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Kendrick Lamar hoje no Super Bock Super Rock: ele é a voz da revolução

O rapper mais badalado do momento regressa a Portugal para não só defender os direitos dos mais desfavorecidos, como também a arte do verso. É às 23h50, no palco Super Bock do evento do Parque das Nações, em Lisboa

Há 26 anos, os Public Enemy editavam Fear Of A Black Planet, obra fulcral dentro do hip-hop e a segunda granada (a primeira foi It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back) que o grupo lançou na direcção do mainstream.

A América ainda sentia então na pele os exageros yuppie da década de 80, a população negra vivia nas sombras de uma sociedade branca que os remetia para os guetos e para a pobreza. O status quo era mantido através do racismo institucional e da violência policial pilares que o mundo só admitiu existirem após quatro agentes policiais de Los Angeles serem filmados a espancar um taxista de seu nome Rodney King, em 1991.

Infelizmente, as mortes de Trayvon Martin, Michael Brown e Tamir Rice às mãos das autoridades norte-americanas vieram provar que pouco ou nada mudou. Nem Barack Obama, o primeiro presidente negro da história do país, conseguiu uma tão desejada mudança. Resta a música, uma música incendiária e de dedo em riste na direção do establishment; a música de Kendrick Lamar, o rapper mais politicamente engajado do momento e que tem o condão de ser, também, o melhor rapper da atualidade, homem de língua afiada e dois pés bem assentes na terra. De outra forma, não conseguiria ver com exatidão e criticar com exatidão aquilo que se passa à sua volta.

Na mesma altura em que a América voltou a olhar para dentro de si e a perguntar-se, simplesmente, «porquê?», Kendrick Lamar veio dar voz aos milhares que têm enchido as ruas na sequência do movimento #BlackLivesMatter, uma voz que há muito não tinham. To Pimp A Butterfly, o álbum com o qual se fixou, definitivamente, no topo, é a banda-sonora de uma revolução por acontecer, de uma luta interminável que doravante será ainda mais complexa e, quiçá, violenta, caso Donald Trump candidato à presidência cujo racismo, sexismo e xenofobia são notórios vença as eleições.

A «rodela» pode ter ganho três Grammys e vendido quase um milhão de cópias. Mas a sua influência é infinita, e vai dos desfavorecidos a David Bowie, que antes de morrer admitiu que o seu Blackstar era inspirado nesta fusão de hip-hop, free jazz, spoken word e funk. A revolução não passará na televisão, mas será escutada quantas vezes forem necessárias. E nós iremos escutá-la, bem de perto, em julho.