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Zé Pedro e Jimmy Page, Londres em 2015

O dia em que fui com Zé Pedro a Londres falar com Jimmy Page

Há cerca de um ano, acompanhei Zé Pedro – o único, o dos Xutos – numa viagem muito especial. Um privilégio que tem tudo a ver com a missão de partilha que nos ocupa na BLITZ

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Na semana passada, muito boa gente da minha idade ter-se-á arrepiado com a notícia de que os anos 90, essa década tão presente no imaginário de toda uma geração, já é coisa do domínio “retro”. Com inteligência, a MTV apercebeu-se com certeza da nostalgia que os trintões sentem pela música da sua juventude e decidiu criar o canal MTV Classic onde, além de uma playlist centrada nos anos 90 e início dos zero-zero, poderemos voltar a rir com os rudes mas adoráveis Beavis e Butthead.

Quando era adolescente, a nostalgia era outra. Nos anos 90, muitos dos meus colegas de liceu olhavam duas ou três décadas para trás, idolatrando bandas como Pink Floyd e Beatles (lembro-me de uma moça cuja artista predileta era Janis Joplin) ou vivendo a carreira dos Led Zeppelin como se Jimmy Page e Robert Plant, entretanto já numa semi-reforma, tivessem acabado de lançar os seus álbuns mais emblemáticos.

Havia, como continuará a haver para todo o sempre, os fãs dos Led Zeppelin e depois há a Ana, até hoje uma das minhas maiores amigas, que gastava todos os tostões a encomendar cassetes VHS mal regravadas e revistas caríssimas do «estrangeiro» (o jeito que não nos teria dado uma coisinha chamada internet). Numa altura em que a partilha das paixões é natural como a nossa sede, sentia que era, eu própria, íntima da história dos Led Zeppelin, tal era o fervor com que a Ana a absorvia e comentava.

Quando, em 2014, soube que ia a Londres entrevistar Jimmy Page, ponderei bem a forma como iria dar a notícia à sua maior fã. Iria a minha amiga soçobrar à inveja e injustiça deste mundo, quereria matar-me? De coração generoso, poderá ter-me insultado com carinho, desejando-me depois toda a sorte nesta empreitada. Afinal, se ela não podia ir até Meca, que fosse eu, em sua representação.

Poder trazer de Londres a história de como Mr. Page escutou atentamente as nossas perguntas e, já em registo de prolongamento, acedeu a inscrever a sua assinatura no meu caderno (autógrafo que a fã não pediu, mas naturalmente apreciou), foi um privilégio que irei recordar com carinho durante muitos anos.

Um ano mais tarde, regressei a Londres para voltar a falar com Jimmy Page, desta feita acompanhada por outro grande fã: Zé Pedro, o guitarrista, comendador e melómano supremo. Tudo o que ouviram dizer sobre o homem dos Xutos ser um dos tipos mais porreiros do rock peca, acreditem-me, por defeito.

E num daqueles momentos em que pensamos “que voltas deu a minha vida para eu estar aqui?”, dou por mim nos Olympic Studios com Jimmy Page – o próprio – à minha frente e Zé Pedro – o único, ou seja, o dos Xutos – ao meu lado. Falam de truques de guitarra e de como certo som foi conseguido em determinado álbum dos Led Zeppelin. De rabo-de-cavalo branco, a velha lenda é afável e ninguém diria que acabara de conhecer o português – claramente deliciado – há minutos. No final, quando – com a sensação de missão cumprida – descemos as escadas para o mundo real, o manager não percebe a razão de tanto abraço mas oferece-nos um reconfortante: “You did well”.

Trazer uma história e um gatafunho para a amiga ou acompanhar um autêntico fã no encontro com um dos seus heróis – verdadeiros prazeres, que têm tudo a ver com o que nos move, na BLITZ, todos os dias: perguntar, descobrir, usufruir, comentar e partilhar. Com leitores, fãs e eventualmente com os haters também, mas sem partilha o nosso trabalho não faz qualquer sentido.