Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Álvaro Covões, o homem por trás do NOS Alive: "Sabemos que o rock’n’roll não vai ser eterno"

Muse, Adele, AC/DC, NOS Alive, Iron Maiden, Santana ou Justin Bieber. Álvaro Covões é o promotor de quase todos os grandes concertos e festivais que este ano acontecem em Portugal. Antes disso, andou pela banca e pelos mercados financeiros, mas foi às suas custas, e dos patrocinadores que o acompanham, que construiu a Everything Is New, uma das maiores empresas de eventos do país

Em 2007, Álvaro Covões deixou a empresa Música no Coração, que mantinha com Luís Montez, para fundar a Everything Is New. Dez anos depois, não é exagero dizer que se tornou um dos maiores promotores de concertos e festivais na Europa. Se quase todas as grandes digressões passam em Portugal, esse é um feito que lhe deve ser reconhecido. Mas Covões quer mais. Quer ter uma palavra a dizer no que respeita ao turismo. Já organizou uma exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda e colaborou com o Museu Nacional de Arte Antiga em duas ocasiões. A cultura de massas e o marketing que lhe está associado fazem-no acreditar que Lisboa ainda pode atrair muitos mais turistas e que só estamos no início. Para ele, o Estado é um empecilho.

Qual foi o último espetáculo a que assistiu pagando bilhete?
Em março. No dia 14 fui ver a “Aida”, na Ópera de Viena. Também compro bilhetes. Não muitos, mas também compro.

E também tem muitos pedidos de borlas?
Cada vez menos.

As pessoas estão mais educadas nesse sentido?
O meu bisavô, no livro dos 50 anos do Coliseu, escreveu um parágrafo a dizer que a borla é uma instituição nacional. Mas isso está a desvanecer-se nas novas gerações. Um dos meus filhos, quando um amigo lhe pediu um bilhete para um concerto, respondeu: “Olha lá, o teu pai tem um supermercado, mas eu não te peço bacalhau.” É um pouco isso. Continua a haver um pouco essa ideia de que o bilhete para um espetáculo — seja futebol, música ou teatro — é algo que se pode pedir. Mas já trabalho de forma mais profissional na organização de concertos desde 1991, e as pessoas também vão percebendo que a nossa vida não é andar a oferecer bilhetes.

A primeira referência que encontrámos a Álvaro Covões na imprensa foi numa notícia de 1988, quando a revista “Sete” falava de um então “jovem organizador” que tinha trazido Elba Ramalho ao Coliseu. Tem memória disso?
Pois foi. Mas antes também tinha estado na organização de um concerto da Amália, em 1987.

Quando é que começa a dar os primeiros passos nesta área de negócio?
Estive também com um grupo de cinco ou seis pessoas, em 1985, na organização de um concerto no Dia Nacional do Estudante. E antes tinha feito um espetáculo, com um colega de liceu, no Coliseu. Meia hora antes de abrirmos as portas faltavam sete contos e quinhentos para pagar as despesas. Lá negociámos aquilo e conseguimos avançar. Isso terá sido entre 1980 e 1981.

Daí para cá, o que mais evoluiu neste mercado em Portugal?
A indústria do entretenimento profissionalizou-se muito, e só isso tornou possível que Portugal faça parte da rota dos grandes concertos. E dos pequenos também. A procura por espetáculos no mundo é gigantesca. Em Espanha temos, pelo menos, 30 cidades que gostariam de ter um concerto do Peter Murphy, que, cá, vem à Casa da Música e à Aula Magna. Portanto, estamos a falar de salas para 1500 pessoas. E todas as cidades querem ter uma boa programação cultural e estão empenhadas nisso. Os artistas tentam, por princípio, escolher as principais cidades de cada país, mas escolhem sobretudo os mercados que são profissionais. Há mercados que ainda estão muito no início.

Portugal já deixou de ser periférico nesta indústria?
Já.

Houve uma altura em que se dizia que os artistas pediam quase o dobro do que pediam em Espanha para virem cá...
Não terá sido bem assim. O que se passa é que há um custo extra para vir a Portugal, que é a distância. A distância que se faz por estrada custa dinheiro, sobretudo se estivermos a falar de 50 camiões. Por exemplo, um artista que esteja em Madrid tem de fazer 600 quilómetros para vir a Lisboa ou ao Porto. Ir e vir são 1200 quilómetros. Isso tem um custo. E no centro da Europa temos cidades que estão a 100 ou 150 quilómetros umas das outras.

