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Entre beats a cheirar a sexo e dedicatórias a Durão Barroso, Carlão conta a sua história no NOS Alive

À hora que muitos aproveitaram para jantar, Carlão jogou com elegância e humor o papel de outsider neste palco Heineken

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Apesar do grande sucesso de Quarenta, o seu primeiro disco em nome próprio, Carlão sabe que, esta noite, está a jogar num território que não é o seu. Para mitigar a estranheza, nada melhor do que admitir que está "bué stressado e nervoso", ressalvando porém que sentir-se um outsider é a história da sua vida. De origem cabo-verdiana, "era um puto que não sabia se era preto ou branco; chamavam-me preto ruço", conta, antes de lembrar que, em adolescente, tentou pertencer a vários tribos, do hip-hop ao metal, até perceber que só precisava de ser igual a si mesmo.

A mensagem é simples mas Carlão passa-a com honestidade, captando a atenção do público (menos numeroso do que em Courtney Barnett, provavelmente também devido à hora de jantar). Acompanhado por baixo, guitarra, DJ, programações e ainda pelo cantor Bruno Ribeiro, o ex-Da Weasel passou ao de leve por temas prementes da atualidade: a violência nos Estados Unidos ("black lives matter", repetiu), mas também pela nomeação de Durão Barroso para a presidência da Goldman Sachs, anunciada hoje. "Esta é para um bandido a sério", apresentou, dedicando ao antigo primeiro-ministro português aquele que é provavelmente o tema mais contestatário de Quarenta, "Colarinho Branco".

As mulheres continuam a ser um dos grandes temas versados por Carlão, o que esta noite sucedeu em "Krioula" e "Hardcore", esta com participação de Moullinex, que criou o respetivo beat - "a cheirar a sexo", diz o anfitrião - e que subiu ao palco para tocar guitarra. Mais tarde, um novo convidado entusiasmou a plateia: Sam the Kid, companheiro de Carlão nos 5-30 e apresentado pelo amigo como "o melhor MC da Tuga", deu voz a uma participada versão de "Pitas Querem Guito", daquele grupo que antecedeu Quarenta.

"Estou há 51 dias sem fumar a merda de um cigarro", desabafa a certa altura Carlão, como forma de introduzir uma canção (ou um som, como lhes vai chamando) sobre "outros vícios", "Uma Vez é Demais". "Topo do Mundo" e "A Minha Cena" foram outros dos momentos mais agitados da noite, que terminou com Carlão a olhar para o relógio antes de oferecer o "brinde" aguardado: "Os Tais", êxito congeminado por Branko que dominou o verão de 2015 e continua a pôr quase toda a gente a dançar, fechou um concerto coroado por uma ovação merecida.