Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Bob Marley: os dias do fim

Depois da tentativa de assassinato de que foi alvo, em 1976, Bob Marley partiu para a fase de maior sucesso internacional da sua carreira. Esses anos, sabemo-lo agora, foram os últimos da sua vida. Quando passam 35 anos sobre o seu desaparecimento, recordamos os passos derradeiros daquela que ainda é a estrela mais brilhante da galáxia do reggae.

O número 56 de Hope Road, em Kingston, na Jamaica, era um verdadeiro símbolo para Bob Marley. Situado numa zona da capital jamaicana reservada às classes mais abastadas o mais famoso rasta do mundo tinha o primeiro-ministro Michael Manley como vizinho, o número 56 de Hope Road era uma velha mansão colonial que podia já ter visto melhores dias quando Chris Blackwell, patrão da Island, a entregou a Bob como parte do contrato que os unia, mas que mantinha intacta a aura nobre de outras épocas.

Em 1976, a Jamaica vivia tempos de agitação política e social, com a aproximação de eleições que opunham o People's National Party (PNP) do socialista Michael Manley, amigo de Fidel Castro, e o Jamaica Labour Party (JLP) de Edward Seaga, visto como um aliado dos Estados Unidos na ilha. Além disso, a apocalíptica visão do mundo de alguns rastas indicava que se aproximava o ano em que os dois setes chocariam, tal como os Culture haveriam de cantar em «Two Sevens Clash», apontando o juízo final para 7 de julho de 1977. Razões mais do que suficientes para que a aquisição de um endereço numa Estrada da Esperança se revestisse do maior simbolismo possível.

Bob via a casa de Hope Road como um palco para a evolução da Jamaica em direção a uma utopia, um abrigo onde ideias de paz e de progresso poderiam fermentar. E isso significava que mais do que uma casa familiar, o 56 de Hope Road era uma espécie de comuna, onde músicos, rastas, políticos e rude boys conviviam na sombra de um grande homem que o mundo começava a reconhecer como uma verdadeira estrela.

No final de 1975, aliás, Stevie Wonder tocou na Jamaica, convidando Bob Marley e os Wailers para o palco e reconhecendo ele mesmo a força criativa do reggae na modernização da música negra: «Boogie On, Reggae Woman» era prova mais do que clara. O ska poderia ter nascido com os músicos jamaicanos de ouvidos colados nos transístores que recebiam os sons do rhythm n'blues americano das rádios de Miami, mas agora eram as estrelas americanas que voltavam a atenção para aquela pequena promessa das Caraíbas.

TIROS NA RUA DA ESPERANÇA

Com Bob Marley bem no centro das atenções do mundo, era natural que as tensões políticas na ilha o afetassem diretamente. Tanto o PNP como o JLP impunham uma feroz política territorial através de gangues armados, conquistando votos para as respetivas causas rua a rua, bairro a bairro. Bob e os Wailers eram originários de uma área afeta ao PNP, mas Claudius Massop, amigo de infância tornado braço de ferro de Seaga, vinha de uma zona próxima mais sintonizada com o JLP.

A 3 de dezembro de 1976, dois dias antes do agendado Smile Jamaica, um concerto pensado para apaziguar as tensões que varriam a ilha com um vento de intimidação e morte, o número 56 de Hope Road foi invadido por homens armados que dispararam vários tiros ferindo Rita Marley, o manager Don Taylor e o próprio Bob. Até aí, a voz de «No Woman, No Cry» vivia acima dos conflitos por ter amigos nas duas fações mais violentas, mas com a prisão de Massop, descrita como «conveniente» por Vivien Goldman, talvez a jornalista que mais de perto conviveu com Marley e que assinou a sua primeira biografia, o JLP ganhou força para desferir um ataque à mais poderosa voz da ilha, vista como muito próxima do partido do governo. Na verdade, os atacantes nunca foram identificados, mas o objetivo de silenciamento de Marley parecia óbvio: o concerto de 5 de dezembro de 1976 poderia ser um ponto de viragem para a Jamaica.

Depois do atentado, Bob Marley e a família foram transportados para um refúgio nas Blue Mountains, onde foi guardado por membros da polícia, do exército e até pela comunidade rasta, armada com os seus «small axes». A noite seguinte ao ataque foi de debate: deveria Bob prosseguir com a intenção de tocar no Smile Jamaica? Todos pareciam concordar que um recuo seria o equivalente a uma vitória dos atacantes e que a mensagem queMarley e os Wailers tinham para entregar ao povo da Jamaica era demasiado importante para ser silenciada.

Essa era também a opinião da cantora Roberta Flack, outra voz soul americana que quis perceber de perto a vibração espiritual do reggae tendo voado até à Jamaica para assistir ao concerto. A voz de «Killing Me Softly» teve a oportunidade de conversar com Marley no refúgio das Blue Mountains após o ataque, encorajando-o a subir ao palco. Mas a dúvida manteve-se até ao último momento. Bob Marley foi ouvindo os clamores do público pela rádio e foi preciso o discurso de um membro do governo para finalmente convencer o Natty Dread a deslocar-se até ao National Heroes Park. Sob forte escolta policial, Marley foi aplaudido pelos participantes numa manifestação a favor do JLP e a notícia de que se dirigia para o concerto fez a multidão crescer até aos 80 mil.