Este ano são poucas as grandes digressões que não passam por Portugal. E é a Everything Is New que organiza grande parte desses espetáculos. Como é que uma pequena economia como a portuguesa consegue isto?
Já acontece há muitos anos e consegue-se a construir públicos. Quando comecei isto de forma profissional, pensando neste sector como forma de vida, houve uma coisa muito objetiva que fiz: olhar para isto como um mercado. E Portugal, estando então inserido na Europa dita ocidental, tinha um concerto internacional de dois em dois meses e, depois, chegados ao verão, tínhamos duas empresas — a Tournée e a Ritmos e Blues — a digladiarem-se pela organização de cinco ou seis concertos de estádio. E mais nada. Resumia-se a isto. Tínhamos uns concertos de dois em dois meses, mas depois olhávamos para Madrid, Barcelona, Paris ou Amesterdão e havia lá concertos todos os dias. Era a mesma coisa do que quando decidimos entrar para o euro: as taxas no escudo eram muito mais altas e tinham de convergir para o euro. Aqui eu também sempre achei que iríamos ser iguais aos outros, mesmo tendo em conta o nosso poder de compra e a dimensão do nosso país. E a verdade é que hoje temos concertos todos os dias. Alguém, e não fomos só nós, teve de desbravar o caminho. Porque não era só fazer o espetáculo e as pessoas aparecerem. Foi preciso criar públicos. E hoje isso já existe. Ir a um espetáculo é algo que faz parte da vida das pessoas.

Joao Lima

Cresceu numa família ligada à propriedade do Coliseu dos Recreios, mas, nos estudos, seguiu a área de gestão. Nunca pensou seguir algo ligado à arte?
Na minha família, todos fomos educados para termos outra forma de vida, porque o mundo das artes era muito mais boémio. E os pais desejam sempre que os filhos sejam advogados, médicos, engenheiros. Eu sempre gostei de gestão. Os meus pais tinham a ambição de que eu fosse médico, mas eu não posso ver sangue e fugi daquilo. No 9º ano ainda me inscrevi em Saúde, mas puseram-me a ver uma operação no Hospital de Santa Maria e eu disse logo que aquilo não era para mim. No mesmo ano, tive uma cadeira de Introdução à Economia e foi a minha melhor nota. A partir daí...

Durante quantos anos exerceu funções num banco?
Comecei a trabalhar no antigo BIC. E também trabalhei nos mercados financeiros. De dezembro de 1990 até 1997. Tive a sorte de trabalhar quando havia mercados. Foi das coisas que mais gostei de fazer na vida.

Acumulou durante muito tempo as duas atividades?
Sim, o escritório era ao lado. Saía às 17 horas do banco e ia para o escritório até à meia-noite.

E porque é que não optou logo pela área dos espetáculos?
Muito simples: na época, a taxa de juro era de 18%. Por trabalhar na banca, tinha um privilégio de redução de 50% nos juros. Em vez de 18%, pagava 9%. Era uma grande diferença. Comprei uma casa e tinha um encargo mensal muito grande. Portanto, não pude deixar a banca, porque o que eu ganhava não chegava para pagar a prestação da casa. Mas também gostava de fazer aquilo. Adorava os mercados. E também adorava organizar espetáculos. Quando começámos a organizar festivais, ainda lá estava. Em 1995, 1996, 1997... Mas depois tornou-se insustentável.

Esse conhecimento dos mercados deu-lhe vantagem no mundo da organização de espetáculos?
Claro. Até para a vida. Aquilo que nós vemos que está a acontecer na banca portuguesa é um sinal de que foi gente que nunca passou pelos mercados. Senão, tinham aprendido a parar quando se está a perder. Mas parar na altura certa. Porque o problema é quando as pessoas não sabem parar. É como o jogador de casino que continua porque acha sempre que vai acabar por conseguir ganhar.

Mas os espetáculos são um tipo de produto diferente.
Nesse caso não é parar, mas aceitar perder. Não podemos entrar em parafuso quando estamos a perder. Mas quando se organiza um espetáculo, passada a data do concerto, não pode vender mais bilhetes. Nunca mais se recupera o que se investiu. Nos mercados aprendemos a cortar a posição. Não guardes porque o teu prejuízo pode aumentar. Faz outro negócio.

