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Debaixo da Língua n' O Sol da Caparica: “Gostamos muito de ver falhas em nós próprios”, afirma David Fonseca

A propósito de mais uma edição do festival O Sol da Caparica, Rui Miguel Abreu volta a puxar pela língua de uma série de artistas que fazem música com as as palavras que todos entendemos

Primeiro como líder dos Silence 4, depois a solo, David Fonseca construiu uma fértil e aplaudida carreira que invulgarmente conhece os dois lados da "barricada" que separa os artistas que elegem o português e os que escolhem o inglês como principal forma de expressão. Com o super-grupo Humanos e, mais recentemente, com o seu próprio álbum a solo Futuro Eu, David também conhece o que significa estar "debaixo desta língua". E nem entende o debate que a opção de tantos pelo inglês sempre gerou.

"Sempre achei que é um debate falso e tipicamente português", começa por explicar, antes de se alongar: "Nós gostamos muito de ver falhas em nós próprios, é uma maneira de ser nossa. Esta discussão só apareceu em plena força após o êxito dos Silence 4, lembro-me de ler páginas de jornais dedicadas a essa discussão, assumindo uma dimensão ridícula e cuja importância era zero. Mas de repente tornou-se num celeuma terrível, havia gente muito chateada que dizia que havia um renegar da nossa portugalidade. Escreveram-se tantos disparates, uma coisa inacreditável. Recordo-me de, na altura, ter tomado posição através de uma carta longa que enviei ao BLITZ, mas foi a única vez, porque era uma discussão que não merecia a minha atenção. Continuo a achar que é uma coisa menor, é clara a razão pela qual eu e outras pessoas da minha geração escreviam em inglês, mas também nunca ninguém deixou de falar ou escrever português. Nós queríamos experimentar outras coisas, outra forma de fazer canções. É um facto que a maior parte das coisas que me influenciavam vinha lá de fora, o que era também uma forma de mostrar que não me identificava com muitas coisas aqui de Portugal. Foi a minha reacção, embora não tenha sido pensada. Aquilo que mais me magoava nessa discussão é que muitas vezes criavam a ideia de que eu, e outros artistas como eu, tínhamos escrito em inglês com uma espécie de procura insana do sucesso, que sonhávamos atuar em estádios como o Wembley, era a coisa mais disparatada possível. Queria dar-se um sentido negativo a esta tomada de posição, daí que sempre quis e ainda quero estar fora desse debate".