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Ornatos Violeta: uma chaga para lembrar que há um fim

Entre 1991 e 2001 foram uma “esponja” que absorveu uma mistura caudalosa e absurda de géneros musicais. Deixaram dois discos e separaram-se quando começavam a tornar-se populares. Antes de anunciada a reunião de 2012, o vocalista Manel Cruz contava-nos por que razão decidiu a banda do Porto acabar

Queima das Fitas do Porto, maio de 2001. Numa noite chuvosa, estudantes e não estudantes acorreram em massa à festa académica da Invicta, atraídos não só pelo folclore do costume o jornal BLITZ dava apenas 3/10 ao «espírito» desta edição da Queima como pelos concertos.

Era segunda-feira e o palco foi estreado pelos The Gift, então em promoção do álbum Film. Seguiram-se os Ornatos Violeta, «interrompendo as férias após a extensa digressão de O Monstro Precisa de Amigos», reportava o BLITZ, para «comemorar os dez anos de carreira iniciada, em palco, em março de 1991». O ambiente, contudo, estava longe de festivo: na primeira fila, os fãs seguravam cartazes onde se podia ler «Não quero ver o fim chegar», uma frase da canção «Tempo de Nascer», incluída na compilação Tejo Beat, de 1998, e agora recuperada no disco de inéditos e raridades que acompanha as reedições dos dois álbuns dos portuenses. O alinhamento trouxe, também, alguma fuga à norma, com uma versão de «Breakin' Up», dos Violent Femmes, a enevoar ainda mais a mente dos espetadores («breakin' up it's easy to do», cantava Manel Cruz, num idioma que não era seu apanágio). Iriam os Ornatos Violeta separar-se, tal como indicavam os rumores das últimas semanas? «Isso nunca foi revelado à imprensa», disse o vocalista dos Ornatos, no desmentido com que abriu o serão.

Contudo, este espetáculo na Queima do Porto seria mesmo o último grande concerto da banda de Cão!, que decidiu separar-se numa altura em que começava a ganhar um fôlego diferente. «O Monstro vendeu em três meses o dobro do [Cão!] em dois anos e tal», congratulava-se Elísio Donas, teclista e responsável por vários arranjos do grupo, em entrevista, meses antes. Durante anos, as razões do fim dos Ornatos Violeta, uma banda que, atualmente e graças a uma geração que tê-los-á descoberto na internet, parece ter mais fãs do que nunca, não foram explicadas. Com a reedição de Cão! e O Monstro Precisa de Amigos, Manel Cruz, vocalista, letrista e figura de culto, abre o livro e mostra que muitas das chagas abertas pelo fim da banda começam, agora, a sarar.

Do cabaré ao melodrama rock

Fundados em 1991 no Porto, por um grupo de amigos e colegas na Escola Secundária Soares dos Reis, os Ornatos Violeta percorreram, ao longo de pouco mais de uma década, um percurso rico em guinadas e experiências. Ler as primeiras críticas a concertos do grupo é encontrar referências ao «west coast rock dos anos 60 (Doors, Love), swing, Jorge Palma, Violent Femmes ou rhythm and blues» (jornal A Capital, maio de 1993) ou a um «espetáculo de cabaré, onde Kurt Weil se encontra com a plebe e alguns bêbados, boémios e divertidos, como numa sessão de poesia beatnick descomprometida, numa cave parisiense transportada (...) para uma sebosa noite de província» (BLITZ, sobre um concerto na Gesto, no Porto).

Não reconhece nestas palavras os Ornatos de «Ouvi Dizer»? É normal, explica Manel Cruz. «Nós sempre fomos muito permeáveis e muito esponja das coisas. Às vezes até demasiado, mas faz parte do processo criativo das coisas: pões a hipótese de fazer tantas coisas que fazes coisas que não têm nada a ver contigo. No percurso dos Ornatos há coisas muito díspares; muitas delas as pessoas felizmente nunca conheceram», confessa, entre risos. «A nossa identidade passava muito por uma falta de identidade muito vincada. Entusiasmávamo-nos com muitas coisas díspares e éramos muito inconstantes. Associado ao facto de sermos muito amigos, as coisas pendiam para o lado da diversão. Tudo isso misturado leva a que experimentes muita coisa. Embora tenhamos tido uma peneira, as coisas foram sempre muito diferentes».