Estou a lembrar-me daquele concerto dos Depeche Mode no Estádio de Alvalade e imagino que tenha sido um rude golpe para a empresa. Como se recupera disso?
A trabalhar. Pode-se fazer mais ou fazer outras coisas. Temos é de procurar mais receitas. No negócio dos espetáculos, cada um é como se fosse uma empresa sozinha, porque no fim desse espetáculo acabou-se, é como se a empresa se tivesse extinguido. Mas como isto é um conjunto e está tudo dentro do mesmo cesto, o objetivo é que no fim do ano o saldo seja positivo. Mas também se perde.

Mas é um risco calculado?
Se fosse, todas as empresas tinham uma divisão de organização de espetáculos. No mundo inteiro, os promotores de espetáculos são gente especial e particular. São pessoas que têm de gostar do que fazem, não podem ter medo do risco. O medo de arriscar é o pão nosso de cada dia. Por isso é que há muito mais gente a gostar de trabalhar por conta de outrem do que a ser empreendedor. É um risco muito maior. Nos espétaculos, como é capital de risco intensivo, é preciso ter estômago para perder, aguentar e seguir em frente. Não se pode entrar em desespero.

Qual o maior fracasso que lhe serviu de lição?
É muito difícil dizer. Houve alguns espetáculos que tiveram resultados negativos. Um deles foi o de uma artista que provavelmente toda a gente acharia que venderia: Kylie Minogue, que nunca tinha vindo a Portugal. Ou as pessoas estavam de férias, ou não quiseram ver, ou foi o preço do bilhete... Porque às vezes não dependemos só do produto, mas também do meio ambiente, do que está a acontecer no país. Lembro-me por exemplo de uma vez em que perdemos o concerto da Laura Pausini para um concorrente. Até fizeram o concerto no Campo Pequeno, para ter mais público, mas depois marcaram para o dia de um Benfica-Sporting ou Benfica-FC Porto, que era decisivo para o campeonato. O concerto foi um desastre. E no entanto era alguém que supostamente toda a gente queria ver, que tinha vendido 120 mil discos cá.

Uma forma de minimizar o risco de que falávamos é os produtores de espetáculos serem proprietários das salas?
São negócios diferentes.

O Álvaro cresceu numa família que detém o Coliseu dos Recreios.
E os negócios sempre foram separados.

Mas foi um dos concorrentes à compra do Pavilhão Atlântico. Isso não é sinal de que é importante ter a propriedade das salas?
Eu acredito muito nesta atividade e sei o que é ser sala e o que é ser promotor. E não é a mesma coisa. O Pavilhão revelava-se um bom negócio, como parece que está a ser. Acreditava que seria um bom negócio e tinha uma vantagem: eu era o melhor cliente da sala. E portanto sabia perfeitamente as potencialidade que ela tinha. Surgiu a oportunidade e fomos a concurso. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Há alguma sala que lhe interesse atualmente?
Todas as salas me interessam. Depende dos números. No consórcio que fizemos para tentar comprar o Pavilhão Atlântico oferecemos o montante máximo que conseguíamos com os números que tínhamos. Se calhar valia mais, mas para pagarmos mais tínhamos de ter dinheiro para pagar.

Acha que vai ter uma segunda oportunidade para comprar o Pavilhão Atlântico?
Não. Se é um bom negócio, porque o haveriam de vender?

Há dez anos, antes da primeira edição do festival Alive, tinha um projeto para um complexo de salas ali à beira-rio, junto ao Tejo. Esse projeto desapareceu?
Ainda o temos.

E quando é que vai para a frente?
Estamos a analisar. Não sei se será em 2016 ou 2017, mas vai avançar.

Com as características iniciais?
Não. Vai ser um espaço único. Um multiusos adaptável a congressos e feiras, muito virado para esta nova área do turismo de negócios.

