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Rock e violência: uma história escrita com sangue

Há um rasto de morte no rock: nomes como Charles Manson, Beatles e Beach Boys, os Hells Angels e os Rolling Stones, Mark David Chapman e John Lennon - ou, recentemente, Daesh e Eagles of Death Metal - cruzam-se numa sangrenta lista de acontecimentos. Olhamos para as tragédias e apontamos causas e consequências

Em 2011, em Espanha, a polícia interveio quando um grupo de antifascistas atacou um clube pertença dos Hells Angels, no qual decorria um concerto organizado pelo partido de extrema-direita Democracia Nacional.

Essa é apenas uma das entradas numa lista de atividades criminosas levadas a cabo por grupos europeus afiliados dos Hells Angels: na Suécia, 420 crimes violentos são imputados a este grupo específico de motociclistas; cerca de 400 acusações semelhantes levaram a condenações na Noruega; registaram-se mortes às mãos de membros deste clube na Dinamarca; o tráfico de droga na Holanda é diretamente ligado aos Hells Angels pelas autoridades holandesas; o rol de casos criminais imputados a este gangue na Alemanha é igualmente longo. Pode argumentar-se que os mesmos mecanismos de disseminação cultural que levaram o rock and roll a viajar para fora dos Estados Unidos transportaram consigo também o fascínio por outras marcas menos luminosas desta cultura, caso dos Hells Angels, o grupo de motociclistas a quem é atribuído o assassinato de Meredith Hunter durante o concerto livre de Altamont promovido pelos Rolling Stones, em dezembro de 1969.

Os Hells Angels nasceram em 1948, o nome retirado ao de um esquadrão de aviadores americanos posicionados na China durante a II Guerra Mundial, eles mesmos inspirados por um filme de Howard Hughes de 1930, Hell's Angels, que retratava as proezas aéreas dos pilotos da I Grande Guerra. O filme de 1953, The Wild One, refletia, precisamente, a crescente preocupação da sociedade americana com os fora da lei modernos que cruzavam as autoestradas americanas em cima de potentes Harley Davidsons ou Triumphs.

Marlon Brando, que vestiu a pele de Johnny Strabler nesse filme de László Benedek, adotou aí um visual calças de ganga, botas, blusão de cabedal que seria uma influência decisiva em rockers pioneiros como Gene Vincent. Elvis Presley olhou para uma imagem de Brando em The Wild One na hora de «vestir» a sua personagem em Jailhouse Rock.

O período que se seguiu à II Guerra Mundial trouxe uma imensa prosperidade económica à América e dessa prosperidade saiu uma figura inédita na história: o adolescente, com bolsos apetrechados por uma mesada que podia ser gasta em discos, em motas, em roupas. A folga financeira da América na década de 50 alimentou a indústria rock, mas os adolescentes americanos, procurando marcar a diferença em relação aos pais e cavando logo aí a notória «generation gap» que tantos estudos inspirou ao longo das décadas, fizeram de tudo para afirmar uma identidade distinta, inventando aí a figura do «delinquente juvenil» que inspirou, ela mesma, uma longa linhagem de filmes, de Blackboard Jungle, de 1955 (o filme que pela primeira vez fez a juventude portuguesa ouvir rock and roll «Rock Around The Clock», de Bill Haley, fazia parte da sua banda sonora), a Dangerous Minds, de 1995 (o filme com Michelle Pfeiffer de onde saiu o hit «Gangsta Paradise», de Coolio).

Juventude, rock and roll e fascínio com a fuga à lei e às normas impostas pela sociedade dessa mistura explosiva nasceram muitos casos violentos. Aos Hells Angels é atribuída a responsabilidade pela morte por esfaqueamento de Meredith Hunter durante um concerto dos Rolling Stones em Altamont. Simbolicamente, esse evento, que inspirou o documentário Gimme Shelter de 1970, é visto como o ponto final na década de 60 e no sonho de paz e amor professado pela geração hippie. Na verdade, a imagem de harmonia, de cores garridas e de flores que se evoca de cada vez que se menciona o verão do Amor vivido na zona de Haight-Ashbury de São Francisco tem um sombrio reverso de que Charles Manson será o mais óbvio representante.

