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Woodstock, 1969

Como nasceram os festivais de rock: uma história

Os maiores festivais de hoje, como Coachella e Bonnaroo, têm os antepassados mais longínquos no final da década de 60. André Gomes explica como nasceu o festival rock, hoje a maior montra da música ao vivo.

Festivais de rock. Há-os para todos os gostos, hoje em dia. Para todos os gostos e para todos os bolsos. Para todas as idades, opções, fixações, áreas de interesse, estratos sociais, modas. Há-os mais urbanos, mais afastados dos centros urbanos, mais selvagens, mais apontados a um certo género musical ou mais abrangentes. Há-os para quase literalmente todo o tipo de pessoas. Mas não foi sempre assim. Parece que existem desde sempre - e certamente não conhecerão extinção tão cedo - mas a verdade é que há um momento zero para os festivais de rock tal como os conhecemos nos dias que correm.

A história leva-nos até aos anos 60, uma década reconhecida pelas suas revoluções e avanços sociais. Estávamos em 1967 quando perto de 40 mil pessoas se juntaram num parque no topo do Mount Tamalpais, no norte de São Francisco, pagando dois dólares por um alinhamento que incluía nomes como os Doors, os Byrds e Captain Beefheart, entre outros. As condições não eram as melhores: uma vez que não havia eletricidade, os concertos tinham de ser suspensos quando anoitecia, assim que se tornava impossível ver quem ocupava o palco. Até então, a ideia de milhares de pessoas se juntarem para ouvir música era inédita. Assim nascia o Fantasy Fair - ou Magic Mountain Music Festival -, considerado por muitos como o primeiro verdadeiro festival de rock, no início da era hippie.

Mas apesar do sucesso e da adesão ao formato, a chegada dos grandes festivais não foi sempre pacífica: o Monterey Pop Festival, por exemplo, encontrou alguma resistência no conservadorismo e no receio que os habitantes locais tinham da possibilidade de milhares de hippies invadirem a cidade. Mas nem isso evitou que, em 1967, ao longo de três dias, nomes como Simon & Garfunkel, Quicksilver Messenger Service, The Byrds, Laura Nyro, Jefferson Airplane, Otis Redding, Ravi Shankar, The Who, Grateful Dead ou Jimi Hendrix Experience ajudassem a criar um dos festivais mais históricos e influentes até à altura. Foi lá que muitos terão visto pela primeira vez Jimi Hendrix incendiar a sua guitarra ou os The Who e a habitual destruição dos seus instrumentos. Chris Hillman, dos Byrds, chamou-lhe a "perfeita representação do "paz e amor" de meados dos anos 60".

Fundado por Lou Adler (manager de bandas e patrão da Dunhill Records) e John Phillips (Mamas and the Papas), o Monterey Pop Festival andou de boca em boca e serviu de inspiração para a criação de muitos outros festivais nos dois anos seguintes: mais de 100 mil pessoas viram nomes como Dead, Joni Mitchell, Marvin Gaye, Chuck Berry ou Fleetwood Mac no segundo Miami Pop Festival em 1968, e no ano seguinte 130 mil viram e ouviram Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival e muitos outros no Atlanta International Pop Festival.

Jimi Hendrix no Monterey Pop, 1967

Jimi Hendrix no Monterey Pop, 1967

Uma geração em Woodstock

Mas a primeira era dos festivais não tinha atingido ainda o momento da sua maior glória. Isto porque Michael Lang, um promotor de 23 anos que ergueu o primeiro Miami Pop Festival, tinha planos ainda maiores. Mal sabia que estava prestes a construir a marca mais reconhecível e mítica da história dos festivais, o momento que marcou definitivamente a invenção dos eventos do género.

Foi na quinta de Max Yasgur, a poucas horas de distância de Nova Iorque, que Michael Lang e a sua equipa criaram o Woodstock Music & Art Fair, em agosto de 1969. Eram esperadas 200 mil pessoas mas apareceu o dobro. Até à altura, ninguém imaginava que fosse possível erguer um festival daquela envergadura. Foram muitas as bandas que recusaram participar no festival, pensando que se tratava de um palco inferior ou sem importância, desvalorizando a sua relevância. Mas no final daqueles três dias de paz e amor - como era possível ler no cartaz - todos perceberam que tinha acabado de se fazer história.

O alinhamento é conhecido de todos: Tim Hardin, Ravi Shankar, Joan Baez, Santana, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Sly & The Family Stone, Janis Joplin, The Who, Joe Cocker, Crosby, Stills, & Nash (que ali tiveram a sua estreia em festivais), entre outros. Jeff Beck Group, Iron Butterfly, Joni Mitchell, Lighthouse e Ethan Brown cancelaram as suas atuações. Artistas como os Beatles, Led Zeppelin, Bob Dylan, The Byrds, Jethro Tull, The Moody Blues ou os Spirit terão declinado o convite para atuar no festival por motivos tão diferentes como terem outros compromissos ou por simplesmente rejeitarem a ideia de tocar para hippies.

Apesar de vários contratempos (a chuva, a lama, os atrasos dos concertos, os abusos relacionados com as drogas, as detenções ou as tentativas de invasão do recinto), o Woodstock marcou uma era e serviu de modelo enigmático e simbólico para uma geração.

Para surpresa de muitos, e por vários motivos (entre os quais a recusa de Max Yasgur em alugar a quinta de novo), o festival não teve continuação nos anos seguintes (o segundo Woodstock aconteceu em 1994, vinte e cinco anos depois da primeira edição e sem o espírito da versão inaugural) e, de certa forma, nunca se chegou a cumprir a promessa de uma nova era para os festivais de rock.

Muito por culpa dos mais variados episódios de violência e vandalismo que aconteceram em vários festivais nos anos seguintes, o que acabou por gerar uma hostilidade generalizada perante a hipótese do nascimento de alguns novos festivais em algumas cidades norte-americanas. Um desses casos foi o do Altamont Speedway Free Festival, que aconteceu em 1969, e que se tornou célebre pelos piores motivos devido a um assassinato e a vários problemas com a segurança do evento, os célebres Hells Angels. O festival é muitas vezes apontado como um dos grandes culpados da queda dos festivais de rock naquela altura mas não é certamente o único. Muitos dos eventos do género criados após Woodstock ou Altamont Speedway Free Festival morreram também à nascença ou acabaram por sucumbir devido a prejuízos avultados das respetivas organizações.

A febre dos festivais acabou por fazer várias vítimas. Muitos tentaram replicar o modelo do Woodstock mas falharam. O prometido "El Dorado" dos festivais acabou por não chegar, e durante muitos anos, até à "reinvenção" dos festivais no final dos anos noventa, a quimera nunca chegou a cumprir-se. Mais recentemente, festivais como o Coachella, o Bonnaroo ou o Lollapalooza, na América, redefiniram o que é um festival nos dias que correm e voltaram a criar no público a necessidade da experiência rock partilhada entre milhares de pessoas. Um fenómeno que se alastrou a todos os cantos do mundo hoje em dia.

Com um grande impacto sentido na Europa - especialmente na Europa de Leste onde, nos últimos anos, assumiram notoriedade festivais como o Sziget, na Hungria, e o Exit, na Sérvia. Mudaram as condições, mudaram-se as vontades mas há algo que nunca parece mudar: o desejo de comunhão, de fuga, de celebração.

Texto: André Gomes

Originalmente publicado BLITZ Fest nº 2, junho de 2014