Essa é uma área em que está particularmente empenhado. É presidente do Turismo Militar, pertence à direção do Turismo de Lisboa. Também se falou muito, a certa altura, no seu interesse pelo eixo Belém-Ajuda de António Lamas.
No eixo, não. O que se passou foi que, na época, estava a fazer-me confusão o Museu dos Coches não abrir. E contactei o secretário de Estado e a Direção-Geral do Património para, como empresário, propor uma parceria para abrirmos o Museu dos Coches. Aliás, uma das primeiras declarações públicas do professor Lamas foi dizer que ia abrir o Museu dos Coches. E aí estragou tudo. Nem o eixo nem o museu, que abriu como abriu. O Estado, por força da troika e das obrigações do Estado, não tinha dinheiro para abrir o Museu dos Coches, porque isso iria custar 3 milhões de euros. E eu propus-me abrir, porque acreditava, e acredito, no turismo; e que aquilo podia ter 500 mil visitantes logo no primeiro ano. Do que precisava era de marketing, e para marketing é preciso dinheiro. No primeiro ano teve 340 mil visitantes, sem marketing. Portanto, isso bate certo com os números que tínhamos, com marketing chegava aos 500 mil.

Já participou também em duas exposições do Museu Nacional de Arte Antiga. Essa sua vontade de passar para o turismo e de colaborar noutro tipo de conceitos artísticos fora da música...
São coisas diferentes. As exposições têm a ver com aquilo que fazemos, que é a criação de conteúdos culturais. Nós sabemos que o rock’n’roll não vai ser eterno. Tem durado muito tempo, mas não vai ser eterno. Se olharmos para a história do século XX, nos anos 40, os espetáculos mais populares em Lisboa eram o teatro de revista, a ópera e o circo. Hoje em dia não são.

A ideia é não ficar confinado à produção de espetáculos musicais?
Estamos sempre à procura de algo que tenha futuro. Por exemplo, há muito poucas exposições em Portugal e muito pouco público. As pessoas vão pouco aos museus. Está aqui uma oportunidade. Exatamente a mesma que detetei no final dos anos 80 em relação aos espetáculos musicais. Porque as pessoas querem ver. Mas não querem ver o que lhes impingem.

Também há um défice na comunicação desses conteúdos, por comparação com os espetáculos de música pop ou rock.
Não. O que se passa é que, na sua larga maioria, são os privados que organizam o espetáculo do pop e do rock. Daí o sucesso. Quem faz exposições, na sua larga maioria, é o público. Daí o insucesso. Abram a cultura aos privados!

O que espera deste Governo para a área da cultura?
De todos os governos espero abertura à sociedade civil. Acho inacreditável como as joias reais estão há 26 anos guardadas num cofre.

Mas está anunciado a sua exposição.
Em Portugal está sempre tudo anunciado. O Estado em Portugal funciona como se ainda vivêssemos no tempo do rei absoluto. Porque alguém decide que aquilo é deles. Foi o que me disseram depois da exposição da Joana Vasconcelos. Lá fora, todos os países expõem as suas joias reais. Menos nós. E então fui propor essa exposição. Mas responderam-me: “Não, não, isso vamos fazer nós, mas estamos a completar o palácio.” Ora isso vai demorar quantos anos? E até lá estamos a perder 7 milhões de turistas por ano. A taxa de probabilidade de um turista voltar a Lisboa está nos 20%. Portanto, estamos a deitar fora 80% dos que não vão voltar. E isso é um disparate. Baseado nesta arrogância do “não, não, isso vamos nós fazer”. Devíamos era fazer já! Por isso digo que as coisas se devem abrir à sociedade civil, porque o Estado não tem uma visão empresarial. Não sabe vender, não sabe fazer marketing. O futuro passa por aquilo que acho que iniciámos e foi seguido por outras empresas, que é fazer uma verdadeira parceria público-privada, onde o Estado não corre risco nenhum e o privado sim.

Há algum tempo que a Everything Is New não faz um projeto de exposição.
E sabe porquê? Porque começaram a aparecer dificuldades.

Que dificuldades?
Dificuldades técnicas.

Técnicas ou políticas?
Técnicas, no sentido jurídico. Por isso não fizemos mais, se não tínhamos continuado. Alguém entendeu que não era possível.

