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Thom Yorke cravou moedas, Marilyn Manson espezinhou queijos: estes e outros encontros imediatos em Portugal

Estivemos lá, vimos tudo, e não guardámos estas e outras histórias portuguesas só para nós

Thom Yorke
O CRAVA
Hotel em Lisboa, 1993

Então a gozarem de enorme popularidade em Portugal, os James apresentavam-se ao vivo em Lisboa, no Pavilhão do Restelo. Era um dos mais aguardados concertos da temporada e com a banda britânica vinham os Radiohead, a quem cabia preencher a primeira parte. Popularizados pelo tema «Creep», Thom Yorke e companheiros vieram ganhar mil libras, mas a banda dizia estar prestes a separar-se e foi desse modo, em separado, que abordaram a imprensa e não só. Num hotel de Lisboa, já no final do encontro, e em amena cavaqueira com o baixista Colin Greenwood, eis quando senão surge Thom Yorke, tão estrábico quanto extrovertido, e logo se introduz na conversa. «Olá, sou o Thom Yorke, e tu és jornalista, certo? Pois, só pode. E então, gostas da nossa música? O que é que esse gajo [o baixista] te disse? Cuidado, não acredites em tudo», lançou de rajada à laia de apresentação. Após alguns minutos à conversa, agora a três, Thom Yorke mete as mãos aos bolsos e começa a procurar algo. De repente atira: «só tenho dinheiro inglês. Por acaso não tens aí umas moedas portuguesas para eu telefonar, não?».

David Coverdale
O «MISTURAS»
Cascais, 1994

Uma das mais carismáticas figuras do hard rock, David Coverdale vocalista dos Whitesnake deve parte do seu êxito a Portugal. Surpreendidos? Poucas horas antes do último concerto da banda no Dramático de Cascais, a 13 de julho de 1994, o vocalista confessou-o num encontro prazeroso numa varanda sobre a praia. À porta do hotel, curiosamente, amontoavam-se uma série de jovens nervosas em jeito de procissão. Mas não era pelo elegante Coverdale, que conservava a longa juba loura, que elas ali estavam. Não, o que queriam mesmo era outra estrela do rock, Bryan Adams, que por ali estava também por acaso os dois músicos cruzaram-se no hotel, trocaram apertos de mão e cada um seguiu o seu destino. Coverdale sentou-se à mesa e pousou um copo com o que parecia ser vinho branco. No decurso da conversa despachou mais uns quantos copos, sempre com ar de quem estava a beber a última gasosa do deserto. Até que, simpático, perguntou se queria tomar um também. E o que é isso? Resposta pronta de Coverdale. «É uma das melhores bebidas do Mundo. Vinho do Porto branco com 7Up. Sou capaz de beber isto o dia inteiro e em minha casa é o que faço para os amigos. Vocês não sabem o quão bom isto é, especialmente no verão, claro». Depois, a confissão. «Para dizer a verdade, se não fosse o Porto/7Up talvez não existisse o Saints and Sinners [álbum de 1982 em que se inclui o êxito «Here I Go Again»], mas nessa altura era mais Porto do que 7Up», sorriu. «Escrevi muito desse álbum em Portugal e muitas das letras foram com certeza influenciadas por isto», soltou, erguendo o copo num brinde. Tchim tchim!

Robert Plant
O MÍSTICO
Vilar de Mouros (2000), Lisboa (2002)

