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Coimbra tem mais encanto na hora do rock and roll

Terreno fértil para bandas de rock, Coimbra tem uma história que começa nos M'as Foice e Tédio Boys e que desemboca no presente, em que bandas como D3O e músicos como The Legendary Tigerman continuam a manter-se ligados à corrente. Traçamos a genealogia de uma cena (quase sempre) à parte

A declaração de Detroit como uma «rock city» pelos Kiss em 1976 tinha o seu quê de resistência: a cidade que serviu de quartel-general a lendas como os Stooges, os MC5 ou Alice Cooper era igualmente a casa da Motown e o berço de uma forte tradição soul que deu à América nomes como Michael Jackson ou Stevie Wonder.

Coimbra tem também feito muito para assumir uma particular vocação rock'n'roll, apesar de essa afirmação precisar sempre de ir contra a corrente dominante que a instaurou no imaginário coletivo de todo um país como «a cidade dos estudantes» e de uma corrente particular de fado. Rita Alcaire, antropóloga e autora do livro Filhos do Tédio que toma o caso específico dos Tédio Boys para questionar os rótulos tradicionalmente colados a Coimbra, mencionou mesmo num trabalho de Bruno Simões, dos Slowriders de Sean Riley, para a revista online Preguiça que esse erguer de uma certa bandeira rock se ficou a dever «a uma certa reatividade aos habituais epítetos». Reagir, de resto, tem sido um dos grandes motores do rock'n'roll ao longo da sua história.

João Gonçalves, mais conhecido como Nito músico dos D3O com um muito relevante currículo histórico que o liga a bandas como os Extrema Unção, M'as Foice e Tédio Boys tem o cuidado de referenciar os Babies, a mítica banda de que José Cid fez parte em finais dos anos 1950 e que será o princípio do novelo rock do nosso país, quando se procura identificar uma «origem» para a atual cena rock de Coimbra, fértil em nomes como Tédio Boys, D3O, Legendary Tigerman ou Subway Riders para começar por listar nomes que têm registado algum tipo de atividade recente (no caso dos Tédio Boys tudo indica que poderá estar para breve a edição do documentário nascido do já citado livro Filhos do Tédio) ou ainda Bunnyranch, Wraygunn, Belle Chase Hotel ou Parkinsons, como outros exemplos de uma linha avançada de uma cena singular. Mas é nos míticos M'as Foice que se deve começar por procurar, em finais dos anos 1980, a raiz mais direta desta Coimbra moderna.

MATERNIDADE DE BANDAS

Nito, atualmente a tocar bateria nos D3O, descreve a Coimbra da década de 80 do século XX como «uma maternidade de bandas»: «havia muita criatividade no ar e vontade de fazer coisas ainda que com poucos recursos e muito afastamento dos centros de decisão». Nito fez parte dos Extrema Unção, pioneira banda local que logrou ultrapassar as margens do Mondego para ser incluída no alinhamento de Divergências, a compilação de 1986 da Ama Romanta (que funcionou como um fiel retrato da cena da Moderna Música Portuguesa ao incluir trabalho de gente como os Mler Ife Dada, Jovem Guarda, Bastardos do Cardeal, Pop Dell'Arte, Linha Geral, Essa Entente ou Croix Sainte). Nos Extrema Unção surgiu, além de Nito, o músico João Batista, que haveria de fazer parte mais tarde dos Belle Chase Hotel.

Em paralelo, um outro grupo serviu para «formar» recursos humanos para o futuro de Coimbra: nos Tom Tom Macoute surgiu, por exemplo, Sérgio Cardoso, músico que atualmente toca com Wraygunn, mas cujo percurso o liga a bandas como os Foragidos da Placenta, M'As Foice e Tédio Boys. Tal como Sérgio Cardoso, Nito haveria ainda de fazer barulho nos M'as Foice, grupo que unanimemente é apontado como o mais vigoroso «princípio» desta história.

Nos M'as Foice, ao lado de Nito e Sérgio Cardoso, apresentavam-se ainda Toni Fortuna (vocalista dos Tédio Boys e de d3O), 55 Alex Magno (que fez parte dos Lordose ao lado de Antoine Pimentel que fundou os Belle Chase Hotel), Miguel Falcão (dos Caffeine e Azembla's Quartet), João Paulo Camilo (Primus Inter Pares) e Cristina Sousa (que fundaria as Voodoo Dolls). Nuno Ávila, há muitos anos coautor com Fausto Silva de Santos da Casa, programa de referência para a música nacional emitido pela Rádio Universidade de Coimbra (RUC), refere-se aos M'as Foice como «a primeira banda a ter visibilidade fora da cidade».

