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A luz e a sombra dos Clã: a história toda contada pelos próprios

Desde o início dos anos 90 que trabalham no duro. O grupo com raízes em Vila do Conde superou um arranque falhado, lançou álbuns “arriscados” e inscreveu no cancioneiro nacional clássicos da laia de 'Problema de Expressão' ou 'Sopro do Coração', agora recuperados para o primeiro álbum de revisão de carreira. Em 2014, falámos com a banda e com os seus principais colaboradores. Esta é a história oral dos Clã

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Uma cave bafienta de Campanhã é assim que os Clã recordam o lugar que os viu nascer, no mês de novembro de 1992. O Porto serviu de cenário ao encontro de Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves, ambos naturais de Vila do Conde, a não muitos quilómetros da Invicta. Se aquele que se tornaria o principal compositor dos Clã vinha da Escola Jazz do Porto, Manuela estava a dar a derradeira «estocada» na licenciatura em Direito que tirou em Coimbra. A esta dupla «uma team na música e na vida», como lhes chama Sérgio Godinho, referindo-se ao casamento duradouro de Hélder e Manuela juntar-seiam Pedro Rito, Miguel Ferreira, Fernando Gonçalves e Pedro Biscaia, todos músicos com provas dadas na então borbulhante cena musical da Invicta. Os primeiros anos foram tudo menos glamorosos e o simples facto de os Clã não terem desistido após lançarem o primeiro álbum constitui uma vitória, contam-nos os seis artistas, no quartel-general da banda em Junqueira, aldeia do concelho de Vila do Conde. Os seus companheiros músicos, letristas, agentes mais assíduos acrescentam um ponto ao «conto» dos Clã.

Manuela Azevedo (voz): Acertámos logo à primeira [na formação]. A partir daí, durante estes anos todos, muita coisa aconteceu na vida da banda e na vida de cada um, e fomos mudando muito. O facto de nos mantermos juntos, a funcionar bem, teve a ver com alguma sabedoria: fomos aprendendo a lidar uns com os outros, com aquilo em que a banda afeta as nossas vidas, com as diferentes personalidades que temos. Penso que o facto de sermos pessoas bem-humoradas nos ajudou bastante a lidarmos com as idiossincrasias de cada um, bem como o facto de gostarmos muito de fazer música juntos. Começou por ser sorte...

Pedro Rito (baixo): Estás a falar de uma coisa de 20 anos. Já tivemos crises graves, isto já esteve para acabar!

M. Azevedo: Tivemos uma crise logo no início: começámos a fazer concertos, conseguimos um contrato editorial, gravámos o primeiro disco, tudo espetacular! O disco [LusoQualquerCoisa] sai, no Dia dos Namorados e tudo, passa muito bem na rádio... vendeu népia e quase não tocámos nesse ano! Foi um balde de água fria tremendo. Esse foi o primeiro grande choque e a primeira decisão de fundo da banda: continuamos, mesmo sabendo que não temos nenhum concerto marcado e que vamos ter de sair da agência em que estávamos e começar tudo do zero? Foi logo um grande teste de resistência para os seis. E a resposta foi: continuamos, porque gostamos do que fazemos e os seis têm a mesma vontade. Não houve nenhum que tivesse vacilado nesta primeira dificuldade e esta foi a nossa crise maior.

Isabel Dantas (ex-agente): Quando conheci os Clã, eles não tocavam, não tinham concertos, ninguém lhes ligava nenhuma. Soube que eles iam [a Lisboa] de propósito para falarem com o seu [primeiro] agenciamento e eles não os atendiam. Os Clã levavam muita porrada e estavam por todas. Quanto comecei a trabalhar com eles, disse-lhes: o mais importante é tocar, vocês têm é de mostrar-se. E desdramatizar um bocado porque, para eles, cada espetáculo tinha de ser perfeito. Não vão pagar para tocar, mas têm de tocar e as coisas hão de ir lá porque vocês são bons. Lembro-me de estar a «vender» Ornatos e Clã e os Ornatos era naquela base: «como?». Ninguém percebia o nome deles em 97 (risos). Os Clã conheciam mas era pela negativa, o que era terrível. Porque era um grupo que tinha saído, não tinha tocado e era um flop, na cabeça das pessoas.

P. Rito: O primeiro disco não correu como queríamos ou como estávamos à espera. O meio e a editora receberam-nos bem e nós estávamos bem preparados, tínhamos um bom espetáculo e tocávamos aquilo bem. Não funcionou, nunca percebemos porquê...

