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É possível ver um grande concerto de festival pela televisão?

Ou estaremos, na verdade, a perder quase tudo o que interessa?

Em Portugal, desde que em 2001 a SIC Radical se juntou ao buquê dos canais de televisão por cabo, o hábito de assegurar a transmissão de concertos em festivais através da televisão tornou-se regular. Compensação para quem, distante, não pôde acorrer a determinado concerto que estimava ver; quem fez as contas e decidiu poupar para outras aventuras; quem vê, sem compromisso maior, para poder emitir uma opinião; quem, não indo, até se pode sentir tentado a "experimentar" no ano seguinte se concluir que está a perder algo de essencial.

Enquanto espectador, o "negócio" para mim foi sempre esse: ver um concerto na televisão faz ou não com que deseje estar lá? Vou responder já: sim. Mas não pela razão mais óbvia.

Quem, ano após ano, está rotinado em jornadas festivaleiras (ponho o dedo no ar, por inerência de funções) já por diversas vezes atentou: na televisão só se ouve, praticamente, o som de palco (o bruá do público é um ruído distante) e a voz parece desligada da instrumentação, com um volume superior ao resto, apresentando-se não poucas vezes exposta de forma algo embaraçosa. A verdade é que, ao vivo, são poucos os que cantam realmente bem (segundo os cânones mais puristas), precisamente porque o que conta para o lado de cá (agora refiro-me à audiência in loco, tendo em mente um concerto mais elétrico) é o "cozinhado", não um ingrediente em separado; e o que se espera é um entrosamento, uma química, uma ligação, não uma performance desligada do meio envolvente.

O que, ao vivo, nos parece intenso e avassalador, na televisão soará quase sempre asséptico e controlado. Porque se elimina a fronteira nervosa entre artista e público, o "fosso" em que a admiração e a devoção de quem se acotovela numa multidão também concorrem para o juízo que se produzirá sobre uma atuação. Elimina-se tudo o que fazemos, mesmo que não se repare, para tornar um concerto melhor: ativar uma predisposição para estar dentro.

Quem não sentiu já o corpo a tremer num estádio de futebol antes do início de uma partida decisiva? (Em casa, na mesma altura, buscam-se as primeiras cervejas no congelador). Quem nunca ouviu um adepto com lugar cativo no estádio dizer-nos que aquele jogador que insultamos via televisão desde o início do campeonato é, afinal, um mouro de trabalho e que só no estádio é que isso se evidencia?

Há uma semana, no NOS Alive, gabei o som e a postura dos Pixies e escrevi que não via nesta prolongada segunda vida da banda de Black Francis um erro ou um esforço escusado. Estive lá. Chegado a casa, algumas opiniões no meu feed de Facebook iam em sentido contrário. Alguém mais aguerrido (e provavelmente mais acólito da causa Pixies do que eu, logo mais exigente e, por conseguinte, cruel) argumentava que era na televisão que as fragilidades de uma banda velha ficavam mais expostas.

Curioso, fui ver do que se tratava, "rebobinando" a emissão do canal dedicado ao festival. E confirmei o que já esperava: o concerto que passou na televisão não foi bem o mesmo que eu vi e ouvi no Passeio Marítimo de Algés. O som que eu recebi no espaço avantajado do palco principal do evento não foi o mesmo que se afunilou para a transmissão televisiva. A emissão televisiva era um bibelô, uma versão portátil de algo maior e mais corpulento. Quem quer ouvir a voz de Black Francis desligada da guitarra de Joey Santiago, parecendo exercício de karaoke?

Em quem devemos acreditar? Nos nossos olhos e ouvidos in loco, ou na televisão que não mente e deixa tudo a nu e até nos mostra que os cantores não sabem, geralmente, cantar? Eu sei qual é a minha resposta e, por esta altura, desconfio que o leitor também. Ver um concerto na televisão faz, de facto, com que eu deseje estar lá porque normalmente não presta.