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Como Sia foi salva pela pop

Poucos repararam nela, mas antes de haver Sia, a estrela, já há mais de uma década que Sia, a artista, andava por aí. É hoje uma das autoras mais rentáveis da pop contemporânea. Da sua face pouco ou nada se verá hoje à noite no MEO Sudoeste, mas as canções falarão por si

Ao longo das suas quatro décadas, Sia já viveu e sofreu mais do que deveria ser permitido a qualquer ser vivo. As suas canções, uns mamutes de hinos transmissores de esperança, nunca sofreram com isso. Bem pelo contrário, souberam alimentar-se e engrandecer-se desse sofrimento. Sia começou por integrar a banda australiana Crisp, foi uma das vocalistas dos Zero 7 e discretamente foi editando discos a solo.

As digressões e as manobras de promoção deixaram-na miserável. A extroversão necessária a uma vocalista não lhe era natural, por isso entregava-se ao álcool para sair do seu mundo e lidar com os olhos postos em si. O alcoolismo intensificou-se quando o namorado morreu atropelado depois disso, os distúrbios mentais assombraram-na, a depressão intensificou-se, contemplou o suicídio. Após ficar sóbria, percebeu que essas lutas lhe seriam valiosas para as canções que poderia escrever. Foi quando «Breathe Me» foi usada na cena final do último episódio de Sete Palmos de Terra um dos mais devastadores finais de séries de sempre (ainda hoje há quem chore só de pensar nessa cena) que percebeu que poderia canalizar o seu talento para a voz de outras pessoas.

Reinventou-se como autora de canções para terceiros, esculpiu letras e melodias para canções lucrativas que lhe renderam milhões. «Diamonds», de Rihanna, «Pretty Hurts», de Beyoncé, e «Perfume», de Britney Spears, são canções exemplificativas da sua fórmula simples e eficaz, da simbiose que cria com as mulheres para as quais escreve. Concebeu uma linha de montagem de hinos titânicos que atualizam o modelo tradicional da balada rock de 80s para o feminismo r&b dos anos 00. Sia expurgou os seus demónios para a boca de outros, arrancou as letras das suas profundezas autobiográficas. O truque é saber transformar o foro pessoal em universal, enquanto cria hinos à escala de estádios.

Neutraliza-se para que qualquer pessoa consiga inscrever a sua história, as suas ânsias e medos nestas canções. É boa a jogar a este jogo, a antecipar os desejos dos consumidores, a tratar a música como marketing, a manipular o espectro de emoções humanas através de melodias maiores que a vida. Um dia descobriu que podia ser uma estrela tão grande como as outras para quem escrevia, tomou-lhe o gosto e agora está a saborear o seu sucesso. Em 2014, o ano em que reclamou o trono para si própria, editou «Chandelier». Arrumou de vez com a introspeção trip-hop dos álbuns a solo anteriores e entregou-se às chamas. «Chandelier» é fogo que arde e se ouve, uma canção diabolicamente infeciosa, embebida nos fantasmas do seu alcoolismo. Como é que uma canção imbuída de tanta fragilidade transmite tanta força? Assim é o poder de Sia. É uma das canções mais esmagadoras desta década, catapultou-a da depressão para a fama. Admirável capacidade esta de poder de transformar o sofrimento em canções caramelizadas que se colam ao céu-da-boca.

1000 Forms Of Fear (2014), o álbum de «Chandelier», fora originalmente gravado para conseguir libertar-se do contrato com a editora, só que o inesperado êxito arrancou-a do chão, convenceu-a a sonhar e a permanecer numa vida que quase abandonou.

COM QUE VOZ

Foi aparafusando e aperfeiçoando a fórmula, ao ponto de chegar a um disco como This Is Acting (2016). Estranhamente, é um álbum com temas originalmente escritos para, e rejeitados por, pesos pesados como Beyoncé, Rihanna e Adele. Sia recupera e reclama a autoria destas canções, remexe neste luxuoso lixo e dá-lhes a dignidade que elas merecem. São canções talhadas para superestrelas, mas que encontram em Sia a sua entidade natural, habitando um limbo entre o que ela é e o que dá aos outros. Subconscientemente, adapta-se e adota os tiques e timbres das vozes para as quais estas canções foram imaginadas, desconstrói a salsicharia da pop, subverte-a do seu interior. Longe vai a incerteza que caracterizou os seus discos anteriores. Só alguém totalmente segura de si própria consegue mergulhar no anónimo mar de canções talhadas para superestrelas e volver à tona com a personalidade vincada.