Hélder Gonçalves (guitarra): Uma das razões foi o timing, estas coisas dependem muito disso. Nós começámos em 92 e em 94 já tínhamos o disco praticamente pronto, mas ele só saiu em 96. Fizemos as maquetes em 94 antigamente demorava mais, porque tínhamos de ir para um estúdio, a pagar. Tivemos um apoio muito importante do Mário Barreiros, que nos fez as maquetes. Mas desde o momento em que soubemos «é isto que queremos fazer» até ao disco, que ficou pronto em 95, sair, estivemos quase meio ano à espera, porque a editora não tinha espaço. Quando o disco sai, as pessoas já não reagem da mesma forma, Os timings são muito importantes e também temos aprendido isso com o tempo. Mas o que vale sempre é a obra.

PRIMEIRAS ENCHENTES

Conhecidos como verdadeira máquina de palco, os Clã começaram a ganhar rodagem ao vivo com a entrada na agência Chave do Som. A mestria da banda e a voz carismática de Manuela Azevedo não tardariam a fazer os primeiros estragos, dando um novo ânimo à banda, que em 1997 se apressa a lançar Kazoo. «Problema de Expressão», uma «manta de retalhos» composta por Hélder Gonçalves e Carlos Tê, faz toda a diferença na nova vida dos Clã.

M. Azevedo: Uma coisa muito importante para nós foi sermos convidados para uma série de concertos acústicos da Antena 3. Nós, em vez de fazermos um acústico não dava, pois temos dois teclistas! fizemos um concerto «off». Convidámos a Maria João, fizemos versões alternativas de algumas canções do LusoQualquerCoisa e [estreámos] algumas das canções que vieram a fazer parte do Kazoo: «Hábito do Monge», «Problema de Expressão», «GTI»... também a versão do «I'm Free». A preparação desse espetáculo foi muito importante, por ser a descoberta de uma data de coisas que viemos a explorar no Kazoo e naquilo que depois se tornou a matriz do grupo: fazer canções em português, explorar o formato canção, muito mais do que se nota no LusoQualquerCoisa, que passa por formatos mais livres.

I. Dantas: O concerto com a Maria João foi em março de 97 e foi aí que revelaram o «Problema de Expressão». Lembro-me de estar a voltar para o Porto com o Nelson [Carvalho, engenheiro de som] na carrinha, a ouvir a gravação, e pensar que aquela canção era fora de série! Essa foi uma altura importante: deu-lhes alento, porque vinham de uma fase em que tinham tocado muito pouco, não eram acarinhados pelo público nem pela crítica. Estar ali num auditório pequenino, para 50 pessoas e com cadeiras fixas... essas coisas, para quem não toca nas rádios, são importantes.

P. Rito: Que interessa ter uma agência grande se só nos arranjavam um concerto? E em palcos grandes, onde não estávamos confortáveis porque não tínhamos sequer rodagem em palcos pequenos.

Miguel Ferreira (teclas): Estávamos em palco a dez metros uns dos outros!

P. Rito: Quando fomos para a Chave do Som, começámos a ter concertos mais pequenos, como se fosse um reinício. Nessa altura estávamos a tocar muito bem e eu lembrome dos primeiros concertos em que as pessoas começaram a reconhecer músicas. Saíamos de palco e dizíamos: viste? O pessoal conhece aquela! Poucos meses depois, eram milhares de pessoas com mãos no ar, e isso é magnífico. Quase que chorávamos, quando toda a gente cantava. É uma experiência muito mágica.

M. Ferreira: Milhares de pessoas a cantar o «Problema de Expressão», isso é que foi o momento... Pensámos: para serem assim tantos a cantar, e tão alto, não é coincidência! Não são todos da nossa família!