DE MANSON A ALTAMONT

A história americana é também uma história de violência e a década de 1960 concentra de forma particular muitos dos mais extremos casos desse devir tumultuoso: assassinato de líderes políticos e religiosos John Fitzgerald Kennedy em 1963, Malcolm X em 1965, Martin Luther King, Jr. em 1968 guerra do Vietname, ameaça de destruição global por via de um confronto nuclear entre as superpotências dominantes. Não se pode estranhar, portanto, que o movimento de contracultura nascido entre os campus universitários e os cafés, galerias e salas de concertos professasse uma fuga a essa realidade. A adoção de drogas e o abraçar de práticas de vida e de pontos de vista políticos ou filosóficos alternativos parecia oferecer pontos de fuga a essa cinzenta realidade. Quando Charles Manson surgiu em Haight-Ashbury em 1967, em pleno «verão do Amor», discursando em cafés uma série de absurdas ideias erguidas em cima de alguns conhecimentos de cientologia e satanismo recolhidos em conversas de prisão, a sua personalidade parecia ser suficientemente exótica e fora das normas para conquistar a atenção de umas quantas «crianças das flores». Foi assim que estabeleceu uma seita, a «Family», que haveria de perpetrar uma série de assassinatos entre maio e agosto de 1969, incluindo o da atriz Sharon Tate, na altura à espera de um filho do realizador Roman Polanski.

Manson adquiriu aí um lugar de destaque na mais negra história do rock, não apenas porque era, ele mesmo, um músico com aspirações de uma carreira pop, mas porque travou conhecimento com Dennis Wilson, dos Beach Boys, que chegou mesmo a financiar algumas das suas gravações, e sobretudo porque usou o chamado «Álbum Branco», dos Beatles, editado na reta final de 1968, para sustentar os seus delírios e procurar assim justificar as suas ações.

A canção dos Beatles «Helter Skelter» era mesmo vista por Charles Manson como uma espécie de revelação em código, que só ele poderia entender, de um iminente apocalipse resultante de um confronto racial em larga escala. «Healter Skelter» (sic) foram mesmo palavras escritas em sangue na casa do empresário Leno LaBianca, onde os membros da «família» Manson deixaram mais duas vítimas depois do massacre em casa da atriz Sharon Tate.

As décadas transformaram Charles Manson, ainda a cumprir pena de prisão e recentemente regressado às notícias por causa do romance com uma «fã» de 25 anos, num mito e numa figura de culto. A cultura pop há muito que celebra aqueles que, mesmo por via de crimes violentos, se afirmam como figuras amorais, cartas fora do baralho complexo de que se fazem as sociedades. Dos «fora da lei» dos tempos do Velho Oeste aos gangsters da era da Lei Seca, e daí até às sombrias figuras nórdicas conotadas com o black metal mais extremo, é possível adivinhar uma linhagem de figuras carismáticas que oferecem modelos alternativos de comportamento e de pensamento que podem atrair quem procura fugir das «armadilhas» morais e filosóficas montadas pelas modernas sociedades ocidentais onde as novas gerações acreditam, muitas vezes, estar condenadas a repetir os passos encetados por pais e avós.

Em dezembro de 1969, apenas alguns meses depois dos assassinatos Tate/ LaBianca operados a mando de Charles Manson, os Rolling Stones produziram um enorme evento gratuito na pista de corridas de Altamont, na soalheira Califórnia, cenário da utopia de paz e harmonia erguida pela geração hippie mas, na verdade, palco de sombrios acontecimentos que expuseram a verdadeira natureza de uma sociedade violenta. O concerto contava com um cartaz de luxo, uma espécie de retrato de família de um movimento musical de oposição a uma sociedade que assistia ao desaparecimento de líderes e à escalada de uma guerra fria sem conseguir erguer uma mais sorridente perspetiva de futuro: Santana, Jefferson Airplane, Flying Burrito Brothers, Crosby Stills Nash & Young e, claro, os Rolling Stones, deveriam levar até às cerca de 300 mil pessoas que ali acorreram um vislumbre de uma ideia capaz de sustentar um futuro diferente sem guerras, sem a ameaça de uma aniquilação global por via da força nuclear, sem a ditadura dos mercados, o mesmo futuro imaginado um par de anos depois por John Lennon no «hino» geracional «Imagine». Em vez disso, os Hells Angels, supostamente contratados para assegurarem a segurança em torno dos geradores, por sugestão do management dos Grateful Dead e dos Jefferson Airplane, acabaram por se envolver numa série de confrontos, culinando no esfaqueamento de um membro do público, Meredith Hunter, que terá puxado de uma arma e sido abatido por Alan Passaro, membro do gangue de motociclistas.

