriado por nós. Crescemos a ouvi-lo cantado de outra forma, e ele fê-lo nosso. Fez-me a mim fazê-lo nosso. As letras dele fizeram-me fazer isso.

PAM: Havia uma certa luta pelo uso da língua. [À palavra] «Amor» agora já ninguém liga, mas há trinta anos... «Seus mariconços!». No primeiro álbum, que é épico e lírico, as pessoas chocaram-se por ver cantadas as palavras «guerra», «sangue», «altar», «saudade»... Diziam: «os gajos nem à missa vão, nem leem um livro!».

PPG: Havia bandas de que gostávamos e de quem éramos amigos, como os GNR. Mas achávamos que estávamos a fazer uma coisa que mais ninguém estava a fazer, que estávamos a apontar direções na música portuguesa; e vê-se, hoje em dia, muitas bandas sob a nossa influência. Nós pusemos as pessoas a olhar, outra vez, para Portugal, para o espírito português, para a Mensagem do [Fernando] Pessoa. E as pessoas perceberam que aquilo era uma coisa além do complexo de inferioridade que vivemos e que faz com que nos respeitemos menos uns aos outros. Os Heróis do Mar estavam a tentar apontar na direção do respeito por nós, do amor por ser português.

Com um uniforme semelhante ao dos norte-americanos Devo, na gráfica que imprimia o vespertino A Capital, em maio de 1982

Com um uniforme semelhante ao dos norte-americanos Devo, na gráfica que imprimia o vespertino A Capital, em maio de 1982

Uma democracia esquisita

AJA: Um dia estávamos dentro do carro e íamos provar roupas, para variar, e havia um grande entusiasmo, uma grande efervescência, porque estava tudo a acontecer. Tínhamos recebido críticas muito severas, o que ao mesmo tempo nos dava muito gozo, e havia muita agitação. Íamos a caminho e alguém disse «tem de haver um chefe, que assim não dá», porque cada um dizia a sua coisa. Ia eu a guiar acho que só eu é que tinha carta; o Pedro não tinha, o Paulo não tem, o Rui não tinha idade para ter e o Maria não sei mas alguém lá atrás se lembrou de nomear um chefe. E eu acho que fui nomeado por exclusão de partes: acho que o Paulo não gostava que fosse o Pedro a mandar, o Pedro não gostava que o Paulo mandasse, o Maria estava um bocado farto que fossem o Paulo ou o Pedro a mandar... Havia, como em todas as bandas, certas correntes de pensamento, e tinha que haver um desempate. Eu levava muito a sério a parte da organização de espetáculos. As coisas estavam departamentadas e organizadas para não chocarem umas com as outras, mas havia alturas em que era preciso tomar decisões.

PPG: Nós pensámos: «agora que temos uma banda vamos organizar isto; o Pedro pode dar entrevistas, o Carlos Maria é o tesoureiro, eu e o Rui tratamos da imagem e ao Tó Zé chamávamos-lhe o chefe. Ele tinha mais experiência, porque os Tantra tinham sido uma banda de sucesso, que tinha gravado e enchido os coliseus. E nós éramos um bocado charilas éramos do punk e do Corpo Diplomático, não estávamos bem ao mesmo nível.

CMT: Felizmente nunca tentámos limar essas arestas: continuámos até ao fim com personalidades muito fortes e influências musicais diversas, e acho que isso se nota ao longo da carreira. Aquilo não era fútil: nós preocupávamo-nos mesmo com o futuro do país, com a maneira como isto estava um pouco perdido. O país não estava, nem por pouco, unido; as classes sociais estavam completamente desapegadas; havia uma grande confusão ideológica. Nós pusemo-nos à margem dessa confusão ideológica e criámos, após o primeiro disco, condições para trabalhar. Arranjámos empresários, tentámos dinamizar concertos, arranjar estruturas e começámos a entrar naquilo que viria a ser a nossa vida até hoje. Foi uma coisa mais séria do que andar às bandas. Mas quando nos juntámos tínhamos influências muito diferentes. Eu tinha a experiência da música de vanguarda e já tinha tido uma banda com o Paulo, aos meus 16 anos, onde tocávamos versões de rock sinfónico e fazíamos bailes de finalistas do liceu. Mas sabíamos que as personalidades das pessoas eram importantíssimas não trabalhávamos com pessoas de quem não gostássemos. Havia uma camaradagem muito forte além da vida profissional. Tivemos sorte nas personalidades que conseguiram articular-se e fazer uma coisa sólida, o que nos permitiu sobreviver às terríveis críticas do primeiro disco.