I. Dantas: Em março de 1998, estreámos na capital o espetáculo do Kazoo por nossa conta e risco. Foi na Gartejo [depois Paradise Garage], com o apoio da Antena 3. Vendemos pouquitos bilhetes, foi para ter prejuízo, mas houve uma pessoa que esteve lá e gostou: o [Luís] Montez [diretor da Música no Coração], que foi importante na carreira dos Clã. Gostou deles e, independentemente das críticas negativas, catrapiscou-os para o Super Bock Super Rock na Expo. E por sorte, que nestas coisas também é preciso ter sorte, no dia em que eles tocaram o alinhamento era Ala dos Namorados, Spiritualized e Van Morrison, que tocou só 45 minutos, deixando as pessoas zangadas. Tocaram os Zen, também, mas numa hora muito tardia. Houve uma série de condicionantes que favoreceram os Clã; [essa noite] foi um marco importante na carreira deles. Também tinha saído o «Problema de Expressão» e eles tinham sido convidados para ir ao [programa do] Herman, que se fazia no São Luiz. Em maio de 1998, a Manuela cantou o «Problema de Expressão» e, depois, um standard com o próprio Herman. E cantou incrivelmente bem, lembro-me que houve muita gente a ligar-me a dizer: «a Manuela, pá!». A banda começou a crescer, a fazer espetáculos, o que para mim é o principal manter o grupo na estrada e as coisas começaram a rolar. E em 2000 surgiria o Lustro, um disco cheio de singles. O Kazoo tem muito boas canções mas não foi divulgado devidamente. Com o Lustro foi sempre a crescer e a fazer coisas novas.

P. Rito: Tínhamos a urgência de lançar as músicas novas para mostrar o nosso novo caminho. Em termos de produção, fomos muito exigentes no nosso primeiro disco. No segundo nota-se que queríamos era gravar para a coisa sair. O Kazoo é o disco de que pensámos sempre: se calhar um dia misturamos aquilo [de outra maneira]! Mas [a pressa] também acaba por dar uma característica especial ao disco. Quando aparece, o Lustro confirma o sucesso do Kazoo e coloca-nos num patamar alto. Aí já estávamos bem: tocávamos para muita gente, ganhámos os prémios BLITZ e os Globos de Ouro, tivemos uma projeção grande.

M. Azevedo: Andávamos contentes, tínhamos uma agenda de concertos impecável, tocávamos imenso e as pessoas conheciam-nos: era divertido. Mas continuava a acontecer-nos irmos parar a sítios do país onde ninguém nos conhecia de lado nenhum e onde tínhamos a sensação de estar a começar do zero outra vez. Isso foi bom, para temperar algum entusiasmo que pudéssemos ter. Um dos exemplos mais claros foi estar certo dia no Festival Sudoeste, com imensa gente à nossa frente, e no dia seguinte irmos para a Graciosa, nos Açores, um de nós com varicela, e tocarmos num daqueles palcos de feira (risos). Esse contacto quase quotidiano com a realidade pura e dura foi muito bom para nós, para não embarcarmos naquela coisa do «somos os maiores».

O MILAGRE DAS CANÇÕES

A partir de Kazoo, e ainda que o primeiro álbum já tivesse pérolas como «Novas Babilónias», o poder das canções dos Clã começou a tornar-se evidente, nas ondas radiofónicas e na vida dos mortais. Para apurar o «cancioneiro», como lhe chama Pedro Rito, a banda contou desde o primeiro momento com a ajuda, nas letras, de Carlos Tê («o primeiro dos nossos sétimos elementos», diz Miguel Ferreira). Sérgio Godinho, Manel Cruz e Arnaldo Antunes seriam alguns dos cúmplices seguintes.

M. Ferreira: O «Problema de Expressão» foi a primeira canção a ser conhecida e a primeira que as pessoas disseram que era «a sua» canção. Isso foi muito fixe de começar a ouvir.

P. Rito: É um clássico! Já temos clássicos do cancioneiro! (risos de todos) Nas audições do Factor X, há sempre uma música dos Clã.

M. Azevedo: De repente as pessoas vinham dizer-nos: declarei-me com esta canção, esta é a canção do casal... Percebemos que fazíamos parte da vida das pessoas através das canções.

H. Gonçalves: Às vezes até assusta a dimensão que as canções podem ter para as pessoas; para nós, não têm o mesmo peso. Ou seja: há um momento na criação em que descobres a canção. Há um dia em que faço a música, junto a letra e penso: está aqui uma canção forte. Mas a partir daí é quase só trabalho. Como é que eu ponho isto para as pessoas poderem ouvir e perceber da melhor maneira? É emocional, mas técnico e analítico também. Nós nunca temos noção do impacto que as coisas podem ter nas pessoas, ou porquê. Às vezes perguntam-nos: «porque é que não fazem uma canção como aquela?». Não é possível tanto que as pessoas, às vezes, não reconhecem o valor das canções. Quando eu fiz o «Problema de Expressão», nas maquetes, não houve ninguém da agência, da editora, dos meios que dissesse: «esta é que vai ser a vossa grande música!». É uma coisa da nossa história: sempre nos disseram «este disco é bom, mas não tem uma música como o "Problema de Expressão"». Quando o Lustro teve músicas famosas, diziam: «Este disco é bom, mas não tem "O Sopro do Coração"». Mas já ao segundo disco nos diziam que não tinha uma música como o «Novas Babilónias», uma mais calminha do primeiro, que tínhamos tocado bastante.