Antes do primeiro álbum, lançado em 1997, os Ornatos não eram os melhores instrumentistas («Temos um CD-ROM com a gravação do nosso primeiro concerto que explica muito bem porque é que demorámos seis anos a lançar o primeiro disco», ilustravam ao site Voxpop em agosto de 2000), mas não diziam não a quase nada. «Nós nunca dissociávamos aquilo que ouvíamos do que fazíamos», esclarece Manel Cruz. «Quando nos entusiasmávamos com o que ouvíamos, íamos experimentar aquilo à nossa maneira, e isso dava aqueles mutantes».

Basta ouvir «Dez Lamúrias Por Gole», lançada em 1995 numa compilação da revista Ritual e agora incluída no CD extra das reedições, para sentir essas doses equilibradas de paixão e ingenuidade, sofreguidão e talento. Por esta altura, os Ornatos ganhavam o prémio de originalidade do Rock Rendez Vous e passeavam-se por França, nomeadamente Montpellier e Nimes, onde se deixaram arrebatar pelos sons do ska, muito presentes, mais tarde, em Cão!. Em palco, a presença de Manel Cruz já se fazia notar. «Acho que me lembro mais da ilustração do que era a minha cabeça nessa altura», recorda o cantor, alertando para a reconstrução a que se sujeita a memória humana. «É difícil imaginar o meu nervosismo na altura e o nervosismo que tenho agora, que prendem-se com razões diferentes, com medos diferentes. Mas tenho imagens dos sítios, de coisas que fiz e coisas que senti, e parece-me muito tempo», reflete. «Nós vivíamos as coisas muito intensamente, muito rápido, então vivíamos muita coisa num curto espaço de tempo. Dois anos, para nós, era uma eternidade».

Rita Carmo

Cuidado com o Cão

Quando o primeiro disco saiu, os Ornatos já não eram a banda de outros tempos. «Agora o nosso som é muito mais rock. Estamos menos adocicados e pop», resumia Elísio Donas em entrevista ao Sons, em 1997. E, apesar do impacto no cancioneiro nacional e nos primeiros nicks da internet portuguesa de músicas como «Punk Moda Funk», «Mata-me Outra Vez» ou «Dama do Sinal», Cão! não foi um sucesso de vendas.

O percurso discreto do álbum nas tabelas de vendas não desmoralizou aquela que era considerada «a next big thing da [editora] Polygram». «Uma pessoa quando está fechada num projeto e está cheia de si acaba por se aproximar demasiado do quadro e por se esquecer que toda a gente tem uma vida, que vê e ouve muita coisa e tem muita coisa para fazer durante o dia. E as coisas levam o tempo que têm de demorar, e ninguém é burro», relativiza Manel Cruz. «Não me lembro de ficarmos muito parados aí, porque o processo é assim com todas as bandas: elas vão andando e lutando, com um certo orgulho de terem ali uma coisa especial em que as pessoas ainda não notaram», explica. «Nós sabemos que nós é que temos de nos esforçar por fazer coisas boas, não são as pessoas que têm de esforçar-se por gostar daquilo que nós fazemos».

E esforço não faltava aos Ornatos, sobretudo em palco, com a banda a colocar todo o seu empenho em atuações eminentemente físicas e teatrais. «Eu não berrava é muito raro eu dar um berro mas a voz era sempre lá em cima», lembra Manel Cruz. «Embora houvesse dinâmicas, tinha uma abordagem um bocadinho narrativa, e por isso acabava por preencher as músicas todas com a voz», diz. «Lembro-me de o facto de dar concertos seguidos ser um problema. E estava num processo de aprendizagem ainda estou, mas na altura estava mais em relação a cantar e à respiração. Se começas a atacar mal o concerto, a atacar mal a voz.... Essa gestão, quando és mais novo, não a fazes tão bem. Também acabas por te deslocar mais em palco e a intensidade com que eu vivia as coisas fazia com que acabasse os concertos sempre num fanico».