Miguel Cunha, nas páginas do então semanário BLITZ, escrevia em finais de 1989 sobre a banda de «Coca Cola Billy»: «Os M'as Foice são atualmente um dos projetos mais interessantes que existem neste país e provam que imaginação e técnica são coisas que não lhes faltam. Fazem-nos sentir orgulhosos da música feita em Portugal. Quem ainda não os viu ao vivo, perdeu uma boa dose de humor, de saber estar em palco, de saber como se faz um bom espetáculo».

O baixista dos Wraygunn, Sérgio Cardoso, refere que a conquista do primeiro lugar de um Concurso de Música Moderna de Coimbra, em 1987, a participação em idêntico evento do Rock Rendez Vous em Lisboa e a inclusão numa compilação lançada pela bracarense Área Total, marcou o arranque do percurso dos M'as Foice: «independentemente de ser ou não uma excelente banda, uma coisa não lhe pode ser negada: abriu e/ou fez abrir o caminho para outras bandas de Coimbra e mostrar que poderia ser possível o sucesso mesmo não estando centralizado na capital de Portugal», sublinha o músico.

Tédio Boys

Tédio Boys

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DO TÉDIO COM AMOR

«No início dos anos 1990 há uma outra banda que se destaca pela criatividade, persistência e procura de novos horizontes», explica Sérgio Cardoso. «São os Tédio Boys. Finalmente surgia uma banda que iria incendiar a cidade e deixar sementes para os próximos 20 anos». O músico não tem dúvidas em localizar na fase de transição da década de 1980 para a de 90 do século passado o período crucial para a história moderna de Coimbra: «considero esta fase como o laboratório de testes para o desenvolvimento, proliferação e amadurecimento da música feita em Coimbra. É nesta época que as bandas procuravam identidades próprias, descobriam e aperfeiçoavam a componente técnica, partilhavam saberes e troca de músicos, apercebiam-se do funcionamento e lóbis do mercado nacional de música, descobriam formas de organizar concertos, inventavam formas de se autopromoverem. Eram como que putos a darem os seus primeiros passos».

Rui Ferreira, homem do leme da conimbricense Lux Records e veterana presença nas grelhas de programas da RUC, recorda bem o atribulado arranque da carreira de palco dos Tédio Boys: «quando surgiram os Tédio Boys, passei a ser fã imediatamente. As três primeiras tentativas que fiz para os ver ao vivo saíram sempre goradas porque eles nunca ultrapassaram a primeira música», recorda o editor. «Primeiro em plena Rua da Sofia: tinha acabado de assistir a um tema e o concerto foi interrompido pela polícia.

Depois no Pavilhão da Palmeira: a banda que fez a 1ª parte tocou sem qualquer problema, mas os Tédio Boys entraram em palco muito perto da meia-noite e a polícia acabou com o concerto. Finalmente, num festival na Figueira da Foz, onde no cartaz constavam Siouxsie & The Banshees, Blur, Braindead (do futuro Da Weasel, João Nobre) e Tédio Boys. Depois dos Banshees, os Blur demoraram uma eternidade nos ensaios de som e a organização acabou por suspender as atuações das bandas portuguesas. Os Tédio Boys não estiveram pelos ajustes, forçaram a entrada em palco e ainda tocaram um tema. Foi até lhes cortarem o som. Só à quarta tentativa é que vi um concerto até ao fim, no saudoso States».

Além dos já experimentados Toni Fortuna e Sérgio Cardoso que vinham dos M'as Foice, os Tédio Boys contavam ainda com os préstimos de Kaló (que haveria ainda de acrescentar ao seu currículo trabalho em bandas como os 77, Wraygunn, Bunnyranch, Tiguana Bibles e Parkinsons), Victor Torpedo (77, Parkinsons, Blood Safari, Tiguana Bibles, Subway Riders) e ainda Paulo Furtado. O futuro líder dos Wraygunn e da «one man band» Legendary Tigerman recorda os seus tímidos primeiros passos: «fiquei, por exemplo, em último lugar num concurso da RUC em que me aventurei em finais dos anos 1980 com uma música com o curioso título de "Industrialítica de Neandertal". Os Tédio apareceram depois no meu quarto ou talvez no do Victor, que era quem tinha a melhor coleção de discos. Foi a ouvir música que banda nasceu».

Uma cassete «lançada» em 1992 transformou-se, dois anos mais tarde, no álbum de estreia, Porkabilly Psychosis, lançado pela editora Numérica. Outer Space Shit e Bad Trip, de 1996 e 1998, respetivamente, são já lançamentos da norte-americana Elevator Music, editora de Fernando Pinto que esteve na base das duas digressões que os Tédio Boys fizeram pelas terras do Tio Sam.

