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Elton John à chegada a Portugal, para um concerto na primeira edição do festival Vilar de Mouros, em 1971

Como a polícia política controlava os festivais antes do 25 de Abril

Antes do 25 de Abril, a juventude portuguesa já tirava o sono aos setores mais conservadores da sociedade, obrigando a Direção Geral de Segurança, sucessora da Pide, a elaborar relatórios alarmistas sobre os festivais que por cá iam acontecendo

Afastado do governo em 1968, António de Oliveira Salazar haveria de falecer em julho de 1970, convencido de que ainda governava o país. Mais ou menos na mesma época, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), força de segurança criada com o apoio consultivo de congéneres fascistas, cedeu lugar à Direção Geral de Segurança, organismo que haveria de chamar a si o dever de repressão até que o curso da história mudasse na madrugada de 25 de Abril de 1974.

Antes destas mudanças, porém, a juventude erguia-se, sintonizando mentalidades e penteados com o que os Beatles tinham na cabeça, iniciando uma revolução (tranquila) de costumes a que as nossas polícias políticas não deixaram de prestar a devida atenção. O primeiro sinal mais claro foi dado em agosto de 1970. Até aí, os eventos em que o rock tinha algum protagonismo, como os populares concursos de bandas «ié-ié», eram sancionados pelo Estado como divertimento controlado e até inocente de jovens que teriam que embarcar para o serviço militar obrigatório, muitas vezes cumprido nas colónias, onde então se combatia pela independência. O Concurso Yé-Yé do Teatro Monumental, que teve lugar em 1965 e 1966, tinha o apoio do Movimento Nacional Feminino e era organizado pelo jornal «O Século» e declarado «a favor das Forças Armadas do Ultramar», como esclarece Luís Pinheiro de Almeida numa das entradas do seu blogue Ié-Ié. Ou seja, rock'n'roll, sim senhor, mas com juizinho.

CHAMAS NO ESTORIL

Em 1970, poucos meses depois do falecimento de Salazar, José Cid levou até à Junta de Turismo da Costa do Sol a ideia de organizar um festival não competitivo. No Ié-Ié citamse declarações do então líder do Quarteto 1111 ao Diário Popular: «já não se compreende, atualmente, um festival tipo corrida de cavalos, em que o que conta é o prémio. Por isso, sugeri à Junta de Turismo da Costa do Sol que se realizasse um festival, é certo, mas liberto de ideias de competição».

O Festival dos Salesianos deveria ter acontecido a 26 de agosto de 1970 com um alinhamento que incluiria bandas como Quarteto 1111, Psico, Objectivo, Chinchilas ou artistas como o Padre Fanhais, um dos participantes na gravação de «Grândola Vila Morena», José Jorge Letria ou Ruy Mingas.

Falou-se igualmente na eventual participação dos belgas Wallace Collection, banda que na altura se passeava nas tabelas de vendas com o «subversivo» hit «Daydream». Mas no dia do evento, que deveria decorrer na mata da Escola Salesiana do Estoril, só a polícia de choque é que compareceu, carregando sobre as centenas de jovens que tinham acorrido ao local na esperança de participarem naquele que teria sido o «1º Festival Português à Procura de Autenticidade de Woodstock», para citar um título de «O Século». «A Capital», incapaz de prever o que se seguiria, titulava «Pop tranquilo no verão do Estoril». Na verdade, nem pop, nem tranquilidade... João Augusto Aldeia esteve presente, tirou algumas fotos dos poucos documentos que sobreviveram à censura e à atuação policial e recordanos o que guarda na memória.

«Em 1970 eu era aluno do Instituto Comercial de Lisboa, mas em agosto estava de férias escolares. Não me recordo de como tomei conhecimento do Festival de Música marcado para os Salesianos, no Estoril, mas é provável que tenha sido através da rádio, de que eu era ouvinte assíduo, particularmente dos programas de música pop/rock.

Parti de Sesimbra sozinho, e fui dos primeiros a chegar ao parque onde deveria decorrer o Festival; a zona para o concerto estava assinalada com um pequeno palco e cadeiras de madeira, ainda que em pequena quantidade. As pessoas foram chegando, a pouco e pouco, mas nunca se chegou a formar uma grande multidão na zona interior. Até que alguém da organização apareceu a dizer que não haveria festival, porque as autoridades não o tinham permitido».

Esta testemunha conta que se deu então início a uma «espécie de comício», uma prática comum numa época marcada por uma pronunciada agitação estudantil: «foi crescendo o tom de indignação e contestação. A organização dizia que não podia fazer nada, houve várias intervenções e aplausos para as mais acaloradas e contestatárias», recorda Aldeia.

«A certa altura alguém começou a empilhar cadeiras de madeira e a pegar-lhes fogo: tirei nessa altura uma fotografia que mostra as chamas no início isto em plena mata de pinheiros! A seguir veio a indicação de que tínhamos de deixar o recinto. Na zona exterior ao pórtico de entrada é que se verificou um maior aglomerado de pessoas: também tenho uma fotografia, tirada quando ia a sair por esse pórtico, que mostra um grande aglomerado de gente do lado de fora, com alguns polícias misturados», prossegue.

