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Marilyn Manson no Sudoeste 1997

Rita Carmo

As melhores histórias de festivais em Portugal

O verão musical português saiu do “pousio” a partir de meados dos anos 1990 com a realização regular de festivais de música de norte a sul. Revelamos os episódios mais pitorescos, bizarros ou inacreditáveis: do “mortal” de Virgul à pedrada nos Nickelback; da birra dos Oasis aos luxos de Bob Dylan. Sem esquecer um certo festival onde pouca gente esteve e (quase) tudo aconteceu...

Tudo a nu
Na edição inaugural do maior festival até então erguido em Portugal, em agosto de 1997, o «anti-cristo» jogou à cautela. Desde a chegada a Lisboa, Marilyn Manson mostrou-se sempre muito zen, enquanto ia sondando os ânimos no sentido de saber se podia arriscar. Apetecia-lhe ser ousado, mas sabia que Portugal era um país «profundamente católico». E surpreendeuse com os «estás à vontade» que recebeu de volta. Ei-lo, então, em palco com uma cueca fio dental e entregue a um exercício de sodomização, simulada, com uma garrafa. Ah, houve ainda um concerto demoníaco.

No mesmo ano e também na Zambujeira do Mar, Louise Post e Nina Gordon, as principais «estrelas» das Veruca Salt, banda feminina de Chicago, mostravam-se excitadas com a reação portuguesa ao seu concerto. O empolgamento foi tal que, no final, convidaram mesmo os repórteres que aguardavam por entrevistas a entrar nos camarins. Nada de extraordinário, não tivessem trocado de roupa, dos pés à cabeça, ali mesmo e sem quaisquer pudores, deixando ver quase, quase tudo.

Quatro anos depois, em Paredes de Coura, e no final de um concerto em crescendo no qual surgiu de cabelo corde-laranja, o carismático ex-vocalista dos Stone Temple Pilots deixou-se levar pelo entusiasmo e, depois de perguntar ao público «É um festival hippie, não é?», acabou por despir-se, dos pés à cabeça.

O striptease surpreendeu o público mas, em particular, os companheiros de banda, que se precipitaram sobre Weiland e o envolveram apressadamente numa bandeira americana. Ao sair de cena, Weiland exclamava: «I'm George Bush, I'm George Bush».

Droga, a quanto obrigas
Saltemos uns anos, rumo a Vilar de Mouros, 2005. Depois do respetivo concerto, um dos músicos dos Echo & the Bunnymen tentou encontrar algo capaz de lhe alegrar o resto da noite.

Como não o conseguiu nos camarins o que o desiludiu profundamente foi à procura entre o público presente. Pelos vistos, encontrou. Só assim se explica que se tenha deixado adormecer no recinto, perdendo desse modo o regresso ao Porto com o resto da banda. Na manhã seguinte, pediu dinheiro emprestado e apanhou um táxi. Nome discreto do underground garage rock dos anos 1990, os Delta 72 interromperam abruptamente o seu percurso em 2001, um ano depois do terceiro álbum (000) os ter apresentado a um público mais sintonizado com os prazeres da música tecida por guitarras.

Em entrevista a um jornal de Filadélfia, Gregg Foreman, o vocalista, culpa «um festival no norte de Portugal» onde, jura, «nunca vi tanta cocaína». Foreman refere-se, certamente, à sua experiência tóxica no mítico festival de Arcos de Valdevez (edição única em agosto de 2000, mais detalhes na página 66) onde, garante, se perdeu de amores pelo pó branco e pelos vistos disse adeus a uma carreira que se anunciava brilhante.

Oasis no Sudoeste 2000

Oasis no Sudoeste 2000

Rita Carmo

Pedra sobre pedra
2000 foi um ano turbulento para os Oasis (terá havido um ano pacífico?), inclusive em Portugal. No festival Sudoeste, os manos Gallagher foram «corridos» de palco pelos fãs dos alemães Guano Apes que tocavam depois que não se pouparam no arremesso de copos, garrafas, pedras e tudo o mais que estivesse à mão. Contudo, como que prevendo a hostilidade, a banda britânica mandou ter a limusina pronta atrás do palco precisamente vinte minutos depois do concerto começar. Quando a chuva de objetos atingiu Noel, o mano mais velho, foi só voltar costas, descer e arrancar.

