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Pink Floyd

Pink Floyd. 50 Anos a ver estrelas

A 11 de novembro próximo chega às lojas The Early Years 1965 – 1972, caixa de luxo com mais de 20 canções nunca editadas e sete horas de gravações ao vivo. Regresse aqui às origens da banda inglesa

No inverno passado, David Gilmour e Nick Mason apresentaram The Endless River como um sentido adeus a Rick Wright, mas também como um derradeiro ponto final na longa história dos Pink Floyd, história essa que se arredonda agora com a chegada do 50º aniversário do nascimento da banda. Este jubileu assenta numa espécie de sinfonia em três movimentos: ao contrário de tantas outras bandas que não foram capazes de sobreviver à perda de líderes carismáticos ou que por causa dessas perdas se tornaram em sombras do seu próprio passado, os Pink Floyd conseguiram afirmar-se como o grupo de Syd Barrett num primeiro momento, evoluir para a banda de Roger Waters numa segunda fase e terminar este longo percurso com David Gilmour ao leme. Sem nunca perderem os favores do público. E isso é obra.

É na primeira metade da década de 60, na agitada cena londrina dominada então pela ideia que os Beatles tinham ajudado a impor, que os Pink Floyd surgem. Antes da cristalização do quarteto original com Roger Waters e Nick Mason a darem o pontapé de saída inicial a uma história que haveria depois de passar por Richard Wright e, um pouco mais tarde, Syd Barrett, circularam por estas formações com nomes como Sigma 6 ou Meggadeaths e Abdabs vários outros músicos ecoando uma vibração própria de uma geração que começava então a erguer uma cultura distinta era um momento em que a música servia para afirmar uma identidade juvenil com que até aí a sociedade nunca tinha lidado.

Bob Klose foi o último músico a abandonar a banda que na época respondia ao nome de Tea Set, deixando espaço para Syd Barrett assumir a dianteira ao tomar o lugar de guitarrista principal. Estava-se no segundo semestre de 1965 e o grupo começou a usar o nome The Pink Floyd Sound que traía ainda o interesse do coletivo pelo som mais arcaico dos blues ao referenciar os músicos americanos Pink Anderson e Floyd Council.

«Os Pink Floyd», recorda o produtor Joe Boyd nas páginas do seu retrato histórico dos anos 60 White Bicycles, «tinham começado por ser uma banda de blues, mas depois de lhes ter sido pedido um score experimental por um realizador e depois de Syd Barrett ter começado a experimentar drogas psicadélicas a música deles começou a seguir caminhos mais originais». De facto, as necessidades de fazerem render o parco reportório ainda disponível levaram o grupo comandado por Barrett a expandir os temas com solos longos.

Por outro lado, os efeitos do LSD e o público presente nos eventos programados por Peter Jenner, uma das principais figuras do underground londrino que assumiu funções de management da banda logo em 1966, ajudaram osPink Floyd a investir noutro tipo de possibilidades, levando o grupo a afastarse de modelo mais «stoniano» do R&B.

Com uma fórmula distinta nas mãos, os Pink Floyd conseguiram assegurar um contrato com a EMI após Joe Boyd e o agente Bryan Morrison terem financiado as primeiras gravações do grupo que dariam origem ao single de estreia que continha os temas «Arnold Layne» e «Candy and a Currant Bun». Lançado em março de 1967, «Arnold Layne» surgia nas rádios britânicas quase um mês depois de «Strawberry Fields Forever», dos Beatles, grupo que em junho desse mesmo ano haveria de editar o ópus Sgt Peppers..., impondo dessa maneira o tom psicadélico que haveria de dominar o ano. Como explicado por Joe Boyd, parte da distinta orientação psicadélica que Syd Barrett conseguiu imprimir ao seu grupo nesses primeiros tempos era o resultado de uma crescente utilização de drogas psicadélicas, mas a fatura que o músico teve que pagar foi pesada.

The Piper at the Gates of Dawn, álbum de estreia dos Pink Floyd dominado por material escrito por Barrett, foi lançado em agosto de 1967 conseguindo entusiasmadas reações da imprensa: o Record Mirror, por exemplo, sublinhou «a abundância de sons espantosos», vincando a ideia de que os Pink Floyd procuravam, de facto, desbravar novos territórios. Algures nesse labirinto de ideias e realidades alternativas, porém, perdeu-se o cérebro de Syd Barrett. O músico que servia de motor criativo ao grupo revelou sérios problemas em palco e em aparições televisivas, conduzindo mesmo a alguns sérios embaraços durante a primeira digressão americana dos Pink Floyd. Em dezembro desse mesmo ano de 1967, o grupo acolheu no seu seio o guitarrista David Gilmour, amigo de Barrett dos tempos de estudo em Cambridge. O segundo álbum dos Pink Floyd, lançado em junho de 1968, A Saucerful of Secrets, incluiu ainda algumas contribuições de Barrett, mas marcou o arranque de uma nova fase com Gilmour presente em cinco dos sete temas do álbum.

