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PAUS hoje no NOS Alive'16: “É altura de pensarmos naquilo que ainda não fizemos”

Quarteto lisboeta representa as cores nacionais hoje no palco Heineken do evento de Algés, a partir das 21h45. Em março, por altura da edição de Mitra, confessavam à BLITZ que “está na hora de darmos um tiro ao lado outra vez”

Mitra é um álbum importante no percurso dos PAUS. Serão todos, obviamente, mas o terceiro longa-duração da banda de Joaquim Albergaria, Hélio Morais, Makoto Yagyu e Fábio Jevelim é o primeiro a ser integralmente gravado e produzido no HAUS, espaço polivalente criado pelo quarteto lisboeta no ano passado, em Santa Apolónia - o segundo, Sirumba, dos Linda Martini, banda na qual Hélio também toca, sai a 1 de abril. «É ótimo vir trabalhar para aqui. Sais de casa, apanhas o metro e estás aqui ao pé do rio», começa por dizer Yagyu antes de salientar o facto de terem as portas da nova casa abertas aos amigos que queiram partilhar com eles um espaço único de criação, «há um intercâmbio e uma partilha maior. Isso valoriza o trabalho de todos». Hélio Morais acrescenta: «tens os [You Can't Win] Charlie Brown a ensaiar aí e há sempre bandas a entrar e a ensaiar na outra sala, que é aberta. Já tínhamos a sensação de que seria fixe ter um espaço como este desde a época em que Men Eater, Riding Pânico, Linda Martini, If Lucy Fell e Vicious Five se relacionavam todos, de alguma forma. Agora, podemos concretizar esse encontro num espaço físico». O facto de os seus dois projetos editarem álbuns tão próximo, em termos temporais, não assusta o baterista. «Não estamos a falar de bandas que façam 200 concertos por ano, como a Ana Moura, portanto acaba por se conseguir fazer», admite. «Se calhar, há uma ou outra data que não dá para fazer com uma banda porque a outra já a tem ocupada. Calhou, desta vez, os discos serem tão próximos, mas isto porque a cadência de PAUS nunca abranda, são sempre mais ou menos dois anos entre discos, e este álbum de Linda aproximou: pela primeira vez, há um intervalo de cerca de dois anos entre um disco e o outro. Mas espaçámo-los tempo suficiente para, pelo menos, não estarmos a fazer entrevistas em simultâneo. E são estratégias diferentes, portanto acaba por se conseguir equilibrar as coisas».

Quem é o mitra deste Mitra, questionamos. «São muitas coisas», responde Albergaria, o outro lado da bateria siamesa dos PAUS. Antes de concretizar, Hélio desmistifica: «não teve a ver com significados da palavra noutros países. Em indonésio é "amigo", na Lituânia é "molhado"». «Sim, e é uma entidade qualquer hindu... Mas nada dessas coisas deu forma à escolha do título», completa o colega. «Não tendo um significado objetivo e universal, é uma palavra que responde a muitas coisas. A ideia que as pessoas têm é que o mitra é o guna, o chunga, é o gajo de fato de treino que, na verdade, vem de uma situação marginal e onde quer que esteja nunca pertence realmente... Foi um disco no qual decidimos pensar um bocadinho em qual é o lugar dos PAUS e começar a delimitar um território que é nosso e não sabemos muito bem como definir». A capa do álbum, da responsabilidade do designer gráfico Bráulio Amado, reflete essa mesma ideia, concordam. «Essa ideia de mitra, na imagem, também não está muito definida, não consegues perceber muito bem o que é», diz Albergaria. «Tens ali uns panos na cara que recusam alguns marcadores sociais que te podiam ajudar a perceber quem é aquela pessoa. E não percebes. Inconscientemente, isso foi entrando para as letras. São muito sobre questões de identidade, perceção, papel, estatuto. O conflito que todos temos entre razão e instinto. O desejo e, de alguma forma, normas sociais. A forma como nos projetamos e somos percecionados é um pouco o tema que vai atravessando o disco. Esse lado da fotografia e do artwork é uma interpretação muito simples e direta dessa discussão que as letras vão tendo».

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No álbum homónimo de estreia, canções como «Língua Franca» ou «Descruzada» alongavam-se mais no tempo. «A expansão soube-nos bem, havia algum prazer naquela coisa meio suspensa», assume Joaquim Albergaria. Em Mitra, a banda fez um exercício de concisão que, de forma inadvertida, levou a que os temas tivessem todos perto de três minutos. «Não foi muito pensado», assume Hélio Morais, «e depois houve um fator determinante: o momento em que, ao ouvir determinada música, o Fábio já ia para a internet no telemóvel». «É uma regra de ouro», acrescenta Albergaria. «Falo um bocado por mim, mas já estou farto de músicas que parece que não chegam a lado nenhum e depois lá chegam a algum lado», explica Jevelim. «Não me apetecia fazer isso. Acho que não apetecia a nenhum de nós. Então, fomos construindo as músicas até àquela parte em que eu ia para a internet porque estava a achar aquilo uma seca do caraças». Makoto Yagyu concorda: «é melhor tirar as partes que não acrescentam. É acabar a música quando se percebe que assim está bom, que tem início, meio e fim». Esta foi, também, a primeira vez que a banda partiu para um álbum com algumas ideias em mente. «Nos outros dois discos, o processo de composição, edição e mistura aconteceu em simultâneo», recorda Albergaria. «Enquanto estávamos na tour do Clarão fomos juntando, nos ensaios e soundchecks, alguns registos de ideias, pequenos riffs, ritmos e jams que fazíamos. Mais de metade do disco foi feito sobre essas ideias. Ouvimo-las e fomos reagindo a partir. E percebemos que as coisas que surgiam eram mais groovy, não havia tanta necessidade de abrutalhar ou expandir».

A banda apercebeu-se também de que este era o disco certo para «as vozes terem um pouco mais de espaço». «Não tens muitos leads instrumentais que substituam a voz neste álbum», explica Jevelim, que decidiu não tocar guitarra e dedicar-se às teclas. «Quando ouves uma música como um todo e não ficas concentrado num teclado ou num baixo que fazem uma voz, tens mais necessidade de meter uma voz humana». Albergaria completa: «houve decisões na composição que nos tornaram mais objetivos. O processo foi mais objetivo portanto a consequência acabou por ser mais objetiva».

Este «tempo de mudança» que os PAUS vivem vai contagiar os concertos: «um espetáculo novo com uma presença em palco totalmente renovada» é o que prometem no comunicado que confirma a presença no NOS Alive. «Estivemos a preparar umas situações engraçadas, em termos de iluminação, com o nosso técnico de luz», explica Morais. «Não tem a ver com a disposição da banda... Quer dizer, tem um bocadinho porque há umas alterações no palco, mas as mudanças são mais em termos cénicos do que outra coisa». Mas as revoluções não se vão ficar por aí: «ainda nos falta fazer montes de coisas dentro do que delimitámos como terreno criativo para os PAUS», assume Albergaria, «está na altura de fazermos um tiro ao lado outra vez. Estamos entusiasmados porque não só temos um disco novo, com uma vibe que não tínhamos tido ainda, como chegou a altura de pensar um bocadinho naquilo que ainda não fizemos e podemos fazer como músicos. Este é, também, o disco desses atrevimentos. Agora, vão perguntar o quê... Não posso dizer ainda».

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2016