«Os concertos dos Tédio Boys», explica Rui Ferreira, «eram de uma intensidade avassaladora, e a banda foi criando um culto notável para quem não tinha "airplay" nas rádios. O facto de terem editado dois álbuns nos Estados Unidos e de terem por lá realizado três digressões (a última de quase três meses) também despertou o interesse em torno da banda».

Toni Fortuna não tem plena certeza de que exista algum mito em torno dos Tédio Boys, mas confirma que a entrega de todos à ideia do grupo era «intensa»: «não era propriamente uma questão de imagem, era uma maneira de viver. As pessoas que viveram esse período, que participaram, que foram a concertos, que se juntaram à festa, que viram a banda crescer e passar temporadas fora do país, dificilmente se esquecem. Eu acho que os Tédio Boys», prossegue o músico, «fizeram muita gente perceber que era possível um grupo de amigos acreditarem no que fazem, arriscarem e de repente estarem a conhecer os ídolos de juventude e a tocarem em sítios que só tinham visto nos livros e revistas». As memórias de Paulo Furtado vão pelo mesmo sentido: «olho para trás sem nenhuma saudade, mas com muito orgulho. Profundo amor pela música. Era o que sentíamos».

«Depois da última digressão pelos Estados Unidos, os Tédio Boys tiveram que optar entre mudarem-se de vez para os Estados Unidos ou continuarem a carreira em Portugal», explica Rui Ferreira. «Nem todos queriam emigrar e fez-se uma última tentativa para sobreviver por cá. Infelizmente, nenhuma editora portuguesa avançou para o licenciamento do Pussynest e a Lux Records não tinha 10 mil dólares para pagar à Elevator. Sem disco novo editado, acentuaram-se as lutas de egos entre os elementos da banda e o fim foi inevitável».

Para Toni Fortuna, os Tédio Boys até tiveram uma carreira mais longa do que «muita gente esperava»: «mas o facto de tocarmos todos os dias num mês nos Estados Unidos e chegando a Portugal tocarmos apenas uma vez por mês faria qualquer pessoa pensar sobre o assunto, houve muita gente que não queria trabalhar com a banda, porque achava que só fazíamos "porcaria" e não se sabia o que podia acontecer... Em Portugal, os Tédio Boys nunca foram levados muito a sério».

Legendary Tigerman

Legendary Tigerman

Pedro Medeiros

CAPITAL DO QUÊ?

A maioria dos nossos interlocutores resiste à ideia de Coimbra ser uma cidade «diferente». Rui Ferreira clarifica que não há nada de especial na água do Mondego: «não acho que seja assim tão distinta em termos estéticos de outras cidades. O rock é uma linguagem universal e as bandas que surgiram em Coimbra poderiam ter surgido noutro qualquer local do planeta. Nos anos 1990, a cidade foi musicalmente conotada com a estética rockabilly e psychobilly graças a bandas como os Tédio Boys, Garbage Catz e Ruby Ann & The Boppin' Boozers. Os Cramps foram uma influência marcante no som das bandas de Coimbra da altura. Mas quem acompanhou o percurso dos Tédio Boys sabe que eles progressivamente se foram afastando do rockabilly/psychobilly, e por isso foi sem surpresa que nenhum dos projetos posteriores enveredou por esses caminhos».

Bruno Simões alinha pela mesma batuta: «não considero a "cena rock" de Coimbra distinta da de outras cidades. Cada cidade teve sempre imensas bandas a fazerem rock: Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Barcelos. todas elas tiveram punk, hardcore, billy, gothic, noise, indie.... Todas as cidades de Portugal eram aborrecidas, com jovens que queriam ser diferentes, ter uma identidade própria, expressar a sua vontade de ser diferente, da rutura através da música. A nível estético», concede no entanto, «talvez tenha de referir a pequena dimensão da cidade e uma união talvez sem igual das pessoas que faziam música e dos que eram apaixonados pela liberdade desta diferença e o facto de muito do que era feito nos anos 90 gravitar em redor do Tédio Boys.

Mais ainda, o facto de que quase todas as bandas mediáticas surgirem da rutura dos Tédio Boys. Se existe alguma coisa a distinguir na "cena musical" rock de Coimbra é precisamente isto: a dissolução dos Tédio-Boys, esse grupo pequeno de pessoas, consegue fazer com que o então jornal BLITZ crie o rótulo de "Coimbra, Capital do Rock". Wraygunn, Bunnyranch, D3O, The Parkinsons, tudo ex-Tédio Boys, todos projetos de enorme valor. Juntamos os Belle Chase Hotel (que pouco têm de rock) e temos o circo da "cena rock" de Coimbra montada», opina o músico.