A quantidade de gente na plateia aumentaria dois anos mais tarde, com a chegada de O Monstro Precisa de Amigos. Com um título inspirado num sonho de Manel Cruz, o segundo álbum dos nortenhos valeu-lhes um culto, se não muito numeroso, bastante fiel. «Começámos a sentir que tínhamos um público», diz Manel Cruz. «Quando dávamos um concerto tínhamos pessoas que cantavam as nossas músicas, que estavam lá sempre e iam falar connosco». A crítica rendia-se, também, a um disco mais negro que o seu irmão mais velho (a banda falava em «dor de corno», em entrevista à Fórum Estudante) e marcado por certas tendências mais sinfónicas e até orquestrais (o conjunto de cordas Corvos participa nalgumas canções).

«Se quisermos ser otimistas, poderemos pensar que os Ornatos Violeta reatam, por fim, uma atitude de aproximação e simultâneo alheamento ao quotidiano, que se julgava perdida desde os GNR», escrevia o Expresso, em novembro de 1999. No mês seguinte, o BLITZ também não poupava elogios ao Monstro, mais tarde galardoado com várias estatuetas nos prémios do jornal.

Lembrando que «a pista mais importante» para perceber este disco era não o seu antecessor, mas sim «Tempo de Nascer», «a balada deliciosamente épica (...) que mostra como os Ornatos não [são] somente um combo de pop-jazz-ska-cabaré», a crítica do BLITZ vaticinava: «Os Ornatos Violeta são uma das pouquíssimas bandas nacionais com a noção da amplitude que é possível extrair de uma melodia pop. Num mundo decente, cada canção de O Monstro Precisa de Amigos daria um single. 13 singles, um por mês e mais um, um ano inteiro a meter conversa com este disco. O amor precisa de canções».

O Monstro não teve, naturalmente, 13 singles, mas sim três: «Ouvi Dizer», que a banda apresentava como inspirada no nacional-cançonetismo («Antes de a música ter nome dizíamos entre nós que era a que tinha um arranjo tipo Roberto Carlos», revelavam ao Expresso em 1999); «Chaga», nascida de forma «intuitiva», nos ensaios, de um riff do guitarrista e compositor Peixe, e «Capitão Romance». Se «Ouvi Dizer», contava com a voz bem colocada de Vítor Espadinha no papel de «grilo da consciência», «Capitão Romance» era um dueto entre Manel Cruz e Gordon Gano, vocalista dos Violent Femmes, a banda favorita dos Ornatos. «É a primeira banda que conheço em que não há um único músico que não goste de nós!», espantava-se o líder dos norte-americanos, que insistiu em cantar as suas deixas em português. Música brasileira, italiana e até cabo-verdiana: a todas estas coordenadas já foi comparada «Capitão Romance», uma das canções mais emblemáticas dos Ornatos, marcada pelo som do bandolim tocado por Peixe e pelo tom agridoce da melodia. «É uma música simultaneamente triste e alegre. Melancolia, é isso. Ele [Gordon Gano] disse num «faixa a faixa» com o Público, em 1999: «Relata o encontro de uma pessoa com ela própria num bar, em que ela está aborrecida e contente. É um diálogo único entre sentimentos diferentes. Um debate entre duas identidades. Uma tensão. A dualidade interior está presente um pouco por todo o álbum».

Espelho meu, quem sou eu?

Não era só no disco que a tensão se acumulava. Elogiado em estúdio e nos palcos (as reportagens dos concertos na Aula Magna e nas Noites Ritual Rock, em 2000, falavam em «deslumbramento», «histeria» do público e numa banda que estendia a mão «para tocar nas estrelas»), Manel Cruz sentia dificuldade em «materializar» o novo estatuto. «É sempre difícil, sobretudo para quem ainda está num processo de descoberta. Se tu entre risos. «Quando estás num processo de aprendizagem lata, podes ter uma ideia do que estás a fazer, num momento, e mais tarde, com o distanciamento, tens uma ideia completamente diferente. Mas naquele momento não estás só a trabalhar a ideia, estás a trabalhar-te a ti próprio. Nesse momento, eu sentir-me-ia aldrabão se me colocasse numa determinada postura ou lugar que não tinha. Não me sentia nada em concreto: sentia-me uma coisa muito dispersa em termos criativa».