«Não sei como é que começou a carga policial, só me lembro de ser apanhado pela correria desenfreada da multidão, algo de que já tinha alguma prática: no Instituto Comercial de Lisboa, onde era aluno, eram frequentes as Reuniões Gerais de Alunos, e até algumas greves, quer às aulas, quer aos exames, que acabavam sistematicamente com a requisição da polícia pelo diretor do instituto, ordens para abandonar a escola e, finalmente, cargas policiais na direção do Largo Luis de Camões ou da Calçada do Combro». Fruta da época, portanto.

«Seguiu-se então uma espécie de jogo do gato e do rato: fugíamos, em pequenos grupos, até uma distância razoável, a polícia entretinha-se com "alvos" mais lentos, nomeadamente grupos de turistas, a quem apreendiam máquinas fotográficas, se os viam a fotografar. Depois, a polícia fazia novas correrias na direção dos ajuntamentos mais distantes, e voltávamos a fugir. Isto ainda durou algumas horas e espalhouse muito para além da zona do parque dos Salesianos».

O primeiro festival pop não chegou a acontecer e a atuação da polícia política traduziu-se no (quase) sucesso com que se silenciaram os relatos do sucedido. No dia seguinte, tudo o que os jornais foram autorizados a publicar foi um «lacónico comunicado», para usar a expressão de Luís Pinheiro de Almeida, da Junta de Turismo da Costa do Sol que afirmava lamentar informar «que por não ter solicitado a respetiva legalização para o espetáculo de música moderna que deveria ter tido lugar na mata da Escola Salesiana do Estoril, o mesmo não se pôde realizar».

Cascais Jazz 1971: Luiz Villas-Boas e José Nuno Martins

Cascais Jazz 1971: Luiz Villas-Boas e José Nuno Martins

CASCAIS JAZZ E VILAR DE MOUROS

Prova de que a polícia entendia eventos musicais como laboratório de ensaio de eventuais inconformismos pode ser encontrada no facto de no primeiro Cascais Jazz, realizado em novembro de 1971, a polícia de choque e o comando da PSP de Cascais se terem posicionado no exterior do Pavilhão do Dramático, à espera de um pretexto para carregar. O pretexto foi-lhes dado de bandeja por Charlie Haden, contrabaixista que então acompanhava o «pai do fere jazz», Ornette Coleman, que dedicou «Song For Che» aos movimentos de libertação em marcha nas futuras ex-colónias.

João Moreira dos Santos recordou o episódio nas páginas da BLITZ, onde contou como Charlie Haden foi levado à sede da DGS na rua António Maria Cardoso, e como Luís Villas-Boas e João Braga, organizadores do festival, tentavam minimizar os estragos. O fadista, citado por Moreira dos Santos, explicou o sucedido: «o Inspetor Glória dizia-me "o gajo tem de levar uns tabefes" e eu disse que eles é que sabiam, mas que sabia como eram os tabefes da Pide e que quando ele chegasse a Londres teria as marcas para mostrar à imprensa... Ele perguntou-me se eu achava então que ele devia ser condecorado, e eu disse que não, que achava que eles deviam ir entregá-lo a casa do Adido Cultural dos Estados Unidos em Portugal sob pretexto de não ser digno dos calabouços da Pide». No dia 21, domingo, Haden foi assim levado sob escolta a casa do Adido Cultural da Embaixada dos Estados Unidos e daí seguiu para o Aeroporto de Lisboa, de onde partiu para Londres».

A primeira edição do festival Vilar de Mouros, que decorreu a 8 de agosto de 1971, representa, no entanto, o apogeu do pensamento da polícia política sobre este tipo de acontecimentos, tendo a DGS enviado um espião para elaborar um relatório que permitisse entender os perigos fomentados por esse tipo de ambiente. O agente secreto, que certamente responderia algo como «Silva, José Silva», se Hollywood fosse no Minho e Sean Connery nunca tivesse existido, começou por relatar as contas do evento: «no primeiro dia, o espetáculo começou às 18h00 e prolongou-se até às 4 da manhã.

Ao anoitecer, o organizador, um tal Barge [António Barge] anunciou que tinham sido vendidos 20 mil bilhetes (a 50$00 cada). Esperavam vender 50 mil bilhetes para cobrir as despesas, que seriam aproximadamente a 2.500 contos. Diziam que tiveram de mandar vir o conjunto Manfred Mann de Inglaterra, mas parece que estava no Algarve, e por isso, a despesa com eles não foi tão grande como parecia». E aqui se deixa claro que há uma diferença entre polícia científica e polícia política.

«Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc», prossegue o agente à paisana, ficando-se pela «soberba» na hora de descrever o «extravagante» Elton John, ainda a anos de ser armado cavaleiro em terras de Sua Majestade. O homem da DGS mencionou ainda a «promiscuidade» dos que por ali dormiram embrulhados em cobertores, arriscou poesia falando de «crianças de olhar parado», evocou Diácono Remédios ao apontar «homens de mão na mão, a dançar de roda», «relações sexuais entre dois pares», «sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados» e até bandeiras: «uma vermelha com uma mão amarela aberta no meio (um dos símbolos usados na América pelos anarquistas); outra branca, com a inscrição "somos do Porto" com raios a vermelho e uma estrela preta».

Com muitos jornais impedidos de relatar o que se passava nestes eventos, para que os efeitos não alastrassem, este relatório secreto acaba por ser uma espécie de reportagem, moral e politicamente inquinada, mas ainda assim uma reportagem de um festival de outro Portugal.

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2013