Apontemos agora para o finado festival da Ilha do Ermal, em Vieira do Minho. Debaixo de uma chuva de pedras, batatas, fruta e garrafas, os canadianos Nickelback nem dois temas conseguiram alinhar, apesar da entrada a todo o gás. Os autores do «massacre» foram, desta vez, os fãs dos Slipknot... que só tocavam no dia seguinte.

Furiosa, a banda deixou o recinto a alta velocidade, varrendo tudo o que estava ao seu alcance pelas janelas das carrinhas. O episódio do Ermal fez mossa e os Nickelback despediram o manager, acusando-o de os ter «entalado» num festival de heavy metal. A versão do vocalista Chad Kroeger à imprensa do seu país: «o festival era ao pé de uma pedreira, por isso havia muita munição».

Diretos para o hospital
O dia 6 de agosto de 2000 foi negro para o festival Sudoeste: antes de os Oasis abandonarem o concerto depois de poucas canções, os Da Weasel viram também a sua prestação amaldiçoada. Virgul, na sequência de um mortal mal calculado, fraturou a perna mal a banda portuguesa entrou em palco. Foi levado de emergência para Lisboa e os colegas, a seu pedido, levaram o concerto para a frente, apresentando, num alinhamento reduzido, canções que pediam menor participação do cantor, como «Adivinha Quem Voltou» ou «Outro Nível».

O empenho que sempre colocou em palco acabou mal para o vocalista dos Kaiser Chiefs, Ricky Wilson, que após uma série de saltos e piruetas caiu estatelado no palco do festival de Paredes de Coura, em 2005. Resultado: uma rutura de ligamentos num dos pés. A banda levou o concerto até ao fim e só depois «libertou» Wilson para que pudesse seguir para um hospital no Porto, onde passou a noite.

Luxos e manias
Em 2002, os Muse eram uma banda revelação não «campeões» do rock capazes de encher estádios. No Sudoeste, o vocalista e guitarrista Matt Bellamy quis ter nos bastidores não muito avantajados um «acessório» bem particular: um piano.

O vocalista da banda inglesa, conhecido pela sua paixão por tocar numerosos instrumentos, teve a ideia após o espetáculo desse mesmo ano, na Aula Magna, em que foi impedido de tocar no piano «residente» da sala lisboeta. Matt não esqueceu a «nega» e pediu que lhe levassem um para o Sudoeste. E o seu pedido foi, claro, uma ordem.

Além de não ter permitido quaisquer imagens do concerto, Bob Dylan fez tudo para passar despercebido na edição de 2004 do festival de Vilar de Mouros. Com as voltas do caminho trocadas, mas já perto do festival, Dylan exigiu uma limusina para se fazer transportar do autocarro de digressão aos camarins sob pretexto de não querer ver vivalma. O desejo, contudo, não pôde ser atendido e Dylan não hesitou em mandar avançar o enorme tour bus negro pelo recinto adentro, em plena hora de ponta e com concertos a decorrer.

Igualmente caprichoso, no festival Paredes de Coura 2006, Morrissey exigiu um Mercedes preto «vintage» para percorrer os não mais de 50 ou 60 metros que separavam o seu camarim da entrada de palco. Desejo atendido e lá foi ele numa viagem de... segundos. Talvez fosse por causa da chuva.

Amy Winehouse no Rock in Rio-Lisboa 2008

Amy Winehouse no Rock in Rio-Lisboa 2008

Rita Carmo

Concertos-desastre
No ano do regresso do festival de Vilar de Mouros (catorze anos depois de uns promissores U2 terem saído do Minho com mais alguns fãs), os Stones Roses eram uma das bandas que a multidão festivaleira mais queria ver. Só que Ian Brown, John Squire e parceiros caminhavam a largos passos para o desquite e o concerto português foi calamitoso, com o vocalista que horas antes dormitou numa rede atada debaixo do palco, ao som dos Young Gods a desafinar sempre que podia, aparentemente sob o efeito de uma estrondosa «pedrada». Nesse verão, os Stone Roses deram mais dois concertos e arrumaram a trouxa durante quinze anos.

Ainda no domínio da calamidade, em maio de 2008, 90 mil pessoas assistiram a um dos espetáculos humanamente mais tristes do historial de concertos em Portugal. No Rock in Rio Lisboa, Amy Winehouse chegou (tarde, mas chegou) e, ao invés de cantar os êxitos de um álbum em estado de graça, cambaleou em palco, chorou, partilhou com o público as cicatrizes da sua frágil saúde, física e mental, de então. Diz o Times que, horas antes, Amy visitara o marido na prisão, e horas depois estava de volta a Londres. Três anos depois, antecipou o fim esperado, morrendo aos 27 anos.

