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Os Bons Sons de Pedro da Silva Martins (Deolinda): “Ir a concertos já faz parte do quotidiano dos portugueses”

A propósito da edição de 2016 do festival, que se realiza em Cem Soldos (Tomar) em agosto, o guitarrista, compositor e letrista dos Deolinda reflete sobre a maior abertura de eventos e público à música portuguesa, nos últimos anos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Pedro da Silva Martins, dos Deolinda, falou à BLITZ sobre a sua perceção da evolução da música portuguesa nos últimos anos, no que toca à receção do público e à ligação com os agentes do meio.

A propósito do festival Bons Sons, que este ano celebra 10 anos de existência, reflete Pedro da Silva Martins: "O que senti no início dos Deolinda é que as portas não se abriam com tanta facilidade. Não era tão fácil a música portuguesa ter uma visibilidade tão grande, chegando a palcos tão grandes como os palcos principais de festivais como o Sudoeste. O Bons Sons veio contrariar essa tendência", considera.

Para o músico, o festival de Tomar "coincide com um novo respirar da música feita em Portugal e com o surgimento de uma série de bandas. O Bons Sons veio dar resposta a esta nova onda de música cantada em português, ou feita em Portugal. Nos Deolinda, sentimos que as portas começaram a abrir-se e a influenciar outros festivais. A tendência inverteu-se um pouco: hoje são mais os festivais a promover a música portuguesa do que o contrário".

Papel principal nesta evolução teve, naturalmente, o público que, para Pedro da Silva Martins, ansiava encontrar "algo que fosse feito cá e estivesse mais próximo de nós, que viesse ao encontro das nossas expectativas musicais. Houve um período surpreendente em que, de repente, as pessoas começaram a consumir mais música feita cá e a ir a mais festivais", diz, apontando a importância do boom dos festivais.

"O público acabou por fazer as bandas e os festivais", resume. "Sinto que houve um momento em que as pessoas começaram a olhar para a música portuguesa de uma forma diferente. Senti essa tendência a mudar e fomos apanhados nessa maré", recorda, destacando ainda os hábitos de consumo cultural que se foram intensificando nos últimos anos.

"O público começou a ganhar hábitos de ouvir música e de ver concertos, que talvez não existisse nos anos 80 e 90, com tanta assiduidade. Hoje, ir a concertos faz parte do quotidiano das pessoas. Se calhar, mais do que ir ao cinema, vão a concertos. Isso nasceu, também, com os festivais e a experiência não só musical. Quando essa experiência acontece e é bem-sucedida, cria-se um hábito", argumenta. "Hoje, ir a um concerto ou um festival faz parte do orçamento não direi mensal mas talvez trimestral ou semestral de uma família normal. Porque as pessoas tiveram boas experiências de irem a concertos ou festivais, de conhecerem outras pessoas, de convívio".

Pedro da Silva Martins não quis deixar de realçar que este é o fruto do "trabalho feito por pessoas que já vieram antes de nós: o trabalho talvez ingrato de tirar as pessoas de dentro de casa, criando esse hábito. Penso que quem muito contribuiu para haver uma dinâmica de concertos e de atenção à música portuguesa foi a música pimba, que conseguiu levar a concertos pessoas que não iriam necessariamente a concertos se não fossem desse tipo de música", diz ainda. "Criaram hábitos e exigências - o público começou a ficar mais exigente - e a música também se moldou a essas exigências".

Este ano, os Deolinda regressam ao Bons Sons, onde começaram por tocar em 2008, ano em que lançaram o seu primeiro álbum, Canção ao Lado.

"O festival Bons Sons é uma coisa incrível", elogia Pedro da Silva Martins, "e um dos festivais de que guardo melhores recordações. Tem um público muito transversal e muito giro. Temos com ele uma série de laços", confessa, antes de referir ainda que o Bons Sons resulta em boa parte "do trabalho das pessoas que fazem voluntariado para que o festival aconteça. É um festival muito genuíno e a prova de que, sem grandes artifícios, se consegue fazer uma coisa muito bem feita, com uma seleção portuguesa", diz, entre risos.

"É um festival vencedor no meio destes festivais todos, gigantes, que existem, e mantém uma fibra muito nossa".