PAM: Claro que as pessoas eram todas diferentes, mas o importante é que eram todas dedicadas. E assim o grupo pôde existir. Eu dediquei a minha vida aos grupos e tenho de dizer isto: as pessoas parece que não percebem que a mensagem de um grupo é a unidade. Porque é que eu não fiz grupos em que se ande a cantar sozinho com uma viola? Porque acho muito mais importante criar um grupo de interesses e depois criar um repertório para aquele grupo do que dizer que me sinto assim ou assado. Uma opinião de grupo é mais difícil de criar, porque não é de ninguém, é uma construção dramática, um teatro, uma peça neste caso, os discos. E há uma coisa que herdámos do punk, que é essa peça ser a nossa vida. Importante é o repertório e o modo de vida. Essa unidade esboroa as qualidades individuais. Os grupos só existem se houver esse empenhamento das suas qualidades, mas assim que existem já não interessam para nada. Esse foi também o meu trabalho nos Heróis do Mar: com um grupo de pessoas que são todas respeitadas, não cultivar a personalidade de nenhuma. Eu era contra o artista a solo. A mensagem do David Bowie, do criador iluminado que aparece sempre nos cartazes, para mim é dos anos 70 e não interessava para nada. Os Heróis do Mar são uma maneira de criar esse plenário de um grupo de pessoas onde a mensagem é que é importante. Não é uma pessoa ser gira ou outra vestir bem. Agora podem vir pessoas esmiuçar a história do grupo, ver quem tocava ou escrevia bem, mas para mim é tudo chinês. O que realmente interessa é como é que pessoas tão diferentes conseguem anular-se para criar um teatro de uma mensagem que é repetida nos refrões, repetidos e imaginados interessantes, para nós e para quem nos ouve. Aí, a malta desaparece. As maltas, o uniforme são isso.

Fascismo nunca mais

CMT: Após o primeiro disco sentimo-nos injustiçados, porque as vendas foram praticamente boicotadas. O disco não se encontrava nas lojas e sofremos muito com isso. Por outro lado, já estávamos à espera de uma reação, por irmos pegar naquele tema, utilizando a Cruz de Cristo como símbolo principal do grupo e apresentando-nos com uma farda que muitos intitulavam como sendo da Mocidade Portuguesa, embora não fosse. Quando íamos à rádio íamos assim vestidos, andávamos fardados na rua, era uma coisa muito forte. Claro que sofremos muitos insultos, mas é normal, porque a Revolução estava muito próxima e as pessoas ainda estavam a defender com muito cuidado os novos valores democráticos. Não queriam ouvir falar de Descobrimentos nem de nada que tivesse a ver com a temática nacionalista e patriótica, muito utilizada pela ditadura. Conseguimos uma reação imediata, mas [a atitude] boicotou-nos nas lojas e em toda a parte Sul do país. Na altura, o país estava dividido a nível de partidos e ideologias ainda está, mas hoje é muito mais diluído. À época havia aquilo a que chamávamos a Fronteira de Rio Maior, e era uma coisa bastante agressiva. O país estava dividido e ainda há poucos anos tinha havido um perigo de guerra civil. Portanto, era preciso ter cuidado. E nós não tivemos (risos).

RPC: Nós não o fizemos em estilo provocatório, apesar de sermos filhos do disco e do punk, que definiu muito rapidamente o «threshold» do provocatório. Em Inglaterra era muito fácil: a rainha e a cruz suástica, que era de uns gajos que as gerações anteriores tinham estado a lutar o resto do século inteiro! Dois símbolos logo para chocar: a um metemos um alfinete de dama, os outros andamos com aquela porcaria como se fosse uma coisa gira, a ver o que dá. Cá, mais uma vez vivíamos a infância [do movimento]: estávamos muito perto da Revolução, da altura em que se disse que tudo aquilo de sermos navegadores era uma treta, e de repente aparecemos nós, uns miúdos, com essa conversa que as pessoas só conseguiam perceber como cartilha do salazarismo. É provocatório, mas não foi feito com esse intuito!

