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Hoje é dia de Arcade Fire no NOS Alive'16. Será este o tempo de renascer?

Os canadianos andam sossegados, mas o silêncio deve terminar em breve com um grande estrondo: o quinto disco da banda poderá chegar em 2017, terminando com o suspense que dura já há quatro anos, altura em que Reflektor foi lançado. Será que Algés vai desvendar um pouco do que aí virá? – a pergunta de André Gomes.

Estamos em 2004 e um disco chamado Funeral desperta todas as curiosidades, causando um verdadeiro abalo na escala do universo musical independente. Uns tais canadianos, com o seu imprevisto disco de estreia, conseguiram a proeza de emocionar uma pequena multidão de anónimos que tentavam perceber logo ali de onde vinha aquela força toda, toda aquela intensidade. O disco funcionou como uma espécie de rebelião sentimental. Para os próprios Arcade Fire mas também muitos dos que tiveram um encontro imediato com as suas canções. Funeral era um disco em certa medida inspirado pela morte, mas os Arcade Fire quiseram que aquelas canções falassem de amor, humanidade e redenção.

Estamos em 2016 e, doze anos volvidos, os Arcade Fire são uma banda de grandes multidões, de prémios, de milhões de cópias vendidas. Estão muito longe dos dias em que eram objeto de culto de uma certa minoria. Foram abraçados pelo grande público, reconhecidos pela grandiosidade das suas canções – e dos seus concertos. Pelo meio estão mais três discos. Neon Bible (2007), The Suburbs, (2010) Reflektor (2013), registos que, cada um à sua maneira, ajudaram a perceber que aquele disco de estreia não foi de todo um momento de pura sorte. O crescimento dos Arcade Fire não foi certamente algo que tenha acontecido por mero acaso.

A banda formou-se em Montreal, no Canadá, em 2001. Reza a história que Win Butler chegou à cidade para se dedicar ao estudo da interpretação de manuscritos religiosos e foi aí que conheceu Régine Chassagne, que então era cantora de jazz e membro de ensembles de música barroca e medieval. Depois o resto é história. Com o irmão de Win, Will Butler, e com Richard Reed Parry, Jeremy Gara e Tim Kingsbury os Arcade Fire nasceram para o mundo com o lançamento de um EP homónimo financiado pelos próprios e lançado em edição de autor. Depois chegou Funeral para ser amplamente aclamado pela imprensa mundial e pelo público.

Mas o processo foi mais longo do se possa imaginar. Chegar até ao disco de estreia, apesar de toda a inspiração, não foi tarefa fácil. Numa entrevista à revista Mondo Bizarre, em 2005, Win Butler descreveu as dificuldades em conseguir construir um disco como Funeral: «demorou muito tempo, uns oito meses. É muito esporádico, foram uns dois meses se realmente condensarmos tudo. Nessa altura estávamos a tocar concertos para ganhar mais dinheiro e depois ganhar dinheiro para gravar mais uma canção, ganhar mais dinheiro para gravar mais uma canção, dar mais concertos, comprar equipamento», admitiu. «Tivemos muita sorte em termos umas boas condições de estúdio em Montreal onde pudemos entrar e usar, e que pudéssemos pagar. E um grande engenheiro de som – Howard Bilerman – e isso deu-nos a chave para trabalhar muito no som. É duro. Detesto as misturas. Quando finalmente acabas tudo já não queres ouvir as canções de novo», admitiu. Mas o mundo quis. Vezes e vezes sem conta.

Os mais atentos saberão de onde vem o título do disco: nos meses que antecederam o seu lançamento, foram vários os membros das famílias dos Arcade Fire que perderam a sua vida: a avó de Régine Chassagne faleceu em junho de 2003, o avô de Win e Will Butler em fevereiro de 2004 e a tia de Richard Reed Parry em abril desse mesmo ano. Os mais atentos saberão também que esse disco acabou por catapultar os Arcade Fire para o estrelato.

Venderam mais de 700 mil cópias do primeiro disco, David Bowie era fã deles e emprestou mesmo a sua voz numa das canções de Reflektor, os U2 convidaram-nos para abrir alguns dos seus concertos, venceram um Grammy com The Suburbs, derrotando Eminem, Katy Perry e Lady Gaga, e arrecadaram outros prémios e distinções. E até, imagine-se, todo o reconhecimento. E mesmo assim os Arcade Fire sentem que precisam constantemente de se apresentar, de dizer quem são. A banda nunca se mostrou propriamente surpreendida com todo o sucesso que obteve desde o primeiro disco, mas mesmo assim vive a música quase da mesma forma como vivia antes de Funeral.