Sia tem uma perícia nata para escrever canções impregnadas de drama e vulnerabilidade e para as interpretar a plenos pulmões. A cola que une a engrenagem é estripada da sua garganta. A sua camaleónica voz é um impressionante instrumento. Tem textura de grão e gravilha, exaustase, arranha os céus. Potente mas frágil, destemidamente selvagem, capaz de quebrar quando o sentimento o pede.

É uma voz canalizadora de um passado tumultuoso. A emoção que transmite no que canta não se ensina é projetada das entranhas, é uma reação visceral a dores reais. Quando ela canta, a voz salta-lhe da garganta, extravasa as formatações regradas pela indústria, a polidez ditada pela pop. Tem uma fisicalidade impossível de limar, capaz de injetar vitalidade na mais formulaica das canções e de fórmulas estão as suas canções cheias. Necessita por vezes de uma boa dose de chá, de recuperar a calmaria que forneceu aos Zero 7, de ultrapassar a maré de clichés que tende a imprimir nas letras o carácter universal e inclusivo das suas canções faz com que muitas vezes caiam na redundância.

UM NOME SEM FACE

Sia conseguiu tudo isto sem sequer mostrar a cara. No minuto em que recusou olhar para o mundo, o mundo olhou para ela. Nas suas atuações ao vivo, evita o contacto olhos nos olhos, ora vira as costas ao público, ora deixa a sua cara ser obscurecida por uma peruca de proporções tão gigantescas quanto os hinos que serve, delegando o papel de entretenimento a uma trupe de bailarinos, celebridades e performers, tanto em palco como via ecrã. É um espetáculo mais próximo das artes performativas do que de um concerto, à semelhança do que a dupla The Knife fizera com a digressão do álbum Shaking The Habitual (2013). Sia recorre a outros corpos para criar um espetáculo visual em torno da sua música entre eles a bailarina pré-adolescente Maddie Ziegler, figura de proa nos seus vídeos, e que ao vivo atua como vínculo emocional do espetáculo, trazendo à tona as emoções contidas nas letras.

Sia esconde-se porque quer e porque pode. É uma forma de protesto contra os padrões de beleza e contra o culto da imagem, uma forma de conseguir lidar com as suas inseguranças, de conseguir o anonimato mesmo debaixo dos holofotes. Uma estrela multiplatinada que prefere ser ouvida a ser vista? Uma mulher que consegue controlar o quanto expõe de si própria? O mundo que faz do corpo feminino uma mercadoria não consegue lidar com isto. Recusar ter uma imagem é, claro, uma forma cuidadosamente cultivada de construir uma imagem. Ao público apetece o fruto proibido.

Sia sabe administrar uma lição de como desaparecer em frente das câmaras, através de ícones visuais, servindo-se de uma peruca platinada e de corpos, que não o seu, que se movem à sua volta. Mostra que pode ser ninguém para ser alguém, que não necessita de uma cara para encarnar o que canta, que a música pop pode prescindir do corpo para ser ouvida, difundida, amada. Num género que molda, padroniza, torce e contorciona o corpo em formas inatingíveis pelos meros mortais, isto é aberrante. Mas necessário. Está em simultâneo a usar uma máscara (escondendo-se do mundo) e um espelho (revelando ao mundo o mal de que é feito, aquilo que faz a si próprio).

Sia joga ao jogo da pop, submete-se às suas amarras, mas à sua maneira. Está presente sem verdadeiramente estar. É vista, mas pouco visível. Empunhando uma peruca, encontrou o seu subterfúgio. Salta fora do escrutínio da fama, foge do olhar masculino. Empodera-se a si própria quando reivindica a sua identidade privada, emancipa-se fisicamente quando prescinde do seu corpo. Tem o seu quê de fascinante saber que alguma da música mais identificável dos últimos anos pertence a alguém tão pouco identificável. Sia aprendeu a sarar feridas com refrões exuberantes, a limpar a sua depressão prépop com canções. Sempre nos seus termos, criou um som de redenção e de perseverança. A combater demónios, uma canção de cada vez.

Texto: Ana Patrícia Silva

Alinhamento provável

1 Alive
2 Diamonds
3 Cheap Thrills
4 Big Girls Cry
5 Bird Set Free
6 Reaper
7 One Million Bullets
8 Elastic Heart
9 Unstoppable
10 Breathe Me
11 Move Your Body
12 Titanium
13 Chandelier