Punho firme
O concerto dos Lamb em Paredes de Coura 1999 ficou gravado na memória da banda e dos fãs, pelas melhores e pelas piores razões. Lou Rhodes e Andy Barlow terão dado um dos melhores concertos do festival e, apesar de serem os Suede os cabeças de cartaz daquele dia, tinham vontade de oferecer um encore ao público.

Os horários não o permitiram e o músico, entusiasmado com os aplausos do público, resolveu manifestar-se atirando um objeto ao responsável pelo palco recebendo um soco como resposta.

Polémicas à portuguesa
Sempre no fio da navalha, os Mão Morta terminaram um concerto «em casa» (Paredes de Coura, 2007) com um anúncio bombástico: o «adeus ao rock'n'roll». Um silêncio sepulcral apodera-se da até então ruidosa plateia e todos sem exceção ficam estupefactos e sem reação. A dúvida sobre o fim da banda pairou por momentos, longos demais, mas, afinal, Adolfo Luxúria Canibal estava só a... provocar. De provocador para provocador. Em vinte anos dedicados à música, Paulo Furtado garante que só por uma vez abandonou um concerto. E essa vez aconteceu em 2009, no Festival Sudoeste. Agastado com o ruído que vinha de um palco vizinho, dedicado à eletrónica, Legendary Tiger Man que apresentava o recente Femina fez história acusando a organização de «puta de falta de respeito» e desistindo de tocar. Mais tarde, a promotora reconheceu o «erro» na programação e pediu desculpa a Paulo Furtado.

Festival Arcos de Valdevez, 2000

Festival Arcos de Valdevez, 2000

Arquivo BLITZ

O festival onde tudo aconteceu

A organização era de várias entidades da região, o nome não poderia ser mais espartano, sem qualquer menção a patrocinador: Festival de Arcos de Valdevez, mais um evento a juntar-se ao verão minhoto do ano 2000 (que contava já com Vilar de Mouros, Paredes de Coura e Ilha do Ermal). Anuncia-se investimento superior «90 mil contos» (450 mil euros), um cartaz composto por nomes firmados como The Fall, Primal Scream, Einstuerzende Neubauten e Death In Vegas, e um contingente nacional bem numeroso, dos Wraygunn aos Atomic Bees, de Rita Pereira (mais tarde Rita Redshoes). A imprensa local dava conta das altas expectativas, prevendo enchente, mas a afluência de público acabou por ser muito menor do que esperado (dizse, inclusive, que algumas contas terão ficado por saldar...). Quem lá esteve trouxe, porém, boas histórias para contar.

Como vimos, Gregg Foreman, vocalista dos rockers norte-americanos Delta 72, garante que nunca como em Valdevez se deparou com tanta oferenda tóxica na sua vida (não que os banhos de rio ou as jam sessions improvisadas até às tantas sejam pormenores de somenos). Os Primal Scream cancelaram, à última hora, o seu concerto, alegando ausência de Bobby Gillespie Mani e companhia alegavam que o vocalista não conseguira apanhar voo para Portugal; alguma imprensa garantia que a voz de «Rocks» estaria em território nacional mas «impróprio para consumo»; os Einstuerzende Neubauten disponibilizam-se para tocar «a dobrar» (e há uma bootleg de quase três horas que o confirma), eventualmente propulsionados pelo «milagroso» pó branco que rodava livre no seu camarim.

Também galvanizados pelo espírito particular do festival, os The Fall causaram danos na pousada familiar onde ficaram instalados, tendo alegadamente jogado janela fora toda a roupa de cama e, incansáveis, pedido uísques às 8 da manhã.

Os franceses LTNO (gente do electro-rock) também deram que falar, com episódios de nudez integral e farra noite dentro com groupies do Porto. Inebriado pela loucura generalizada, Paulo Furtado homem forte dos Wraygunn mostrou dotes de sapateado sobre uma mesa nos bastidores e foi depois avistado, desorientado, numa estrada solitária durante a madrugada.

Dando prejuízo, o festival de Arcos de Valdevez não voltou, compreensivelmente, a realizar-se. Um grupo no Facebook chegou, entretanto, a reclamar o seu regresso. Percebe-se porquê.

Textos: Lia Pereira, Luís Figueiredo Silva, Luís Guerra e Mário Rui Vieira

Originalmente publicado na BLITZ de agosto de 2013