Como nascer outra vez

Reflektor, o último disco dos Acade Fire representou em muitos aspetos uma espécie de novo começar para a banda canadiana, um olhar para o passado para perceber como é que o futuro da banda poderia ser diferente. Win Butler disse mesmo, sem ter medo de exagerar, que esse disco representou quase como o entrar numa nova era. A importância desse disco pode muito bem ter ficado demonstrada com o lançamento de Reflektor Tapes, o documentário que ilustra o processo da sua construção no meio de viagens à Jamaica e Haiti (assim como Londres e Montreal). Apesar de Reflektor representar um novo começo para os Arcade Fire, a banda olha sempre para o próximo disco como algo que lhes pode mudar a vida.

Numa entrevista publicada pela CBC Music, Régine Chassagne afirma que cada disco é um grande disco para os Arcade Fire, cada novo episódio tem de ser encarado com a mesma determinação: «Não é como se tivéssemos feito o The Suburbs pensando que iríamos fazer um disco vencedor de um Grammy. Cada vez que gravamos um disco, é a coisa mais importante em que estamos a trabalhar», admitiu.

A mudança em Reflektor foi quase programada, quase forçada – foi quase uma questão de sobrevivência, poder-se-ia dizer. «Acho que no início estávamos a incorporar ativamente coisas com as quais nunca tínhamos trabalhado enquanto banda», disse o baixista Tim Kingsbury. «E acho que conseguimos. Ficamos todos muito contentes com a forma como o disco soava», contou nessa entrevista.

Ainda nessa conversa com a CBC Music, Win Butler confessou que os Arcade Fire introduziram algumas alterações na forma como desenharam a construção do último disco, contando que foi a primeira vez em que trabalharam nos arranjos «uns com os outros, tocando como uma unidade». Win Butler sente que os Arcade Fire tinham ao seu dispor mais «ferramentas» para usar em estúdio do que tinham quando começaram enquanto banda, nos dias em que trouxeram Funeral ao mundo. Reflektor foi para os Arcade Fire como um renascimento, como uma nova oportunidade, um novo fôlego para o futuro.

Capítulo V

Já não são apenas rumores. Agora já não existem dúvidas. Os Arcade Fire encontram-se neste momento a criar aquele que será o sucessor de Reflektor, editado em 2013. Win Butler não quis abrir demasiado o jogo, mas o irmão Will, numa entrevista ao NME em setembro de 2015, afirmou que o disco estaria já a 30% do seu processo normal. «Estamos todos com muita vontade de começar a tocar música juntos e a começar a gravar coisas», afirmou. «Estamos na fase das maquetas e de tocar juntos, e isso leva-nos a perceber que, surpreendentemente, temos 30% do disco, por isso vamos ver o que acontece», contou Will Butler.

O tempo passou e os Arcade Fire não são totalmente os mesmos de 2004. «É um pouco diferente desta vez porque toda a gente está mais velha, gorda e preguiçosa, por isso pode demorar um pouco mais, mas estamos a tocar música juntos. O Win e a Régine arranjaram uma casa em Nova Orleães e por isso acho que vamos passar algum tempo por lá. Mas para além disso estamos aqui na velha sede, em Montreal», disse o irmão mais novo dos Butler.

É ainda demasiado cedo para se falar de expectativas ou de previsões nesta altura. «Não existe ainda nada feito que seja suficiente para perceber para onde vai. É bom saber que podemos tocar música rítmica juntos e que somos bons a fazer isso, mas ainda não é suficiente para sabermos em que direção estamos a ir», disse ao NME. Nesta altura do campeonato, os Arcade Fire querem apenas fazer música sem traçar objetivos demasiado concretos: «eu acredito sempre que tudo o que fazemos é um êxito de número 1, embora nunca tenhamos tido um êxito dessa dimensão. O meu radar é bom para fazer a música, mas não é assim tão bom para prever o resultado final», admitiu.

O quinto disco dos Arcade Fire está a caminho e não parece haver volta atrás. Com mais ou menos prazos, com mais ou menos promessas, o sucessor de Reflektor chegará: «nós não somos bons com horários e prazos e, felizmente, estamos numa posição em que ninguém alguma vez nos dirá o que fazer, por isso estamos bem», contou. Há quem aponte para 2017 a chegada do quinto álbum da banda. Quem sabe se já não será possível ouvir algumas dessas novas canções quando os Arcade Fire subirem ao palco do NOS Alive no próximo dia 9 de julho. Certifiquem-se que terão os corações ao alto.

Texto: André Gomes

Originalmente publicado na BLITZ Fest de julho de 2016