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Debaixo da Língua n'O Sol da Caparica: “Escrevo com música de Bach”, revela Valter Hugo Mãe

A propósito de mais uma edição do festival Sol da Caparica, Rui Miguel Abreu volta a puxar pela língua de uma série de artistas que fazem música com as as palavras que todos entendemos

Valter Hugo Mãe é uma das mais reconhecidas vozes literárias da sua geração e um autor que sempre procurou a música que há nas palavras tendo uma relação próxima com essa arte – entre tantas outras coisas, escreveu, por exemplo, para os Mundo Cão. Na conversa mantida para o projecto Debaixo da Língua revela algo mais da sua ligação íntima à música.

“Escrevo com instrumentais de Bach, as suites para violoncelo já parecem saber que ando a espiar ideias. Mas grande parte da minha escola de miúdo foi resposta a canções, ou discos inteiros, que me obcecavam”, explica o escritor. “Lembro-me de escrever poemas para The Serpent's Egg, dos Dead Can Dance, coisa que venerava e com que julgava explicar a perfeição. E escrevi muito para traduzir a estranheza dos Current 93 ou da Diamanda Galás. Hoje, sigo a dependência musical procurando entender o universo mais complexo dos clássicos. Adoraria traduzir o que me parece Rachmaninov ou os 40 segundos iniciais da belíssima primeira sinfonia de Brahms.

Num romance chamado O Filho de Mil Homens uso como epígrafe um verso impressionante da Baby Dee: "You can buy me for the price of a sparrow". Um só verso faz desta mulher uma poeta magnífica. E depois a sua voz e a tristeza infinita do seu som atormentam-me. É o que nos distingue enquanto gente, eu sou marcado por estéticas tristes e quando escrevo preciso sempre de lidar com a tristeza, como se sonhasse curá-la”, admite. “A música condena-me muito, por não parar de renovar os modos da tristeza”.