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Rodrigo Amarante

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Rodrigo Amarante esta semana em Portugal: “Vou tocar o Cavalo inteiro e algumas canções novas”

Começa esta terça-feira a digressão do brasileiro por Portugal, que passa por Lisboa, Faro, Leiria, Aveiro e Braga. À BLITZ, o músico diz-nos o que esperar dos concertos e confessa que gostava de visitar a terra dos seus antepassados – Amarante, claro está

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Cavalo, o primeiro disco a solo de Rodrigo Amarante, é um bicho estranho. Gravado em Los Angeles e no Rio de Janeiro em 2012, vem sendo lançado em todo o mundo desde então (no Brasil é um álbum de 2013, ao passo que na Europa, no Japão e na América do Sul tem data de 2014). As digressões à boleia do disco sucedem-se, o que tem atrasado a preparação do seu sucessor. Contudo, na digressão que realiza por cinco cidades portuguesas esta semana, Rodrigo Amarante, que começou por se celebrizar como um dos cantores e compositores dos Los Hermanos, já deverá apresentar algumas canções novas. Saiba mais sobre os planos do músico carioca, atualmente radicado em Los Angeles, nesta entrevista.

Está de regresso a Portugal, para cinco concertos. O que podemos esperar destes espetáculos, que acontecem sensivelmente um ano depois da passagem pelo Super Bock Super Rock?
Vou tocar o Cavalo inteiro. Nestes teatros, vou ter violão e um piano e vou, também, tocar algumas canções novas e outras que já não são tão novas, mas que são desta época, entre o Cavalo e agora, deste disco novo que começo a escrever [por estes dias].

Quando deverá sair o disco novo, sucessor de Cavalo?
Estou a escrevê-lo agora, mas como as coisas têm de ser feitas com muita antecedência, o disco só deve sair no começo do ano que vem.

E terá o mesmo ambiente do Cavalo ou será um disco bem diferente?
Ainda é cedo para dizer. Eu não tenho intenção de repetir. A minha ideia agora é escrever um segundo capítulo para esta história. Vai fazer parte da mesma história, porque ainda sou eu a escrever, mas a minha intenção é que não seja uma repetição do primeiro, de forma nenhuma.

E três anos depois da sua edição original, Cavalo continua a ser descoberto em vários países. Depois de tocar em Portugal, por exemplo, vai ao México…
Pois é, nunca imaginei. Parte do motivo pelo qual ainda estou escrevendo o disco novo é que ainda não parei de viajar com o Cavalo. Acabei de voltar da Turquia e vou fazer outra tournée aqui nos Estados Unidos. Acho isso maravilhoso: o disco parecer um fogo que queima lento.

Como correu a visita à Turquia? Já lá tinha estado?
Não, foi a primeira vez. Adorei Istambul. Fiquei um bom tempo lá, decidi ensaiar com a banda por lá e já recebi convires para voltar. Muito bom, incrível.

Conheço quem tenha ouvido Cavalo e, sem conhecer o seu autor, tenha pensado que era um disco de algum artista misterioso dos anos 60 ou 70, caído no esquecimento. Um Rodriguez brasileiro…
(risos) É porque o disco não tem um som… moderno. Consigo imaginar isso a acontecer.

Foi agora lançado em Portugal uma compilação da Marisa Monte com a sua versão para «Nu Com a Minha Música», com participação do Rodrigo e de Devendra Banhart. Nela, cantam: «vejo uma trilha clara para o meu Brasil, apesar da dor». Uma deixa que ainda é atual?
Eu não vejo uma trilha clara – eu, particularmente –, mas também não sou pessimista. Mantenho uma espécie de cega esperança de que se possa vencer essa nefasta composição política.


Vivendo em Los Angeles, é-lhe complicado acompanhar as incidências da vida política brasileira à distância?
Em parte sim, claro, mas não é difícil porque não sou forçado a estar aqui, estou aqui porque desejo estar aqui agora. Eu decidi não sofrer com a distância. Há um tempo para estar lá, há um tempo para estar aqui… Também não estou casado com este lugar, estou aqui por enquanto, mas acompanho [o que acontece] à distância, através dos amigos, da família. Ler a imprensa é mais para saber o que o inimigo pensa. No Brasil, a coisa é bem estreita. Ainda há imprensa decente, mas grande parte é isso [o inimigo].

Os seus amigos e familiares estão preocupados com o futuro próximo do Brasil?
Claro. O que está a acontecer é muito infeliz, e é uma coisa que parece que está a acontecer no mundo inteiro. Uma onda de fascismo, de ultradireita, de ultra-capitalismo. Há duas coisas que são paralelas no Brasil: uma tentativa de minar a corrupção generalizada e estabelecer uma tábula rasa para se recomeçar, e ao mesmo tempo uma direita absurda, que se vale disso.

Escreveu o tema do genérico da série da Netflix, Narcos. Essa canção, «Tuyo», trouxe-lhe um público novo?
Certamente!

Como foi abordado para esse desafio?
O realizador da série, José Padilha, que eu não conhecia, ouviu o meu disco e chamou-me para escrever a música para a série, antes de ela ser filmada. Eu li os roteiros e fiz a música. Foi um trabalho divertido: [ter que] pensar que canção seria a melhor para apresentar, para ser «a capa» dessa história. Fazia sentido escrever a letra em espanhol, porque a história é contada em espanhol e passa-se na América Latina. Quis escrever uma música que desse a sensação de ser uma música que já existia, e não uma música nova. Que fosse uma música de época, da infância da personagem.

Em Portugal, vai tocar em Lisboa, Faro, Leiria, Aveiro e Braga. Há alguma destas cidades que ainda não conheça?
Já passei por algumas cidades, mas a maioria não tive sequer tempo de ver. Já passei por Leiria e Aveiro, a Faro e Braga nunca fui, e sempre quis ir, por causa das guitarras portuguesas. Sei que há lá uma figura de que me falam há muitos anos, que faz as melhores guitarras portuguesas, e eu sempre quis ter uma, mas nunca tive tempo e nunca pude trazer. Também [quero ir a Braga] porque Amarante é logo ali, e sempre tive curiosidade. O meu avô perturbou-me durante anos para lá ir – «Amarante, de onde vêm os meus antepassados» … mas nunca tive tempo de ir. Talvez desta vez eu consiga. Inclusive fui convidado pelo Presidente da Câmara para jantar. (risos)

Fez dois vídeos com o português André Tentugal, para canções de Cavalo. Como foi essa experiência?
Eu gostei muito de trabalhar com o André. Nunca tinha dirigido filmes ou vídeos, mas sempre fui um amante dessa linguagem, e com este disco tive a oportunidade de dirigir esses filmes; foi um presente que o André, como parceiro nessa empreitada, [me deu]. A minha irmã é uma grande editora [de imagem], então tenho essa sorte de poder trabalhar com ela, mas com o André foi maravilhoso. Gosto muito dos vídeos que fizemos juntos.

Rodrigo Amarante toca no Teatro Tivoli, em Lisboa, a 28 de junho; no Teatro das Figuras, em Faro, a 29; no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, a 30 e, já em julho, no Teatro Aveirense (dia 1) e no Theatro Circo de Braga (dia 2)