De facto, quando questionados, os nossos interlocutores como Carlos Dias, o dinamizador dos recentemente reativados Subway Riders apontam o dedo a bandas como os Parkinsons, Belle Chase Hotel, D3O ou Legendary Tigerman como exemplos máximos da energia e criatividade de uma cidade que apesar de recusar um rótulo específico nunca deixou de lhe fazer justiça. E para isso valeram espaços como a Cave das Químicas (onde Rui Ferreira afirma ter visto o seu primeiro concerto de Xutos & Pontapés), o Centro dos Trabalhadores de Chelas, importante viveiro punk, a discoteca States (onde aconteceu um mítico concerto de Tédio Boys e Southern Culture On The Skids), o Le Son (que teve Paulo Furtado como programador) ou o Teatro Académico Gil Vicente (onde tocaram bandas como Belle Chase Hotel, António Olaio & João Taborda, Wraygunn, Azembla's Quartet, Sean Riley & The Slowriders ou Tiguana Bibles). Mas Carlos Dias refere ainda a importância do café Moçambique, na Praça da República, «o principal ponto de encontro». «Coimbra», completa Toni Fortuna, «nunca teve muitas salas para tocar que fossem para esse efeito, e por isso sempre se teve de improvisar e "arranjar" espaços onde se pudesse fazer concertos».

COIMBRA HOJE

Inevitavelmente, houve bandas e músicos que tiveram que procurar outras bases para as suas carreiras, casos dos Wraygunn, Sean Riley & The Slowriders, Legendary Tigerman ou JP Simões. Ainda assim, como Rui Ferreira faz questão de frisar, «ainda há talentos que não deixaram Coimbra»: os D3O, que estão em fase de apresentação de um novo álbum, os recém-reunidos Parkinsons ou os Subway Riders mantêm-se ao centro. E depois, diz Rui Ferreira que Paulo Furtado descreve como um «incrível caçador de talentos» «há novos grupos em ascensão: «A Jigsaw, Birds Are Indie, New Kind Of Mambo e os promissores Flying Cages». Carlos Dias acrescenta à lista nomes como The Walks, Fitacola, The Amazing Flying Pony ou A Velha Mecânica. Já Sérgio Cardoso adota uma postura mais cética: «sinto que a cidade continua a mesma e com os mesmos problemas de sempre: só há um ou dois espaços para concertos, sem grandes condições e com aquela ideia preconcebida de que se está a fazer um favor às bandas. Não acredito», remata o músico, «que aqui o Rock se tenha desmobilizado mas não vejo surgir tantas bandas como nos finais de 80. E algumas das que surgem ainda estão agarradas a essa altura (os mesmos intervenientes). Por outro lado, as bandas que surgem na atualidade, transpiram maior profissionalização».

E, afinal de contas, Coimbra continua ou não a merecer o título de «capital do rock»? Rui Ferreira não acredita que tal estatuto corresponda à realidade, mas não reconhece incómodo por isso: «inquieta-me antes que as pessoas com responsabilidades na cidade continuem a ignorar músicos e artistas que têm elevado o nome da cidade no país e no mundo. Nem o Festival de Blues resistiu...». Nuno Ávila acredita que por Coimbra se continua a fazer «bom rock», «mas agora temos por aqui bandas para agradar a um público muito mais diversificado».

«Esta cidade não dá nada a ninguém», desabafa Nito, «e vive à sombra da Universidade e dos seus Hospitais e serviços. A ideia que eu tenho das pessoas que ficaram cá e tentaram pôr o panorama musical a funcionar é a melhor de todas... pelo menos tentamos». Para o homem forte dos Subway Riders, nome irónico numa cidade sem Metro, há algo de inexplicável em Coimbra: «esta cidade tem algo, é verdade; não sei bem o que, mas é bom». «Eu ainda gosto da cidade», confessa Toni Fortuna, «mesmo não me tendo dado nada, continuo a encontrar beleza em vários sítios e isso basta-me. Por agora».

Texto: Rui Miguel Abreu

Originalmente publicado na BLITZ de outubro de 2013

  • A história do punk “made in Portugal”

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    Primeiro foi um disco pirata de António Sérgio. Vieram depois os Faíscas e os Aqui d’el Rock. Por cá, mas também lá fora, um jovem Zé Pedro tomava notas sobre aquela que viria a ser a influência primordial dos Xutos & Pontapés. Traçamos o percurso do punk português, passando pela “resistência” dos anos 80, com Mata Ratos, Crise Total e Ku de Judas, a “tradição coimbrã” dos anos 90, com os Tédio Boys (na foto), e a vaga hardcore dos X-Acto.