PAM: Naquela altura, tudo o que preconizávamos veio a acontecer: a cultura sobre a coisa portuguesa, de que era proibido falar; a comida, o vinho, o entretenimento, o cinema português, a imagem de Portugal, a música emPortugal. Concertos de jovens autores? Na altura só havia sumidades, que eram sempre as mesmas, e não havia hipótese para quem não fosse filho de A ou conhecido de B. O turismo em Portugal, a história das aldeias. A relação com o passado colonial, com os PALOPs, a Lusofonia. A música africana em Lisboa. Isso era a nossa guerra, num momento em que a mentalidade dominante era a do internacionalismo sem fronteiras. Embora no 25 de Novembro tivesse ganho o Partido Socialista, parecia que a cultura portuguesa era marxista e a ambição era pertencermos ao Bloco de Leste. Quando falavas do turismo, achavam que era uma coisa capitalista; se falavas da cultura das aldeias, diziam que havia coisas mais interessantes. E era um saco de gatos, em que a nossa geração parecia que não tinha direito a ser músico. A guitarra era um símbolo do imperialismo, a Coca-Cola também, uma guitarra Fender era uma coisa de direita... Foi contra isso que nós, desde os Faíscas, começámos a bradar. Já para não falar que cantar em Português também era estranho. O que nós procurámos, nesta geração, foi: Portugaltem de ser o seu próprio país. As pessoas eram muito desconfiadas, as mulheres não saíam à rua. Nós achávamos que a solução para Portugal era as pessoas perderem o medo de conversar e de se associarem. E quando lutámos para manter o grupo foi para dar o exemplo dessa associação: não éramos da mesma escola; não éramos, ao contrário do que diziam, todos da Avenida de Roma; não éramos irmãos. Éramos amigos e camaradas de trabalho, quando em Portugal parece que não se consegue fazer equipas de nada. Não era bem uma ideologia era mais uma coisa de justiça. E de ambição para o nosso país; queríamos que não fosse um país decalcado de outros, que tivesse a sua originalidade, que se dedicasse ao Atlântico, à sua história, ao Brasil e a África. Nos anos 80 isso parecia um tema reacionário! Aliás, eu tenho a sensação de que ainda hoje, passados trinta anos, o meu nome está associado à ideia de um tipo perigoso, reacionário e apoiado pela direita, o que é falso. Hoje o problema das massas é outro: dantes, quando tinhas uma opinião ficavas marcado e ias preso. Nós não fomos para a prisão, mas fomos empurrados para uma masmorra virtual. Hoje a opinião das pessoas não tem valor nenhum. Todos têm uma opinião e, como são muitas, tornamse irrelevantes.

CMT: A ideologia era muito marcada, também muito importada pela política internacional, mas sobretudo revolucionária e contra-revolucionária. Não havia meiotermo: ou se era pela revolução ou contra a revolução. Hoje em dia há valores muito mais difusos, a economia tem muito mais poder e a ideologia está muito mais diluída, porque há muito mais informação e muito mais meios de comunicação, então cada indivíduo faz um filtro diferente. Depois há a internet, o acesso a tudo o que se passa no mundo inteiro, e as coisas deixaram de ser regionais e locais para passarem a ser universais.

RPC: Hoje somos todos tão blasé... Não vimos tudo, estamos longe de termos visto tudo, mas achamos que vimos. A quase todas as coisas que nos batem na retina, nós dizemos: «ah, OK». Por um lado tens o lado apalhaçado do Psy e do «Gangnam Style», e venha o próximo, até aquilo se tornar em toques de telemóvel em todo o lado... E o Frank Ocean, que foi acusado de revelar que é gay para promover o seu disco, ao que ele respondeu que, no meio do hip-hop e da comunidade negra, essa não é uma forma de promover nada, antes pelo contrário. Acho que já não há armas desse género. Nós vivíamos mesmo noutra época, numa época que já não volta a acontecer. Éramos todos muito mais imaturos, mais naïf, mais abertos a stimulae.

Em 1988, depois de Heróis do Mar, quarto LP editado sem o baterista António José Almeida, substituído em álbum por programações de ritmos. Para a banda entra o baterista Nini Garcia (à dta.)