Chegado ao palco, Bob falou aos microfones: «Quando decidi participar neste concerto há dois meses e meio, disseram-me que não ia haver política. Eu só queria tocar por amor ao povo». «Incapacitado de dedilhar a sua conhecida guitarra Gibson por causa do ferimento no braço», escreve Timothy Wire na biografia Catch a Fire, «Marley murmurou que iria cantar "uma canção". E então lançouse numa verdadeira "tour de force" com "War"». Michael Manley ganhou as eleições de 16 de dezembro, alguns suspeitos no ataque a Hope Road apareceram mortos, e Marley abandonou a Jamaica, passando primeiro por Nassau, nas Bahamas, depois por Miami, Nova Iorque e Delaware, antes de se dirigir a Londres para começar a trabalhar naquele que se transformaria no seu maior sucesso até então, Exodus.

UM RASTA NA BABILÓNIA

Nas páginas da Mojo, em 2007, Vivien Goldman relembrava logo na abertura do artigo de capa que Exodus tinha sido distinguido pela revista Time em 1998 como Álbum do Século, ultrapassando candidatos mais óbvios como os Beatles num top desenhado para assinalar 100 anos de música gravada. Trinta anos antes, nas páginas do semanário Sounds, Goldman tinha escrito que, de um ponto de vista de marketing, Exodus era «the one». O disco que transformaria Bob Marley na maior estrela do terceiro mundo. O disco que, em plena revolução punk, elevaria o reggae à condição de força comercial e criativa que o rock não poderia continuar a ignorar.

Não era, claro, só o mundo do rock que prestava atenção ao que Marley tinha para dizer, o inverso também era verdade. Já em Londres, nem mesmo o «natural mystic» poderia ignorar o que se passava nas ruas e nos clubes onde Don Letts tocava discos de reggae para audiências punk. E tudo isso haveria de inspirar Bob a escrever o famoso «Punky Reggae Party», lançado como um single antes de Exodus e onde se retratavam as tribos dos alfinetes de dama e dos rastas, «rejeitadas pela sociedade e tratadas com impunidade», como Bob assegurava na própria canção. Marley trabalhou em «Punky Reggae Party» com o grande Lee «Scratch» Perry e ambos ouviram ao mesmo tempo a versão que os Clash assinaram para o clássico de Junior Murvin produzido pelo Upsetter, «Police and Thieves». Vivien Goldman recorda a aprovação de Marley que lhe confessou gostar de ver toda aquela gente com os alfinetes de dama espetados: «Eu mesmo não o faria, mas gosto de ver um homem capaz de suportar a dor sem chorar».

«Punky Reggae Party» era apenas um comentário momentâneo, um retrato das ruas de Londres no momento em que Marley chegou e percebeu que havia gente nas margens em todo o lado. Mas Exodus seria algo maior, um «movimento em frente», como explicava Goldman numa entrevista com Bob Marley na Sounds em 1977. Na verdade, o «movimento em frente» era também o resultado de uma ambição natural, não apenas por parte de Marley, mas sobretudo por parte da sua editora, a Island de Chris Blackwell que sabia ter nas mãos um diamante em bruto que, uma vez polido, poderia ser admirado em todo o mundo. Esse polimento passava por um trabalho de estúdio mais consonante com os parâmetros da indústria ocidental, um som mais limpo. E Londres era o lugar para assegurar essa nova faceta do reggae de Bob Marley. O engenheiro de som Karl Pitterson foi uma peça fundamental na transformação do som dos Wailers: é a ele que se atribui o subtexto disco sound de «Exodus», o tema título, ou a opção de usar uma caixa de ritmos em «Waiting in Vain», opção que se diz ter enfurecido Carlton Barrett. Neville Garrick, o designer responsável por várias das capas da discografia de Bob Marley, reforçava nas páginas da Mojo a ideia de abertura: «Nós queríamos aquela propulsão e queríamos a América negra e ao ter músicos "estrangeiros", como o Junior Marvin, para acrescentarem uma textura mais blues e R&B, o Bob estava a ser um pescador muito inteligente». A pesca rendeu de facto alguns peixes graúdos. Em Catch a Fire, Timothy White explica como a Island investiu desmesuradamente em Exodus, promovendo festas de lançamento luxuosas em Paris e Los Angeles, com direito a limusines brancas e ao jet set pop da época: de Diana Ross a Bianca Jagger passando por executivos como Ahmet Ertegun, o fundador da poderosa Atlantic.

Marley, como não podia deixar de ser, não se concentrava totalmente no jogo de marketing da Island, preferindo quase sempre um bom e suado jogo de futebol ao glamour das festas de lançamento. Em Paris, por exemplo, conseguiu agendar em maio de 1977 um jogo contra uma equipa de primeira linha onde voltou a magoar-se no dedo grande do pé direito, perdendo a unha e gerando uma lesão que mais uma vez lhe causou mau estar e resistiu a sarar, preocupando toda a equipa que rodeava o Skipper, como também era conhecido pelos amigos.

