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M83 encerram hoje o palco principal do NOS Alive'16: “Sei que esperavam o mesmo, mas não sou de me repetir”

Pode ter passado meia década desde o muito elogiado Hurry Up, We’re Dreaming, mas Anthony Gonzalez, cérebro de M83, não esteve propriamente a dormir. Falámos com o músico que sobe ao palco NOS hoje a partir da 1h00

Passaram-se quase cinco anos desde Hurry Up, We’re Dreaming. Por que demorou tanto a regressar com um novo álbum?
Andei três anos em digressão a promover esse álbum, foi muito tempo, e depois gravei duas bandas sonoras de filmes para as quais olho como se fossem álbuns. Foram experiências que me deram muito trabalho e que gravei com muito amor… Portanto, para mim não foram cinco anos.

Por que razão chamou Junk a este novo álbum?
Queria encontrar algo que fosse mais punk, de certa forma. Os títulos dos meus discos anteriores eram grandes e poéticos e neste queria ter algo mais direto ao assunto. A forma como ouvimos música nos dias que correm mudou muito, quando comparando com a época da minha adolescência, e, para mim, «junk» é a forma como fazemos as coisas hoje. Há tanta música e tantos filmes que a maioria acaba por ser deitada fora… E sinto que há uma certa beleza nisso. Vivemos numa época que me deixa uma imagem na cabeça de corações perdidos no espaço. Para mim, Junk é um statement, significa que façamos o que fizermos tudo vai acabar por ser lixo. Não vamos viver para sempre. Pensar nas coisas desta forma faz com que me sinta melhor comigo próprio. Faz-me sentir que estamos todos no mesmo barco. Somos todos humanos, vamos todos morrer um dia e vamos todos viver no espaço para sempre. É uma imagem muito romântica e poderosa.

Como acabou a guitarra de Steve Vai no tema «Go!»?
Queria ter o som de uma guitarra nessa faixa e ele é o único guitarrista que conseguia imaginar a fazê-lo. Tem uma sonoridade muito particular, muito única. Quando ouvia os solos dele, em miúdo, ouvia o som de guitarra do futuro. Quis trazer isso para este tema. Toda a gente acha que os solos de guitarra estão um pouco datados, que são um cliché, mas ainda são fantásticos quando são bem feitos. O Steve Vai é um daqueles heróis da guitarra que podia ficar a tocar durante duas horas que eu ia gostar.

Canções como «Walkway Blues» ou «Moon Crystal» têm muito de Air e Daft Punk. Foram grandes influências para si?
Claro que sim. Talvez mais os Air do que os Daft Punk. Sempre fui um fã enorme dos Air. São uma das melhores bandas francesas de sempre. Moon Safari, 10 000 Hz Legend ou mesmo a banda sonora de As Virgens Suicidas são alguns dos meus álbuns favoritos de todos os tempos. O que gosto neles e nos Daft Punk é que têm as suas próprias identidades, as suas próprias sonoridades. São únicos. Gosto de ouvir uma canção e perceber logo de quem é.

O sucesso de «Midnight City» apanhou-o de surpresa? Já tinha gravado cinco álbuns antes…
É engraçado porque escrevi esse tema em três horas. A canção ficou praticamente feita numa tarde, pelo menos a estrutura, a melodia e o gancho principal. Foi a canção mais rápida que alguma vez compus e é o meu maior sucesso. Isso é um pouco assustador porque parece que fui atingido por um relâmpago nesse dia. Mas sinto-me um sortudo… E também sinto, de certa forma, que foi um engano, que aconteceu por acidente. Não acordei nesse dia e disse «vou escrever um êxito». Primeiro, nunca penso assim. Segundo, quando queres isso nunca acontece. É algo que acontece naturalmente.

Diz-se orgulhoso do facto de este álbum ser muito diferente dos anteriores. Sentiu necessidade de mudar radicalmente?
Faço isto há mais de 15 anos e quero fazer coisas, quero experimentar, levar os meus fãs numa viagem diferente de cada vez que faço um álbum. Cresci a ouvir música e esperava sempre que as bandas que adorava me surpreendessem. Não há nada pior do que um artista que se repete disco após disco. Eu não queria fazer isso com Junk. Sei que as pessoas esperavam algo parecido com o que fiz em Hurry Up, We’re Dreaming, mas nunca mais vou fazer isso porque não faz sentido repetir-me. Vou tentar empurrar-me sempre para fora da zona de conforto e surpreender as pessoas.

Remisturou temas dos Depeche Mode, Placebo e Goldfrapp, entre outros, no passado… É um trabalho que gosta de fazer?
Não me lembro da última vez que fiz uma remistura, mas acho que já foi há mais de cinco anos. Não é que não goste, mas deixei de o fazer… É muito difícil de competir com o original e há algo de errado em mexer em música feita por outra pessoa. Pensei muito nesse assunto nos últimos anos e percebi que não gosto desse conceito. Uma canção deve ser única. Sei que é importante, por questões de negócio, mas já não estou muito interessado nisso.

Originalmente publicado na BLITZ Fest de julho de 2016