Joao Lima

E na área da música, há algum grande espetáculo que esteja para anunciar?
Já me conhece há algum tempo e sabe que só anunciamos as coisas quando estão confirmadas. Mas sim, temos vários projetos, em várias áreas. Porque tudo o que sejam conteúdos interessa-nos. Nós temos uma vantagem, que é o turismo. O nosso mercado tem de criar conteúdos fortes para garantir que o turismo continua a crescer a dois dígitos. Se olharmos para os números da Torre de Belém, dos Jerónimos ou do Castelo de São Jorge, vemos que os principais conteúdos de Lisboa já esgotaram. Não têm capacidade para receber mais gente. Portanto, temos de criar alternativas, arranjar outros temas e diversificar. É o mesmo em Paris. Se um tipo for à Torre Eiffel e estiver duas horas na fila, se calhar vai antes ao Louvre ou à Notre Dame. Tem muitos mais conteúdos. E nós também temos de os ter. É de uma grande importância. E é também uma grande oportunidade. Com 7 milhões de turistas em Lisboa por ano é um disparate total não ter mais conteúdos.

Esse interesse fora da música quer dizer que o mercado da música já está muito concorrido e saturado?
Não. Basta ver o nosso calendário deste ano.

Como está o mercado de produção de música ao vivo?
Está a crescer. Basta ver as estatísticas. Aliás, é uma tendência interessante. Em Portugal cometemos um erro muito grande quando veio esta última crise: as empresas retraíram a sua atividade e retraíram sobretudo o seu marketing. Aliás, os jornais sentiram isso na pele, porque houve uma diminuição no investimento em publicidade. Mas isso é um erro, porque crise não significa o fim do mundo. Significa que há mais dificuldades. Em Portugal houve dois sectores que tiveram apostas mais arrojadas: uma foi a do turismo e a outra foi a dos espetáculos e do entretenimento. Porque não tivemos medo, apostámos em marketing e tivemos bons resultados. Se olharmos para os números do nosso sector, todos crescemos. O número de espectadores de concertos aumentou ao longo destes anos. Apesar de o IVA ter subido.

O que é que justifica isso? Num período em que as pessoas perderam poder de compra, o IVA dos bilhetes aumenta, cresceu o desemprego... Tudo indicava que o entretenimento seria uma das áreas a sofrer.
Isso tem a ver com a economia. Está nos livros que todas as empresas que, em momentos de crise, retraem os seus investimentos e a sua publicidade têm quebras a médio e longo prazo. Todas as empresas que enfrentam a crise de frente, na sua maioria, têm sucesso.

O público continuou a achar que era um bom investimento comprar bilhetes para um concerto?
E não só. Porque nós não olhámos só para os portugueses. Fizemos também um trabalho para captar novos públicos e alargar o mercado. Foi isso que me ensinaram na escola. Que íamos entrar na Comunidade Económica Europeia e que aquilo era um mercado único europeu. Se é um mercado único, quando temos um produto, temos de tentar vendê-lo nesse mercado único. E nós também vamos cada vez mais buscar esses públicos lá fora. 12 mil nos AC/DC, 6 mil na Adele, 28 mil à data de hoje no Alive. Quando chegar aos 30 mil vou buscar o meu cheque de 1,5 milhões de euros ao Governo. Não foi o que deram ao Web Summit, que vai trazer 30 mil pessoas a Lisboa? Acho que era um prémio justo [risos].

Qual é o orçamento do vosso investimento em publicidade lá fora?
Ainda investimos algum dinheiro em publicidade. Começámos a apostar em três mercados e deu certo: Reino Unido, Espanha e França. São os três primeiros mercados para nós. Fazemos muita publicidade, apostamos no digital, andamos muito nos circuitos de música...

O número de estrangeiros no Alive deste ano será o mais alto de sempre?
Sim. Salvo erro, no ano passado tivemos 15 mil.

Esse crescimento e notoriedade do Alive lá fora já suscitou alguma oferta para comprar a Everything Is New?
Não. Isso tem a ver com os mercados e as estratégias das empresas em cada mercado. Espero que não aconteça. É tão bom ser independente e estar num grupo português. Não posso dizer desta água não beberei, mas é tão bom ser independente.

Mas algum grande player global da música pode ter interesse numa aquisição desse tipo em Portugal, de uma empresa ou até de uma sala de espetáculos?
Já houve um a tentar comprar o Pavilhão Atlântico.

Acha que isso pode vir a acontecer?
Poder, pode sempre. Estamos num mercado aberto. Mas se me pergunta se acho que alguém vai fazer isso, não sei. Depende das estratégias. Nos últimos anos não tenho visto na Europa grandes estratégias expansionistas, pelo contrário.

Qual foi o orçamento do Alive para este ano?
Ainda não foi...