Curiosamente, os primeiros assomos de violência entre a multidão terão ocorrido durante a interpretação de «Sympathy For The Devil», tema cujo título ajuda a explicar o sentimento dominante entre a contracultura em relação aos Hells Angels: Hunter S. Thompson escreveu sobre eles, estabelecendo no processo as bases do chamado «gonzo journalism» e diversas bandas procuravam a sua companhia em busca de autenticidade contracultural. Em Flowers in the Dustbin: The Rise of Rock and Roll 1947-1977, James Miller escreve sobre o papel desempenhado pelos Angels no centro da utopia dos anos 60: «desde que Ken Kesey convidou o gangue para uma das suas festas ao ar livre regadas a LSD que os motoqueiros eram vistos como uma espécie de "nobres selvagens", bárbaros, talvez, mas os melhores guardiões possíveis para as portas do Paraíso».

O rock, no entanto, não esteve sempre na ponta da faca ou na mira do revólver. Por vezes, foram os próprios artistas a puxar o gatilho. Casos notórios, além do já citado Charles Manson, são os de Bobby Beausoleil, outro suposto membro da Family, que em julho de 1969 matou Gary Hinman tendo sido condenado à pena de prisão perpétua que ainda se encontra a cumprir. Beausoleil deveria ter sido a estrela de Lucifer Rising de Kenneth Anger e fez parte de uma encarnação primitiva dos Love, de Arthur Lee conhecida, como Grass Roots.

Já na década de 70, na prisão, gravou a banda sonora para Lucifer Rising que Anger entretanto concluiu: The Lucifer Rising Suite, reeditado em 2014, é visto como uma pérola de rock psicadélico e progressivo e é um disco de culto. Partindo do caso recente em que se envolveu Phil Rudd dos AC/DC, que foi acusado de conspirar para matar dois homens, é possível também encontrar outras histórias de gente ligada ao mundo do rock que protagonizou atos de violência, como os notórios casos dos produtores Joe Meek e Phil Spector que inspiraram filmes. Mais sangrenta ainda é a lista de crimes conotados com a subcultura do Black Metal nórdico.

ERA UMA VEZ NA NORUEGA

Os casos associados a bandas como os Burzum, Emperor ou Mayhem assassinato, canibalismo, tortura, etc são notórios e já fizeram correr muita tinta, sustentando até rebuscadas teses de espessura sociológica que olham para as sociedades nórdicas, especialmente para o caso norueguês, como autênticas panelas de pressão graças a um complexo tecido moral e ético que parece sufocar as novas gerações. Numa crítica impressa no New York Times ao documentário de 2008 Until The Light Takes Us, que aborda todo este sangrento fenómeno nórdico, Mike Hale avançou uma possível explicação: «através das entrevistas desenha-se o contexto norueguês frio e obscuro, liberal mas ultraconformista, cada vez mais globalizado em que estes jovens tímidos, inteligentes e educados se começaram a sentir alienados e culturalmente oprimidos».

Daí a reação contra o cristianismo que entenderam como uma força invasora e destruidora de uma identidade ancestral e a consequente queima de igrejas. A sustentar tudo isso estava uma forma extrema de metal, enamorada de uma imagética violenta que levou até às últimas consequências a fórmula pioneira dos Venom, que pegaram no imaginário dos Black Sabbath e o projetaram para um novo patamar que batizaram como black metal. Mas o que nos Venom é uma estética fantasiosa e até descrita por vezes como «cartoonish», em Mayhem ou Burzum era dramaticamente real, com os membros a transportarem para as suas vidas as ideias extremamente violentas que animavam as suas letras.