Carlos Tê (letrista, desde o primeiro álbum): É esse o milagre das canções. Elas são apropriadas por quem as ouve até se tornarem outra coisa. Há um filme chamado As Canções, dum cineasta brasileiro que morreu [recentemente], o Eduardo Coutinho, onde isso é comoventemente notório: ele fez um casting de rua no Rio de Janeiro onde pessoas comuns falavam depois num estúdio, perante a câmara, da canção da sua vida. Era brutal o modo como elas se reviam naquele pedacinho de literatura oral com uma melodia. A cereja no topo do bolo era cada uma delas cantá-la no fim, à capella, em jeito de banda sonora da sua vida, como se estivesse num palco íntimo e grandioso, como se a canção fosse uma prece ao santo da sua devoção. Quanto aos Clã, no primeiro disco eles tinham canções já com letras avançadas, limitei-me a dar um jeito nalgumas e a encaminhar outras no sentido de as tornar mais ágeis. A questão da liberdade não se punha, as ideias resultavam ou não em canções cujo resultado agradasse tanto a eles como a mim.

H. Gonçalves: Não haverá muitos grupos como o nosso: dependemos muito dos letristas e não fazemos os nossos próprios textos. Tem de haver uma ligação muito forte e muito verdadeira com as pessoas que escrevem para nós, ou não conseguiríamos defender o que fazemos, nem a Manuela poderia cantar. Daí que a relação com estas pessoas se tenha tornado muito próxima e aberta, no sentido de «isto não funciona, não resulta, vamos fazer outra coisa». De um lado e de outro. O «Problema de Expressão» grande letra, grande canção é um pedaço de uma letra que eu tinha do Tê, que misturei com outro pedaço de letra que o Tê tinha...

C. Tê: O «Problema de Expressão» tinha uma letra em inglês e eu achei que era um tema muito forte, que valia a pena cantar em português. Adaptei uma letra antiga e fomos moldando o todo até se tornar uma canção nova com um significado bem diferente da original, que se chamava «Blues of Change», se bem me lembro.

«ESTRAGAR TUDO»

Depois do crescendo de popularidade com os êxitos de Kazoo e Lustro, acompanhados por incontáveis concertos, os Clã fizeram um disco aclamado pela crítica mas recebido com alguma relutância pelo grande público: Rosa Carne, de 2004, experiência influenciada pela banda-sonora que fizeram para o filme Nosferatu, de 1922.

H. Gonçalves: O nosso único álbum que «vendeu» foi o Lustro. Ultrapassou os 30 mil discos vendidos, penso eu. Não ligo muito a essas coisas, mas na altura foi interessante para nós, pois já estávamos a ganhar as rédeas do palco. Sentíamos que as pessoas já nos seguiam e contávamos com o sucesso das canções são sempre as canções que fazem as bandas. O início do sucesso por causa do Kazoo, o Lustro e a coisa cresce. E depois lançámos um disco muito esquisito e estragámos tudo! (risos)

P. Rito: Acabámos o Lustro, estamos em top, e há que preparar o quarto disco. E aparece o Hélder que nos diz assim: está aqui a fórmula, ou continuamos com isto e a coisa está garantida, ou fazemos uma coisa ao lado. E nós: fazemos uma coisa ao lado! Então fizemos o Rosa Carne, que é um disco de que gostamos muito, mas que é diferente do que vinha para trás e do que as pessoas estavam à espera, diferente do que o mercado pedia. Depois do Kazoo e do Lustro, [os promotores] pensaram: vem aí uma coisa fixe para fechar festivais! E nós tínhamos o Rosa Carne, uma coisa mais calminha. Mas o que é que a gente percebe de mercado? Queríamos era tocar. Então começámos a digressão do Rosa Carne, mas não tínhamos um concerto para festa.

M. Ferreira: Eram concertos mais intensos, mais densos...

M. Azevedo: Ainda por cima o arranque deu-se em semanas académicas. Um concerto como o Rosa Carne, na Covilhã, com o pessoal todo «como o aço», e nós a cantarmos coisas como «Competência para Amar» e «Crime Passional»! (risos) Foi muito difícil.