Em 1988, depois de Heróis do Mar, quarto LP editado sem o baterista António José Almeida, substituído em álbum por programações de ritmos. Para a banda entra o baterista Nini Garcia (à dta.)

Amor, música de vingança

AJA: A polémica gerou revolta mas também nos uniu e deu força. Há uma coisa que não costuma vir ao de cima quando se fala em Heróis do Mar: o sentido de humor que havia na banda. Fazíamos aquilo ao máximo, mas internamente gozávamos connosco, e havia sempre uma necessidade incrível de fazer algo de novo. Fizemos o primeiro álbum, aconteceu tudo o que houve à volta dele, mas a seguir destruímo-lo completamente. Quase numa de vingança. «Querem uma música que seja conhecida no país inteiro? Então vamos fazer uma música de dança». Nós frequentávamos discotecas e não passava uma única banda portuguesa. O «Amor» foi para mim uma música de raiva.

CMT: A base da música é muito simples, e foi essa simplicidade que fez o sucesso. Não é uma música complexa, é uma música que se arrasta, da mesma maneira que hoje a música de dança tem variedade, mas não é variedade de partes de música muito sofisticada é uma base sobre a qual vão aparecendo outras coisas. Nesse aspeto, o «Amor» foi um bocado vanguardista. Conseguimos fazer uma coisa que os DJs adotaram e que se tornou um êxito nacional. Aí matámos um pouco a polémica foi uma lança contra os nossos inimigos, porque de repente a coisa deixou de ser política e passou a ser popular. Éramos uma banda muito popular por causa de um êxito de dança. E então começámos a fazer o circuito das discotecas para além de fazermos os concertos e as festas populares entrámos também a fazer performances na vida noturna de todo o país. Atacávamos em todas as frentes, estávamos omnipresentes. Foi um ano glorioso, o ano da saída do «Amor» [1982], bem como os quatro ou cinco anos que se seguiram. Éramos estrelas de rock. Criámos esse estatuto.

RPC: O «Amor» é uma música feita em vinte e três minutos. Saiu, é espontânea. [Quando a música nasceu] estávamos na nossa sala de ensaios, um buraco negro, em Benfica, ao pé do Estádio Pina Manique um sítio onde agora só passa um pedaço dos acessos às ICs e à CRIL. Era uma sociedade recreativa com uma casota à parte onde os Tantra tinham ensaiado e nós preparámos o nosso primeiro disco e o «Amor». Quando gravámos no Angel, senti que tínhamos ali um grande pedaço musical. Ainda hoje tenho orgulho do «Amor», juro que tenho. É uma música pop muito bem conseguida. Então quando nos propusemos fazer um lado B para o máxisingle é que eu pensei: «estamos mesmo a fazer aquilo que eu acho que as pessoas da nossa geração devem fazer». É daí que vem parte da minha cultura: do fim dos anos 70, da cultura do máxi de dança, do cortar uma música às postas e fazê-la maior, para as pessoas poderem estar mais tempo a dançá-la. Por acreditarmos que aquilo era uma coisa soberba para as pistas de dança, fizemos uma versão ainda maior, para as pessoas poderem ter lugar para meterem a voz delas em cima.

CMT: Nos máxis o som era grande e podíamos trabalhar detalhes, trabalhar o som, fazer arranjos mais ambiciosos e testar novas dinâmicas de arranjos, por isso fizemos tantos máxis: «Alegria», «Paixão», «Amor»... Íamos sempre desenvolvendo, entre os LPs, um máxi. Era esse o nosso formato para cobrir a «nightlife», e depois fazia espelho nas rádios nacionais e dávamos concertos.