No fundo, qualquer sociedade ocidental moderna, construída em torno da ideia de trabalho, de obediência moral, de submissão a uma hierarquia seja ela social, política, económica ou militar, pode gerar estes sociopatas. A cultura rock, por ser ela própria uma máquina geradora de mitos, uma plataforma de altíssima visibilidade, é não apenas um berço como um alvo natural para estes ataques. Em 1976, Bob Marley, a sua mulher e um colaborador, foram alvo de um ataque a tiro na sua própria residência, três dias antes de um concerto programado pelo então primeiro ministro Michael Manley para tentar harmonizar forças contrárias num país cuja independência ainda era recente. A motivação deste ataque foi política e Bob Marley foi alvejado por ser, precisamente, um símbolo e uma força conciliadora. John Lennon, por outro lado, apesar de ser um empenhado ativista político, um pacifista convicto, foi assassinado à porta do edifício onde morava em Nova Iorque, o Dakota, sem razão aparente, em dezembro de 1980.

Mark David Chapman, o assassino que hoje conta 60 anos e continua a cumprir a pena a que foi condenado «20 anos a perpétua» viu serem-lhe negados oito pedidos de libertação. O seu caso inspirou inúmeras teorias: tal como Manson afirmou acreditar que as instruções para os seus atos vieram diretamente dos Beatles, Chapman também afirmou ter sido orientado pela leitura de Catcher In the Rye, a obra-prima de J.D.

Salinger que segurava nas mãos quando a polícia o deteve. Alegações de insanidade parecem ser a hipótese mais sólida para sustentar o ato absurdo de Chapman, mas o inédito aqui é o facto de um popular músico rock ter sido vítima de assassinato, quando até aí tais atos eram normalmente dirigidos a líderes das esferas políticas ou religiosas.

O rock and roll como a nova igreja global prestes a chegarmos à era da MTV? O poder do rock na era dos vídeo musicais passou, aliás, a ser tão amplo, tão capaz de mobilizar a imaginação das novas gerações que, como seria de esperar, os guardiões da moral começaram a apontar o rock e a suposta «degeneração» patente nos vídeos como a explicação mais natural e direta para os males do mundo. Quando, em 1999, Eric Harris e Dylan Klebold levaram a cabo um massacre nas instalações do liceu de Columbine, em Jefferson, no Colorado, deixando 13 pessoas mortas e suicidando-se de seguida, Marilyn Manson foi apontado como o responsável (a)moral por essa ação, facto que, segundo o próprio, quase destruiu a sua carreira. Nick Turse, investigador, jornalista e historiador, preferiu ler o massacre de Columbine com outras lentes, atribuindo-lhe uma dimensão revolucionária. Num artigo intitulado «Juventude Radical do Novo Milénio», Turse levantou algumas questões relevantes: «quem não admitiria que aterrorizar a máquina americana, no próprio local onde exerce a sua mais poderosa influência, é uma tarefa verdadeiramente revolucionária? Não ser articulado acerca dos objetivos, ser mesmo incapaz de os compreender, não nega que eles existam. Aprovem-se ou reprovem-se os seus métodos, maldigam-se os assassinos como criaturas sem moral, mas não se atrevam a menosprezar estes radicais modernos como outra coisa que não seja a mais recente encarnação dos insurgentes que não se revêm em qualquer líder político e que travam a continuada revolução americana». Ou seja, mais do que um ataque ao âmago da América, Columbine é um produto da própria América e, embora infundada a sua associação por parte de media sensacionalistas à música e à estética de uma estrela rock em particular, diz muito da incapacidade que as gerações no poder têm de lidar com as ânsias das camadas mais jovens da população, atribuindo tudo o que não conseguem explicar a certas marcas da massificada cultura pop sobretudo a exemplos mais «extremos» de rock ou a videojogos, não entendendo a diferença entre fenómenos geradores de violência e o que apenas a reflete.

Nesse sentido, o festival de rock, cuja invenção recua precisamente aos anos 60 e a eventos como o já referido concerto de Altamont, a Monterey ou, sobretudo, a Woodstock, é uma espécie de versão condensada de uma cultura e de uma sociedade e, portanto, uma espécie de panela de pressão onde tudo pode acontecer. Até mesmo a violência mais extrema.