P. Rito: A crítica recebeu muito bem o disco e as pessoas também. Nós é que teremos tido alguma ingenuidade ao apresentá-lo em sítios e horários errados.

I. Dantas: Nalguns casos até foi um pouco deprimente: ver muita gente [nos recintos] e chegar a meio do concerto e metade das pessoas já ter ido embora. As pessoas não percebiam bem o Rosa Carne, não eram as canções de que estavam à espera. Em Lisboa e no Porto as coisas correm bem, mas quando vais para a província é mais duro. As pessoas querem é pular e cantar nas festarolas! O público, em geral, não gosta muito de se dar ao trabalho de estar ali a apreciar, é mais o contrário: divirtam-me! (risos) Em 2005 os Clã já começam a tornar o alinhamento mais aberto, a ir buscar temas de trás.

M. Ferreira: O arranque em teatros correu bem, aí o espetáculo estava perfeitamente ajustado, num ambiente mais controlado, mais dramático.

P. Rito: Se calhar a perceção que temos do grupo não é a perceção que as pessoas têm. Dizem-nos: já vos vi, vocês têm aquele espetáculo. E nós: não, temos vários, aquele [como o de apresentação de Rosa Carne no Olga Cadaval, em Sintra, registado em DVD] é que foi! O concerto pelo qual as pessoas mais nos conhecem é aquele piloto automático, e os que mais valorizamos, e alguns até gravámos, são os espetáculos especiais, como os do Olga Cadaval ou o do Baile dos Vampiros [no Fantasporto], onde tocámos o «Thriller» do Michael Jackson e o «Beautiful People», do Marilyn Manson.

M. Azevedo: E o Nosferatu, que foi um desafio arriscadíssimo, lançado pela Porto 2001, Odisseia nas Imagens. Para nós, foi uma oportunidade incrível de fazer música de forma muito diferente. Termos como público não as pessoas, mas uma tela, e estarmos a servir música para aquela tela. O filme é extraordinário e, como [o nosso espetáculo] correu muito bem, pudemos levá-lo a outras salas do país. Foi sempre uma confusão para conseguir arranjar a película, que vinha da Alemanha e era sempre diferente...

P. Rito: Havia momentos na música que tinham de coincidir com o gesto da personagem ou uma mudança de plano.

H. Gonçalves: A banda sonora não era uma coisa ambiental, não era improvisada, estava tudo escrito ao milímetro. Qualquer frame diferente no filme era um tempo que ia à vida na partitura e depois tínhamos de compensar noutro sítio qualquer.

M. Ferreira: Nas palavras do Carlos Tê, o Hélder não saiu direito do Nosferatu! (gargalhada geral)

M. Azevedo: É a maldição do Nosferatu! (trauteia melodia)

M. Ferreira: A partir do Nosferatu começou a ficar mais denso e tinha de sair o Rosa Carne, uma coisa mais orquestrada.

P. Rito: Somos um grupo pop-rock habituado aos tempos certos, e no Rosa Carne era assim: esta música não tem tempo. «Toca azul!». Em termos de intensidade, aprendemos muito. Fico muito contente por fazer parte deste grupo, porque nunca há mais do mesmo. Há grupos como nós, com mais de 20 anos, que fazem discos como quem segue uma fórmula.

M. Azevedo: Acho que nem é tanto cumprir fórmulas, é mais cumprir expectativas, e essa necessidade, de facto, não sentimos. Quem gosta da banda também fica à espera do próximo disco para ver o que vamos fazer, e não para encontrar a nova versão do «Problema de Expressão».

P. Rito: As editoras de que nos livrámos sempre tiveram essa postura: têm a perspetiva do último, nós não!

M. Azevedo: Mas temos de fazer justiça à EMI, que foi sempre a nossa editora. Sempre tivemos uma grande liberdade criativa, nunca nos disseram que certo disco estava mal e que era preciso refazê-lo. A única vez que tivemos uma discussão desse género, no Rosa Carne, com o David Ferreira, que respeitamos imenso, ele disse-nos: «não achamos que este seja o disco que deviam lançar. Deviam esperar, compor mais canções. É um disco muito difícil. Vocês vêm do Lustro, que é um disco cheio de canções importantes e marcos da vossa carreira, deviam repensar». Nós pensámos e argumentámos: escrevemos-lhe um email longuíssimo, com todas as razões por que achávamos que o Rosa Carne tinha de sair assim como estava, e ele respondeu: muito bem, aceito a vossa argumentação e vamos fazer por este disco o melhor que podemos fazer. É preciso render-lhe justiça: não é fácil encontrar esta abertura numa editora, ainda por cima numa multinacional que, na altura, já começava a sentir a pressão da quebra do mercado discográfico.