É uma das mais carismáticas personagens do rock'n'roll, um dos melhores vocalistas de sempre e das duas vezes que nos cruzámos ressaltou a ideia de um homem pacato, sensato, dado à conversa franca e com um especial apetite por ambientes perfumados de incenso e chá. ou melhor, taninos, esses mesmos que também há no vinho. Na primeira vez que se apresentou ao vivo em Portugal, em Vilar de Mouros, fica a lembrança de um cavalheiro, tentando ser cordial e fazendo por aprender algumas expressões em português: «duas são inevitáveis: "boa noite e obrigado"», explicou. Rui Veloso, que atuou na mesma noite, estava deleitado. Dois anos depois, em Lisboa, Plant voltou a mostrar-se um gentleman. Num quarto de hotel como qualquer outro o ambiente impôs-se de imediato aos sentidos, dominados por um lusco-fusco âmbar e no ar um odor ao incenso que usara no concerto da véspera. Foi o fumo de partida. Que perfume era aquele? Plant não se fez rogado: «Gostas? É "Nag Champa", da Índia. Há vários, mas há um muito bom», diz, ao mesmo tempo que escreve o nome numa das várias folhas que sobre uma pequena e quase rasa mesa. A gozar um dia livre depois de dois concertos em Lisboa e na véspera de um terceiro, no Porto, Plant aproveita para sondar. «Como é o Porto? Ouvi dizer que é especial, que são mais adeptos de blues. Não sei se hei de trocar o «Hey Joe» [versão de Jimi Hendrix] por algo mais... blues. Que achas?». Bom... que dizer? Sim, esteja à vontade que todos adoramos blues, toque lá o que tocar. A conversa dispersase, vem à baila o seu apetite por discos antigos, vício de sempre que alimentava numa pequena loja do local onde cresceu, na mesma rua de um pub onde amigos tocavam músicas também elas antigas. A banda que levara, dois anos antes, a Vilar de Mouros era precisamente um desses «combos». Entre conversas, Plant levanta-se da cadeira e vai buscar chá, que faz questão de servir. E é então que confessa que o chá é a melhor bebida do mundo («no sugar»), que os há para todas as situações e que é o melhor substituto do vinho. Sim, que os tempos de loucura já lá vão, mas até porque o chá contém taninos, o mesmo que confere corpo aos vinhos. O que é preciso é descobrir a personalidade de cada um. Tal como num vinho, mas sem a consequente embriaguez. E brindámos então ao chá!

Sammy Hagar
O GENEROSO
Antigo Estádio José Alvalade, Lisboa, 1995

Estreantes em Portugal atuavam num festival que tinha como nome principal os Bon Jovi e em cujo cartaz também se encontravam os Suicidal Tendencies os Van Halen traziam à data Sammy Hagar como «frontman», que apesar de alguns anos ao leme da banda teimava em descolar a incómoda sensação de ser o substituto do carismático David Lee Roth. Só assim se entende que durante o encontro, nos camarins do antigo estádio de Alvalade, o afável Sammy Hagar não tenha poupado David Lee Roth, acusando-o de ser um irresponsável, que sempre se esteve borrifando para os fãs, que não aparecia nos compromissos da banda, por aí adiante. Foi um desfilar de críticas, ao mesmo tempo que enaltecia os seus méritos nos Van Halen. «Nunca os Van Halen venderam tanto como comigo. O 5150 (de 1986) foi seis vezes platina», reclamou. E vai mais uma cerveja para ambos. Mais adiante, e depois de ter mostrado saber algo de Portugal, do mar e dos descobrimentos, Sammy Hagar apresenta a namorada/noiva, loira alta e escultural. «Ela é tão bonita, não é? Sou um homem de sorte. Estou completamente apaixonado». Na verdade, menos de seis meses depois, e após um primeiro casamento de 26 anos, Sammy Hagar casou com Kari Karte e ainda hoje estão juntos. Verdade também, que após esta digressão, Sammy deixou os Van Halen. «Hey, Kari, vem cá. E traz mais duas cervejas, por favor». O encontro prolongou-se para além do habitual e foi profusamente regado a cerveja: acabou a americana e chegou a portuguesa. Sempre afável, muitíssimo bem-disposto e já sem dispensar a companhia da noiva, Sammy Hagar resolveu apresentar o resto da banda ao vosso repórter. E passa à sala ao lado, onde estavam Eddie Van Halen, ensaiando numa Stratocaster, e a restante banda. Apresentações e cumprimentos da praxe e eis senão quando Sammy dispara: «tu que és de cá, diz lá o que havemos de tocar depois do "Panama"». «Bom, não sei... "Panama" é um dos maiores êxitos», retorqui. E sugeri uma rockalhada pesada do álbum Balance, que vinham promover. «Oh essa... azar, não ensaiámos. Temos mais de cem canções ensaiadas e tinhas de escolher logo uma que não tocamos», lançou entre risos. O que começara por ser um encontro de 15 minutos ia já em mais do dobro e por entre mais umas quantas cervejas, Sammy ainda arranjou tempo para distribuir umas quantas palhetas do seu bar, Cabo Wabo, em Cabo San Lucas, México, onde vive. «Se algum dia fores ao México, passa por lá», convidou. Mas entre tanta cerveja e correrias já perdera o concerto dos Suicidal, as palhetas sumiram.