Mas qual vai ser, então?
Acho que estamos nos 7,5 milhões de euros.

É o maior de sempre?
Nós crescemos. Muitas vezes, o orçamento aumenta por duas formas. Uma é conseguirmos mais patrocinadores, o que nos permite gastar mais. E este ano isso aconteceu.

Outra é aumentar o preço dos bilhetes.
Aumentámos muito pouco. Que continuam, aliás, muito mais baratos no cenário europeu, comparando com preços lá de fora. E isso ajuda a vender noutros países, porque, comparativamente, o preço dos bilhetes compensa os custos da viagem. Mas, sim, o orçamento aumentou. Temos mais parceiros, conseguimos fazer mais coisas, temos mais um palco, mais conteúdos.

Alguma banda falhou este ano?
Claro.

Podemos saber quais?
Não. Nunca se fala dessas coisas. Mas também tivemos sorte. Por exemplo, os Arcade Fire só vêm esta semana à Europa. Foi sorte.

E os Radiohead? Foi pela ligação que criaram com o festival?
Penso que sim. Para eles foi muito importante terem vindo ao Alive em 2012, porque vinham de um momento menos bom, quando tiveram um acidente no Canadá. Sentiram-se bem cá, e isso pode ter ajudado. Talvez por isso este é um dos poucos festivais que vão fazer este verão. Em 2012, eles até andaram pelo meio do recinto e acabámos a ver o concerto dos The Kills no palco Heineken.

Mas consta que não gosta de se aproximar muito dos músicos que traz cá.
Os artistas têm uma vida muito dura e é preciso dar-lhes espaço. Não vai aparecer ninguém no camarim para tirar fotografias com o filho e o presidente da Câmara. Se precisarem de nós, chamam-nos. Mas também acontecem coisas giras. Uma vez vieram dizer-me que o Robert Plant queria falar contigo. E a minha reação foi logo: “O que é que aconteceu?” E ele só me chamou porque estava a tocar o Rui Veloso e queria saber mais sobre ele. Por outro lado, antigamente, falar com o artista significava entrar em despesas. A seguir tinha de pagar o jantar, mais isto, mais aquilo.

Hoje é tudo muito mais profissional?
A indústria, com a quebra da venda de discos, teve de se profissionalizar. Hoje, o dinheiro dos artistas vem de tocar ao vivo. Antes tocavam para promover o disco e agora lançam um disco para poder tocar ao vivo. Por isso é que hoje se percebe logo que aqueles que abusam de drogas ou de álcool não vão a lado nenhum. Não aguentam a estrada. Isto é como um desporto de alta competição.

Qual foi a maior produção que já fez?
A Madonna, no Parque da Bela Vista, até porque continua a ser, até hoje, o espetáculo em Portugal de um artista só com mais bilhetes vendidos. A lotação era de 75 mil.

E a mais lucrativa?
Isso não interessa. Nem se pode fazer isso a um artista, associá-lo a dinheiro. Mas depois há outros fenómenos engraçados. Por exemplo, se considerarmos o espetáculo da Violetta como um concerto de música, foi até hoje o artista que mais espetáculos fez na MEO Arena: seis. Três dias, seis sessões, com casa cheia.

Não pensa fazer um novo festival?
Estamos mais preocupados em projetos e ideias. Não depende de fazer mais um festival ou não. Temos ideias que podem encaixar nessa categoria, mas logo se vê.

O que é que falta para esses projetos avançarem?
Muitas vezes é tempo. Mas o que eu gostava mesmo de fazer era a exposição das joias reais. Acho que fazia um milhão de visitantes num ano. No mínimo. Uma das coisas que me deu um gozo extraordinário foi fazer a exposição da Joana Vasconcelos, no Palácio da Ajuda. Conseguir lá levar as pessoas. É o que eu digo: nós somos um país rico. Temos um palácio como quase ninguém tem na Europa, que está tal e qual como se os reis ainda lá vivessem. E foi muito interessante fazer essa ligação entre património e arte contemporânea. Funcionou muito bem. Teve 335 mil visitantes e é a prova de como o bom conteúdo atrai as pessoas. Por isso digo que não deviam fechar tudo aos privados. Até porque, nas três exposições que fizemos, o Estado recebeu, em IVA e IRC, 600 mil euros diretamente. E criámos emprego, fizemos contratos de trabalho com toda a gente, ninguém esteve a recibos verdes, tudo isto gerou riqueza. Não devia haver mais? É isto que não entendo. Temos a oportunidade de dinamizar a economia, rentabilizar os ativos do Estado e depois há uns empecilhos que aparecem pelo caminho a dizer: “Não é possível.”

