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Debaixo da Língua n' O Sol da Caparica: “Nunca me passou pela cabeça escrever noutro idioma”, confessa António Avelar de Pinho

A propósito de mais uma edição do festival O Sol da Caparica, Rui Miguel Abreu volta a puxar pela língua de uma série de artistas que fazem música com as as palavras que todos entendemos. Da Filarmónica Fraude e Banda do Casaco a Rui Veloso ou Heróis do Mar: eis um homem que, de facto, fez história

António Avelar de Pinho é o que muito justamente se pode apelidar como "figura histórica". São dele as letras de um dos mais espantosos casos de criatividade da década de 60 portuguesa, os Filarmómica Fraude, autores de um dos três únicos álbuns rock desse tempo e do único que tinha letras em português. Depois de Epopeia, da Filarmónica Fraude, e da chegada dos anos 70 criou com Nuno Rodrigues os não menos espantosos Banda do Casaco, outro caso singular da nossa história. O arranque dos anos 80 encontrou-o plenamente envolto na revolução rock nacional com passagens pela Valentim de Carvalho e PolyGram que se traduziram em discos de gente como Rui Veloso ou UHF, na primeira, e Heróis do Mar ou Taxi, na outra. Pinho, prolífico autor de letras, livros, produtor de televisão e de tantas outras ideias, continua ativo e interventivo.

"Nunca me passou pela cabeça escrever noutro idioma que não fosse o nosso", começa por admitir. "E não apenas porque o inglês que eu falava e escrevia, sendo escapatório para comunicar oralmente, era manifestamente fraco para satisfazer as ideias que queria transpor para letras de canções. E, principalmente", remata, "sempre me pareceu absurdo, para não dizer ridículo ou pretensioso, escrever noutra língua que não fosse a nossa".

Sem modelos de uma escrita pop em português, coube a Pinho e a umas quantas outras mentes iluminadas inventarem as suas próprias regras. "Nunca tinha pensado nisso, pelo menos dessa forma", concede. "Aliás, só muito recentemente vim a saber que o Epopeia tinha sido o primeiro álbum rock em português da nossa história. Confesso mesmo que nunca imaginámos - o Luís Linhares e eu - que estávamos a criar um disco de rock. Particularmente, nunca fui muito de classificar o tipo de música que fui fazendo em parcerias várias. Pop, folk, rock... As fronteiras que separam os géneros são muito discutíveis. O caso da música para crianças, por exemplo, aí não há género: é música infantil, o que me parece também redutor".