A longa digressão do Monstro (quase 70 concertos) também causou desgaste: «Vives quase um Big Brother na estrada, porque acordas e não estás em casa, vais dar um concerto e se calhar apanhaste uma bebedeira na noite anterior. Quando sabes lidar com as coisas, até é muito fixe, essa decadência», ri-se. «Mas quando estás com os teus dramas existenciais tornase uma cena labiríntica». Manel Cruz não nega ter tirado prazer dos concertos que tanto agradavam aos fãs: «O próprio sofrimento que tinha em palco por estar a sentir uma coisa deste género também é dinâmico e gera coisas, e é mais honesto do que uma pessoa se estar a borrifar. Nunca senti que tenha defraudado alguém; no fundo, quando subíamos ao palco, dávamos o litro! Até me lembro do Mário Pereira, que era o técnico de som, dizer-me muitas vezes: não te esqueças de curtir. Só mais tarde percebi o que ele queria dizer, quando consegui voltar a tirar prazer dos concertos e lembrar-me como é bom estar em cima do cavalo e não estar só a tentar agarrar-me ao cavalo».

Questões existenciais («Acredito que tive muitos excessos nesse sentido», admite), mais «o assédio à banda e a questão do dinheiro» e consequentes discussões «mesquinhas» começaram a abalar, então, a banda. «Esqueceu-se aquilo que era essencial nos Ornatos: aquilo que nos fazia rir e fazer música», lamenta Manel Cruz. «Quando as coisas começam a transcender-me e eu não tenho mão nela, tenho tendência a bloquear. Podíamos ter sido mais razoáveis nas nossas discussões», concede. «Às vezes estás naquela de convencer o outro mas, no fundo, não estás assim com tanta vontade de abdicar e encontrar um consenso, é mais um vício de discussão: uma coisa que já não tem volta».

Com vista a preservar a amizade de sempre, que ainda se mantém («Todos nós nos adorámos!», resume), os Ornatos acabaram, para desgosto de uma falange de fãs que, hoje, seria bem maior. Sobretudo para esses, a banda poderá voltar a reunirse por uma noite. «De há uns meses para cá temos vindo a falar sobre fazer um reencontro, porque há muito que as pessoas [no-lo pedem]. Para todos os efeitos, gostava de encerrar o capítulo e, ao mesmo tempo, de dar às pessoas que nunca nos viram um concerto de Ornatos. Acho que vou simplificar um bocado isto e fazer feliz muita gente, incluindo eu, porque também ia gostar de dar um concerto». Mas alerta: «É uma coisa que vai bulir com muitas emoções e que me dá medo. Pelo tempo todo que passou, sempre que eu penso nessa hipótese fico acagaçado como o carago. Uma das coisas que me faziam não querer dar o concerto é não querer, de repente, estragar uma história bonita. Pensei sempre: acabou, acabou. Depois surgiu a ideia de fazermos os concertos só de celebração, uma coisa concentrada num período de tempo, e estamos a pensar nisso».

Com uma miríade de projetos pós-Ornatos (os Pluto, o disco-livro Foge Foge Bandido, os Supernada, que se estreiam em disco em 2012), Manel Cruz nunca esqueceu os Ornatos Violeta, mesmo que, quando a banda e as discussões acabaram, tenha sentido um grande «alívio». A propósito das reedições, uma «proposta da editora» que, a seu ver, não é mais «do que uma oportunidade de comprar o material todo que editámos e levar umas músicas de bónus», o músico e ilustrador voltou a ouvir Cão! e O Monstro, e a reação do seu corpo não deixa margem para dúvidas. «Eu emociono-me!», exclama, algo espantado. «Mas emociono-me mesmo. É estranhíssimo. Deve ser o meu lado sentimentalista a atuar, porque fico meio a tremer, emocionado e com as lágrimas nos olhos. Há músicas de que gosto mais, outras menos, mas aquelas de que mais gosto estão carregadas de experiências e coisas».

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2012