M. Barreiros: O Rosa Carne é um disco maravilhoso, que teve a infelicidade de ser engolido pelos Humanos, que saem passados seis meses, com uma música muito mais imediata. Eu tive muita pena, porque o Rosa Carne precisava de tempo, de se ouvir, precisava que não houvesse mais nada para ganhar corpo. O público não teve tempo para digerir o disco: a «Competência para Amar», com aquele arranjo de cordas do Laginha, não é uma música fácil. Tens de a ouvir umas 50 vezes para dizer: «isto é fantástico!».

Clã e Sérgio Godinho

Clã e Sérgio Godinho

TODA AS AFINIDADES

Em 1998, adensa-se a ligação entre os Clã e Sérgio Godinho, com o espetáculo Afinidades, mais tarde transposto para disco. Até hoje, a colaboração mantém-se a vários níveis, com Godinho a escrever com frequência para a banda (nomeadamente no disco novo, onde assina três letras) e Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo a trabalharem com o homem de Ligação Directa em projetos como Caríssimas Canções. Com Regina Guimarães, Adolfo Luxúria Canibal e John Ulhôa, dos Pato Fu, os Clã alimentam relações quase tão umbilicais e de respeito mútuo.

M. Azevedo: O Sérgio é um grande parceiro em várias vertentes. O nosso envolvimento com ele começou no Afinidades e houve muita coisa que aprendemos com ele na construção desse espetáculo, não só sobre o repertório dele, mas sobre a forma de ele ser, muito natural e muito tranquilo. Estávamos a trabalhar com alguém com o nome e o peso que ele já tinha na altura e nunca houve aquela sombra de ele ser «o senhor Sérgio Godinho» a trabalhar com os novatos. A sua postura, de alguém que já fez tanto na música e mesmo assim continua atento a tudo, é estimável. No novo disco, as letras são prova dessa procura de novas linguagens e de escrever de forma diferente para as canções que lhe propusemos.

Sérgio Godinho (letrista, colaborador): Na Expo 98, houve um ciclo chamado Afinidades, de mulheres cantoras com um convidado especial. A Manuela foi convidada a nível individual, mas só lhe fazia sentido dar [o concerto] com os Clã, e não lhes fazia sentido convidarem-me só para duas cançõezinhas. O projeto deles foi mais ambicioso, e ainda bem. Fizeram uma espécie de vistoria geral às minhas canções: uma long list e depois uma short list, e propuseram não só que eu participasse ativamente nesse espetáculo, como cantarmos coisas deles. No meu repertório houve escolhas deles que eu achei curiosas, como o «O Baú de Sigmund Freud», que eu nunca tinha praticado muito ao vivo. E sobretudo houve uma atitude que tem muito a ver com o Hélder, que é o líder incontestado da banda, além de ser o compositor: ele tem uma atitude pessoal e renovada perante a canção, não faz só uma cover. Houve uma altura em que se dizia que as canções do Sérgio Godinho só podiam ser cantadas pelo Sérgio Godinho. E eu achava que só era preciso não interpretar da mesma maneira. Com o Afinidades, deu-se uma primeira destruição desse mito que eu achava fatela. A partir dessa aventura na Expo, que correu muito bem, demos concertos noutras cidades, e acabámos no Rivoli, com quatro datas esgotadas, de onde saiu a gravação do disco. Desde então houve colaborações minhas com os Clã, com o Hélder como compositor, primeiro com o «Sopro do Coração», que é uma canção que continuo a achar especial. O Hélder deu-me quatro músicas e eu disse logo: eu quero esta!

H. Gonçalves: Podes ter uma boa letra, que depois encaixa muito mal fonética e metricamente. Fica uma coisa horrível. Ter a letra certa para a música certa e conseguir dizê-la da maneira certa [não é fácil]. Quando ouves parece tudo normal, mas foi tudo trabalhadinho para encaixar naquele pedacinho certo. A ideia é que tu ouças e não sintas que há ali uma palavra metida a martelo, uma tónica fora do sítio. Quando fazemos alguma coisa «fora», tecnicamente, até achamos graça. Como no «Sopro do Coração», cujo refrão a dada altura diz «o que foi-do». Rimar «doido» com «foido» é brutal!