Alice Cooper
O FÃ DE CELINE DION
​Lisboa, Pavilhão Atlântico, 2002

Qual príncipe das trevas destinado a assombrar a mais festiva das quadras, Alice Cooper, o rei do «rock horror show», estreou-se em palcos portugueses a escassos dias do Natal. Bom rock'n'roll e um show muito competente, no qual entrou também a sua esbelta filha Calico, deixaram os fãs satisfeitos e a salivar. No final do concerto, numa «abertura» do promotor, foi possível a uma pequena legião de fãs conhecer Vincent Damon Furnier, que pôs a máscara de lado e mostrou ser um verdadeiro «Mr. Nice Guy». E um pouco baixote, a propósito. Após uma espera que já ia longa e sempre com os seguranças em estado de alerta, lá surgiu então uma das mais veneradas figuras do rock'n'roll. Desmaquilhado, de cabelo preto molhado e totalmente vestido de negro, entre olás e apertos de mão da praxe, Alice Cooper começa de imediato a alinhar os presentes junto à parede do camarim, ao mesmo tempo que lançava: «têm todos os discos prontos para assinar, certo?». Bom... nem todos. Acho que uma foto era capaz de chegar. Bem-humorado e conversador, Cooper concorda e alguém prepara a máquina, ainda de rolo, que encrava. Enquanto se procura corrigir o erro, Alice Cooper volta por momentos à pele de artista e atira-se ao pescoço do fã mais próximo, ao mesmo tempo que arregalava os olhos e lançava com voz maquiavélica: «depressa senão eu mato-o». Pena a foto ter falhado, mas do encontro resulta a convicção de um artista humilde que procura agradar, com saudades de casa e de churrascos, e com uma paixão assolapada por... Celine Dion. No ano seguinte, lá estava ele, em Las Vegas, na primeira fila na estreia de um espetáculo da cantora canadiana. «Aquela mulher tem uma voz... do outro mundo», justificara-se meses antes naquela noite em Lisboa.

The Doors
OS GALHOFEIROS
Lisboa, 2003

Banda mítica, os Doors renasceram no início do século, rebatizados precisamente de The Doors of the 21st Century e, depois, Riders on the Storm, com Ian Astbury, dos Cult, clonado de Jim Morrison. Na véspera da primeira apresentação em Portugal, com direito a bis no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, os «dinossauros» receberam fãs, convidados e imprensa, fizeram sessões de fotos, sempre e sempre em calorosa confraternização. Foi o caso, num hotel de Lisboa, onde o convívio acabou com este vosso criado convidado (por Manzarek) a fazer de baterista... só para a foto. Com uma cabeleira negra brilhante, Ian Astubury, passou o encontro num estranho silêncio... ou pouco mais. A sua parte era «evocar o espírito» de Jim Morrison, encher as canções com a sua alma. Percebia-se que estava a fazer um papel e ninguém lhe podia exigir mais. Ao contrário, Ray Manzarek foi o mestre-de-cerimónias, um verdadeiro espalha brasas. Sempre em movimento, só parava para bebericar o seu chá e servir aos demais. E entre chás e mais chás, sempre com uma expressividade nos gestos, lá foi desfilando a história de uma das mais importantes bandas de sempre. Histórias na primeira pessoa, o encontro com Jim Morrison na praia e como soube que ele era o eleito, os altos e baixos, as loucuras... a morte. Em contraponto a Manzarek, agradado ainda com o facto de poder «desenterrar» um legado vivo, o guitarrista Robby Krieger era a discrição em pessoa, apenas e só de sorriso discreto nos lábios, acedendo a toda e qualquer solicitação. Ninguém diria que era o autor de solos que nos arrepiaram a juventude. No final do gratificante encontro, a foto da praxe. Manzarek agarra o repórter, coloca-o à sua direita e exclama alto: «agora és o baterista».