ROCK, UM ALVO OCIDENTAL

Em 1999, a edição comemorativa dos 30 anos de Woodstock, um festival apresentado como uma celebração de música e paz, ficou manchada por múltiplos atos de violência, incluindo pelo menos uma violação reportada durante um concerto dos Limp Bizkit e outra durante uma apresentação dos Korn, bem como diversos fogos postos que levaram à destruição de torres de som e pilhagem de roulotes de merchandising. Esta explosão de violência num festival de música foi algo de inédito e teve consequências bem mais dramáticas no ano seguinte quando nove pessoas morreram sufocadas no «mosh pit» durante um concerto dos Pearl Jam, no festival de Roskilde, na Dinamarca. Duas décadas antes, em Cincinatti, Ohio, Estados Unidos, 11 pessoas foram esmagadas por uma multidão que procurava entrar num pavilhão para assistir a um concerto dos Who, tragédia que inspirou o livro Are The Kids Alright? cujo subtítulo The Rock Generation and Its Hidden Death Wish é revelador de algumas ideias erguidas em torno do rock e do seu suposto poder de alienação.

Olhando já com algum distanciamento para o massacre do Bataclan, em Paris, no passado dia 13 de novembro, é difícil estabelecer uma lógica para o sucedido. Há no entanto uma espécie de precedente, o ataque levado a cabo pelo ex-Marine de 25 anos, Nathan Gale, durante um concerto da banda Damageplan de Dimebag Darrell, guitarrista que fez parte dos Pantera e que era apontado como um expoente no seu instrumento. Gale atingiu Darrell três vezes na cabeça quando este se encontrava em palco numa sala de Columbus, no Ohio.

Além do guitarrista, os cerca de 15 disparos efetuados pelo ex-militar tolheram a vida de três outras pessoas e deixaram mais sete com diversos ferimentos. Tal como no caso de John Lennon, são muitas as teorias mas nenhuma mais plausível para lá da «loucura», momentânea ou não, do assassino. Tirando o facto de as mortes terem ocorrido numa sala de concertos quando uma banda de rock estava em palco, nenhum outro ponto de contacto pode ser apontado ao que sucedeu na Cidade Luz. O ataque reivindicado pelo Daesh tem sido lido como um ataque ao próprio modo de vida ocidental e pela primeira vez a cultura rock foi um alvo de terrorismo sustentado por supostas motivações religiosas ou políticas.

O rock, ao longo da sua tumultuosa história, tem atraído diferentes atos de violência, refletindo a violência mais vasta em que as sociedades modernas parecem viver imersas. Em muitos destes casos, os assassinos Manson, Chapman, Gale serão sociopatas que viram no rock o alvo perfeito para os seus delírios de poder ou fama. Outros casos, como Altamont, resultarão do fascínio que os próprios rockers nunca esconderam sentir em relação a figuras mais ou menos romantizadas que terão logrado escapar às normais regras de funcionamento em sociedade a glorificação da figura do gangster, de Capone a Scarface, por parte de inúmeros rappers, será outro sinal desse impulso. Por outro lado, as maleitas da alienante sociedade moderna, nem sempre atenta aos perversos efeitos que as suas dinâmicas sociais e morais impõem nas novas gerações, encontram na cultura rock justificações demasiado fáceis para casos de violência extrema como o que sucedeu em Columbine ou os que, por razões totalmente distintas, tiveram lugar em concertos dos The Who ou em festivais como Woodstock 99 e Roskilde 2000: a «perversão de valores» e a «alienação» promovida pelo rock, segundo os discursos dos donos da moral dominante, ajudam a explicar essas tragédias. Mas nada disso explica o que sucedeu no Bataclan.

Aí, o rock foi visto como um exemplo das liberdades sociais que grassam no Ocidente e que uma organização desumana como o Daesh procura erradicar, impondo ao mundo a sua visão de um califado radical. Até aqui, o rock atraiu violência e pode até tê-la inspirado, mas esses atos extremos eram sempre dirigidos às próprias estrelas, nunca ao público que as aplaudia. Com o Bataclan inaugura-se, portanto, um novo capítulo no longo e trágico livro que documenta a história de violência no rock.

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2016