JOGOS DE CINTURA

Como reação à opulência de Rosa Carne, os Clã lançaram, em 2007, Cintura, que descrevem como «físico, solto, despreocupado, luminoso», e em 2011 Disco Voador, feito a pensar nos «supernovos». No primeiro, Adolfo Luxúria Canibal, que já em Kazoo cantara «Cáuboi Solidário», e o brasileiro Arnaldo Antunes deram «à pena», no segundo Regina Guimarães aprofundou e diversificou o trabalho encetado no libidinoso Rosa Carne.

M. Azevedo: Começámos mal a nossa história com o Adolfo (risos). Logo no primeiro disco, fizemos uma entrevista onde um dos temas é como comunicar com estranhos. Estávamos nós a dizer que funciona de forma diferente com cada artista, e demos um exemplo se o Adolfo insulta o público (tínhamos visto os Mão Morta na Queima, onde ele disse «levais porrada da polícia e ainda vos estais aqui a rir!»), o Nel Monteiro tem outra forma de comunicar, mas ambos conseguem fazê-lo. Foi nesse sentido que [os comparámos], o que deu origem ao título «Mão Morta é um bocado como Nel Monteiro». Imagino que o Adolfo e o resto do pessoal não gostaram de ler isso. Mas passados muitos anos encontrámo-nos com ele e pudemos pôr as coisas em pratos limpos. O Adolfo é uma criatura incrível e um escritor extraordinário, é uma honra termos as letras que temos dele.

Adolfo Luxúria Canibal (letrista, colaborador): Já escrevi para várias pessoas, mas os Clã têm um feedback muito preciso, o que leva a alterações quer na música, quer na letra. A primeira letra que fiz (para «Fábrica de Amores») disseram-me que era muito seca, e eles sentiam a música como uma coisa mais húmida. Alterei-a completamente nesse sentido. A coisa é democrática mas o mais relevante não é isso: é eles terem uma noção muito precisa do que querem. A maior parte das pessoas aceita as letras sem pestanejar, não tem um espírito crítico como os Clã. Eu gosto dessa postura de saberem exatamente o que querem e não aceitarem outra coisa.

H. Gonçalves: Quando o Adolfo mandou a letra do «Crime Passional», no Rosa Carne, a música era muito rápida e rock. Ao ver a letra dele, mudei a música completamente. Mantivemos algumas coisas da melodia original, mas com um ambiente totalmente diferente.

M. Azevedo: A Regina Guimarães [escreveu no Rosa Carne] e no Disco Voador. Convidámo-la para este por ela escrever para crianças há já algum tempo, de maneira muito inteligente e irreverente. Não queríamos uma escrita levezinha e delicodoce, queríamos alguém que tratasse as crianças como iguais, como criaturas de respeito que têm de ser. Tem de se fazer coisas que mereçam a inteligência delas, que é afiada.

Regina Guimarães (letrista): Foi determinante a Manuela estar grávida quando nos encontrámos «ao vivo» pela primeira vez. Foi determinante a minha filha mais velha estar grávida e eu estar na expectativa de ser avó pela primeira vez. Uma torrente de felicidade «o paraíso é preciso / aqui e agora / dentro e fora» [letra de «Gordo Segredo», dos Clã] jorrou dessa dupla circunstância. Esperar um filho ou reviver essa situação é como que experimentar intensamente um desejo de fraternidade universal. De súbito, torna-se claro que ninguém pode ser feliz independentemente do desejo comum e inadiável de um outro mundo. Por outras palavras: resgatar o Éden. [Quanto à colaboração em Disco Voador], acho que sou muito velha e tenho sido pouco adulta. Acredito que todas as grandes questões metafísicas, sociais, afetivas, etc já passaram pela cabeça de uma criança aos cinco anos de idade. De uma forma diferente daquela que os adultos adotam, é certo... Foi esse o meu ponto de partida.

M. Azevedo: Com o Arnaldo Antunes não são só as parcerias, calhámos mesmo bem. Há uma grande afinidade humana com ele, um grande entendimento. É uma pessoa muito generosa e tem uma forma de estar muito franca. O John Ulhôa e a Fernanda Takai, dos Pato Fu, também à distância, inspiram-nos igualmente essa simpatia e empatia.