Marilyn Manson
O GOURMET VIOLENTO
Zambujeira do Mar, 1997; Porto, 2001; Lisboa, 1998 e 2003

Protagonista de uma das mais fulgurantes «ascensões e quedas» de uma estrela rock, Marilyn Manson passou várias vezes por Portugal onde mostrou ser um artista culto, que parecia escarnecer da fama e do estrelato. Mas adorava a vénia e fazia questão de ter tudo ao seu bel-prazer. Na estreia em Portugal, com 60 mil pessoas no Sudoeste, pediu que a enorme tenda fosse recheada de tudo do bom e do melhor, de vinhos a queijos. No final, os queijos foram espezinhados e atirados em todas as direções e do ambiente «mil e uma noites» restava o caos. A fama de louco justificava-se assim: «falem de mim, mal ou bem, mas falem», dissera horas antes naquele mesmo espaço. Paleio promocional à parte, o alter ego de Brian Warner mostrou cicatrizes físicas e emocionais, confirmou o clima insano em que decorreram as gravações de Antichrist Superstar e desmentiu que tenha tirado quaisquer costelas para... vocês sabem o quê... como reza a lenda. «Acreditas nisso? Achas mesmo que era capaz? Para quê, se tenho quem mos faça. Não acreditem em tudo o que leem». Um ano mais tarde, já com Mechanical Animals a rodar, Manson chega a Lisboa no auge da fama. Faz-se esperar e surge glamoroso, de fato de listas, chapéu e bengala, anéis gigantes, e responde com alguma altivez. Ainda assim, como que partilhando um segredo, lá confessa que «está a ser muito melhor [viver a fama] do que alguma vez imaginara». Foi ainda a viver esse clima que voltou depois, em 2001, para um concerto no festival da llha do Ermal, naquele que foi o seu melhor concerto em Portugal até à data. Instalado no Porto, Manson foi o mais profissional que se poderia exigir a até descobriu (e autografou) um disco de versões em seu nome, mas que garante não é dele. «Madonna? Tens a certeza de que sou eu que canto? Não creio que alguma vez tenha cantado Madonna... onde o compraste?». Respondemos-lhe que foi em Camden Town, Londres. «Deixa que amanhã já lá vou procurar», lançou. Desconhece-se o resultado, até porque no último encontro, cerca de dois anos depois, em Lisboa, Manson dava já sinais de desgaste. Após uma conferência de imprensa pouco participada, dirijo-me na sua direção com uma garrafa de absinto na mão para lhe oferecer, numa de fã. Ainda ia a caminho e já Manson ma arrancava da mão, com um sorriso largo estampado no rosto. Ao ver Manson a mirar o rótulo da bebida verde, o manager Tony Ciulla exclama: «Oh não. O que foste fazer. Mais uma noite de loucura («another deadly night», no original)». Nessa noite, de facto, Manson levou os 69 graus do absinto para a mesa do jantar e fez questão de esvaziar a garrafa.

James Hetfield
O CAÇADOR
Lisboa, 1993 e 1999

Dos quatro integrantes dos Metallica, James Hetfield é o mais voluntarioso e disponível, mas o mais rezingão e difícil de convencer também. Lars Ulrich é mais concentrado no negócio, confessou ao escriba em Paris («alguém tem de estar atento ao que se passa»), Kirk Hammett é um paz de alma que adora surf, Robert Trujillo um cavalheiro, e Jason Newsted que antecedeu este último no baixo, durante muitos anos sempre mostrou ser um pouco mais reservado. fora do palco. Mesmo quando em Berlim, em novembro de 1999, após o concerto com a Orquestra Filarmónica local, deu de caras com uma comitiva portuguesa e exclamou surpreendido: «you again?!». Na verdade, não muito antes, em junho, tinham atuado no Estádio Nacional, no festival T99, e alguns rostos eram-lhe familiares. Foi contudo com James Hetfield que este que assina mais vezes se cruzou. A primeira vez tinha ele ainda cabelo comprido, em 1993. De então para cá, James sempre se mostrou um homem muito terra-a-terra, de gargalhada fácil e postura amigável. «O "business" é com o Lars. Ele é que gosta de saber quantas cópias já se venderam e essas coisas todas, quando se gravam os vídeos, etc.», revelou. E uma confissão: «nunca haveremos de tocar nos Zeppelin. Às vezes tocamos nos ensaios, mas nunca nos atreveríamos a gravar qualquer coisa. Há coisas que são sagradas». Como a caça, que lhe transmite a sensação de comungar com o ambiente «és só tu, a natureza e a presa. Cheguei a estar dentro de buracos no gelo, a caçar ursos na Rússia. com muita vodka».

Texto: Luís Figueiredo Silva

Publicado originalmente na BLITZ de 1 de junho de 2013