PPG: O «Amor» foi uma bênção e uma maldição. Uma bênção porque fomos convidados para ir a Paris à conta dele: o Bryan Ferry ouviu-nos, gostou da banda e, depois de termos tocado com os Roxy Music em Lisboa e no Algarve, convidou-nos para irmos a França, o que foi ótimo. Uma coisa má é que a seguir ao «Amor» há uma pressão da editora [Polygram] e dentro da própria banda para fazer outro êxito. O «Amor» foi o primeiro Disco de Platina português: vendeu 120 mil discos legalmente, e depois havia cassetes em todas as bancas e muita pirataria. Andámos por todo o lado, fomos à televisão, que só tinha dois canais, sete ou oito vezes naquele verão. Mas ao mesmo tempo atou-nos as mãos. Nós vínhamos do primeiro disco, que eu acho fabuloso único na música portuguesa, e muito importante, tendo apresentado muitas ideias novas, com uma linguagem nova, copiada por milhares a seguir. E depois vamos para o «Amor», que embora tenha aberto muitas portas, ao pôr os portugueses a dançar uma música que era deles em vez de ser só Kool and the Gang e Prince, para a banda foi uma maldição, porque pensámos: então e a seguir como é que vamos vender 120 mil discos? E em vez de fazermos o que nos apetecia, seguimos o caminho indicado pelo «Amor». Porque também já estávamos fartos que nos chamassem fascistas. Havia muita pressão de todo o lado, não era só a banda querer mais dinheiro. Éramos odiados por toda a gente. Nunca tocámos numa Festa do Avante, demorámos cinco anos a ir ao Alentejo. Se perguntares a qualquer um dos Heróis do Mar, acho que são todos de esquerda, ou muito mais à esquerda do que à direita, mas a esquerda odiava-nos. O «Amor» [serenou] isso mas ao mesmo tempo limitou o futuro.

RPC: A Polygram podia ter querido que o álbum Mãe fosse um álbum só de amores, mas não nos fizeram pressão nenhuma e deixaram-nos fazer o nosso álbum mais esquisito de sempre. Nós determinámos que tínhamos uma carreira de álbuns e uma carreira de singles: as duas carreiras eram paralelas e não se tocavam! Só em palco, onde todas faziam parte da grande festa que era a festa dos Heróis do Mar.

AJA: Quando fizemos o «Amor» os fãs do primeiro álbum ficaram desapontados. Internamente havia uma vontade tão grande de fazer algo de diferente e de novo que isso acabou por se virar contra nós. Os Heróis não construíram uma carreira. Quase não respeitávamos o público que íamos adquirindo. Os fãs que gostavam do nosso primeiro álbum não perceberam o «Amor» e acharam que aquilo não era Heróis do Mar. Depois fizemos a Mãe e quem gostava do «Amor» ficou em choque. Para já, pusemos o Rui a cantar em falsete: as pessoas ouviam e achavam que era a Né Ladeiras. Internamente, nós próprios autodestruímo-nos. Não tínhamos aquele conceito de construir uma carreira e manter um estilo. Não nos preocupávamos com o que os outros iam pensar só queríamos criar alguma coisa boa e que nos agradasse, sem repetir o «Amor» ou [o primeiro álbum]. Os Heróis do Mar iam ganhando fãs, mas queimando sempre os fãs anteriores. Nunca houve uma corrente de seguidores: apenas uma pequena franja nos acompanhava e percebia o nosso percurso...

PAM: Eu digo que um grupo é uma coisa muito sensível, e eu fui produtor dos discos todos, sei muito bem que fomos fazendo aquilo que juntos fazíamos. Isso é que é uma arte: conseguir manter as pessoas unidas e deixar que a música apareça, sem nos sentirmos traídos. Ainda hoje, quando falamos dos Heróis do Mar, parece que estamos sempre a falar do primeiro álbum, ou quanto muito do primeiro e do segundo, como se o «Amor» e o «Paixão» não fossem nossos. Mas Heróis do Mar é o primeiro álbum, o segundo, o Macau. É dessa liberdade que o grupo pretende ser mensageiro. O Macau é a altura em que o grupo abandona a sua parte principal, que é a uniformidade. O grupo apresentava-se sempre de maneira uniforme, como se fosse a fileira de uma tropa imaginária, uma tropa de valores, o destacamento de um exército, com a roupa igual. Uns quatro anos depois fartámo-nos e quando chegámos ao Macau ninguém queria vestir-se de igual! Então o Paulo e o Rui, que inventavam a roupa, com muitas discussões entre eles, inventaram uma roupa semi-freak, com uns casacos brilhantes e calças de ganga rasgadas, às flores. Sendo igual para todos já era uma roupa tipo Monkees, dos anos 60. Já não era uma roupa de teatro, já era do pop. Tirámos uma fotografia com essa roupa a e partir daí nunca mais ninguém apareceu nos concertos com a mesma roupa, e ainda fizemos mais cinco anos de Heróis do Mar. O «Inventor» já não tem fardas! Essa foi a única mudança do grupo. O Macau é um álbum que, de elemento de ligação, só tem uma ida a Macau, porque as músicas eram criadas e improvisadas em estúdio. Eram o que calhasse! Não creio que o «Amor» represente uma mudança; todas as músicas dos álbuns até ao [mini-LP] O Rapto o que mostram é a prolixidade daquele grupo de músicos. O repertório é versátil porque as inspirações e ideias eram muitas! Teve de se criar uma linguagem de grupo, que nos reúne ali, e criar um «dentro do grupo» e um «fora do grupo», uma fronteira. Se virem as cinquenta canções que gravámos, verão que são todas originais, não há cópias umas das outras.