Tem alguma expectativa em relação ao novo ministro da Cultura?
Está comprovado que muitas vezes o que os políticos dizem ser é muito diferente do que fazem. Por isso, para mim, as expectativas resultam de as nossas propostas terem ou não sequência, ou das políticas que fazem. Por exemplo, o sistema cultural em Portugal é altamente injusto e tem coisas absurdas, como o Teatro de São João, por exemplo, estar isento de IVA nos bilhetes. Há bilhetes de primeira e de segunda no nosso país. O Estado, quando organiza uma exposição, está isento de IVA, mas se eu organizar tenho bilhetes com 13% de IVA. Liberdade? A censura continuou, mas é uma censura económica.

Este ano tiveram Muse, AC/DC e Adele em maio, depois Iron Maiden, Carlos Santana, Diana Krall, The Cure, Justin Bieber. Como diria o treinador Quinito, fica a sensação de que puseram a carne toda no assador...
Já nos disseram isso. Mas nós padecemos do mesmo problema das salas de cinema. Quando temos produto temos de oferecê-lo. Não somos nós que escolhemos. Se os artistas estão aí... Se pudéssemos escolher, naturalmente que dividiríamos os eventos e o calendário.

Mas este é um ano particularmente forte na atividade da empresa.
Sim. Já aconteceu termos anos muito fortes nos Coliseus. Este ano temos um ano muito forte na MEO Arena. Mas isso tem a ver com o produto que aparece. Quem define a estratégia são os managers dos artistas.

Este vai ser o melhor ano da Everything Is New em faturação?
Não sei. Mas a faturação numa empresa de espetáculos não está diretamente relacionada com nada. Por exemplo, basta num ano termos um concerto de estádio e no ano seguinte não termos nenhum e isso influencia logo as contas. Em 2015, a nossa faturação caiu porque não tivemos estádio nem um evento como o Cirque du Soleil. Ou seja, até podemos aumentar a faturação este ano, mas isso não tem a ver com o crescimento da empresa, tem a ver com o mercado.

Em 2014, que são os últimos dados públicos, faturaram 22 milhões, mais 6% do que no ano anterior.
E em 2015 teremos ficado pelos 19 milhões. Mas, lá está: não diminuímos a atividade, depende é do tipo de espetáculos. Em 2015, não tivemos nenhum concerto de estádio. Basta ver a média do preço dos bilhetes para 40 ou 50 mil pessoas só num evento e a faturação que resulta daí. Não havendo esse evento, há logo uma diferença de volume de vendas.

Mas em 2016 vão crescer?
Basta ver o número de eventos que temos para estimar que a faturação será superior. Mesmo não tendo concertos de estádio.

Quantas pessoas empregam?
Agora somos 22. Temos aumentado os quadros, porque temos aumentado a atividade. Mas nós fazemos tudo em casa. Temos a máquina toda montada aqui.

Quantos empregos gera o festival Alive?
Em média, cinco mil empregos temporários nos três dias do evento.

O número de espectadores nunca vai poder aumentar naquele sítio?
Não. Nós temos um critério que é o de haver sempre um momento, no mínimo, em que toda a gente quer estar a ver o palco principal. E têm de lá caber as 55 mil pessoas. Ainda há espaço para mais, mas depois coloca-se o problema de circulação. Portanto, não queremos subir a dimensão, que nos parece aceitável. Um festival de 80 mil pessoas obrigaria a ter dois palcos grandes.

Como é que descobre música hoje em dia? Ouve rádio, tem Spotify, compra discos?
É quase como os jornalistas: farejar, ter olheiros, amigos que nos passam coisas novas.

Se vier a ocupar um cargo mais institucional no turismo, isso não pode gerar alguma incompatibilidade com a Everything Is New?
Não. Se for no associativismo, não. Só se fosse algum cargo público. E eu, público, não, obrigado!

Texto: Adriano Nobre, Miguel Cadete
Fotos: João Lima

Publicado integralmente na edição de 18 de junho de 2016 da revista E, do Expresso.