A década de 60 ainda testemunhou a edição de mais dois trabalhos dos Pink Floyd, More e Ummagumma, ambos lançados em 1969, com Gilmour a assumir as despesas vocais e Waters a revelar-se a principal força criativa e conceptual do grupo. O arranque dos anos 70 foi proveitoso para os Pink Floyd que conseguiram a proeza de explorar material crescentemente experimental em discos como Atom Heart Mother (1970), Meddle (1971) ou Obscured By Clouds (1972), mas, ao mesmo tempo, expandir o seu público graças a uma agenda carregada de concertos onde o grupo era capaz de mostrar o que era capaz de fazer com o material criado em estúdio.

The Dark Side of The Moon (1973) e Wish You Were Here (1975) encontram-se entre as mais reverenciadas criações dos Pink Floyd e são dois trabalhos onde o quarteto parece finalmente ter encontrado a sua verdadeira identidade: do estúdio para as explorações de palco, onde o material criado tinha finalmente a oportunidade de ser testado sem a rede criada pelos produtores e engenheiros de som, e daí de volta para o estúdio onde uma crescente sede de experimentação não lhes toldou a capacidade de criarem clássicos capazes de garantir favores da rádio e aplausos do público. De «Money» a «Shine on You Crazy Diamond».

O passado arrumado

Em 1977, quando o punk estalava o verniz da cena musical britânica, os Pink Floyd editaram Animals, o álbum com a icónica capa da central elétrica de Battersea, disco que não podia apontar para uma direção musical mais afastada daquela perseguida por Johnny Rotten e pelo restante contingente punk. Talvez ecoando as tensões que marcavam a sociedade britânica da época, o próprio grupo começava a ter que lidar com problemas internos: primeiro foi o teclista Rick Wright que viu The Wall, lançado mesmo à saída dos anos 70, em novembro de 1979, traduzido no seu cartão de saída do grupo, e depois foi David Gilmour que teve que lidar com conflitos de ego com Roger Waters que marcaram o ambiente geral de The Final Cut, lançado em 1983.

Roger Waters abandonou os Pink Floyd em 1985, mas tentou levar consigo o nome e o futuro do grupo ao embarcar numa série de batalhas judiciais. David Gilmour, no entanto, assumiu a liderança da banda e em 1987 editou A Momentary Lapse of Reason, já com contribuição de Rick Wright, entretanto regressado ao seio dos Pink Floyd embora, inicialmente, e em termos legais, apenas como músico contratado. A «era Gilmour» ainda rendeu The Division Bell, álbum lançado em 1994. Apesar da continua resistência de Waters, que ameaçou processar promotores de concertos que se envolvessem em digressões dos Pink Floyd, a verdade é que a tour com que o trio remanescente apoiou a edição de The Division Bell se tornou na época a mais bem sucedida financeiramente da história da música popular. Seria igualmente, o último trabalho criado pelo trio, já que em 2008 Richard Wright faleceu, dois anos pós o desaparecimento de Syd Barrett, há muito afastado das lides musicais. The Endless River funcionou assim como uma homenagem póstuma, com David Gilmour e Nick Mason a aproveitarem sobras de estúdio da era de The Division Bell e dessa forma encenarem um último adeus ao teclista e provavelmente até ao grupo. A operação de reedições Why Pink Floyd..?, onde se integrou a caixa retrospetiva Discovery, teve aliás o sabor de um ponto final na carreira da banda.

Rattle That Lock é o título do novo trabalho de David Gilmour, agendado para 18 de setembro. O músico irá regressar à estrada com um trabalho que descreve como a sua melhor criação «provavelmente desde sempre», sinal claro de que pretende apenas olhar para o futuro e não para o passado. Já Roger Waters, que recentemente pisou o palco do histórico Newport Folk Festival, prepara-se para a apresentação mundial de Roger Waters The Wall, documento que retrata a ultra bem sucedida digressão do músico. No Facebook, Waters já anunciou que a estreia do filme será seguida de uma conversa com Nick Mason. Poderá o passado resolver-se? David Gilmour, terminantemente, decreta o fim do grupo. Mas 50 anos de história ninguém lhes tira...

Texto: Rui Miguel Abreu

Originalmente publicado na BLITZ de setembro de 2015