Pelos caminhos de Portugal

CMT: Quando se ia à televisão no dia seguinte não se podia andar na rua; era inacreditável. A nossa popularidade foi do 0 aos 100. De repente estávamos nas bocas do mundo, pelas melhores e pelas piores razões. E tínhamos um grupo de fãs que nos seguia por todo o país. Em Lisboa tínhamos a fama de trazer consigo as novas tendências estéticas; na província éramos como palhaços do circo. Muitos pensavam que éramos gays, outros que éramos novos românticos. Para ir a Trás-os-Montes tínhamos de partir de véspera: um dia até ao Porto, outro do Porto até lá. Tivemos o choque de perceber a diferença entre as grandes cidades e o resto do país, que era de um estilo ainda medieval. As pessoas andavam descalças, não tinham eletricidade ou água potável. Assistimos ao fim desse Portugal.

PAM: A variedade das nossas músicas também tem a ver com a inspiração que foi viajar em Portugal. Conhecer as aldeias, mas conhecer mesmo. O debate que havia sobre o futuro de Portugal, em Lisboa, tinha uma pecha: toda a gente falava à boca cheia e ninguém conhecia nada! Nós não só fizemos um trabalho inovador para o ambiente de todas as localidades, como as pessoas gostavam genuinamente do Rui e do grupo, que era diferente de todos os outros. Havia mais festas dos que há agora e convidavam da música ligeira ao rock, à música erudita, ao fado. Para nós foi uma grande inspiração. Pensámos muito nos limites do que a banda podia fazer: tínhamos a noção dos palcos em que tocávamos, e os Heróis do Mar são uma linguagem consentida, pensada para ser acessível. Não obstante ser bizarra para a época, ainda tem uma grande dose de pensamento sobre o público.

RPC: O país não tinha uma estrutura para o emergente espetáculo do rock em Portugal. Nós fomos tocar às feirinhas todas, em cima de palcos montados em tratores, com energia precária, pois não havia corrente contínua e tínhamos de tocar às 2 ou 3 da manhã para que algumas pessoas já tivessem ido dormir e já houvesse mais energia e menos flutuações! O Carlos Maria Trindade, em 1986 ou 1987, ainda tinha em problemas com a corrente em Lisboa, não era na província! Eu lembro-me de fazer uma Aula Magna em que um dos roadies estava debaixo do teclado a carregar num botão, para aquilo não estar com flutuações de corrente. Em Lisboa as pessoas sabiam como reagir a um concerto, mas aí eram os teus amigos que iam ver os concertos. Fora de Lisboa e do Porto, cheguei a dar concertos em que as várias filas da frente estavam todas assim [abre a boca]. O concerto todo! Estávamos a anos do isqueiro!

A História nos Absolverá

PPG: Sugeri publicar esse anúncio no [semanário] Se7e [«A História nos Absolverá», após as críticas de fascismo] porque era uma frase do Fidel Castro. Penso que agora as pessoas entendem [a nossa mensagem].

