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Iggy Pop hoje no Super Bock Super Rock: adeus e até ao meu regresso?

O veterano do rock toca hoje no Super Bock Super Rock, na Meo Arena, em Lisboa, pelas 22h. Saiba o que esperar do concerto de Iggy Pop, neste artigo de Sérgio Gomes de Costa

Vem a Lisboa com um álbum novo. Porém, sugeriu que esta deverá ser a sua última digressão, aumentando as expectativas e multiplicando o interesse. Sérgio Gomes da Costa foi saber o que se passa e conta-lhe a história toda.

Quando David Bowie contava as histórias da sua estadia em Berlim, na década de 70, a melhor de todas não se tinha passado consigo mas com Iggy Pop, que também por lá andava. Ora, nem toda a gente era capaz de superar David Bowie em vivências, muito menos naquela época, mas é preciso ter em conta que a história envolvia uma cave e uma multidão a comer um bolo gigante a imitar o muro de Berlim.

Por essas e por outras, há quem se espante por Iggy Pop ainda estar vivo.

Estatisticamente, o facto podia até nem ser incomum, trata-se de um homem de 69 anos numa época em que as expectativas de vida são mais elevadas, mas a carga de excessos a que se entregou é normalmente sinónima de um organismo em falência. Por outro lado, isso acaba por ser uma máscara que esconde um ótimo criador de canções, um artista ambicioso, o estratega de uma carreira longa. A fera em tronco nu, o descontrolado que se cortava em palco, o inventor do stage diving, tudo isso dá ótimas histórias, mas o que o põe na história da música é um portfólio de excelentes canções. Prova disso é o novo álbum, gravado com Josh Homme, dos Queens of the Stone Age. O título é Post Pop Depression e serve de pretexto para um concerto no Super Bock Super Rock. Iggy diz que deverá ser o fim da sua carreira tal como a conhecemos.

AS SESSÕES DO DESERTO

A reunião de Iggy e Homme é uma daquelas histórias com tanto de provável como de surpreendente. Tendo em conta o talento e a boa forma criativa de Homme, é natural que um certo espectro de músicos queira trabalhar com ele. Além disso, Iggy Pop tem tido o bom senso de colaborar sempre com outros artistas.

Mas, por alguma razão, quando definidas, embora Homme exagere na modéstia e dê todo o crédito a Iggy Pop. Não é assim, estão lá os méritos e até os tiques de composição do líder dos Queens of the Stone Age: aquela muralha sonora, as interrupções súbitas, as mudanças de direção e os coros, por exemplo. Têm-se feito comparações com os discos berlinenses de Iggy Pop, assunto a que os próprios não fogem por ter sido motivo de conversa recorrente nas gravações deste álbum. E há, de facto, razão de ser nas comparações. Os novos temas têm algo de anacrónico, no bom sentido, com a crueza da década de 70 a ser substituída por uma densidade própria. E estão lá muitos dos elementos do início do processo de gravação, como o sexo em «Gardenia», o fim da carreira em «Sunday» e «Paraguay», o fim da vida em «American Valhalla», e outras migalhas deixadas nas entrelinhas até àquela misteriosa caixa enviada por correio (ainda se vai ouvir falar muito desta daqui a uns anos).

DOS ESTAROLAS ATÉ HOJE

Quem é, então, este Iggy Pop que nos visita e sugere uma despedida? A construção do mito começou numa banda que mudou a história do rock depois de acabar: The Stooges.

Estava-se no final da década de 60 e nessa altura o jovem Iggy começava o descarrilamento, depois de uma vida como menino exemplar. A razão era simples, vivia numa terra do interior norte-americano e estava aborrecido. Disse mais tarde, em modo de justificação, que «o rock é uma solução para a tragédia». Já tinha sido baterista em bandas de versões, mas foi como vocalista que se sentiu realizado, dando nas vistas logo no primeiro concerto. O álbum de estreia da banda foi editado por uma grande companhia discográfica, a Elektra, e teve John Cale como produtor.