John Ulhôa (letrista): Foi um jornalista português que nos apresentou, há mais de 10 anos. Dizia que era uma banda com um trabalho que se aproximava do nosso (dos Pato Fu), em termos conceptuais e até na formação. Descobrimos que era verdade, e descobrimos também mais um tanto de coincidências que acabaram por nos aproximar mais e mais. Recebi deles o convite para escrever uma letra enquanto gravavam o Rosa Carne, e daí saiu «Carrossel dos Esquisitos». Senti-me honrado, pois sempre tive a clara noção de que cuidam muito das letras, são via de regra de grande qualidade e é um desafio estar à altura dos grandes letristas com quem sempre trabalham. [No Rock in Rio Lisboa 2008] demos um show muito bom com eles, eles tocaram versões de músicas dos Pato Fu! Em São Paulo pude assistir ao seu concerto com calma, e vê-los em ação diante de uma plateia que quase não os conhecia impressionou-me. São muito carismáticos e fizeram uma apresentação incrível, conquistaram o público inteiramente. O que sei é que os Clã fizeram-me gostar da música pop cantada com sotaque de Portugal, fizeram-me interessar por outras coisas vindas daí, e sou grato a eles por isso. Além de que a Manuela é uma cantora fenomenal, uma das melhores do mundo. Tudo aquilo que tem de voz... somada a uma incrível presença e expressão.

A. L. Canibal: A Manuela extravasa-se completamente, transforma-se quando interpreta uma canção e sobe a um palco. A Manuela do dia-a-dia não é a mesma pessoa que está em cima do palco, onde ganha uma dimensão enorme.

2014, ODISSEIA NO DESCONHECIDO

Em março, os Clã lançam o sétimo álbum de estúdio. A edição será independente e, aquando da nossa visita, conhecíamos apenas o single «Rompe o Cerco» e o elenco de letristas, no qual Nuno Prata e Samuel Úria se juntam aos «suspeitos» do costume. A incerteza do mercado preocupa a banda, que no entanto se diz preparada para qualquer adversidade, na sequência do historial de luta que já vai levando.

P. Rito: Para o pessoal mais alternativo e indie, somos um grupo muito careta e fatela, mainstream. Para o pessoal mais mainstream somos um grupo muito esquisito; estamos sempre num limbo a que achamos graça. Agora somos completamente indie, porque este disco vai ser lançado por nós!

M. Azevedo: Foi muito bom ver que o Samuel Úria e o Nuno Prata funcionam como Tê ou o Arnaldo: têm aquela generosidade de estarmos à vontade, de um lado e outro, de dizermos que não gostamos. O Nuno é muitíssimo talentoso, escreve canções incríveis e a letra que escreveu para uma das canções deste disco é maravilhosa. O Samuel Úria é um cavalheiro, um rapaz que nem parece deste tempo! Escreveu duas letras, uma é das minhas favoritas do disco, «Canção de Água Doce» um casamento perfeito entre música e letra. Fez ainda uma letra muito divertida, «Zeitgeist», para uma música mais feérica. Foram o sangue novo que veio para este disco.

Samuel Úria (letrista): É impossível esquecer [a primeira vez que vi os Clã], e o mais memorável nem foi o facto de ter havido moche e biqueirada durante a «GTI» e na cover que eles tocavam dos Rolling Stones. Não, o que levo desse concerto de Tondela, julgo que em 1998, foi o crush inevitável que contraí pela vocalista. [Quando me convidaram a escrever para eles], não houve qualquer tipo de instrução, mas houve uma coisa bem melhor, que foi a franqueza. Foi-me concedida toda a liberdade para criar, mas também estabelecemos que haveria toda a liberdade para criticar, sugerir alterações ou recomeços, decidir não utilizar.

R. Guimarães: [Ouvir as minhas palavras cantadas por outros] pode ser empolgante. Todos temos a secreta vontade de nos vermos despojados do que possuímos ou julgamos possuir. Para os «letristas», isso acontece de maneira concreta e palpável. Por isso são belas as cantigas, é belo cantar e ouvir cantar. Desprivatização do íntimo sem sombra de violação. Experiência do comum.

S. Úria: A simpatia de todos eles arrebatou-me para além das admiráveis qualidades musicais. Por isso vai sempre parecer-me insuficiente se eu os resumir à banda que junta o melhor tecnicismo com extremo profissionalismo e talento puro. Essas últimas características já são ingredientes que bastem para pensarmos numa banda de sucesso, mas aquilo que resulta nos Clã não é só uma mistura aleatória de tão bons elementos. Há qualquer coisa que liga tudo, e eu só posso achar que se trata do entusiasmo com que fazem música passados todos estes anos.

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2014