CMT: A História absolveu-nos na Expo'98, em que a temática foi por onde nós já a tínhamos levado: o mar, os descobrimentos, as caravelas, o mundo marítimo, as nossas descobertas tecnológicas de então... Foi o período em que aprendemos mais, entre os séculos XV e XVII, quando estávamos na vanguarda de uma data de requisitos técnicos que nos permitiram chegar onde ninguém chegava. Era um argumento muito parecido com o nosso, o da Expo'98, só que muitos anos depois. Nós devemos aos Heróis do Mar a nossa profissionalização: viver da música, na altura, era uma coisa muito remota. Os nossos pais nunca nos aconselharam a viver da música; toda a gente queria que fôssemos doutores ou engenheiros, uma profissão que desse mais visibilidade à família. Até porque não éramos uma banda da classe operária, éramos da classe média, média baixa; não vínhamos do lúmpen, do proletariado. Deixei o meu emprego, o Pedro também; dedicámonos a 100% àquilo, antes de a banda ser uma fonte de receita. É com orgulho que sobrevivemos a essa grande aventura!

RPC: O meu disco favorito é o [mini-LP] O Rapto, que tem a maluqueira toda que nós éramos em quatro músicas: rock a partir, uma balada, música com batida à Motown... Até a maluqueira dos dentes: demorei uma semana a fazer aqueles colares, porque meti na cabeça que, com aqueles jeans rasgados e correntes, queria ter uns colares com dentes de vaca. Então fui a um matadouro e encomendei todas as queixadas de vaca que me pudessem arranjar, levei-as para casa para cozê-las em água era um cheiro nojento! e tirar-lhes os dentes. E depois foi um dentista meu amigo que fez um buraco neles todos, para fazer os colares.

CMT: Nós não decaímos como pessoas. O grupo sim, foi-se cansando, um cansaço que proveio da nossa não internacionalização, deste ramerrame nacional, e passou a fazer piores espetáculos, a não ter tanto brio nos conceitos. Ainda assim tivemos a coragem de durar dez anos hoje em dia um grupo com dez anos é um grupo veterano.

PPG: Penso que a melhor coisa que fizemos foi o Macau, numa altura em que a banda estava prestes a acabar, como se vê na capa: à frente sou eu, o Tó Zé e o Pedro e atrás, na contracapa, os inimigos, o Rui e o Carlos Maria (risos). Nós os três queríamos ir por um caminho, o Rui e o Carlos Maria queriam ir por outro. O Tó Zé acabou por sair, a seguir ao Macau, e já não entra no quarto disco. O Pedro já estava a fazer o filme e apareceu pouco; estava envolvido com os Madredeus. Depois o Carlos Maria saiu da banda e fiquei só eu com o Tó Zé e o Rui. Ainda sugeri o Tó Pereira para a banda em vez de termos uma bateria teríamos um DJ [Vibe] mas o Pedro não gostou e uma semana depois disseramnos que ele tinha desistido dos Heróis do Mar.

AJA: No outro dia falei com o Tó Cunha, nosso manager na altura, e ele perguntou-me: «lembras-te do último concerto? Vieste ter comigo e disseste "eu não toco mais com estes gajos" e nunca mais apareceste». Não me lembro, mas tinha chegado ao fim.

RPC: Há pessoas que nos perguntam porque é que acabámos e eu respondo: «porque gostávamos muito uns dos outros e aquilo que nos unia, que era sermos tão diferentes e trabalharmos para um fim comum, ao fim de nove anos [perde a força]». Antes que desatássemos todos ao estalo e andássemos sem pica nenhuma, foi cada um à sua vida.

PAM: Dei-me pior com o grupo quando ele deixou de ter a disciplina de grupo de teatro e começou a achar que os temas podiam ser díspares, que é o que vemos no último disco: tem a vulgaridade de qualquer disco. Qualquer grupo faz um disco ou umas canções, o que é difícil é fazer uma obra ligada. À medida que deixámos de discutir o conceito e encenar o espetáculo, tive mais trabalho em encontrar uma certa harmonia na escrita das letras. Mas eu tinha a noção de que era o desfecho inevitável de um grupo. Os grupos não são eternos isso também é importante.

Texto: Lia Pereira

Originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2013

  • Heróis do Mar: uma lenda por contar

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    O futuro da música pop portuguesa começou há 35 anos quando os Heróis do Mar editaram o seu primeiro álbum e apareceram com a força de um conceito global. Recuperamos aqui um artigo sobre o início do grupo de Rui Pregal da Cunha, publicado em 2006