Vendeu modestamente, como seria de esperar, e foi sucedido por mais dois álbuns, Fun House e Raw Power (o último tendo a designação Iggy and The Stooges). Há, no entanto, um salto nesta história. Na verdade foram precisos anos para surgir Raw Power e a razão disso esteve no desastre em que se tornou a vida do quarteto, com as drogas a tornarem-se mais prioritárias do que recreativas. Pelo meio, a Elektra já os tinha despachado e foi preciso encontrar apoio na Columbia. O resultado de tanta agitação acabou por ser o fim dos Stooges, deixando um legado de temas fundamentais, como «I Wanna Be Your Dog», «No Fun» e «Search and Destroy».

A seguir, para tentar atinar, Iggy Pop foi para a Alemanha com um amigo, um rapaz talentoso que tinha remisturado Raw Power e com quem tinha feito uma digressão mundial: David Bowie. Iam tentar livrar-se das suas dependências tóxicas, não se lembrando de que iam para uma das capitais do deboche. Mas se do ponto de vista pessoal não foi uma fase propriamente exemplar, em termos musicais foi especialmente prolífica, com alguns dos álbuns mais marcantes da carreira de Iggy e Bowie a serem gravados em Berlim. No caso do primeiro, está-se a falar de Lust For Life e The Idiot, ambos de 1977.

Por essa altura, em Inglaterra, surgia o movimento punk e Iggy Pop começava a ser nomeado como um dos seus precursores, juntamente com Velvet Underground, New York Dolls e Ramones. Não era mentira e foram muitas as réplicas, mais ou menos óbvias, da figura de Iggy.

Além disso, tinha havido em Londres um concerto dos Stooges particularmente falado em 1972. Deixou sementes, pelos vistos. Depois de Berlim e até meados da década de 80 houve alguns álbuns discretos, entremeados pelo habitual descontrolo pessoal. Contudo, em 1986 veio Blah, Blah, Blah, o disco do single «Real Wild Child (Wild One)» e em 1990 outro tema ainda mais bem-sucedido, no álbum Brick By Brick: o inevitável «Candy», com Kate Pierson, dos B-52's. Disparava então o sucesso comercial de Iggy Pop e este tornava-se um ícone da cultura popular.

Tudo lhe correu serenamente daí em diante, musical e pessoalmente. Talvez por isso, decidiu retomar os Stooges em 2003. Não era algo que se esperasse, não era sequer desejado por muita gente, mas a verdade é que começaram a fazer concertos e quatro anos depois gravaram um álbum, The Weirdness. Em 2013 veio mais outro, Ready To Die, mas a morte de dois elementos fundadores dos Stooges ditou o fim definitivo das atividades.

Há, porém, mais um dado a acrescentar à história da banda: a estreia para breve do documentário Gimme Danger, realizado por Jim Jarmusch, com quem Iggy já colaborou em dois filmes.

É, portanto, este Iggy Pop que nos visita. Ainda faz stage diving, acaba de posar nu numa aula de desenho, aparece em campanhas publicitárias, coleciona cadeiras antigas e termina a carreira (será?) com um ótimo álbum. Sai de cena com os fios da sua marioneta nas mãos, tendo os holofotes ainda interessados em segui-la.

Não vai desaparecer, segundo diz, mas deverá controlar o que nos dá e mostrar outras sombras. Até isso acontecer, haverá uma digressão com temas novos, outros mais antigos e até alguns inéditos ao vivo. E, a atender no alinhamento de um recente festival na Alemanha, até pode incluir Stooges, capítulo que parecia dar por terminado.

Alinhamento provável

1 No Fun
2 I Wanna Be Your Dog
3 The Passenger
4 Lust for Life
5 Five Foot One
6 Sixteen
7 Skull Ring
8 1969
9 Sister Midnight
10 Real Wild Child (Wild One)
11 Nightclubbing
12 Some Weird Sin
13 Mass Production
14 Repo Man
15 Sunday
16 Break Into Your Heart
17 Gardenia
18 Search and Destroy
19 Down on the Street
20 Neighbourgood Threat
21 Tonight
22 Wild America

Artigo de Sérgio Gomes de Costa, publicado originalmente na BLITZ Fest 9, de julho de 2016