DO AMOR À POLÍTICA

As sessões que produziram Exodus foram estratégicas no seu fôlego e renderam material que seria também utilizado em Kaya, o álbum de amor que Bob e os Wailers editaram em março de 1978, mesmo nas vésperas do Peace and Love Concert, uma prova de que a mensagem de Marley estava a chegar à própria Jamaica. Na prisão, Claudius Massop, antigo músculo do JLP e amigo de infância de Bob, foi colocado numa cela com Bucky Marshall, ligado ao partido rival do PNP. Juntos, Bucky e Claudius congeminaram um concerto de união que servisse como uma espécie de celebração de um cessar fogo entre gangues rivais e como um apelo à paz. O concerto teria lugar a 22 de abril em Kingston e serviria ainda para angariar dinheiro para as populações dos bairros mais pobres de Kingston. Mesmo com um cartaz de luxo que incluía Inner Circle, Culture, Big Youth, Dennis Brown, Peter Tosh e Ras Michael, o concerto só faria sentido com a presença de Bob Marley. O homem de Kaya acedeu, impôs como condição para a sua presença a subida ao palco de Manley e Seaga, o que aconteceu, precisamente durante a interpretação intensa de «Jamming», com Marley a forçar os rivais a darem as mãos. A mensagem de amor e paz espiritual que Marley fazia agora ecoar pelo mundo parecia também ressoar na Jamaica, cujo solo Bob pisava então pela primeira vez desde o atentado contra a sua vida.

A tournée que se sucedeu à edição de Kaya, álbum de «Is This Love» e «Sun is Shining», levou os Wailers a sítios tão distantes como o Hawai e o Japão, Nova Iorque, Canadá e várias capitais europeias, incluindo Paris, cidade onde em junho se gravou o espetáculo que daria origem ao duplo ao vivo Babylon By Bus, editado em novembro do mesmo ano. As tournées intensas que castigaram profundamente a saúde de Marley foram igualmente responsáveis pela progressão do seu sucesso. Marley nesta fase já carregava nos ombros a certeza de que não tinha muito tempo e por isso dividia-se na entrega de importantes mensagens ao seu público: Kaya tinha sido o seu álbum de amor, e Survival, que lhe sucedeu em finais de 1979, foi o seu grito político, expresso em hinos como «Zimbabwe» e sobretudo «Africa Unite». Survival era também a peça inicial de um tríptico que Bob Marley via como o seu derradeiro legado. Uprising, que seria editado em junho de 1980, seria a segunda parte, e Confrontation, que já seria editado postumamente, a conclusão de um arco que parecia óbvio: sobrevivência, levantamento e confrontação três passos essenciais na caminhada para a liberdade.

A vida, entretanto, fugia de Marley a passos largos. A parte final do livro Catch a Fire relata diversos episódios que atestam a consciência que Marley tinha de estar a correr contra um tempo que não tinha: nas sessões de «Could You Be Loved», tema de Uprising, Marley terá mesmo dito ao guitarrista Junior Marvin para não abandonar o estúdio porque já não tinha «muito tempo». «Redemption Song», do mesmo álbum, é quase um acertar de contas com a vida. Marley sabia que o fim estava próximo.

O FIM DA VIAGEM

A 19 de setembro de 1980, Bob Marley e os Wailers subiram ao palco do Madison Square Garden na primeira parte dos para os Commodores de Lionel Ritchie, ato estratégico pensado para impor Marley ao público negro norte-americano, uma vez que o seu mercado passava fundamentalmente pelo público branco consumidor de rock. A 21 de setembro, o corpo de Marley pagou a fatura pelo esforço de duas noites de total entrega em palco, sucumbindo numa sessão de jogging no Central Park. Ainda assim, Marley foi capaz de reunir forças suficientes para voar para Pittsburgh onde, a 23 de setembro, subiu pela última vez ao palco, assinando ainda assim uma performance memorável que recentemente foi lançada com o título Live Forever. Essa foi a verdadeira despedida de um gigante.

Após o concerto de Pittsburgh, Bob foi tratado em Nova Iorque e depois haveria de viajar até à clínica do polémico Joseph Issels, um médico alemão que tratava cancros de uma forma pouco ortodoxa através da ingestão de comidas especiais, vitaminas e outras substâncias destinadas a limpar o organismo. Issels terá conseguido retardar por alguns meses aquilo que era inevitável e quando o fim se tornou evidente, planeou-se o regresso de BobMarley à Jamaica através de Miami. Mas à chegada à capital da Flórida, a 9 de maio, percebeu-se imediatamente que o rasta não aguentaria outra viagem, tendo sido admitido no Cedars of Lebanon Hospital, onde viria a falecer dois dias depois.

A 21 de maio, Nesta Robert Marley foi sepultado na Jamaica com honras de estado, com Edward Seaga, já na qualidade de primeiro-ministro, a ler um elogio fúnebre onde se declarou que «um homem assim não se pode apagar da mente». Trinta anos depois, Bob Marley continua a pairar.

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2011